sábado, 30 de maio de 2009

EBON HEATH



POESIA VISUAL DE EBON HEATH

Gostei do trabalho desse autor de poemas-móbiles tipográficos que se confessa admirador de Andy Warhol, Basquiat, Calder and Stuart Davis. Parece que ao tentar fundir a linguagem tipográfica à corporeidade de nossa fala, cria, com palavras recortadas e transformadas em corpo material, novos espaços, formas, volumes e movimentos, reunidos em um universo que nos obriga a um novo olhar, capaz de captar a linguagem como uma forma de floração estranha e fascinante.



























videoverso

CONSTANÇA LUCAS

AVELINO ARAÚJO

quarta-feira, 27 de maio de 2009

ANA HATHERLY


ANA HATHERLY (1929)

Poeta, romancista, ensaísta, tradutora e artista plástica, Ana Hatherly nasceu no Porto em 1929, mas mudou-se para Lisboa desde muito cedo, onde ainda vive e trabalha. Licenciada em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, diplomada em estudos cinematográficos na London Film School e doutorada em Literaturas Hispânicas na Universidade de Berkeley, foi professora no Ar.Co em 1975 e 1976, e na Escola Superior de Cinema do Conservatório de Lisboa, de 1976 a 1978.

É professora catedrática de Literatura Portuguesa na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, desde 1984, e presidente do Instituto de Estudos Portugueses, por ela fundado na mesma universidade.

Hatherly inicia a sua carreira literária em 1958 com o livro Um Ritmo Perdido e, um ano depois, faz as suas primeiras pesquisas no campo da poesia concreta. Em 1965, liga-se à poesia experimental e, em 1969, a exposição Anagramas, na Galeria Quadrante, marca o início do seu percurso no domínio das artes plásticas. O título da exposição remete para uma série de outras obras em que o nome da artista surge inserido. Tal será o caso de Tisanas, Anagramático, Anacrusa, Leonorama...

Desde muito cedo, toda a sua obra manifesta o interesse por questões que se desenvolvem na ambiguidade entre a escrita e o domínio mais puramente visual, sendo por vezes muito difícil estabelecer as fronteiras entre estes territórios e definir onde termina a poesia e começa o desenho ou a pintura. Estas questões são sobretudo evidentes quando a artista trabalha em pequenos formatos e com tintas de escrever, algo que é muito frequente em toda a sua produção, desde meados dos anos 60 até aos dias de hoje.

O interesse pela poesia visual portuguesa da época barroca (à qual dedicou uma série de estudos e ensaios), assim como pelas escritas orientais (durante os anos 60 foram muito importantes os seus estudos da escrita chinesa e do Budismo Zen, visível sobretudo nas Tisanas), vai ser fundamental para as suas pesquisas, tanto no campo da poesia experimental e concreta, como no das artes plásticas.

Na sua obra visual, a artista realiza constantes abordagens e reflexões em torno da escrita e do acto de escrever, e explora as potencialidades gráficas da sua própria caligrafia, trabalhada mais como desenho do que como portadora de mensagens e conteúdos, de modo a “colher o inesperado dentro do conhecido”, e aproximando-se dos signos verbais orientais.

Na sua poesia, articula igualmente visualidade e conteúdos, ligando o texto à sua aparência final na página. Partindo desta profunda articulação entre mensagem e imagem desenvolve séries de Caligramas, que revelam influências de todas estas preocupações. Isso é visível tanto nas obras mais antigas como nas mais recentes: A Imagem da Mulher Invadida pelo Tempo (Homenagem a Henry Moore) (tinta-da-china s/ papel, 1998, col. do CAMJAP). Numa pequena folha vemos como a frase que dá o nome à obra desenha os contornos de uma figura feminina (cujas formas lembram as do escultor britânico). As mesmas palavras repetem-se inúmeras vezes em linhas ondeantes que definem formas e volumes e em que o conteúdo significativo se perde quase totalmente.

O período do pós-25 de Abril revela-se muito criativo para a artista, que se desdobra em intervenções. Participa na Alternativa Zero, organizada em 1977 por Ernesto de Sousa, com uma instalação intitulada Poema d’Entro. Esta obra tinha sido pensada originalmente para ser uma pequena câmara de paredes pretas, totalmente forrada a cartazes brancos e onde incidia uma luz intermitente. Contudo, recebeu a participação inesperada do público, que rasgava constantemente os papéis brancos, numa atitude de libertação violenta, que expressava a euforia da Revolução. Os cartazes tiveram de ser refeitos inúmeras vezes pela artista.

Na sequência da Alternativa Zero, Hatherly realiza, um mês depois, na Galeria Quadrum, a instalação/performance Rotura. No espaço da galeria dispuseram-se em labirinto treze grandes painéis de papel de cenário (1,20 m x 2,20 m cada). A intervenção da artista consistiu em rasgar as enormes folhas, enquanto era fotografada e filmada por duas equipas de cinema. O gesto destruidor da Alternativa Zero era aqui repetido, num formato diferente e com uma violência já plenamente intencional.

No mesmo ano, a artista produziu uma série de nove painéis de Descolagens da Cidade, hoje pertencentes ao CAMJAP. Na senda do trabalho com papéis rasgados, Hatherly saiu para a rua e dilacerou grandes pedaços de cartazes que se encontravam afixados por Lisboa. Reuniu-os depois em painéis, colocando lado a lado imagens de propaganda política com anúncios de circo e publicidades diversas.

Num deles, observa-se a imagem icónica de Che Guevara ao lado do excerto de um anúncio do Congresso da Juventude Comunista de 1977, tornado hoje num documento histórico raro. Mais abaixo, um leão e um acrobata remetem para a cartazística circense, e inúmeras frases rasgadas lembram as suas pesquisas e jogos com letras. Lembrando o trabalho de alguns artistas filiados directamente no Nouveau Réalisme, como Mimmo Rotella, a obra de Hatherly situa-se, no entanto, no ambiente vivido nos anos seguintes à Revolução e celebra de modo agressivo e eufórico este acontecimento.

As mesmas pesquisas são tratadas no vídeo Revolução (com o qual participou na Bienal de Veneza de 1976), em que a artista filma, com uma câmara de 8 mm, os graffitis e os cartazes políticos que enchiam a cidade de Lisboa.

As suas obras mais recentes continuam a articulação entre escrita, pensamento, gesto e produção de imagens. O CAMJAP mostrou algum desse trabalho recente numa exposição individual no ano 2000.

Esta mesma convocação de texto e imagem é visível nos graffitis que realiza em 2002 e em 2003, que criam imagens esfumadas e saturadas de cores fortes e que mantêm a mesma matriz experimentalista comum a todas as pesquisas, tanto na literatura como nas artes plásticas, fundidas e tornadas uma só através do seu gesto criativo.

Texto de ANA FILIPA RAMOS In: http://www.camjap.gulbenkian.pt.

POEMAS


























O círculo é a forma eleita
É ovo, é zero.
É ciclo, é ciência.
Nele se inclui todo o mistério
E toda a sapiência.
É o que está feito,
Perfeito e determinado,
É o que principia
No que está acabado.
A viagem que o meu ser empreende
Começa em mim,
E fora de mim,
Ainda a mim se prende.
A senda mais perigosa.
Em nós se consumando,
Passando a existência
Mil círculos concêntricos
Desenhando.



O POETA É UM GUARDADOR

o poeta é um guardador

guarda a diferença
guarda da indiferença

no incerto
guarda a certeza da voz

SABER

saber
é saber saber-te
sabermo-nos unir

unirmo-nos
é conhecermo-nos
sabermos ser

por fim sermos
é sabermos
sabermo-nos

conhecermos
a surda áspide

























A FELICIDADE É UM TÚNEL

o domínio
é erotismo do domínio
do domínio irrisório
mas enorme

submeter
ver tremer
ver o tremor do outro

vencer
o gelo
o desdém
veloz

a felicidade é um túnel 




























A INVENÇÃO DA RESPOSTA

a invenção da resposta

outrora
em riste
o passo mítico espantoso condensava
da santidade
o insurrecto pudor
o gelo do rubor
a pressa cerrada

agora
em triste
vacuidade
o desafio que expande
&nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp cede
&nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp degola
o desgarrado nexo do rasgo



UM CALCULADOR DE IMPROBABILIDADES


O poeta é
um calculador de improbabilidades limita
a informação quantitativa fornecendo
reforçada informação estésica.
É uma máquina eta-erótica em que as discrepâncias
são a fulgurância da máquina.
A crueldade elegante da máquina resulta da
competição pirotécnica da circulação íntima
e fulgurante do seu maquinismo erótico.
A psicologia do maquinal sabe que basta
que se crie um pólo positivo para que o pólo
negativo surja
ou vice-versa
e as evoluções telecinéticas pela força
das catástrofes desenvolvem suas faculdades
latentes ou absorvem-nas como a esponja absorve
as águas variáveis dos humores
que transforma em polaridade.
O maquinal eta-erótico está em astrogação
curso hipnótico dos polímeros.
Digo com precisão fenomenológica: o maquinal
circula em sua hiperesfera da maneira mais
excêntrica.
Digo e garanto:
o maquinal absolutamente absorve suas águas
variáveis e isso é o seu amplexo.
O maquinal eta-erótico é tu-eu.
O maquinal tu-eu
cuja tarefa árdua não é
definir a verdade está no meio da profusão
dos objectos
e considera o consumo a verdade deslocada
deslocação de grande tonelagem
laboriosa alfaiataria de eros
constante moribunda
e esse opróbrio dispersivo e vexável
indifere a vida esponjosa.
A história agrega a dificuldade essencial
das variáveis e o ensejo das coisas
prática difícil
está para o maquinal como uma indústria apócrifa


















OBSTINADAMENTE


Obstinadamente
os anjos
enchem nosso anseio veemente

Sereias do ar
são quimeras da mente

Activo sonho
de nós independentes
da nossa invenção
são reféns ardentes
e da ambição
que a todos seduz
desafio extremo
vertigem de luz

Sobre os despojos das almas escassas
pairam
com suas bocas lassas

terça-feira, 26 de maio de 2009

OCTAVIO PAZ


Octavio Paz, ensaísta e poeta mexicano, nasceu na capital de seu país em 1914. Passou sua infância nos Estados Unidos, acompanhando sua família, e sua vida adulta entre a França e a Índia, por fazer parte do quadro de diplomatas mexicanos. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.

Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocquerville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.

Algumas obras do autor: "Luna silvestre" (1933), "Entre lapiedra y la flor" (1940), "el laberinto de la soledad" (1959), "La estación violenta" (1958), "El arco y la lira" (1956), "Topoemas" (1971), e "Hijos del aire" (1979).

Para Octavio Paz a poesia é a forma natural de convivência entre os homens. Sua crítica é um diálogo aberto com o mundo, sendo seu desejo "a busca de identidade da natureza humana na multiplicidade de signos". Segundo o poeta Sebastião Uchoa Leite, "a crítica de Octavio Paz é de ordem antropológica e poética. Paz é poeta e crítico das civilizações, acreditando, ao contrário de que as civilizações são mortais, na frase de Valéry, que mesmo as aparentemente mortas estão vivas: os seus signos circulam nessa ars combinatoria do universo histórico. Como tudo é linguagem, tudo significa".


Mira Schendel

















POEMAS



ESCRITURA

Yo dibujo estas letras
como el día dibuja sus imágenes
y sopla sobre ellas y no vuelve











LAS PALABRAS

Dales la vuelta,
cógelas del rabo (chillen, putas),
azótalas,
dales azúcar en la boca a las rejegas,
ínflalas, globos, pínchalas,
sórbeles sangre y tuétanos,
sécalas,
cápalas,
písalas, gallo galante,
tuérceles el gaznate, cocinero,
desplúmalas,
destrípalas, toro,
buey, arrástralas,
hazlas, poeta,
haz que se traguen todas sus palabras










Paul Klee


VISITAS

A través de la noche urbana de piedra y sequía
entra el campo a mi cuarto.
Alarga brazos verdes con pulseras de pájaros,
con pulseras de hojas.
Lleva un río de la mano.
El cielo del campo también entra,
con su cesta de joyas acabadas de cortar.
Y el mar se sienta junto a mí,
extendiendo su cola blanquísima en el suelo.
Del silencio brota un árbol de música.
Del árbol cuelgan todas las palabras hermosas
que brillan, maduran, caen.
En mi frente, cueva que habita un relámpago...
Pero todo se ha poblado de alas.








Paul Klee


AGUA NOCTURNA

La noche de ojos de caballo que tiemblan en la noche,
la noche de ojos de agua en el campo dormido,
está en tus ojos de caballo que tiembla,
está en tus ojos de agua secreta.

Ojos de agua de sombra,
ojos de agua de pozo,
ojos de agua de sueño.

El silencio y la soledad,
como dos pequeños animales a quienes guía la luna,
beben en esos ojos,
beben en esas aguas.

Si abres los ojos,
se abre la noche de puertas de musgo,
se abre el reino secreto del agua
que mana del centro de la noche.

Y si los cierras,
un río, una corriente dulce y silenciosa,
te inunda por dentro, avanza, te hace oscura:
la noche moja riberas en tu alma.











Paul Klee


PREGUNTA

Déjame, sí, déjame, dios o ángel, demonio.
Déjame a solas, turba angélica,
solo conmigo, con mi multitud.
Estoy con uno como yo,
que no me reconoce y me muestra mis armas;
con uno que me abraza y me hiere
—y se dice mi hijo—;
con uno que huye con mi cuerpo;
con uno que me odia porque yo soy él mismo.

Mira, tú que huyes,
aborrecible hermano mío,
tú que enciendes las hogueras terrestres,
tú, el de las islas y el de las llamaradas,
mírate y dime:
ese que corre,
ese que alza lenguas y antorchas
para llamar al cielo y lo incendia;
ese que es una estrella lenta que desciende;
aquel que es como un arma resonante,
¿es el tuyo, tu ser, hecho de horas
y voraces minutos?

¿Quién sabe lo que es un cuerpo,
un alma,
y el sitio en que se juntan
y cómo el cuerpo se ilumina
y el alma se obscurece,
hasta fundirse, carne y alma,
en una sola y viva sombra?
¿Y somos esa imagen que soñamos,
sueños al tiempo hurtados,
sueños del tiempo por burlar al tiempo?

En soledad pregunto,
a soledad pregunto.
Y rasgo mi boca amante de palabras
y me arranco los ojos
henchidos de mentiras y apariencias,
y arrojo lo que el tiempo
deposita en mi alma,
miserias deslumbrantes,
ola que se retira…

Bajo del cielo puro,
metal de tranquilos, absortos resplandores,
pregunto, ya desnudo:
me voy borrando todo,
me voy haciendo un vago signo sobre el agua,
espejo en un espejo.










Roberto Magalhães


NOCTURNO

Nada me desengaña
el mundo me ha hechizado


Quevedo


Sombra, trémula sombra de las voces.
Arrastra el río negro mármoles ahogados.
¿Cómo decir del aire asesinado,
de los vocablos huérfanos,
cómo decir del sueño?

Sombra, trémula sombra de las voces.
Negra escala de lirios llameantes.
¿Cómo decir los nombres, las estrellas,
los albos pájaros de los pianos nocturnos
y el obelisco del silencio?

Sombra, trémula sombra de las voces.
Estatuas derribadas en la luna.
¿Cómo decir, camelia,
la menos flor entre las flores,
cómo decir tus blancas geometrías?

¿Cómo decir, oh Sueño, tu silencio en voces?











Paul Klee


A POESÍA

A Luis Cernuda

¿Por qué tocas mi pecho nuevamente?
Llegas, silenciosa, secreta, armada,
tal los guerreros a una ciudad dormida;
quemas mi lengua con tus labios, pulpo,
y despiertas los furores, los goces,
y esta angustia sin fin
que enciende lo que toca
y engendra en cada cosa
una avidez sombría.

El mundo cede y se desploma
como metal al fuego.
Entre mis ruinas me levanto,
solo, desnudo, despojado,
sobre la roca inmensa del silencio,
como un solitario combatiente
contra invisibles huestes.

Verdad abrasadora,
¿a qué me empujas?
No quiero tu verdad,
tu insensata pregunta.
¿A qué esta lucha estéril?
No es el hombre criatura capaz de contenerte,
avidez que sólo en la sed se sacia,
llama que todos los labios consume,
espíritu que no vive en ninguna forma
mas hace arder todas las formas
con un secreto fuego indestructible.

Pero insistes, lágrima escarnecida,
y alzas en mí tu imperio desolado.

Subes desde lo más hondo de mí,
desde el centro innombrable de mi ser,
ejército, marea.
Creces, tu sed me ahoga,
expulsando, tiránica,
aquello que no cede
a tu espada frenética.
Ya sólo tú me habitas,
tú, sin nombre, furiosa sustancia,
avidez subterránea, delirante.

Golpean mi pecho tus fantasmas,
despiertas a mi tacto,
hielas mi frente
y haces proféticos mis ojos.

Percibo el mundo y te toco,
sustancia intocable,
unidad de mi alma y de mi cuerpo,
y contemplo el combate que combato
y mis bodas de tierra.

Nublan mis ojos imágenes opuestas,
y a las mismas imágenes
otras, más profundas, las niegan,
ardiente balbuceo,
aguas que anega un agua más oculta y densa.
En su húmeda tiniebla vida y muerte,
quietud y movimiento, son lo mismo.

Insiste, vencedora,
porque tan sólo existo porque existes,
y mi boca y mi lengua se formaron
para decir tan sólo tu existencia
y tus secretas sílabas, palabra
impalpable y despótica,
sustancia de mi alma.

Eres tan sólo un sueño,
pero en ti sueña el mundo
y su mudez habla con tus palabras.
Rozo al tocar tu pecho
la eléctrica frontera de la vida,
la tiniebla de sangre
donde pacta la boca cruel y enamorada,
ávida aún de destruir lo que ama
y revivir lo que destruye,
con el mundo, impasible
y siempre idéntico a sí mismo,
porque no se detiene en ninguna forma
ni se demora sobre lo que engendra.

Llévame, solitaria,
llévame entre los sueños,
llévame, madre mía,
despiértame del todo,
hazme soñar tu sueño,
unta mis ojos con aceite,
para que al conocerte me conozca.











Paul Klee


LA PALABRA DICHA

LA PALABRA SE LEVANTA
DE LA PÁGINA ESCRITA.
LA PALABRA,
LABRADA ESTALACTITA,
GRABADA COLUMNA,
UNA A UNA LETRA A LETRA.
EL ECO SE CONGELA
EN LA PÁGINA PÉTREA.

ÁNIMA,
BLANCA COMO LA PÁGINA,
SE LEVANTA LA PALABRA.
ANDA
SOBRE UN HILO TENDIDO
DEL SILENCIO AL GRITO,
SOBRE EL FILO
DEL DECIR ESTRICTO.
EL OÍDO: NIDO
O LABERINTO DEL SONIDO.

LO QUE DICE NO DICE
LO QUE DICE: ¿CÓMO SE DICE
LO QUE NO DICE?
&nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp &nbsp DI
TAL VEZ ES BESTIAL LA VESTAL.

UN GRITO
EN UN CRÁTER EXTINTO:
EN OTRA GALAXIA
¿CÓMO SE DICE ATARAXIA?
LO QUE SE DICE SE DICE
AL DERECHO Y AL REVÉS.
LAMENTA LA MENTE
DE MENTA DEMENTE:
CEMENTERIO ES SEMENTERO,
SIMIENTE NO MIENTE.

LABERINTO DEL OÍDO,
LO QUE DICES SE DESDICE
DEL SILENCIO AL GRITO
DESOÍDO.

INOCENCIA Y NO CIENCIA:
PARA HABLAR APRENDE A CALLAR.

sábado, 23 de maio de 2009

ARNALDO ANTUNES



Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960) é um músico, poeta e artista visual brasileiro, mais conhecido por sua participação como integrante do grupo de rock Titãs. Em suas principais áreas de atuação artística, a música, a poesia e a arte visual, demonstra a influência de sub-gêneros modernistas ou pós-modernistas.

Em 1978 ingressou em Letras da FFLCH-USP, onde seguiria o curso de Lingüística, não fosse o sucesso dos Titãs lhe tomar todo o tempo entre shows, gravações, ensaios, turnês e entrevistas. No dia 13 de novembro de 1985, foi preso, juntamente com o colega de Titãs Tony Bellotto, por porte de heroína. Arnaldo passou 26 dias preso e foi condenado por tráfico de drogas. Desligou-se da banda em 1992, depois de dez anos de grupo, por conta de suas direções artísticas. Apesar de sua saída, Arnaldo continuou compondo com os demais integrantes do grupo e várias dessas parcerias foram incluídas em discos dos Titãs, assim como em seus discos solo.

No ano de 2002, formou em parceria com os amigos Marisa Monte e Carlinhos Brown o trio Tribalistas, pelo qual lançaram o álbum homônimo. Também atuou como ensaísta na Folha de São Paulo, onde deixou evidente o substrato teórico que transparece no seu trabalho estético. Lançou no final do ano de 2007 o primeiro DVD de sua carreira, o Ao Vivo no Estúdio, que passeia por toda sua carreira e que conta com as participações especiais do ex-titã Nando Reis, do titã Branco Mello, do Ira! Edgard Scandurra e dos tribalistas Marisa Monte e Carlinhos Brown.

Fonte: WIKIPÉDIA

A página do autor na internet é - www.arnaldoantunes.com.br/






















Poemas publicados em ET Eu Tu, Arnaldo Antunes e Marcia Xavier, São Paulo: Cosac & Naify, 2003



ISSO (para Tunga)

Jornal da Tarde, 5/11/94


a queda dos dentes de leite,
o oco do sino,
a sinédoque,
o sem nome do que é
(o buraco),
o botoque na boca,
a dor
(o adorno),
o buraco do lábio onde o botoque cabe,
a boca do sino
(mais espaço entre a perna e o tecido),
o que faz fazer sentido,
o osso,
o espaço entre o pé e o passo
(quanto mais perto do olho menos se vê),
as pedras do chocalho,
o chacoalho dos transportes terrestres sobre as pedras,
o coalhar do leite,
a queda dos dentes,
o desmame
(o desmesmo),
a amnésia cotidiana,
o oco da caixa craniana,
o ovo do sino
(o badalo),
a sombra do símbolo,
a lembrança da silhueta do semblante,
o silêncio dos pêndulos,
o silêncio de todas as coisas que dependem de tempo,
a transparência das pálpebras,
a letra agá,
o desagá,
o lapso entre a gagueira e o eco,
a bomba agá,
a desagregação das células,
o nunca entre uma verdade e a verdade,
o nunca entre as idades,
o aqui do corpo
(o agá da hora),
o oco do coco,
a engrenagem de uma só peça,
a cópula de um só corpo,
o oco da cabaça
(a água),
o aquilo,
o cabaço da cabeça,
o cérebro do sexo,
o excesso do zero,
o si do sino,
el no,
no translation
(a mensagem de si para si),
a circuncisão,
o siso,
o apêndice
(o que se diz sobre o que se disse),
a repetição,
o pênis,
a repartição dos genes,
a extração do minério,
o funeral do membro amputado,
o apartar depois do amolecimento,
a contração do parto,
o contra-contrário,
a anti-antítese,
o duelo dos elos,
o des-destino
(o oco da sina),
o embalo que nina,
o soco do sono,
a queda dos ossos no leito,
o nunca entre o cansaço e a preguiça,
o menos do badalo maciço no pouco do sino,
o nunca entre os sinônimos,
os nomes do anônimo,
o furo,
o cu do escuro,
a cova do vivo,
o cu do vácuo,
o cadáver futuro
(a fartura),
o olho da agulha,
o espaço entre o olho e a coisa
(o tempo preenchido),
o corpo prenhe,
o ubre cheio,
o desmaio do meio,
o black out do leite no seio,
o cadáver prematuro
(a fratura),
o agora fora de seu agouro,
o oco de fora
(o eco do sino),
o si fora de si,
o ultra-som do raio x,
a casca (da casca),
a hóstia,
a ostra
(a crosta da pérola),
a última pétala da primavera,
a boca banguela,
o casco da caravela,
a outra margem do mar,
(a marca) da marca,
o oco do signo,
a queda do dente de luto,
o novo continente,
o velho conteúdo.



Poema retirado de 40 escritos - São Paulo: Iluminuras, 2000.

ONDJAKI

Ondjaki, nasceu em Luanda, em 1977.

Interessa-se pela interpretação teatral e pela pintura (duas exposições individuais, em Angola e no Brasil). Já em Lisboa, fez teatro amador durante dois anos e um curso profissional de interpretação teatral. No ano 2000 recebeu uma menção honrosa no prémio António Jacinto (Angola) pelo livro de poesia actu sanguíneu. Participou em antologias internacionais (Brasil e Uruguai) e também numa antologia portuguesa.

É membro da União dos Escritores Angolanos. É licenciado em Sociologia.

BIBLIOGRAFIA

Materiais para Confecção de um Espanador de Tristezas, 2009, Editorial Caminho
Os da Minha Rua, 2009, Leya
O Leão e o Coelho Saltitão, 2008, Editorial Caminho
Avódezanove e o segredo do Soviético, 2008, Editorial Caminho
Os da Minha Rua, 2007, Editorial Caminho
E se Amanhã o Medo, 2005, Editorial Caminho
Momentos de Aqui, 2004, Editorial Caminho











ADEUS


no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma.
ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma:
tudo ardilhado de simplicidade.
ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências.
aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser
emprestada.
o mundo, mesmo partilhado,
é muito a pele de cada qual.


na falta de dedos
a lesma fez adeus com o corpo.
e veio a chuva.


reaprendemos assim o lugar das nossas almas.








AMARELAS SÃO AS TARDES

são amarelas as tardes quentes de ti

teu corpo em espera ligeira nem pluma nem ave cântico de adormecimento oblíqua nuvem num céu de breve quentura e o sal também vem até onde a lava te celebrar e o amarelo da tarde restar tom de manteiga com açúcar derretido na pele no chão da minha boca espasmo delicioso amor intranquilo beijo sem lábios na ternura de palavras faladas amarelas são as tardes em que o meu corpo maduro te descobre transparente maracujá quente

quente de mim










ESTES DIAS

queimam-me
os dias
dos outros.
rego-me, reinvento o
mundo.
falho.
na minha janela
de ferrugem tórrida
os passarinhos
ainda
fazem amor.










CONSTRUÇÃO

construção da casa [e do interior da casa]
construção de uma fogueira [e do fogo, e da chama, e das cinzas]
construção de uma pessoa [do embrião aos livros]
construção do amor
construção da sensibilidade [desde os poros até à música]
construção de uma ideia [passando pelo que o outro disse]
construção do poema [e do sentir do poema]

[há qualquer coisa de «des» na palavra construção]

desconstrução do preconceito
desconstrução da miséria
desconstrução do medo
desconstrução da rigidez
desconstrução do inchaço do ego
desconstrução simples [como exercício]
desconstrução do poema [para um renascer dele]

construção é uma palavra
que causa suor
ao ser pronunciada.

penso que esse seja um suor bonito.

ANTÔNIO CARLOS SECCHIN








Antônio Carlos Secchin nasceu no Rio de Janeiro, em 1952. É professor de Literatura Brasileira da Faculdade de Letras da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras. Estudioso de João Cabral de Melo Neto, tem um livro fundamental sobre o poeta pernambucano: João Cabral: a poesia do menos.

Obra poética:

A ilha. Edição particular, 1971.
Ária de estação. Livraria São José, 1973.
Elementos. Editora Civilização Brasileira, 1983.
Diga-se de passagem. Edições Ladrões de Fogo, 1988.
Todos os ventos. Editora Nova Fronteira, 2002.
Poema para 2002 (livro-objeto). Cacto Arte e Ciência, 2002.


"O MENINO SE ADMIRA..."

O menino se admira no retrato
e vê-se velho ao ver-se novo na moldura:
é que o tempo, com seu fio mais delgado,
no rosto em branco já bordou sua nervura.

E por mais que aquele outro não perdure,
quase sombra no relâmpago desse ato,
ele há de ver-se mais antigo no futuro,
vendo ver-se no menino do retrato.

É que o tempo, de tocaia em cada corpo,
abastece a manhã com voz serena,
que pouco a pouco se transmuda em voz de corvo,

na gula aguda de ficar sozinho em cena.
A moldura vazia denuncia o intervalo:
sobra o tempo, e nada ou ninguém para habitá-lo.


(p. 15)



















ARTES DE AMAR

paixão e alpinismo
sensação simultânea
de céu e abismo

paixão e astronomia
mais do que contar estrelas
vê-las
à luz do dia

amor antigo e matemática
equação rigorosa:
um centímetro de poesia
dez quilômetros de prosa


(p. 25)


LINGUAGENS

Percebi que o vôo negro dessa hipálage
beijava o mel dos lábios da metáfora,
e mais beijara, se não fora a enálage,
e mais revoara, se não fosse a anáfora.

Chorei mil mares profundos de hipérbole,
duas velas cortaram a metonímia,
enquanto o pé da catacrese andava
no compasso bem toante dessa rima.

Verteu prantos a anímica floresta,
mas nós entramos dentro do pleonasmo,
'stamos em pleno oceano de uma aférese...

Vai-se o expletivo, mais um e outro mais...
Os poetas, nós somos muito silépticos;
mas os poemas, elípticos demais.


(p. 50)

Os poemas acima pertencem ao livro 50 poemas escolhidos pelo autor, publicado pelas Edições Galo Branco, Rio de Janeiro, em 2006.

sexta-feira, 22 de maio de 2009

ANA MARIA URIBE

CENTAUROS EN MANADA


ANA MARIA URIBE



MÁRIO CESARINY











MÁRIO CESARINY DE VASCONCELOS nasceu no dia 9 de Agosto de 1923 em Lisboa. Freqüentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e estudou música com o compositor Fernando Lopes Graça.

Considerado o mais importante representante poeta português da escola Surrealista, encontra-se em 1947 com André Breton, fato determinante no desenvolvimento de seu trabalho literário. Ainda nesse ano participa, junto com Alexandre O'neill, Antônio Pedro etc., do Grupo Surrealista de Lisboa. Algum tempo depois, por não concordar com a linha ideológica do grupo, afasta-se de maneira polêmica e funda o "Grupo Surrealista Dissidente".

Principal representante do Surrealismo português, Mário Cesariny, no início de sua produção literária, mostra-se influenciado por Cesário Verde e pelo Futurismo de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa. Ao integrar-se ao Grupo Surrealista, muda o seu estilo, trazendo para sua obra o "absurdo", o "insólito" e o "o inverossímil".

Além de poeta, romancista, ensaísta e dramaturgo, também dedicou-se a às artes plásticas, sobretudo à pintura.

Faleceu em 2006.

Obras mais importantes:
Corpo Visível - 1950;
Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano - 1952;
Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos -1953;
Manual de Prestidigitação -1956;
Pena Capital-1957;
Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor -1958;
Nobilíssima Visão -1959;
Poesia -1961;
Planisfério e Outros Poemas -1961;
Um Auto para Jerusalém -1964;
Titânia e A Cidade Queimada -1965;
Burlescas, Teóricas e Sentimentais -1972;
Primavera Autônoma das Estradas -1980;
Titânia -1994.




















Rubens Gerchman


POEMAS


VOZ NUMA PEDRA

Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento

Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol coisa nenhuma
nada está escrito afinal























César Arias, pintor cubano


UMA CERTA QUANTIDADE

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro




HOMENAGEM A CESÁRIO VERDE

Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas

Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!


























Claudia Olivos, pintora chilena


EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco


POEMA

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas do próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca



ESTAÇÃO

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça





YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

quarta-feira, 20 de maio de 2009

JOSÉ CRAVEIRINHA














José João Craveirinha (Lourenço Marques, 28 de Maio de 1922 – Maputo, 6 de Fevereiro de 2003) é considerado o poeta maior de Moçambique. Em 1991, tornou-se o primeiro autor africano galardoado com o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa.

Como jornalista, colaborou nos periódicos moçambicanos O Brado Africano, Notícias, Tribuna, Notícias da Tarde, Voz de Moçambique, Notícias da Beira, Diário de Moçambique e Voz Africana.

Utilizou os seguintes pseudónimos: Mário Vieira, J.C., J. Cravo, José Cravo, Jesuíno Cravo e Abílio Cossa. Foi presidente da Associação Africana na década de 1950.
Esteve preso entre 1965 e 1969 por fazer parte de uma célula da 4.ª Região Político-Militar da Frelimo.

Primeiro Presidente da Mesa da Assembleia Geral da Associação dos Escritores Moçambicanos, entre 1982 e 1987.










AUTOBIOGRAFIA, 1977

«Nasci a primeira vez em 28 de Maio de 1922. Isto num domingo. Chamaram-me Sontinho, diminutivo de Sonto[1]. Isto por parte da minha mãe, claro. Por parte do meu pai, fiquei José. Aonde? Na Av. Do Zihlahla, entre o Alto Maé e como quem vai para o Xipamanine. Bairros de quem? Bairros de pobres.

Nasci a segunda vez quando me fizeram descobrir que era mulato...

A seguir, fui nascendo à medida das circunstâncias impostas pelos outros.

Quando o meu pai foi de vez, tive outro pai: seu irmão.

E a partir de cada nascimento, eu tinha a felicidade de ver um problema a menos e um dilema a mais. Por isso, muito cedo, a terrra natal em termos de Pátria e de opção. Quando a minha mãe foi de vez, outra mãe: Moçambique.

A opção por causa do meu pai branco e da minha mãe preta.

Nasci ainda outra vez no jornal O Brado Africano. No mesmo em que também nasceram Rui de Noronha e Noémia de Sousa.

Muito desporto marcou-me o corpo e o espírito. Esforço, competição, vitória e derrota, sacrifício até à exaustão. Temperado por tudo isso.

Talvez por causa do meu pai, mais agnóstico do que ateu. Talvez por causa do meu pai, encontrando no Amor a sublimação de tudo. Mesmo da Pátria. Ou antes: principalmente da Pátria. Por parte de minha mãe, só resignação.

Uma luta incessante comigo próprio. Autodidacta.

Minha grande aventura: ser pai. Depois, eu casado. Mas casado quando quis. E como quis.

Escrever poemas, o meu refúgio, o meu País também. Uma necessidade angustiosa e urgente de ser cidadão desse País, muitas vezes, altas horas a noite.»










OBRAS

Xigubo. Lisboa, Casa dos Estudantes do Império, 1964. 2.ª ed. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980
Cantico a un dio di Catrame (bilingue português/italiano). Milão, Lerici, 1966 (trad. e prefácio Joyce Lussu)
Karingana ua karingana. Lourenço Marques, Académica, 1974. 2.ª ed., Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1982
Cela 1. Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1980
Maria. Lisboa, África Literatura Arte e Cultura, 1988
Izbranoe. Moscovo, Molodoya Gvardiya, 1984 (em língua russa)












QUERO SER TAMBOR

Tambor está velho de gritar
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
corpo e alma só tambor
só tambor gritando na noite quente dos trópicos.


Nem flor nascida no mato do desespero
Nem rio correndo para o mar do desespero
Nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
Nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.


Nem nada!


Só tambor velho de gritar na lua cheia da minha terra
Só tambor de pele curtida ao sol da minha terra
Só tambor cavado nos troncos duros da minha terra.


Eu
Só tambor rebentando o silêncio amargo da Mafalala
Só tambor velho de sentar no batuque da minha terra
Só tambor perdido na escuridão da noite perdida.


Oh velho Deus dos homens
eu quero ser tambor
e nem rio
e nem flor
e nem zagaia por enquanto
e nem mesmo poesia.
Só tambor ecoando como a canção da força e da vida
Só tambor noite e dia
dia e noite só tambor
até à consumação da grande festa do batuque!
Oh velho Deus dos homens
deixa-me ser tambor
só tambor!

























Bertina Lopes


GRITO NEGRO

Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.

























Bertina Lopes


SEGREDO

A noite estava escura
escura e fechada até à beira do mar
escura e fechada estava a noite.

E os langues
olhos dos dois encontraram
no céu o Cruzeiro do Sul XI-Ronga
e uma poalha de estrelas cobriu confidências
mundos de silêncio
o litúrgico frenesi dos dedos
e o desejo ardente de não ser
mais do que um.
A noite estava escura
E fechada à beira do mar.

Mas o beijo
Dos dois no tempo esquecido
Transformo a noite.

























Bertina Lopes


AFORISMO

O preconceito da ave
não é o tamanho das suas asas
nem o ramo onde poisou

Mas a beleza do seu canto
a largueza do seu voo...
e o tiro que a matou.