terça-feira, 11 de agosto de 2009

KONSTANTINOS KAVÁFIS
























Considerado o maior poeta grego do século passado, Kafávis volta a Poemargens, depois do maravilhoso poema Ítaca.





















À ESPERA DOS BÁRBAROS 


O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo
e de coroa solene se assentou
em seu trono, à porta magna da cidade?

É que os bárbaros chegam hoje.
O nosso imperador conta saudar
o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe
um pergaminho no qual estão escritos
muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores
usam togas de púrpura, bordadas,
e pulseiras com grandes ametistas
e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?
Por que hoje empunham bastões tão preciosos
de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,
tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores
derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje
e aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?
(Que seriedade nas fisionomias!)
Por que tão rápido as ruas se esvaziam
e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm
e gente recém-chegada das fronteiras
diz que não há mais bárbaros.


Sem bárbaros o que será de nós?
Ah! eles eram uma solução.

domingo, 9 de agosto de 2009



ENCUENTRO CULTURAL

en Gral. San Martín


Presentación de:
NÓMADA (revista de la Universidad Nacional de San Martín)
REVISTA SESAM (de la Sociedad de Escritores de San Martín).

Participan los escritores:
Jorge Boccanera (Nómada)
Germán Ferrari (Nómada)
Nicolás Antonioli (Nómada)
Agustín Romano (Revista SESAM)
Isabel Llorca Bosco (Revista SESAM)
Héctor Zabala (Revista SESAM)
Patricia Calíbrese (Dante Alighieri)
María del Carmen Poyo Martínez (Poetas del Encuentro)
Liliana Lapadula (La Palabra en Movimiento).


Sábado 15 de agosto de 2009 - 18,30 hs.

Asociación Dante Alighieri
Ramón Carrillo (Calle 89) Nº 2436
Gral. San Martín, Provincia de Buenos Aires

sábado, 8 de agosto de 2009

VINICIUS DE MORAES










SETE POEMAS DE VINICIUS DE MORAES

Nossa modesta homenagem a quem tanto nos deu em poesia, música, alegria e vida.


O trabalho de Adriana Varejão não ilustra os poemas, obviamente. Também é outra homenagem ao belíssimo trabalho da artista.

Antes que alguém me pergunte o para quê das imagens? É isso, exatamente isso, os poemas e as imagens simplesmente acontecem. O que existe entre eles é o aberto da arte.



 

    
Adriana Varejão



















POÉTICA

De manhã escureço
De dia tardo
De tarde anoiteço
De noite ardo.

A oeste a morte
Contra quem vivo
Do sul cativo
O este é meu norte.

Outros que contem
Passo por passo:
Eu morro ontem

Nasço amanhã
Ando onde há espaço:
― Meu tempo é quando.

(p. 212)




Adriana Varejão








 
















A ROSA DE HIROSHIMA

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosa cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroshima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida
A rosa com cirrose
A anti-rosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.

(p. 197)





Adriana Varejão







 













A MULHER QUE PASSA

Meus Deus, eu quero a mulher que passa.
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!

Oh! Como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!

Como te adoro, mulher que passas
Que vens e passas, que me saciais
Dentro das noites, dentro dos dias!
Por que me faltas, se te procuro?
Por que me odeias quanto te juro
Que te perdia se me encontravas
E me encontrava se te perdias?

Por que não voltas, mulher que passas?
Por que não enches a minha vida?
Por que não voltas, mulher querida
Sempre perdida, nunca encontrada?
Por que não voltas à minha vida
Para o que sofro não ser desgraça?

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!
Eu quero-a agora, sem mais demora
A minha amada mulher que passa!

No santo nome do teu martírio
Do teu martírio que nunca cessa
Meu Deus, eu quero, quero depressa
A minha amada mulher que passa!

Que fica e passa, que pacifica
Que é tanto pura como devassa
Que boia leve como a cortiça
E tem raízes como a fumaça.

(p. 88-89)




Adriana Varejão










 

















PÁTRIA MINHA

A minha pátria é como se não fosse, é íntima
Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo
É minha pátria. Por isso, no exílio
Assistindo dormir meu filho
Choro de saudades de minha pátria.

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho
Pátria, eu semente que nasci do vento
Eu que não vou e não venho, eu que permaneço
Em contato com a dor do tempo, eu elemento
De ligação entre ação e pensamento

Eu fio invisível no espaço de todo o adeus
Eu, o sem Deus!

Tenho-te no entanto em mim como um gemido
De flor; tenho-te como um amor morrido
a quem se jurou; tenho-te como uma fé
Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito
Nesta sala estrangeira com lareira
E sem pé-direito.

Ah, pátria minha, lembra-0me uma noite no Maine, Nova Inglaterra
Quando tudo passou a ser infinito e nada terra
E eu vi Alfa e Beta de Centauro escalarem o monte até o céu
Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz
À espera de ver surgir a Cruz do Sul
Que eu sabia, mas amanheceu...

Fonte de mel, bicho triste, pátria minha
Amada, idolatrada, salve, salve!
Que mais doce esperança acorrentada
O não poder dizer-te: aguarda...
Não tardo!

Quero rever-te, pátria minha, e para
Rever-te me esqueci de tudo
Fui cego, estropiado, surdo, mudo
Vi minha humilde morte cara a cara
Rasguei poemas, mulheres, horizontes
Fiquei simples, sem fontes.

Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta
Lábaro não; a minha pátria é desolação
De caminhos, a minha pátria é terra sedenta
E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular
Que bebe nuvem, come terra
E urina mar.
Mais do que a mais garrida a minha pátria tem
Uma quentura, um querer bem, um bem
Um libertas quae sera tamen
que um dia traduzi num exame escrito:
“Liberta que serás também”
E repito!

Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa
Que brinca em teus cabelos e te alisa
Pátria minha, e perfuma o teu chão...
Que vontade me vem de adormecer-me
Entre teus doces montes, pátria minha
Atento à fome em tuas entranhas
E ao batuque em teu coração.

Não te direi o nome, pátria minha
Teu nome é pátria amada, é patriazinha
Não rima com mãe gentil
Vives em mim como uma filha, que és
Uma ilha de ternura: a Ilha
Brasil, talvez.

Agora chamarei a amiga cotovia
E pedirei que peça ao rouxinol do dia
Que peça ao sabiá
Para levar-te presto este avigrama:
“Pátria minha, saudades de quem te ama...
Vinicius de Moraes”.

(p. 198-200)




Adriana Varejão






 















SONETO DE CONTRIÇÃO

Eu te amo, Maria, te amo tanto
Que o meu peito me dói como em doença
E quanto mais me seja a dor intensa
Mais cresce na minha alma teu encanto.

Como a criança que vagueia o canto
Ante o mistério da amplidão suspensa
Meu coração é um vago de acalanto
Berçando versos de saudade imensa.

Não é maior o coração que a alma
Nem melhor a presença que a saudade
Só te amar é divino, e sentir calam...

E é uma calma tão feita de humildade
Que tão mais te soubesse pertencida
Menos seria eterno em tua vida.

(p. 92)





Adriana Varejão








 















SONETO DE SEPARAÇÃO

De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

(p. 138)




Adriana Varejão




 



















BALADA DO MANGUE

Pobres flores gonocócicas
Que à noite despetalais
As vossas pétalas tóxicas!
Orquídeas do despudor
Não sois Loelia tenebrosa
Nem sois Vanda tricolor:
Sois frágeis, desmilinguidas
Dálias cotadas ao pé
Corolas descoloridas
Enclausuradas sem fé.
Ah, jovens putas das tardes
O que vos aconteceu
Para assim envenenardes
O pólen que Deus vos deu?
No entanto crispais sorrisos
Em vossas jaulas acesas
Mostrando o rubro das presas
Falando coisas do amor
E às vezes cantais uivando
Como cadelas à lua
Que em vossa rua sem nome
Rola perdida no céu...
Mas que brilho mau de estrela
Em vossos olhos lilases
Percebo quando, falazes
Fazeis rapazes entrar!
Sinto então nos vossos sexos
Formarem-se imediatos
Os venenos putrefatos
Com que os envenenar
Ó misericordiosas!
Glabras, glúteas caftinas
Embebidas em jasmim
jogando cantos felizes
Em perspectivas sem fim
Cantais, maternais hienas
Canções de caftinizar
Gordas polacas serenas
Sempre prestes a chorar.
Como sofreis, que silêncio
Não deve gritar em vós
Esse imenso, atroz silêncio
Dos santos e dos heróis!
E o contraponto de vozes
Com que ampliais o mistério
Como é semelhante às luzes
Votivas de um cemitério
Esculpido de memórias!
Pobres, trágicas mulheres
Multidimensionais
Ponto morto de choferes
Passadiço de navais!
Louras mulatas francesas
Vestidas de carnaval:
Viveis a festa das flores
Pelo convés dessas ruas
Ancoradas no canal?
Para onde irão vossos cantos
Para onde irá vossa nau?
Por que vos deixais imóveis
Alérgicas sensitivas
Nos jardins desse hospital
Etílico e heliotrópico?
Por que não vos trucidais
Ó inimigas? ou bem
Não ateais fogo às vestes
E vos lançais como tochas
Contra esses homens de nada
Nessa terra de ninguém!


(p. 123-125)

Os poemas fazem parte da Antologia poética. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

RICARDO PINTO DE SOUZA

Ricardo Pinto de Souza nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. É editor da Oficina Raquel ( http://www.oficinaraquel.com/ ), e publicou Culturas (2007,poemas, versão eletrônica em http://www.oficinaraquel.com/catalogo.html#ebooks ) e Bestiário (2008, pequenas narrativas) pela editora. Também é doutorando em Literatura Comparada pela UFRJ, pesquisando sobre espírito trágico e identidade nacional. Atualmente termina sua tese e prepara mais um livro.

POEMAS

























Maria Cheung


SOBRE FRANZ

o que não pode, na pepita dos ossos roídos
ser roído: o que permanece, que alimenta
o ruído do ruído, o que constrói o homem
e seus anjos e demônios e fantasmas
seus esgotos
seus teares






















Respiro I, Deisi Marin



ARANCIONE

Ninguém precisa mais
que uma laranja rodada
para suprimir a queda das coisas
mas enquanto não temos laranjas
artes menores
de muros e de tocas
sinistras e escondidas mãos
para roubar laranjas antes de rodá-las
e antes de rodá-las
seduzi-las, “à voz”
e antes de roubá-las
tatear o negro e o som
não pelas laranjas, estas putas
ou qualquer outro cítrico fluorescente
mas para encostar
e roçar e relar e
apertar laranjas enterradas
é melhor que ver laranjas na distância

não me diga
“brilho estelar que faz os olhos
e permite lágrimas sinceras e remidas”
não é hora de piedade, ainda não
ainda que você saiba muito bem que
ao contrário do que eu disse, laranjas não são putas
mas não é tempo de piedade
que as laranjas também dão suco
e quando roubadas não guardam seu tesouro:
molham encharcam
— um ácido doce, cheiroso mel, afinal
não é isto que pode nos tornar barro
fogo e laranjas, estas coisas carnosas e explosivas?

























Couple Zoomorphe, Max Ernst



BOI

(TATUAGEM)

um boi
Lento e forte, um boi
remordendo, regurgitando
Põe seu rosto em minhas mãos
Caçando sal:
Rir de um boi pastando
Um boi não ri
Um boi não ama
Um boi não diz
Um boi não salva
Um boi não peca
Um boi não acha, um boi não perde
Um boi não possui
Um boi não quer
Um boi não tem razão
Para ódio ou preferência
Ignora ócio e trabalho
Um boi não
Boi

Um boi rumina
E rumina de novo
E mais uma vez
ru-mi-na
anim,ur
rumen
primeiro estômago
primeiro úbere
mina prima
primeira sombra mesma
fica (re-tor-na) vai
permanência, reminiscência
seivas e fluidos e sumos
rumo
mama
ar:
Um deus-boi
Olhos bovinos
Criaturas de um deus-boi
Primo boi
Peso e lento
A figura do deus sem conflagração

(MÚSCULO)

primo boi
Não existe socorro
Da canga e do carro
O dia é sempre quente
A noite é fora e chuva
Como desesquecer?
Você lembra de cada folha de capim
De cada mosquito que abrigou
A amizade dos carrapatos
O carinho pela bosta
O cheiro da chuva no chão?
Como dizer
Ao que tira a paz
Ao morro, à pedra, ao azougue
Primo morro
Prima pedra
Primo azougue?

E como ruminar isso tudo
E querer mais uma vez
E uma vez mais sentir esses gostos
Se certo na vez prima
Eles já ficam amargos
Primo amargo?
Um boi não ri
E um boi não perde
Nada é riso, nada é perda
Nada é final
Tudo é primo
É preciso
De tudo fica um pouco
Primo pouco










Artur Barrio



(CORAÇÃO)

Um boi tem por si quatro estômagos
Para o mesmo, único capim
Quatro estômagos para o mesmo sabor
Ressentido tantas vezes
Criatura cerne da escassez
Sua sabedoria:
Não tanto o cuidado fanático do alimento
Mas boi pronto para o que nutre
Saber que tudo retorna
Eis o nutro

sexta-feira, 7 de agosto de 2009





Las internas de la cárcel de mujeres de Tucumán, Argentina, prepararon durante un año una muestra final de teatro respondiendo a una iniciativa del gobierno: El Proyecto NUEVOS TERRITORIOS DE EXPRESION.

Sin ninguna justificación se prohibió el estreno de la obra en el penal y en un teatro extramuros, como era el objetivo del proyecto.
Juzgue usted el trabajo realizado y ayudenos a pedir por la dignidad de las internas y los trabajadores que (por concurso público) condujimos el proyecto.

Firme el petitorio por el estreno de La Casa de Bernarda Alba en:

www.teatroentrerejas.com.ar

Fernando Korstanje
Coordinador General (Julio 2008- Julio 2009)
Proyecto Nuevos Territorios de Expresión -Teatro en Cárceles
Union Europea- Ministerio de Educación de la Nación-Gobierno de Tucumán

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

WALLACE STEVENS









Wallace Stevens nasceu em 1879 em Reading, Pensilvânia, e faleceu em 1955. Graduou-se em Direito pela Universidade de Harvard. Publicou seu primeiro livro, Harmonium, em 1923, ou seja, só após os 40 anos, no entanto só obteve reconhecimento fora dos círculos especializados após receber o prêmio National Book Award, em 1954, com a publicação do livro Collected Poems.

Wallace Stevens é a negação completa do velho estereótipo romântico do poeta como um ser excepcional, cuja existência é algo rico em aventuras, completamente fora do comum. Longe de qualquer zona de turbulência, o poeta levou uma vida pacata, dedicada ao trabalho de consultor jurídico de uma companhia de seguros, função que desempenhou  com tanta eficiência a ponto de vir a ocupar o cargo de vice-presidente da empresa. Fechado em trajetória conservadora, fora da agitação literária, com poucos amigos, foi responsável por um dos momentos mais altos da poesia do século XX como pode ser parcialmente comprovado nos quatro poemas selecionados, que esperam levar algum eventual leitor à obra que selecionei, 

Obras do autor:

Poesia: Harmonium (1923); Ideas of Order (1936); Owl's Clover (1936); The Man with the Blue Guitar (1937); Parts of a World (1942); Transport to Summer (1947); The Auroras of Autumn (1950); Collected Poems (1954); Opus Posthumous (1957); The Palm at the End of the Mind (1972)

Prosa: The Necessary Angel (ensaios, 1951); Letters of Wallace Stevens (1966); Secretaries of the Moon: The Letters of Wallace Stevens & Jose Rodriguez Feo (1986); Sur plusieurs beaux sujects: Wallace Stevens's Commonplace Book (1989); The Contemplated Spouse: The Letter of Wallace Stevens to Elsie (2006)


Wassily Kandinky





















POEMAS

Domination of black

At night, by the fire,
The colors of the bushes
And of the fallen leaves,
Repeating themselves,
Turned in the room,
Like the leaves themselves
Turning in the wind.
Yes: but the color of the heavy hemlocks
Came striding.
And I remembered the cry of the peacocks.

The colors of their tails
Were like the leaves themselves
Turning in the wind,
In the twilight wind.
They swept over the room,
Just as they flew from the boughs of the hemlocks
Down to the ground.
I heard them cry -- the peacocks.
Was it a cry against the twilight
Or against the leaves themselves
Turning in the wind,
Turning as the flames
Turned in the fire,
Turning as the tails of the peacocks
Turned in the loud fire,
Loud as the hemlocks
Full of the cry of the peacocks?
Or was it a cry against the hemlocks?

Out of the window,
I saw how the planets gathered
Like the leaves themselves
Turning in the wind.
I saw how the night came,
Came striding like the color of the heavy hemlocks
I felt afraid.
And I remembered the cry of the peacocks.

Tradução de Paulo Henriques Britto

Predomínio do negro

À noite, ao pé do fogo,
As cores dos arbustos
E das folhas no chão
Giravam no quarto
E se repetiam,
Como as próprias folhas
Girando no vento.
Sim: mas a cor intensa dos açafrões
Invadiu o quarto.
E então lembrei o grito dos pavões.

As cores de suas caudas
Eram como as próprias folhas
Girando no vento,
Girando no poente,
Voaram para dentro,
Ao serem varridas dos ramos dos açafrões
E jogadas no chão.
Ouvi-os gritar - os pavões.
Seria um grito contra o poente
Ou contra a cor das folhas
Girando com o vento
Girando como as chamas 
Giravam no fogo,
Girando como as caudas dos pavões
Giravam no fogo estridente,
Estridente como os açafrões
Cheios de gritos de pavões?
Ou era um grito contra os açafrões?

Pela janela,
Vi os planetas se juntarem
Como as próprias folhas
Girando no vento.
Vi a noite chegar,
Invadindo o quarto, como a cor intensa dos açafrões.
E tive medo.
E então lembrei o grito dos pavões.

In Stevens, Wallace. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Seleção, introdução e tradução de Paulo Henriques Britto.



Wassily Kandinky



















The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.


Tradução de Paulo Henriques  Britto


O imperador do sorvete


Chama o enrolador de charutos,
O musculoso, e pede que ele bata
Em xícaras caseiras cremes lúbricos.
Que as raparigas vistam as roupas
Que é seu costume usar, e os rapazes
Tragam flores no jornal do mês passado.
Que parecer termine em ser somente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Pega no armário de pinho,
Com os puxadores de vidro quebrados,
O lençol que ela bordou com pombas
E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete.


In Stevens, Wallace. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Seleção, introdução e tradução de Paulo Henriques Britto.


Wassily Kandinky























Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn
winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V 
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

 VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.


Tradução de Suely Cavendish


Treze maneiras de olhar-se para um melro
I
Em meio a vinte montanhas nevadas,
A única coisa movente
Era o olho do melro

II
Eu estava pleno das três mentes
Qual uma árvore
Na qual há três melros

III
O melro rodopiava nos ventos de outono
Era uma pequena parte da pantomima

IV
Um homem e uma mulher
São um
Um homem e uma mulher e um melro
São um

V
Não sei que prefira,
A beleza das inflexões
A beleza das insinuações
O melro assobiando
Ou logo após

VI
Pingentes cobriam a longa janela
Com gelo selvagem.
A sombra do melro
Atravessava-a, pra lá e pra cá.
O ânimo
Escrevia na sombra
Uma indecifrável causa.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Por que imaginais pássaros dourados?
Não vês como o melro
Anda a volta dos pés
Das mulheres acerca de vós?

VIII
Conheço nobres cadências
E lúcidos, inescapáveis ritmos;
Mas sei, também,
Que o melro está implicado
No que sei.

IX
Quando o melro voou a perder de vista,
Marcou a borda
De um entre muitos círculos.

X
À visão dos melros
Voando numa luz verde,
Mesmo as rameiras da eufonia
Gritariam esganiçadas.

XI
Ele atravessou toda Connecticut
Num coche de vidro.
Uma vez, um medo o trespassou,
Quando ele confundiu
A sombra de sua carruagem
Com melros.
  
XII
O rio se move.
O melro deve estar voando.

XIII
Foi noite a tarde toda.
Nevava
E ia nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

(Tradução de Suely Cavendish publicada na  Revista Eutomia


Wassily Kandinky



















The house was quiet and the world was calm

The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.


Tradução de Abgar Renault


A casa estava quieta e o mundo estava calmo

A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de estio

era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

As palavras eram faladas qual se não houvesse livro;
mas o leitor sobre a página se curvava,

queria curvar-se, queria muito ser
o sábio para quem seu livro é verdadeiro

e a noite de estio é como a perfeição do pensamento.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

A paz era parte do sentido e do espírito:
o acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. A verdade em tal mundo,
onde não há outro sentido, ela própria,

é calma, ela própria é noite e estio, ela própria
é o leitor curvado até tarde e lendo ali.

(Poema traduzido por Abgar Renault. In: Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 116-119)


Wassily Kandinky


























Men made out of words

What should be without the sexual myth,
The human reverie or poem of death?

Castratos of moon-mash — Life consists
Of propositions about life. The human

Reverie is a solitude in which
We compose these propositions, torn by dreams,

By the terrible incantations of defeats
And by the fear tha defeats and dreams are one.

The whole race is a poet that writes down
The eccentric propositions of its fate.


Tradução de Abgar Renault


Os homens são feitos de palavras

Que seríamos sem o mito sexual,
o devaneio humano ou poema de morte?

Eunucos de massa da lua... A vida consiste
em proposições sobre a vida. O devaneio

humano é solicitude em que
compomos tais proposições, rasgadas pelos sonhos,

pelas terríveis feitiçarias das derrotas
e pelo medo de que as derrotas e os sonhos sejam um.

A raça inteira é um poeta que escreve
as proposições excêntricas do seu destino.

(Poema traduzido por Abgar Renault. In: Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 118-119)


quarta-feira, 5 de agosto de 2009



Encontro com


CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Exibição de documentário, seguido de debate informal, sobre a vida e a obra do poeta.

15 de agosto de 2009, às 14:00h, na Biblioteca Municipal (Rua Altino Arantes, 80 – Abernéssia).

Entrada Franca

Informações: (12) 3662-3763, ou pelo e-mail


benilsontoniolo@bol.com.br


Realização: CAL – Centro de Ação Literária de Campos do Jordão


http://premioaraucaria.blogspot.com