terça-feira, 15 de setembro de 2009

JOSÉ ANTÔNIO CAVALCANTI
























Adriana Varejão



Patria migrante

Nación de nómadas apátridas
fugitivos
exiliados
en vuelos clandestinos
balsas
túneles bajo lo destino.

Mapa de las minas
donde el oro sangra la América
- Eldorado Eldolores Eldólares -
la money-Canaán del siglo XXI.

Cholos, criollos, chicanos
en lo desierto o en aguas norteamericanas,
entre perros, coyotes y tiburones,
animales o humanos,
bajo las luces de una noche sin nombre
expuestos a patrullas de fronteras
o a la siniestra persecución de la Guardia Costera.

Riesgo de cárcel a los indeseables,
riesgo de muerte y su hermana,
la invisibilidad,
riesgo de crucifixón en un muro,
espejo de lo cinismo
que nos dibuja como bandas latinas.

Quedó atrás lo país de la infancia,
la morada ancestral
y las palabras de asombro y alegría.

Si civilizarmos la América,
si le enseñarmos la risa, la danza, el amor,
cómo ella tendrá fuerzas para invadir otras tierras
y inundar el mundo de codicia, bombas y rencores?

ANGÉLICA FREITAS



Sobre a poesia de Angélica Freitas, Carlito Azevedo foi preciso ao fazer o comentário transcrito abaixo:


"A Angélica consegue criar, já nos primeiros versos de qualquer poema seu, uma atmosfera feliz e profanadora que nos convida a relativizar o gigantismo de certos sentimentos solenes, sagrados, até mórbidos que por muito tempo quiseram, e ainda hoje querem, se fazer passar pela poesia mais autêntica, pela mais sensível forma de se viver um estado poético.

Com ela não tem autor sagrado (mesmo os que mais admira, como Gertrude Stein), não tem sentimento hierarquicamente superior (ela mesmo já se definiu uma vez como a “patinha sem páthos”), o que tem é a força do poema, nascendo do contato furioso da existência, como uma sonda enviada para investigar todos os sentimentos que ainda não vivemos, como uma transparência através da qual se quer ver as pessoas de agora, na ruas de agora, falando a língua de agora, sentindo os sentimentos de agora.

Nesse sentido, acho que ela se inscreve numa esplêndida tradição da poesia universal, mas que infelizmente está em baixa no Brasil, apesar de Oswald de Andrade. Que é a tradição da anti-poesia de um Nicanor Parra, o maior poeta chileno do século, de uma Susana Thénon, o segredo mais bem guardado da poesia argentina, e de uma Adília Lopes, a portuguesa mais brasileira desde Carmem Miranda.

Para os poetas dessa tradição, o poema é a arma mais potente para desmontar as armadilhas que o tempo dispõe à nossa frente o tempo todo. Penso que a armadilha da identidade (sexual, política, nacional etc), que nos quer sempre “idênticos” a nós mesmos, sem possibilidade de metamorfose, é aquela que, até agora, mais mereceu os disparos certeiros da poesia de Angélica".

























P O E M A S


rilke shake

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted Blake
sunny side para cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
bebo um rilke shake
e roço um toasted blake
na epiderme da manteiga

nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted Blake
e danço que nem dervixe




























na banheira com gertrude stein

gertrude stein tem um bundão chega pra lá gertude stein e quando ela chega pra lá faz um barulhão como se alguém passasse um pano molhado na vidraça enorme de um edifício público

gertrude stein daqui pra cá é você o paninho de lavar atrás da orelha é todo seu daqui pra cá sou eu o patinho de borracha é meu e assim ficamos satisfeitas

mas gertrude stein é cabotina acha graça em soltar pum debaixo d'água eu hein gertrude stein? não é possível que alguém goste tanto de fazer bolha

e aí como a banheira é dela ela puxa a rolha e me rouba a toalha

e sai correndo pelada a bunda enorme descendo a escada e ganhando as ruas de st.germain-de-près



sashimi

sushiman, sushiman
por que mãos tão frias
sushiman

pra retalhar melhor
o peixe
sushiman

com facas
afiadas
sushiman

no sentido da
corrente
sushiman

ocupação tão masculina
sushiman

chora só suntory
whisky
sushiman

sushiman, sushiman
quando deita a cama
é um leito de arroz

e a noite é uma gata
que engole até a cabeça

sushiman

























o que passou pela cabeça do violinista
em que a morte acentuou a palidez ao
despenhar-se com sua cabeleira negra &
seu stradivarius no grande desastre
aéreo de ontem




mi
eu penso em béla bártok
eu penso em rita lee
eu penso no stradivarius
e nos vários empregos
que tive
pra chegar aqui
e agora a turbina falha
e agora a cabine se parte em duas
e agora as tralhas todas caem dos compartimentos
e eu despenco junto
lindo e pálido minha cabeleira negra
meu violino contra o peito
o sujeito ali da frente reza
eu só penso


mi
eu penso em stravinski
e nas barbas do klaus kinski
e no nariz do karabtchevsky
e num poema do joseph brodsky
que uma vez eu li
senhoras intactas, afrouxem os cintos
que o chão é lindo & já vem vindo
one
two
three

AUGUSTO DE CAMPOS

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

POEMA


Escrever é retirar-se. Não para a sua tenda para escrever, mas da sua própria escritura. Cair longe da sua linguagem, emancipá-la ou desampará-la, deixá-la caminhar sozinha e desmunida. Abandonar a palavra. Ser poeta é saber abandonar a palavra. Deixá-la falar sozinha, o que ela só pode fazer escrevendo. (Como diz Fedro, o escrito, privado da assistência do seu pai “vai sozinho”, cego, “rolar para a direita e para a esquerda” “indiferentemente junto daqueles que o entendem e junto daqueles que não se interessem por ele”; errante, perdido porque está escrito não na areia desta vez, mas, o que vem a dar no mesmo, “na água”, diz Platão que também não acredita nos “jardins de escritura” nem naqueles que querem semear servindo-se de um caniço). Abandonar a escritura é só lá estar para lhe dar passagem, para ser o elemento diáfano da sua procissão: tudo e nada. Em relação à obra, o escritor é ao mesmo tempo tudo e nada.

Jacques Derrida. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 61.