segunda-feira, 19 de outubro de 2009

LANÇAMENTO EM FORTALEZA
DE NOVA REVISTA CULTURAL







PARA MAMÍFEROS - Nº 1

UMA REVISTA DE LETRAS E ARTES QUE VEIO PARA ARREBENTAR!

Data: 22 de outubro de 2009 (quinta-feira)

Horário: a partir das 19h30

Local: Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura – espaço ao lado da Livraria Livro Técnico

Editores: Glauco Sobreira — Jesus Irajacy Costa — Nerilson Moreira — Pedro Salgueiro — Raymundo Netto — Tércia Montenegro

Presença no lançamento: Caio Porfírio Carneiro, Ana Miranda e performance de Ricardo Guilherme e Gil Brandão

Preço de venda: APENAS R$ 10,00 (dez reais)

Contato da Redação (aquisição de revistas, críticas, sugestões e outros): paramamiferos@gmail.com

Em Para Mamíferos: Entrevista exclusiva e curiosa com a escritora Ana Miranda —

A Geração Pós-Clã, imperdível e rico dossiê de um capítulo da literatura cearense,
por Caio Porfírio Carneiro, com contos de Caio Porfírio Carneiro, José Maia, José Alcides Pinto,
Mário Pontes e um INÉDITO do saudoso Juarez Barroso —

Também inédito e exclusivo Para Mamíferos o conto do esquivo contista paranaense Dalton Trevisan

— Literatrilhas revela: O Holocausto existiu! — A radicalidade e o radicalismo do Teatro Radical Brasileiro, ponto a ponto, por Ghil Brandão — Nerilson Moreira Procura um Poeta de Meia Tigela (e ele existe?) — GlauQUADRINHOS x Beckett —

Traduções inéditas dos escritores/tradutores Ruy Vasconcelos e Virna Teixeira para Hemingway e Gertrude Stein —

Da Caixa de Espantos nos saltam poesia e prosa selecionadas
(Henrique Dídimo, Luciano Bonfim, Carlos Nóbrega, Everardo Norões, Carmélia Aragão, Fayga Bedê, Amílcar Bettega)
— e, Como Você Nunca Viu... mas verá, com Sânzio de Azevedo.
Essas e outras surpresas apenas
Para Mamíferos!

Você não pode deixar de ter a sua!

domingo, 18 de outubro de 2009

HILDA HILST



Múltipla Hilda Hilst, calígrafa da desmesura, invade (Poe)margens, inunda pre/conceitos. Rainha-mula sob o sol da ironia e do desamparo. Santa profana a perverter provocações, transformando-as em preces heréticas e libertinas. Voz em trânsito entre letras profanas e teofania. Da clã-matilha joycena, no risco beckttiano, mas, no essencial, ela mesma, uma devastação de comodismo, fronteiras, rótulos. E no meio de tudo, a angústia de Deus, a busca na fenda, na rachadura hölderliana entre o divino e o humano; procura da qual Mula de Deus é um excelente exemplo.

























Iberê Camargo



MULA DE DEUS

I

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Alta, dourada, me pensei.
Não estava pardacim, o pelo fosco
Pois há de rir-se de mim O PRECIOSO.

Para fazer sorrir O MAIS FORMOSO
Lavei com a língua os cascos
E as feridas. Sanguinolenta e viva
Esta do dorso
A cada dia se abre carmesim.

Se me vires, SENHOR, perdoa ainda.
É raro, em sendo mula, ter a chaga
E ao mesmo tempo
Aparência de limpa partitura
E perfume e frescor de terra arada.

II

Há nojosos olhares sobre mim.
Um rei que passa
E cidadãos do reino, príncipes do efêmero.
Agora é só de dor o flanco trêmulo.
Há nojosos olhares. Rústicos senhores.

Açoites, fardos, vozes, alvoroço.
E há em mim um sentir deleitoso
Um tempo onde fui ave, um outro
Onde fui tenra e haste.

Há alguém que foi luz e escureceu.
E dementado foi humano e cálido.
Há alguém que foi pai. E era meu.

III

Escrituras de pena (diria mais, de pelos)
De infinita tristura, encerrada em si mesma
Quem há de ouvir umas canções de mula?

Até das pedras lhes ouço a desventura.
Até dos porcos lhes ouço o cantochão.
E por que não de ti, poeta-mula?

E ornejos de outras mulas se juntaram aos meus.
Escoiceando os ares, espumando de gozo
Assustando mercado e mercadores

Alegrou-se de mim o coração.

IV

Um dia fui o asno de Apuléius.
Depois fui Lucius, Lucas, fui Roxana.
Fui mãe e meretriz e na Betânia
Toquei o intocado e vi Jeshua.
(Ele tocou-me o ombro aquele Jeshua pálido).

Um tempo fui ninguém: sussurro, hálito.
Alguém passou, diziam? Ninguém, ninguém.

Agora sou escombros de um alguém.
Só caminhada e estio. Carrego fardos

Aves, patos, esses que vão morrer.
Iguais a mim também.

V

Ditoso amor de mula, Te ouvi murmurando
Ó Amoroso! Ditoso amor de mim!
Poder amar a Ti com este corpo nojoso
Este de mim, pulsante de outras vidas
Mas tão triste e batido, tão crespo
De espessura e de feridas.

Ditoso amor de mim! Tão pressuroso
De amar! (E de deitar-se ao pé
De tuas alturas). Corpo acanhado de mula

Este de mim, mas tão festivo e doce
Neste Agora
Porque banhado de ti, ó FORMOSURA.

VI

Tu que me vês
Guarda de mim o olhar.
Guarda-me o flanco.
Há de custar tão pouco
Guardar o nada
E seus resíduos ocos.

Orelhas, ventas
O passo apressado sob o jugo
Casco, subidas
Isso é tudo de mim
Mas é tão pouco...

Tu que me vês
Guarda de mim, apenas
Minha demasiada coitadez.

VII

Que eu morra junto ao rio.
O caudaloso frescor das águas claras
Sobre o pelo e as chagas.

Que eu morra olhando os céus:
Mula que sou, esse impossível
Posso pedir a Deus. E entendendo nada
Como os homens da Terra
Como as mulas de Deus.

VIII

Palha
Trapos
Uma só vez o musgo das fontes
O indizível casqueando o nada

Essa sou eu.

Poeta e mula
(Aunque pueda parecer
Que del poeta es locura
).


In: Estar sendo. Ter sido. São Paulo: Nankin, 1997, p.112-116.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

JOAN BROSSA
























Poemargens presta homenagem ao grande poeta catalão, criador de uma poesia para ser vista, na qual o experimentalismo alia-se a uma perspectiva irônica, crítica e combativa.

Joan Brossa: pequeno panorama sobre sua vida e obra

por Marcelo Terça-Nada

Joan Brossa nasceu em 1919 em Barcelona, Espanha. Figura cercada de histórias curiosas - talvez devido a grande aproximação entre sua vida e obra -, Brossa esteve em permanente movimento. Toda sua vida pode ser vista como um processo de experimentação constante que resultou numa impressionante obra plástica e poética: numerosos trabalhos de poesia em verso, poesia visual, poesia objeto, instalações, poemas transitáveis (esculturas-poema em locais públicos), poemas cênicos (textos para teatro) e roteiros cinematográficos.

Sua obra é tão engajada quanto cheia de humor. Tão irônica quanto lírica. Tão ligada ao cotidiano e as suas raízes catalãs quanto inovadora e subversiva. Tão diversificada quanto rica.

Vim a conhecer a obra de Joan Brossa durante uma palestra realizada pelo professor Marcelo Drummond no NECI - Núcleo de Estudos da Cultura do Impresso, da Escola de Belas Artes da UFMG no princípio de 2003. Foi ele também quem me trouxe o depoimento de que Brossa fazia truques de mágica e ilusionismo em pleno metrô de Barcelona (o que fazia também nas ruas da cidade e nos saraus que promovia). "A gente estava andando de metrô e de repente via o Brossa cuspindo bolas de borracha, ou fazendo malabarismo com cartolas e chapéus...".


Waly Salomão conta, em um depoimento publicado na Revista Cult, que Brossa era um poeta que "andava a pé pela cidade de lado a lado, percorrendo distâncias inacreditáveis, sem um níquel no bolso, um sujeito sem dinheiro, que comia pouco, um pedaço de pão recheado apenas com tomate ou cebola, e de vez em quando uma sopa que algum amigo lhe pagava".

Sabe-se que Brossa integrou o movimento de resistência à ditadura e a censura de Franco, na Espanha, chegando até a participar do Exército Popular da Catalunia e que teve grande influência das idéias anarquistas e socialistas do período da República Catalã (que antecedeu o franquismo). Exemplos desse espírito de resistência é o fato de que sempre escreveu em Catalão - língua que chegou a ser proibida durante a ditadura - vários de seus trabalhos da "linha mais política".
Essa mistura de mágico, com performer, poeta, ativista, artista gráfico e artista plástico é, no mínimo, muito instigante.

De uma rica imaginação plástica, Brossa começou a produzir na década de 40 e continuou sem parar até seu falecimento em 1998, na véspera de seus 80 anos de idade. Mesmo com a crescente produção de poemas visuais e poemas objeto, que muitas vezes só foram realizados anos depois de concebidos, Brossa nunca abandonou o texto literário ou qualquer outra linguagem a qual se dedicou, continuou a escrever poemas em verso e textos em prosa durante toda sua vida. Durante sua trajetória foi diversificando cada vez mais sua obra: escrevia livros, fazia instalações, poemas objeto, escrevia texto para teatro e concebia roteiros para filmes de curta-metragem. Chegou a projetar um poema visual para ser pintado sobre um trem-bala.
Na década de 40, de quando datam os primeiros escritos de Brossa, seus poemas foram marcados pela prática de um peculiar neo-surrealismo, assim como a pintura de seus grandes amigos e parceiros Antoni Tápies e Joan Ponç. Nessa mesma década começou a fazer poemas com elementos visuais e alguns caligramas. Esse primeiro grupo de trabalhos verbo-visuais foi batizado pelo poeta como "poemas experimentais", pois o termo "poesia visual" ainda nem existia. Nessa época iniciou também a produção dos poemas cênicos - textos para teatro que englobam pequenas cenas, ações musicais e performances.

Ao conhecer e passar a conviver com o poeta brasileiro João Cabral de Melo Neto que tinha ido trabalhar em Barcelona como Cônsul do Brasil em 1947, Joan Brossa passa a ter contato com as idéias marxistas. Vários artistas e poetas de Barcelona freqüentavam a casa de João Cabral, que tornou-se um local de confluência de pessoas e idéias, um "território" protegido da repressão e censura da ditadura franquista.
João Cabral mantinha em sua casa uma pequena prensa manual Minerva onde imprimia, em tipografia, livros seus e de amigos. Fazia pequenas tiragens dos livros, mas, como nos conta o próprio Brossa, "não para vendê-los e sim para presenteá-los". Os dois primeiros livros de Brossa foram feitos naquela prensa por Cabral: o Sonets de caruixa (1950) e En va fer Joan Brossa (1951) com tiragem de 70 exemplares cada.
O contato com Cabral foi iluminador. As novas idéias que trouxe somadas ao contato com as idéias do progressismo catalão deram uma nova direção para a obra de Brossa a partir de 1950. Com o livro En va fer, Brossa iniciava um segundo nascimento, no qual superava a retórica formalista para reencontrar a realidade e a vida cotidiana, através de um realismo crítico (GUERRERO, 2001).

Em 1948, Brossa funda juntamente com Joan Ponç, Antoni Tápies, e outros a revista Dau a Set. Em 1951, faz seu primeiro poema com o uso de objetos.

Sobre o processo de passagem da poesia visual até o poema objeto, o próprio Brossa é quem conta: "Foi todo um processo. Eu comecei fazendo literatura com peruca, depois me concentrei na linguagem coloquial e depois passei ao objeto. Para mim a escrita e o trabalho com os objetos são ferramentas que me permitem colher a poesia, que como a eletricidade está em todas as partes, tem é que colhê-la. O poeta constrói pequenos veículos para transmitir a poesia. Duchamp encontrava uma coisa e a deixava assim. Eu gosto de alterar os objetos e fazer metáforas. Eu colho um fragmento da realidade mais comum, uma propaganda de um periódico, por exemplo, e gosto de tocá-lo um pouco, intervindo minimamente. Os objetos têm um sentido, eu o pego do cotidiano e lhe dou outro sentido, tratando de resgatá-lo dessa dependência funcional".

Somente a partir da publicação do livro Poesia Rasa em 1970 é que a obra de Brossa começa a ganhar um maior reconhecimento. É a partir daí que seus livros passam a ser publicados regularmente, alternando livros novos e antigos (inéditos) que tinham sido escritos durante a ditadura de Franco.

A exposição Joan Brossa ou As palavras são as coisas (Fundação Joan Miró, 1986) agrupou, pela primeira vez, um número considerável de poemas visuais, objetos e cartazes e marcou o início do reconhecimento internacional da obra plástica de Brossa que foi firmado de vez com a exposição antológica que realizou no Centro de Arte Rainha Sofia, em 1991 em Madrid.

O reconhecimento na Espanha, e no mundo, lhe permitiu a realização de uma série de projetos mais complexos que culminaram na realização das instalações e dos poemas transitáveis (esculturas-intervenções em espaços públicos).

A opção de Joan Brossa pela linguagem coloquial em seus versos desde o livro Em va fer, a realização de suas ações/apresentações nas ruas e metrôs, vários de seus trabalhos plásticos (principalmente os poemas objeto) e diversas de suas declarações mostram um artista inteiramente conectado com o cotidiano.

É do cotidiano que Brossa retira sua matéria-prima. E o espaço cotidiano é um dos espaços onde atua e intervém, como se ali fosse seu palco ou sua folha de papel imaginária onde inscreveu enormes poemas transitáveis.

A própria paixão pelo ilusionismo e pelos truques de mágica e a vontade de estar mantendo ações/apresentações nas ruas, o humor e caráter lúdico de vários de seus trabalhos nos mostram que Brossa foi uma figura engajada na tarefa de fazer o cotidiano ser mais poético. Ou melhor, na tarefa de fazer a poesia estar presente no dia-a-dia das ruas. Se considerarmos o ritmo de vida de um grande centro urbano, como Barcelona, é possível afirmar que todo esse trabalho aliando arte e vida no cotidiano mais simples é uma de suas grandes obras subversivas. Como uma batalha pela sobrevida da poesia frente a correria da metrópole. Como se Brossa fosse um guerrilheiro defendendo a sensibilidade de cada um de nós, lutando para "salvar a individualidade frente a tanta propaganda estúpida que leva à massificação em uma sociedade que transformou a técnica em um instrumento de domínio" – em palavras suas. A relação entre Brossa e o cotidiano é coroada com a realização dos poemas transitáveis, pois, com essas enormes esculturas com letras e símbolos lingüísticos, o espaço público é ocupado definitivamente por sua poesia.

Após 1991, Brossa é convidado a fazer e participar de numerosas exposições, entre elas: a Bienal Internacional de São Paulo de 1994 e a Bienal de Veneza de 1997 e exposições em Londres, Marselha, Valência e Kassel.

Após seu falecimento em 1998 é preparada uma grande retrospectiva de sua obra, a exposição Joan Brossa ou a revolução poética, que aconteceu em 2001, em Barcelona, novamente na Fundação Joan Miró, e abrangeu toda a sua produção, incluindo projetos, livros, poemas visuais e objetos, instalações, os poemas transitáveis, as suítes de poesia visual, cartazes, filmes, roteiros cinematográficos e encenações de seus poemas cênicos.

Publicado originalmente na: Revista Etcetera #13 - Artes Visuais
www.revistaetcetera.com.br



























Lot de lettres























Contes








































Ruixat de lletres



















El terrat de les banyes




















Sense atzar







Intermedi




















Fe eclesiástica









































poema nupcial

ANTONIO CÍCERO




Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Sua atividade divide-se entre a filosofia e a poesia. Desde adolescente escreve poesia, mas os seus poemas apareceram na forma de letras de canções, musicados por sua irmã, Marina Lima, que, assim, iniciava a sua própria carreira de compositora e cantora. Mais tarde, os seus poemas foram, também, musicados por Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, Orlando Moraes e João Bosco, entre outros. De 1993 a 1995, organizou em São Paulo, com o poeta Waly Salomão, uma série ciclos de conferências de grandes pensadores e artistas entre os quais os poetas John Ashbery, Derek Walcot, Joan Brossa e João Cabral de Melo Neto, e os filósofos Richard Rorty e Peter Sloterdijk em torno de alguns temas decisivos de nossa época. As conferências do ciclo de 1994 foram publicadas no livro O relativismo enquanto visão do mundo (ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro). Em 1995 publicou o ensaio filosófico O mundo desde o fim (ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro). Em 1996, Antonio Cicero reuniu os seus poemas prediletos numa obra, Guardar, que venceria o prêmio Nestlé, na categoria Estreante. Em 1998 publicou, numa coletânea organizada por Alberto Pucheu intitulada Poesia e filosofia (ed. Sete Letras, Rio de Janeiro), o ensaio "Epos e muthos em Homero", como parte integrante de uma obra mais extensa, ainda inédita, dedicada à poesia grega arcaica. Em 1999 foi publicado o seu ensaio "A época da crítica: Kant, Greenberg e o modernismo", numa coletânea organizada por Pradilla Cerón e Reis intitulada Kant: Crítica e estética na modernidade (editora Senac, São Paulo). No ano de 2000 foi publicado o seu ensaio "Poesia e paisagens urbanas", na coletânea Mais poesia hoje, organizada por Celia Pedrosa (ed. 7 Letras, Rio de Janeiro.





Em uma entrevista, indagado se era pacífico o convívio entre filosofia e poesia, Antônio Cícero deu a seguinte resposta, transcrita abaixo para que se perceba a poética do autor segundo os seus próprios termos:

“Pacífico não é. São extremidades opostas do meu espírito. Lutam para se apossar do tempo que me é dado. Não me é fácil administrar esse tempo. Sou um palco microcósmico em que se representa a velha rixa entre a poesia e a filosofia. Quando me dedico a escrever sobre filosofia, não consigo escrever poemas, pois, para escrevê-los, é necessário pôr à disposição da poesia la crême de la crême do meu tempo livre: Ovídio o diz muito bem: vacuae carmina mentis opus, isto é, os poemas são obra de uma mente desocupada; e para que o creme do creme do meu tempo livre esteja disponível à poesia, não posso estar preocupado com questões filosóficas.

Embora brevíssimas, as observações que em seguida farei sobre a filosofia serão sem dúvida tachadas de "logocêntricas" por alguns. Pouco me importa: contra as pseudofilosofias logofóbicas, considero o logocentrismo como a condição necessária para que a filosofia possa escapar de contradições e paradoxos auto-paralisantes.

Ao escrever textos filosóficos, a minha ambição é afirmar determinadas verdades sobre referentes que se encontram fora desses textos. Em última análise, o que quero é que a minha escrita seja totalmente translúcida, isto é, que desapareça em prol do aparecimento das verdades que pretende estar a revelar. Meus enunciados não passam, portanto, de meios para dizer essas verdades, que são seus fins e que, em princípio, poderiam ser ditas com o emprego de outras palavras.

Já a pretensão da poesia é, ao contrário, a de não poder ser traduzida nem parafraseada. É o poeta enquanto poeta que não pode ser "logocêntrico", no sentido em que Derrida entende essa palavra. O que um poema diz não deve poder ser dito - ou não deve poder ser dito igualmente bem - em palavras diferentes daquelas em que se encontra escrito. Além disso, o seu valor não está em pretender dizer verdades a respeito de referentes externos. O valor de Antony and Cleopatra, de Shakespeare, por exemplo, não depende em nada do seu grau de fidelidade à história real de Marco Antônio e Cleópatra. A verdadeira ambição de um poema é pertencer àquele conjunto de obras que merecem intrinsecamente permanecer para sempre imutáveis (pois não é possível aperfeiçoá-las), imperecíveis (pois não é possível substitui-las por outras) e atuais (pois não é possível esquecê-las). Quando realiza essa ambição, o poema consiste numa espécie de escritura da escritura, isto é, numa escritura não só de fato, mas de direito, pois a escritura se distingue da oralidade justamente por ser fixa, permanente e existente no modo da objetividade.

Finalmente, o elemento da poesia é o concreto, o particular, o relativo, o temporal, o finito etc., enquanto o elemento da filosofia é o abstrato, o universal, o absoluto, o atemporal, o infinito etc. Contudo, confesso que tenho uma concepção muito restrita de filosofia, de modo que meus poemas contêm muitas coisas que outras pessoas consideram filosóficas.”

Os dados biográficos e a resposta do poeta foram retirados do blog mantido pelo autor. O endereço é http://www2.uol.com.br/antoniocicero/


Antonio Bispo do Rosário



GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

(In Guardar: poemas escolhidos. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 11)


Antonio Bispo do Rosário



DITA

a Dedé Veloso

Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

Assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobabem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.´

(In Guardar: poemas escolhidos, p 29)



Nelson Leirner



ÁGUA PERRIER

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Parra tanto, exponho
a minha admiração.
Você em toca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

(In: Guardar: melhores poemas, p 63)


Antonio Bispo do Rosário



A CIDADE E OS LIVROS

para D. Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia – e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim –, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
Da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

(In: A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, p.19-20.)


René Magritte



SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinito que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

(In: A cidade e os livros, p. 77)