domingo, 31 de janeiro de 2010

TRINDADE PROFANA


















Três poetas em momento de fuga e cansaço. Desgaste e corrosão do existir. A poesia não é sinônimo nem antônimo de festa. Às vezes o tempo fecha, a barra pesa, a linguagem se curva aos limites humanos. Palavras na expressão de perda, extenuadas de aventuras, encontros e desencontros,saltam do poema de Drummond. Pode aparecer, então, o porto como ponto de fuga, lugar por onde escapamos de nossos fantasmas, talvez a ilusão, na qual apenas repaginamos nossos erros, propicie uma saída: invenção de outro eu, cujo desenho está, e estará, sempre além do horizonte. Sempre a fome e a forma daquilo que não sabemos. Claro que a imagem do porto baudelairiano não pode ser confrontada com a de nossos modernos portos automatizados, pátios de contêineres e assepsia, automação e controle, nos quais não se inscreve mais a possibilidade de aventura. A fadiga, o cansaço, o esfalfamento, a estafa, a exaustão, a prostração, a extenuação, a canseira e tantas outras matizes, tangências, proximidades e sinonímias do completo esgotamento (formas apagadas no comércio da língua que se contenta com estresse para empobrecer a comunicação sob a justificativa monetária de rapidez e concisão) com mais propriedade lançam pontes para outra existência, a exemplo do diálogo com a morte criado por Álvares de Azevedo. Nos três poemas, o roçar da inquietação com o real, um leve movimento que impulsiona três textos diversos, respectivamente, ao desencanto, à aventura e à morte.

José Antônio Cavalcanti





















A HORA DO CANSAÇO

Carlos Drummond de Andrade

As coisas que amamos,
as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável
no limite de nosso poder
de respirar a eternidade.

Pensá-las é pensar que ainda não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.
De outra matéria se torna, absoluta,
numa outra (maior) realidade.

Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.
Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.

Do sonho do eterno fica esse gosto acre
na boca ou na mente, talvez no ar.

In: Andrade, Carlos Drummond de. Corpo: novos poemas. 8ª. ed. Rio de Janeiro: 1986, p. 39-40.






 












LE PORT

Charles Baudelaire


Un port est un séjour charmant pour une âme fatiguée des luttes de la vie. L’ampleur du ciel, l’architecture mobile des nuages, les colorations changeantes de la mer, le seintillement des phares, sont un prisme merveilleusemente propre à amuser les yeux sans jamais les lasser. Les formes élancées des navires, au gréement compliqué, auxquels la houle imprime des oscillations harmonieuses, servent à entretenir dans l’âme le goût du rythme et de la beauté. Et puis, surtout, il y a une sorte de plaisir mystérieux et aristocratique pour celui qui ni plus ni curiosité ni ambition, à contempler, couché dans le belvédère ou accoudé sur le môle, tous ces mouvementes des ceux qui ont partent et de ceux qui reviennent, des ceuxs qui encore la force de vouloir, le désir de voyager ou de s’enrichir.

O PORTO

Tradução de Gilson Maurity


Um porto é um lugar charmoso para uma alma fatigada das lutas da vida. A amplitude do céu, a arquitetura móvel das nuvens, as colorações mutantes do mar, a cintilação dos faróis são um prisma maravilhosamente próprio para agradar aos olhos sem jamais os cansar. As formas projetadas dos navios, de aparelhagens complicadas, às quais as ondas imprimem oscilações harmoniosas, servem para manter na alma um gosto pelo ritmo e pela beleza. Além disso, sobretudo, há uma espécie de prazer misterioso e aristocrático para todo aquele que não tem mais nem curiosidade, nem ambição, em contemplar, deitado em um terraço ou de cotovelos na balaustrada, todos esses movimentos dos que partem e dos que voltam, dos que ainda têm a força de querer, o desejo de viajar ou de enriquecer.

In BAUDELAIRE, Charles. Pequenos poemas em prosa. Tradução de Gilson Maurity. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009, p.230-231.


















 

Anime, Siron Franco


SE EU MORRESSE AMANHÃ!

Álvares de Azevedo

Se eu morresse amanhã, viria ao menos
Fechar meus olhos minha triste irmã;
Minha mãe de saudades morreria
Se eu morresse amanhã!

Quanta glória pressinto em meu futuro!
Que aurora de porvir e que manhã!
Eu perdera chorando essas coroas
Se eu morresse amanhã!

Que sol! que céu azul! que doce n’alva
Acorda a natureza mais louçã!
Não me batera tanto amor no peito
Se eu morresse amanhã!

Mas essa dor da vida que devora
A ânsia de glória, o dolorido afã...
A dor no peito emudecera ao menos
Se eu morresse amanhã!

In:AZEVEDO, Álvares de. Poesias escolhidas. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1971, p. 217.