terça-feira, 26 de outubro de 2010

ORIDES FONTELA

Orides Fontela (1940-1998) morreu na mais completa miséria, mesmo sendo considerada um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

Entre os admiradores de Orides se incluem Antonio Candido, Marilena Chauí e Davi Arrigucci Jr.

Orides nasceu em 21 de abril de 1940, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Desde criança escrevia versos, e muito cedo começou a publicar seus poemas nos jornais da cidade. Nos anos 60, mudou-se para São Paulo e estudou filosofia na USP.

Em 1969, era publicado seu primeiro livro, Transposição. Depois vieram Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, Orides ganhou o prêmio Jabuti. Os quatro primeiros livros foram reunidos no volume Trevo, que fez parte da coleção Claro Enigma, da Editora Duas Cidades. Na França, os poemas foram publicados em dois volumes com o título Trèfle. A Cosac Naify lançou, em 2006, o volume Poesia Reunida.

Professora primária e bibliotecária, Orides viveu sempre em meio a grandes dificuldades. Sempre com os nervos à flor da pele, meteu-se em encrencas e provocou escândalos com seus melhores amigos. Boêmia e depressiva, várias vezes tentou o suicídio. Exageros que culminaram na morte precoce, aos 58 anos, num sanatório em Campos do Jordão.

Bibliografia: Transposição, 1969, Instituto de Espanhol da USP, coordenada por Davi Arrigucci Jr.; Helianto, 1973, Duas Cidades; Alba, 1983, Roswitha Kempf, Prêmio Jabuti; Rosácea, 1986, Roswitha Kempf; Trevo, 1988, Coleção Claro Enigma, organização de Augusto Massi; Teia, 1996, Marco Zero, Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte; Poesia Reunida, 2006, Cosac Naif/7 Letras; Trèfle (Trevo), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 1998; Rosace (Rosácea), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 2000.

Já foram publicados alguns poemas de Orides aqui em Poemargens, num texto denominado Três Poetas do Barulho, em que ela é colocada ao lado de Hilda Hilst e Sylvia Plath. Abaixo transcrevo uma bela homenagem do poeta Donizeti Galvão à autora e um pequeno conjunto de poemas de Orides.



Orides Fontela:  o maior bem possível é a sua poesia
 
por DONIZETE GALVÃO
 
Impossível falar de Orides Fontela sem comentar a sua vida tão atormentada, numa sequência de depressões e doenças. Por isso, jornais e revistas sempre focalizaram mais os detalhes sórdidos de sua vida e pouco a sua poesia. Agora, que ela se foi, espera-se que a poesia de qualidade que ela produziu passe a ocupar o primeiro plano. Sua obra pequena, concentrada e econômica, tem qualidade e intensidade para continuar sendo lida e admirada. Mesmo em vida, Fontela teve um reconhecimento crítico considerável. Seu talento nunca foi negado. Já que falar da biografia de Orides Fontela é inevitável, convém desde o início esclarecer alguns equívocos que cercam sua história. Há uma tendência para fazer de Fontela uma vítima da sociedade. Muitos querem compará-la a Cruz e Souza ou a Lima Barreto. Ela mesma em uma entrevista disse que era a poeta mais pobre do Brasil. Igual a ela, dizia, somente Cruz e Souza. É verdade que veio de uma família muito pobre, de pais analfabetos, que inclusive transmitiram-lhe a sífilis. Esse complexo de inferioridade social acompanhou Orides desde São João da Boa Vista, terra que produziu muitos talentos, além dela, a pianista Guiomar Novais e o crítico Davi Arrigucci Jr. 

Uma matéria de Mario Sabino publicada na revista Veja de outubro de 1995 traça um perfil bem realista do que era o convívio com Orides. A verdade é que Orides encontrou em São Paulo apoio em diversas ocasiões. Antônio Cândido, Augusto Massi, Davi Arrigucci Jr., José Mindlin, Maria Antônia (da Livraria e Editora Duas Cidades), Marilena Chauí, Eunice Arruda, Ieda de Abreu sempre a auxiliaram. Aposentada, tinha uma pequena renda que não era muito diferente do que recebe a grande maioria. Todos do meio reconhecem a infinita paciência de Massi para com ela. A edição de Trevo, pela Duas Cidades, foi um dos melhores momentos da vida de Orides. Até o fim, teve a fidelidade e amizade de Gerda que soube compreender suas idiossincrasias. Portanto, a personalidade de Orides era muito complexa e difícil. Não cabe culpar aqueles de boa vontade que tentaram ajudá-la. Nem a ela, por ser de trato tão difícil. Em conversas que tive com ela, reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas. Muito isolada nos últimos anos, dizia que estava mais amena. A própria fragilidade física tirara-lhe a disposição para a briga. À sua maneira, era uma aristocrata. Pedíamos-lhe bom senso, bons modos, contenção e ela nos respondia com desdém, irreverência, frases cortantes e excessos aos nossos apelos de classe média bem comportada.
Como julgá-la quando muito de nós estávamos sendo assombrados pelos mesmos fantasmas? O poeta, dramaturgo e diretor de teatro Celso Alves Cruz traçou-lhe o retrato em um poema muito apropriadamente chamado “A selvagem Orides”. 

Filha única, solitária, sem filhos ou parentes próximos, sem móveis ou objetos acumulados,  a única e principal referência de Orides era a sua poesia. Embora tenha sido desleixada até mesmo com sua saúde, era zelosa com sua poesia. Tinha consciência do seu valor como poeta. Interessava-se pela divulgação e a edição de suas obras. Ultimamente, estava preocupada com a edição de Trevo na França que não chegou a ver. Na última vez que falamos ao telefone, já internada em Campos do Jordão, ela pediu notícias do livro. Portanto, a melhor homenagem que os poetas podem prestar-lhe é continuar editando sua poesia para que ela se multiplique. 

A obra de Orides permanece límpida e sem arestas. Nunca foi contaminada pela mesquinharia do quotidiano. Há um tom de amargura lírica e seca em seus poemas. Em momento algum, ela é sentimental, derramada ou frouxa. Sua voz poética original nasceu praticamente formada no primeiro livro. 

Seu alheamento a correntes ou modismos, possibilitou uma poesia que prima pela concisão, pela economia de recursos e densidade. Tornou-se lugar comum falar da poesia que busca o silêncio. Para alguns, isso significa não ter nada a dizer ou produzir fiapos sem sintaxe. Para outros, com Orides, significa deter-se no que é essencial. É uma poesia descarnada, sem enfeites, de uma dureza óssea e de cunho filosófico. Difere muito da poesia minimalista, coloquial e de descrição de paisagens miniaturizadas. Penso na poesia do mineiro Ronald Polito, autor de Intervalos, com uma das poucas que têm afinidade coma obra de Orides Fontela. Como leitor, costumava ler versos como quem lesse um koan. Para minha surpresa, não havia nenhuma suavidade na leitura feita pela própria Orides. Ela lia seus poemas de maneira forte, vigorosa, sincopada. Foi uma experiência reveladora vê-la numa grande cadeira da Livraria Duas Cidades tratando sua poesia com voz incisiva e decidida. Causava um estranhamento saber que aquela energia poética vinha de uma mulher tão frágil e com a saúde debilitada. 

Penso que ela gostaria de ser lembrada por sua produção poética. Numa entrevista, disse que "o maior bem possível é a poesia".  Seu fim em um hospital público foi o desenlace de um drama sempre anunciado. Não difere muito do fim de uma poeta como Marina Tsvetaeiva que foi jogada numa vala comum, depois de se suicidar, na Sibéria para onde fora deportada. Como quase todo poeta, Fontela não tinha o menor senso para a vida prática. Nunca conseguiu se desvencilhar dos traumas familiares e das armadilhas que a vida foi lhe reservando. Aos 58 anos, parecia ter vinte anos mais. O sofrimento acabou. Está calada sua voz áspera. O melhor e o mais precioso bem que ela nos legou é sua poesia.
Donizete Galvão é autor de Do silêncio da pedra e A carne e o tempo.



 


A ESTRELA PRÓXIMA

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe

- só existe o impossível.




ELEGIA (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam. 


 



KANT (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.






FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)





ESFINGE

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.




VIAGEM

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


 


MÉDIA

Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?


  


CARTILHA


Foi de poesia
lição
primeira:

 
"a arara morreu
na
aroeira".

domingo, 24 de outubro de 2010


Escrituras Editora
e
Casa das Rosas convidam para a 

QUINTA POÉTICA

com os poetas convidados
Cláudio Willer (SP), Contador Borges (SP), João Melo (Angola) e
Flá Perez (Campinas), com apresentação especial de Vivian Guilhem, do grupo de dança cigana Luna Gitana (SP).
Agradecimentos especiais ao poeta José Geraldo Neres (curador).

Quinta-feira, 28 de outubro de 2010
a partir das 19h (evento gratuito)

Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos
Av. Paulista, 37 - São Paulo/SP
Próximo ao metrô Brigadeiro.
Convênio com o estacionamento Patropi - Alameda Santos, 74
Informações: (11) 5904-4499

       Próxima QUINTA POÉTICA: 25 de novembro de 2010, quinta-feira, às 19h, na CASA DAS ROSAS.

Saiba mais sobre o evento e os convidados:

Quinta poética
Mensalmente, a Casa das Rosas abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas consagrados e novos talentos, que têm a oportunidade de apresentar seu trabalho. Intervenções artísticas das mais diferentes expressões, como dança, música, artes plásticas, cultura popular, envolvem a leitura dos poemas. Grandes nomes da poesia, como Álvaro Alves de Faria, Beth Brait Alvim, Carlos Felipe Moisés, Celso de Alencar, Contador Borges, Eunice Arruda, Floriano Martins, Hamilton Faria, Helena Armond, José Geraldo Neres, Raimundo Gadelha, Raquel Naveira, Renata Pallottini, Renato Gonda, entre outros, já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas.

Os poetas:

José Geraldo Neres (curador) nasceu em Garça, SP, em 1966. Poeta, roteirista, dramaturgo (com formação em oficinas e cursos de criação textual) e produtor cultural. Publicou o livro de poesia Olhos de barro, (Coleção Orpheu, Multifoco Editora) que recebeu menção especial na 3a edição do Prêmio Governo de Minas Gerais de Literatura (2010); e Outros Silêncios, Prêmio ProAC da Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo 2008, (Escrituras Editora, 2009) realizado através do programa “Bolsa para autores com obra em fase de conclusão” da Fundação Biblioteca Nacional em 2007/2008; e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, edição artesanal, SP, 2007). É cofundador do Palavreiros. Integrante do Conselho Gestor & Editorial do Ponto de Cultura Laboratório de Poéticas (Programa Cultura Viva, do MinC). Gestor Cultural. Curador da Sala Permanente de Vídeo/Doc. da 8ª Bienal Internacional do Livro do Ceará (2008). Jurado da etapa inicial do Prêmio Portugal Telecom de Literatura (2009). Ministra oficinas literárias, com ênfase em criação literária e estímulo à leitura. blog: http://neres-outrossilencios.blogspot.com

Claudio Willer (São Paulo, 1940) é poeta, ensaísta e tradutor. Seus vínculos são com a criação literária mais rebelde e transgressiva, como aquela representada pelo surrealismo e geração beat. Acaba de lançar Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e poesia, ensaio (Civilização Brasileira, 2010); também publicou Geração Beat (L&PM Pocket, coleção Encyclopaedia, 2009); Estranhas Experiências, poesia (Lamparina, 2004); Volta, narrativa (terceira edição em 2004); Lautréamont - Os Cantos de Maldoror, Poesias e Cartas (Iluminuras, nova edição em 2008), Uivo e outros poemas de Allen Ginsberg (L&PM Pocket, nova edição em 2010), Poemas para leer en voz alta (Andrómeda, Costa Rica, 2007) e ensaios na coletânea Surrealismo (Perspectiva, 2008). É autor de outros livros de poesia – Anotações para um Apocalipse, Dias Circulares e Jardins da Provocação – e da coletânea Escritos de Antonin Artaud, esgotados. Poemas publicados em antologias e periódicos literários, no Brasil e em vários outros países. Presidiu por vários mandatos a UBE, União Brasileira de Escritores. Trabalhou em administração cultural, inclusive como Coordenador da Formação Cultural na Secretaria Municipal de Cultura (1993-2001). Doutor em Letras na USP com Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna (2008), faz pós-doutorado na USP sobre Religiões Estranhas, Hermetismo e Poesia. Coordena oficinas literárias; ministra cursos e palestras sobre poesia e criação literária. Prepara um livro sobre surrealismo e uma coletânea de ensaios sobre misticismo e poesia.

Contador Borges (São Paulo) leciona Filosofia na Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Como acadêmico, concentra a sua pesquisa na relação entre Erotismo e Literatura. Poeta, ensaísta e dramaturgo, publicou as obras: Angelolatria (1997), O Reino da Pele (2003), Wittgenstein! (2007) e A Morte dos Olhos (2007). Traduziu Aurélia, de Gérard de Nerval, O Nu perdido e outros poemas, de René Char, A Filosofia na Alcova, do Marquês de Sade, Diálogo entre um padre e um moribundo, do mesmo autor, entre outros livros. Publicou diversos artigos e poemas em jornais e revistas no Brasil e no exterior. É organizador e coordenador da Coleção Pérolas Furiosas da Editora Iluminuras, dedicada às obras do Marquês de Sade.

João Melo nasceu em 1955, em Luanda (Angola), onde vive atualmente. Melo é um dos autores africanos mais estudado nas universidades do Brasil, onde morou de 1984 a 1992 como correspondente de imprensa,  É jornalista, escritor, professor universitário e deputado à Assembleia Nacional de Angola. Dirige atualmente a revista África 21. Poeta, contista, cronista e ensaísta, publicou doze livros de poesia, cinco de contos e um de ensaios. Editado habitualmente em Angola, Portugal e Itália, publicou em 2008, no Brasil, o seu livro de contos Filhos da Pátria, pela Editora Record. Tem vários prêmios, entre eles o Prêmio Nacional de Cultura e Artes 2009, na categoria de literatura, pelo conjunto da sua obra. É membro fundador da União de Escritores Angolanos, da qual já foi secretário geral, presidente da Comissão Directiva e presidente do Conselho Fiscal.

Flá Perez (Flávia Perez) nasceu em 1968 no Rio de Janeiro e mora em Campinas, SP. Tem Mestrado em Microbiologia Agrícola pela USP. Publicou o livro Leoa ou Gazela, Todo Dia é Dia Dela. Participou da Antologia do Bar do Escritor em 2009. Teve poemas escolhidos para publicação no Concurso Nacional Cassiano Nunes, promovido pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília e no Projeto Pão e Poesia 2009.

Vivian Guilhem (São Paulo) é professora de Dança Cigana e outras modalidades. Coordena o grupo de dança cigana Luna Gitana há mais de 10 anos e ministra cursos de dança e cultura cigana em sua loja Alemdalenda na região de Pinheiros. Além de empresária, apresenta um programa sobre cinema na All TV, pela internet. Maiores informações: www.vivianguilhem.webs.com e www.alemdalenda.com.br

Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo - SP - Brasil
Tel.: (11) 5904-4499 (Pabx)
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sábado, 23 de outubro de 2010

ANATOL KNOTEK

POESIA DIGITAL: TEORIA, HISTÓRIA, ANTOLOGIAS

Poesia Digital, a poesia do século XXI, ganhou uma obra esclarecedora


Jorge Luiz Antonio apresenta um panorama da poesia digital no Brasil e no mundo


Há muitas formas de se fazer poesia nos dias de hoje, mas a que mais fala a linguagem das novas tecnologias é a poesia digital. Em Poesia digital: teoria, história, antologias, Jorge Luiz Antonio traz um panorama da história da poesia digital, desde os seus primórdios, em 1959, até os nossos dias, com as mais avançadas e criativas inovações. O autor mostra como os recursos da informática, aparentemente frios e exatos, podem dar uma nova vida ao universo da poesia, ao levar seus produtores e apreciadores a outros caminhos artísticos dentro da chamada cultura digital.

Para o autor, Poesia digital: teoria, história, antologias é um livro que “estuda um tipo de poesia contemporânea em suas relações com as artes, o design e a tecnologia computacional, que é uma continuação e um desdobramento da poesia das vanguardas, da poesia concreta, visual e experimental”. Segundo o poeta português E.M. de Melo e Castro, a obra traz “claramente a intenção e a ação do autor de realizar uma discussão sobre as razões que podem ser invocadas para o estudo das transformações que o uso das tecnologias estão já a causar no próprio conceito de poesia”.

Poesia digital: teoria, história, antologias é um livro acompanhado de um DVD que reúne uma completa antologia de poemas digitais e seus antecessores, apresentando 501 poemas de 226 poetas e 110 textos teóricos de 73 autores, tanto brasileiros como estrangeiros, com cerca de 1500 páginas impressas e eletrônicas, dando um raro panorama do que já foi feito na área da experimentação poética, tanto no Brasil como no Exterior. O DVD mostra que “poesia, arte, design, ciência e tecnologia digital formam o quinteto transdisciplinar que uma parcela dos poetas contemporâneos escolheu para realizar a sua comunicação poética”, completa de Jorge Luiz Antonio.

(Franklin Valverde, ONDA LATINA, São Paulo)

Poesia digital: teoria, história, antologias é uma co-edição da Navegar Editora (São Paulo), Luna Bisontes Prods (EUA), Fundação de Amparo à Pesquisa no Estado de São Paulo (FAPESP) e Autor.

Sobre o autor: Jorge Luiz Antonio, professor universitário, pesquisador, bolsista FAPESP, pós-doutorando no IEL-UNICAMP, é autor de estudos sobre Cesário Verde e Augusto dos Anjos.

Poesia digital: teoria, história, antologias

de Jorge Luiz Antonio

Co-edição:
80 páginas + DVD - R$ 30,00 sem despesas postais





Digital poetry, the poetry of the XXIst century, highlighted in a new study and anthology

 
Jorge Luiz Antonio presents a panorama of digital poetry in Brazil and in the world 
 
 
There are many ways of making poetry nowadays, but the one that mostly engages the new technologies of language is digital poetry. In Digital Poetry: Theory, History, Anthologies, Jorge Luiz Antonio presents a panorama of digital poetry history, from its origins, in 1959, until our days with the most advanced and creative innovations. The author shows how the resources of computer science, apparently cool and exact, can give new life to the universe of poetry when taking their producers and appreciators to the other artistic directions inside digital culture.

For Jorge Luiz Antonio his Digital Poetry: Theory, History, Anthologies is a book that "studies a type of contemporary poetry in its relationship with the arts, design and  computational technology, which is a continuation and an unfolding of avant-garde, concrete, visual, and experimental poetry". According to the Portuguese poet E.M. de Melo e Castro, the work has "clearly the intention and the author's accomplishment of a discussion about the reasons that can be invoked for the study of the transformations that the use of the technologies is already causing in the concept of poetry". 

Digital poetry: theory, history, anthologies comes accompanied by a DVD that gathers a complete anthology of digital poems and their predecessors, introducing 501 poems of 226 poets and 110 theoretical texts of 73 authors, Brazilians and foreigners, with about 1500 printed and electronic pages, giving a rare panorama of what has already been done in the area of poetic experimentation, in Brazil and in other countries. The DVD shows that "poetry, art, design, science and digital technology form the transdisciplinary quintet that a portion of the contemporary poets chose to accomplish their poetic communication", as Jorge Luiz Antonio says.  
    (Franklin Valverde, Onda Latina, Brazil)

Digital poetry: Theory, History, Anthologies is a co-edition of Navegar Press (São Paulo, Brazil), Luna Bisonte Prods (Columbus, Ohio, USA), FAPESP (The State of Sao Paulo Research Foundation (São Paulo, Brazil) and the Author. 
 
On the author: Jorge Luiz Antonio, university teacher, researcher, FAPESP scholarship, post-doctor in IEL-UNICAMP, is also the author of studies on Cesario Verde and Augusto dos Anjos. 

Digital Poetry: Theory, History, Anthologies
by  Jorge Luiz Antonio

Co-edition:

80 pages + DVD - US$ 15,00 or € 10,00 plus shipping costs


La poesía digital, la poesía del siglo XXI, resaltada en un nuevo estudio y antología
 
   
Jorge Luiz Antonio presenta un panorama de poesía digital en Brasil y en el mundo   
   
   
Hay muchas maneras de hacer poesía hoy en día, pero la que principalmente tiene estrecha relación con la lenguaje de las nuevas tecnologías es la poesía digital. En Poesía Digital: teoría, historia, Antologías, Jorge Luiz Antonio presenta un panorama de la historia de la poesía digital, desde sus orígenes, en 1959, hasta nuestros días, con las innovaciones más avanzadas y creativas. El autor muestra cómo los recursos de informática, aparentemente fríos e exactos, pueden dar una nueva vida al universo de la poesía al llevar sus productores y apreciadores a las otras direcciones artísticas dentro de la llamada cultura digital.  
  
Para Jorge Luiz Antonio su Poesía Digital: teoría, historia, antologías es un libro que "estudia un tipo de poesía contemporánea en sus relaciones con las artes, diseño y tecnología digital, que es una continuación y un desdoblamiento de poesía vanguardista, concreta, visual, y experimental". Según el poeta portugués E. M. de Melo e Castro, el trabajo tiene la intención y el procedimiento del autor de hacer una discusión "claramente sobre las razones que pueden invocarse para el estudio de las transformaciones que el uso de las tecnologías ya está causando en el concepto de poesía".   
 
Poesía digital: teoría, historia, antologías es un libro que viene acompañado por un DVD que recoge una antología completa de poemas digitales y sus predecesores, introduciendo 501 poemas de 226 poetas y 110 textos teóricos de 73 autores, brasileños y extranjeros, con aproximadamente 1500 páginas impresas y electrónicas, que da un panorama raro de lo que ya se ha hecho en el área de experimentación poética, en Brasil y en otros países. El DVD muestra que la "poesía, arte, diseño, ciencia y tecnología digital forman el quinteto transdisciplinario que una porción de los poetas contemporáneos escogió para lograr su comunicación poética", como dice Jorge Luiz Antonio.    
 
Poesía digital: teoría, historia, antologías es una co-edición de Navegar (São Paulo, Brasil), Luna Bisonte Prods (Columbus, Ohio, EUA.), FAPESP (Fundación de Amparo a la Pesquisa del Estado de Sao Paulo) (Sao Paulo, Brasil) y el Autor.   
   
Sobre el autor: Jorge Luiz Antonio, maestro universitario, investigador, becario de FAPESP, post-doctor en IEL-UNICAMP (Instituto de Estudios de la Lenguage, Universidad Estadual de Campinas, Brasil), también es autor de estudios sobre Cesario Verde y Augusto dos Anjos.  (Franklin Valverde, editor del periódico ONDA LATINA)


La Poesía digital: La teoría, la Historia, las Antologías
por Jorge Luiz Antonio

terça-feira, 19 de outubro de 2010

ARNALDO ANTUNES



OS BURACOS DO ESPELHO


o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar aqui

com um olho aberto, outro acordado

no lado de lá onde eu caí



pro lado de cá não tem acesso

mesmo que me chamem pelo nome

mesmo que admitam meu regresso

toda vez que eu vou a porta some



a janela some na parede

a palavra de água se dissolve

na palavra sede, a boca cede

antes de falar, e não se ouve



já tentei dormir a noite inteira

quatro, cinco, seis da madrugada

vou ficar ali nessa cadeira

uma orelha alerta, outra ligada



o buraco do espelho está fechado

agora eu tenho que ficar agora

fui pelo abandono abandonado

aqui dentro do lado de fora



PSIA 

Psia é feminino
                  de psiu;
   que serve para chamar a atenção
         de alguém, ou para pedir
   silêncio.
       Eu berro as palavras
   no microfone
           da mesma maneira com que
                       as desenho, com cuidado,
               na página.
    Para transformá-las em coisas,
em vez de substituirem
                                         as coisas,
Calos na língua; de calar.
           Alguma coisa entre a piscina e a pia.
                        Um hiato a menos.






domingo, 17 de outubro de 2010




LANÇAMENTOS

A Oficina Raquel tem o prazer de convidar para os lançamentos de

Alberto Pucheu primeiro autor da coleção de ensaios Canace com O amante da literatura (saiba mais em http://oficinaraquel.com/alberto.html)

André Dick que, publicando pela primeira vez com a Oficina, nos apresenta seu livro de poemas Calendário (saiba mais em http://oficinaraquel.com/andre.html)

Mauricio Chamarelli Gutierrez com seu segundo livro de poema, Largo (saiba mais em http://oficinaraquel.com/mauricio2.html)

Os lançamentos ocorrerão nos dias 19 de outubro, terça-feira, na CASA DAS ROSAS,em São Paulo, e 21 de outubro, quinta-feira, no FÓRUM DE DE CIÊNCIA E CULTURA DA UFRJ, no Rio de Janeiro.

 
LANÇAMENTO EM SÃO PAULO

(com a presença de André Dick, Alberto Pucheu e Mauricio Chamarelli Gutierrez)

CASA DAS ROSAS

Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura

Av. Paulista, 37 – Bela Vista, São Paulo

19 de outubro, terça-feira, 19h às 21:30



LANÇAMENTO NO RIO DE JANEIRO

(com a presença de Alberto Pucheu e Mauricio Chamarelli Gutierrez)

FÓRUM DE CIÊNCIA E CULTURA

(Av. Pasteur, 250 - Urca, Rio de Janeiro)

21 de outubro, quinta-feira, das 18h às 21:30

SOBRE ALBERTO PUCHEU E O AMANTE DA LITERATURA, QUE INAUGURA A COLEÇÃO CANACE

Alberto Pucheu abre a coleção Canace, que edita ensaios inéditos de jovens autores. A
presença de Luís de Camões na epígrafe, “Qual Canace, que à morte se condena/ Nua
mão sempre a espada, e noutra a pena” (Os Lusíadas, VII, 79, 7-8), além de prestar uma
homenagem ao grande poeta de língua portuguesa, sugere uma possível essência do
ensaísmo: lutar por um argumento, com “engenho e arte”.

O amante da literatura (de) Alberto Pucheu não tenciona estabelecer um panorama
da história literária, menos ainda analisar o mundo das letras de longe, tal qual um
espectador privilegiado por suas variadas leituras. É por isso que, como um amante que
não se separa do objeto amado, Pucheu procura, alimenta-se, digere e às vezes até se
abstém de sua amante – mas sempre sentido-a por perto como uma ausência. Assim,
por mais que a literatura possa (e deva) ser fugitiva, escorrendo pelos dedos daquele
que a persegue, seu amante sempre estará à espreita do momento de ao menos tentar
apreendê-la.

SOBRE ANDRÉ DICK E CALENDÁRIO

Calendário é uma bela apresentação da poética imagética e sensível de André Dick.
É também um espaço de trânsito de lugares e tempos; e ainda de autores do cânone
literário – brasileiro e estrangeiro –, como Drummond, Sylvia Plath, Leminski, Wallace
Stevens, Barthes, Paul Celan, William Carlos, Williams, Murilo Mendes. Segundo
RIcardo Corona, prefaciador do livro “Calendário é feito, sobretudo, de extrações
surpreendentes do detalhe, de olhares que miram o mínimo, que o marcam com ritmo
e imagens de rara beleza, que o atravessam de muitas maneiras e cujo endereço não
é endereço, mas lugar. Podemos, assim, perceber ritornelos destes acontecimentos
imagéticos que tanto se fazem presente num único poema quanto em todo o livro, livro-
ritmo.”

leia um poema de André Dick

O OLHAR

O olhar estabelece
a distância entre os quadros
e o copo de leite vigiado pelo gato
com os olhos vermelhos como artérias ou ímpetos pulmonares
(foram ao parque e esqueceram de abrir a água da torneira)
agora que ele pode se transformar num pote de tinta,
um quadro de Mondrian, num jardim; falta que sobre esta
paisagem própria do inverno, ainda em cima de outra –
qualquer sede: faz sentir o tempo e
sua ausência, a lentidão do pulso quando
não falha, já se perdeu, irregular e aflito, embora mie
entre as síncopes das árvores, assustado
com os longos galhos da floresta negra.


SOBRE MAURICIO CHAMARELLI GUTIERREZ E LARGO

Em seu segundo livro, o poeta Maurício Chamarelli Gutierrez nos apresenta uma
bela e bem cuidada reunião de poemas em prosa. Em Largo, temas tradicionais da
escrita contemporânea como o espaço, o tempo e a subjetividade são explorados por
Maurício neste livro. Poético porque prosaico, e porque não o inverso, Largo trata-se
de uma “Escrita para o homem qualquer. Trivial. O homem de negócios, o homem de
ação, que não nos lê ou a qualquer coisa que lemos, mas que partilha da mesma vida,
que esbarra em nós no mar da mesma loucura da cidade cheia de surpresas”

leia um poema de Mauricio chamarelli Gutierrez

Antes de qualquer coisa, ante a coisa qualquer

Prosa porque não se trata mais de escrever poemas (nunca se tratou). Trechos de romances nunca começados, herdeiros de sua fala impura, estes escritos envergam com orgulho a marca inegável da imprecisão (tomamos assim ciência da insuficiência de todo dito). Não se trata mais de acertar o alvo, mas de abrir córregos em todas as direções. De acatar a falibilidade de toda escolha num revés de  sabedoria: quando o silêncio é a única resposta, talvez seja o caso de não fazer mais perguntas. Vale simplesmente falar, quando se está pleno de silêncios, o vazio vazando por cada poro do braço que escreve.

Fragmentos de um diário de bordo, memórias de um imaginário inspetor de escola, aqui se engorda uma tradição que não remonta a Homero senão indiretamente, nunca por filiação. Tendo de passar primeiro por Henry Miller. Ou por Rimbaud, o demônio iluminado que nos legou a maldição deste lugar ubíquo que é o poema em prosa – última fala possível, pequena suspensão antes da derradeira queda no abismo. Escrevemos prosa. Prosaicamente. Escrita para o homem qualquer. Trivial. O homem de negócios, o homem de ação, que não nos lê ou a qualquer coisa que lemos, mas que partilha da mesma vida, que esbarra em nós no mar da mesma loucura da cidade cheia de surpresas; o homem que é nosso amigo e parente, cujo cotidiano é tão extraordinário quanto qualquer outro, que morre do mesmo mal que nos espreita e se esgueira entre café e suor sob o sol escaldante da ex-capital do país. Trívio, de trivial: o encontro de três vias ou caminhos. Mais comumente: largo.

Trata-se (para nós, sempre) de escrever no alheamento em que, longe de nossas aflitas telas em branco, nos encontramos com o homem do mundo. Para ganhá-lo. Não uma pretensa facilidade, mas a fala sem passado, como um vampiro, não como um e-mail de propaganda (o vampiro esquece, precisa esquecer, só assim ele pode seduzir). São, portanto, epístolas com destinatário incerto. A  prosa pensada das confissões perigosas. Na espera desesperada de que a urdidura dessas palavras possa tecer a vela para uma embarcação mais sutil; de que o entrelace ambíguo dessas cartas possa resistir ao vento que lhes sopra e nos lance de volta ao mar de que nos perdemos.

Aí, talvez, possamos compor um mapa.

sábado, 9 de outubro de 2010

NUEVOS POETAS CHILENOS - GERMÁN CARRASCO


 GERMÁN CARRASCO (Santiago, 1971) es un destacado poeta chileno, perteneciente a la llamada Generación del 90, premiado y reconocido internacionalmente, con cinco libros de poesía publicados: Brindis, La insidia del sol sobre las cosas, Calas, Clavados, y Multicancha.

Ha realizado estudios en Lengua y Literatura Inglesa (Facultad de Filosofía y Humanidades, Universidad de Chile).

Becario de Fundación Neruda en 1993. En 1996 fue finalista en el Concurso Casa de las Américas (Cuba). En 1997 obtuvo el Primer Premio del concurso Jorge Teillier de poesía organizado por DOLMEN y la Municipalidad de Las Condes. En 1998 fue seleccionado para el Creative Writing Program de la Universidad de Iowa, Estados Unidos. Durante 1999 dirigió el taller de Introducción a la poesía Norteamericana (Instituto Chileno-Norteamericano de Santiago). En 2000 realizó la traducción de "El mercader de Venecia" para Editorial Norma-Colombia. El mismo año obtuvo el Primer premio en el Concurso de Poesía Hispanoamericano Vox-Diario de Poesía, Buenos Aires, Argentina.


 

Wesley Duke Lee


UNA PAREJA  

          wild, wild world of animals 

Primer día y noche de los nuevos vecinos:
Pieles artificiales de cebras y felinos para tapizar cojines y sillones en un intento de asentamiento. Luego de las compras para decorar el lar, finiquitan con mariscos la jornada. Delimitan territorios inviolables, beben la cerveza de cansancio recostados (provisoriamente en el suelo); continúan los planes, algo encienden, sándalo tal vez; abren ventanas. Hacen el amor toda la noche. Y en el día:
 
El puntero. El segundero. Las piernas
y el mecanismo oscuro en que terminan
como promesa/ de muerte y despunte/ el sol.
2:45 PM./ verano / elongación desesperante.
Ella abre las piernas sobre su víctima;
su índice es un gancho para afirmarse
a la boca del joven en el descenso brusco
como si fuera a perecer en ese mar
ahogada/ azotando la melena/ mantarrraya
como la mujer araña cuando lanza su soga
con un garfio en un extremo para trepar
al rincón que es meollo y territorio del crimen.
Conjeturo una lista de palabras del español privado
que se jadean al oído y al techo
(del pequeño departamento).
                                          Es el momento en que las palomas
-como acatando alguna orden- cruzan con rumor de álamos altos
del techo de un block a otro (palomas, blocks: grises).
                                           Por las ventanas asoman
sábanas, camisas, calzones:
 
todas las banderas -hasta las de rendición-
  estilando. 
    
 

Wesley Duke Lee



HÉCTOR FIGUEROA MIRANDO A LAS ESTRELLAS

Trabajo como una persona sola
Como el chino y el pobre que soy
Como si quisiera surgir.
Compro CD's de Jazz, la revista madrileña Co & Co,
Libros de Anagrama, Visor e Hiperión.
Leo a poetas tan mal editados como mal nacidos
Que van al grano como las prostitutas al dinero:
Versos corto punzantes que empiezan generalmente con
mayúscula
Para que se sienta el martillazo
Y camuflar la prosa pura.
Mi casa es una taberna que recibe a toda clase de amigos:
Hijos de puta que consumen mi tiempo, mis libros
Y el trago que le da sentido
A mi vida sin sentido de cartero.
A veces viene la mujer araña
A encamarse conmigo durante días de ausencia laboral.
Me hace café, me da comida,
Limpia el baño de quinta de recreo
Y me deja vacío
Fumando, mirando las estrellas. 


 

Wesley Duke Lee



GANAS DE TROTAR BAJO LA TEMPESTAD

Nacimos en el desprecio a los signos de exclamación,
en habitáculos donde sólo se llega a dormir o al amor
y se sujetan los áfonos y dulces quejidos, en el desprecio
a esos signos que tanto daño han hecho a los amantes
y a la relación entre empleadores y empleados.
                                                                    Tenues
ofrecemos té y vino en diminutivos a quien comparte la charla,
el ajedrez sin fanfarronear el triunfo, sotto voce
como si con los decibeles se fueran a marchitar las calas
o fuera a ocurrir algo terrible
y alguien sugiere una épica del silencio,
conformada por la antología de Cuántos
ecos, susurros y gemidos
 
porque luego de leer versos durante media hora se puede sentir el paso de un diente de león con mensaje amante o una pelusa al cruzar el cuarto y comprender de inmediato que se trata de la muerte; luego de leer sin prejuicio a los pares la tradición la calle, se puede superar el gusto y los prejuicios; se puede entender las sutilezas burguesas en forma de haikúes, sonetos de agua y esas cosas. Sin inquietarse. 



Wesley Duke Lee



KERMESSE 

¡pero si es casi prosa! no hay claridad conceptual
 ¿a qué explicar absolutamente todo? es más insípido que comida de enfermo
  truquea traducciones y las sirve en platos frescos
   no se la puede con los metros no se la puede con el verso libre
    nada que decir a quién le interesan sus amoríos
     muy académico muy marginal
      una pálida copia de______________.
       hispanizante no ha leído a los clásicos hispanos
        ha leído demasiados clásicos muy provinciano
         nada bueno puede salir de las cloacas santiaguinas sus endecasílabos machacan
          demasiada métrica no tiene prosodia mucho adjetivo
           un feminismo trasnochado oracular, pretenciosa
            bueno, reconozco un par de versos notables que he leído en una poeta mexicana
             muy católico su rupturismo aburre se le secó el pozo
              no hay profundidad no hay trasfondo religioso
              dicen que es antisemita demasiada lectura de poetas judío-americanos
               se acostó con el jurado le prometió caviar al jurado
                fumó hierba con el jurado
                 lo vieron en provincia con el jurado en un bar de dudoso gusto y reputación
                  esa barba hippie esa pinta de milico pobre un punk de Nueva Quillahue
                   ese terno de tinterillo el tono de maricón rasca
 
                     Pura mierda. 


 

PARA UMA APRENDIZ DE ESPAÑOL

Sonidos que raspan la garganta como ciertos sabores, ruídos em la rugiente Babel, ritmo y rareza de uma lengua cuyo ronco raspar fricando alvéolos retumba cierta rudeza o rugir de raza rara, erres tribales, endogámicas, dificiles, lo último de aprender em uma lengua: lenguaje refinado de la poesia o um rasposo blues, si prefieres: delirario: diário de lírios y delírios mas ya que el desorden – como el de tu pelo sin ir más lejos – es um ordem dinámico, por ahí hemos de empezar: di rosa


 

Wesley Duke Lee



HAMMELIN

Los bufones están en otra parte
No tienen noción están en otro círculo
al que arrastraron también a los escuchas
Los bufones están en otra parte
con las baquetas trompetas y contrabajos
en las manos como arañas de rincón.






Wesley Duke Lee




POR UNA CABEZA

¿Y si lográramos ganarle al tiempo:
ese caballo loco,
ese purasangre favorito
que parte siempre con varios cuerpos de ventaja?


2

Acostúmbrate a apostar
cantidades más grandes
-me dice un amigo-
Acostúmbrate:
si el suelo fuera vertical
tendrías que dormir de pie.


3

Purasangres desbocados
y bellos.






Wesley Duke Lee






UN VIEJO Y UN ZORZAL CON FONDO ROJO

Este zorzal que siempre es bienvenido
en la plaza en la página en el patio
constituye con el vino y el diario
el último sabor que he conseguido.

Sólo yo de verdad entiendo el trino:
el presente es el presente es el canto
el pájaro el oído el pelo cano.
Rato hace lo demás perdió sentido
o lo tuvo mucho, yo estoy tranquilo.
Zorzal canta y camina con los nervios
camina agachado y se para recto.
Zorzal con fondo rojo, decidido
a convencerme que nada es más cierto
que la aurora el crepúsculo el infierno.
  




Wesley Duke Lee





DEL TITANIC Y EL ZEPPELIN

Recuerdo la lectura de poemas, el eco de la ovación.
Una rubia bautizaba la proa de la nave con champagne:
espuma de mar, semen liviano del que nacen acróbatas
y bardos (cada metro el latigazo de una ola)
como el que los despedía en ese momento épico
del poderío americano: magnitud y misterio comparables
al del zeppelin nacional-socialista,
majestuoso velo sobre la insidia del sol:
metáforas colosales
aunque lamentablemente poco prácticas
cuya historia, junto a la de Babel, escribimos
con sumo cuidado
en barcos de papel, granos de arroz.






EL SOL DE LAS TRES DE LA TARDE I


Para las urracas o el abatido nido de sus ojos
brillan los tesoros: sillas de ruedas, baratijas
en manos virginales, en regazos.
Capta su plasticidad: el sol
puede afiebrarte como a un recién nacido
o a un raquítico y afectado manos finas
al concentrarse en los trozos brillantes
de una botella rota en plena acera, al asolar
y desolar las fachadas continuas de esta parte;
al enmarcar defectos físicos, bellezas excesivas;
al cruzar parabrisas y ojos claros. No es justo
decir que afea el día cuando pone
un velo de bruma sobre el género
insidioso, acentuado de las cosas
ni culpar a la noche de la traición, el crimen
o de los últimos sucesos, cualesquiera
que estos sean. Un buen día (se podría decir)
a pesar de la engañosa apariencia
del sol sobre las cosas. Además, recuerda
lo terrible que fue ver (aunque por algunos segundos)
al sol como una moneda vieja
o una ampolleta de bajo voltaje
hace algunos años, en el eclipse, en Putre.







CANTO DE CHINCOLES
 
(o la más bella acupunturista japonesa)

Chincol (América Meridional; Zonotrichia capensis). Pájaro del género
“Zonotrichia” pequeño, semejante al gorrión, pero cantor, con un pequeño
penacho y ribetes rojizo, ladrillo, piedra, etc. Su canto, según la gente dice: ¿Hai
visto a mi tío Agustín con un zapato y un calcetín?

Es un río el frío serpentino
-o frescor sinuoso, si prefieres-
que filtra los oídos y pregunta
por su camisa de seda. Es una i
latina: un clavado, un pinchazo,
una inyección emoliente.
 

Las orejas son flores con polen. Ta claro.
Por eso los pájaros meten su canto en las orejas
y en las victrolas y los lirios y anda a ver
y a saber: los roles se confunden en el sexo.
La guirnalda sangrienta y filosa: el trino
como la sangre de los piures y el Tabasco
como crepúsculos de yodo y metapío.
La camisa está empapada. Puente sonoro.
Aguja de plata en los tímpanos.
Inyección emoliente. Droga.
Penetración, ambrosía del dolor.
La más bella acupunturista japonesa.

Los chincoles dibujan en los tímpanos
el aire rojo de la madrugada: dibujan
un nido de venas, las propias, no: una vena,
un símbolo infinito o un rollo de manguera
del que sólo suponemos sus extremos
por el olor a tierra mojada y las gotas en las rosas
-rostros de niñas perlados de sudor -
y porque el cordaje podría danzar
como una cobra ante el canto de estos pájaros.





Wesley Duke Lee


PORQUE TANTO DEPENDE

                      planchen esta camisa con cariño
                     porque tanto depende

Esta leñadora tan Cobain tan Carver
tan americana, aunque hecha en oriente
por un hermoso Mao Tse Tung menor de edad.

Esta camisa –tartan- con pretensiones de frazada
hizo un largo viaje desde Fu Cheng
hasta el sano y rozagante cuerpo
de un adolescente del Midwest o Seattle

y de ahí a unas dependencias mormonas
en donde la empaquetaron y enviaron
a tiendas de ropa usada en Sudamérica.
donde la compraste.

Luego viajó de vuelta a EUA
cuando fuiste, aunque no al mismo
estado a hacer un Ph.D

(para que en tu Lima natal luego le dieran el trabajo
a los que apenas habían terminado la secundaria,
pero provenían de sectores que dan garantía
buenos apellidos buenas escuelas)

y luego de vuelta a Sudamérica, la camisa

que luego usó tu hermano menor y luego
el hijo del portero y así hasta convertirse
en este paño con el que ustedes sacan lustre
a los zapatos para presentarse,
curricula bajo el brazo y bien peinados
a una cola más larga y monótona que La Araucana
o que un siglo de inviernos en Santiago.

Con ese trapo -por hacer algo-, pulen copas
—trofeos de un club que no existe—
de una feria de segunda (todo es vintage)
bajo el cielo color gargajo
de un domingo de emisora AM.
Tiempo muerto de gente no inserta,
melancolía de losers rematados .

Esa podría ser al trayectoria de un texto

pero tú insistes en la famosa camisa,
que si hubo tal cosa que no importa te insisto
que cuántas veces te tengo que explicar
lo que importa es el movimiento te digo
mientras la camisa gotea en un cordel
como exhausta bandera de rendición.