quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Zbigniew Herbert

Outras marcas da pele, Siron Franco


 
 
 
 
 
 
 
 
 


O SENHOR COGITO MEDITA SOBRE O SOFRIMENTO

Todas as tentativas de afastar
o assim chamado cálice de amargura -
pela reflexão
pela frenética ação em favor dos gatos de rua
a respiração profunda
a religião -
fracassaram

é preciso aceitar
baixar manso a cabeça
não torcer as mãos
usar o sofrimento com medida e ternura
como uma prótese
sem falsa vergonha
mas também sem orgulho inútil

nada de brandir os restos da amputação
sobre a cabeça dos outros
nada de bater com uma bengala branca
sobre a janela dos saciados

beber o extrato de ervas amargas
mas não até o fim
guardar por precaução
algumas gotas para o porvir

acolhê-lo
mas ao mesmo tempo
diferenciá-lo em si
e se isso for possível
criar da matéria do sofrimento
uma coisa ou uma pessoa


jogar
com ele
sim
jogar
brincar com ele
com muito cuidado
como se brinca com uma criança doente
para arrancar-lhe por fim
com truques bobos
a sombra
de um sorriso


Tradução de Carlito Azevedo e Olga Kempinska.

sábado, 3 de dezembro de 2011

João Cabral de Melo Neto

Preciso respirar, a poesia atual precisa respirar. Todos aos balões de oxigênio. Então ao gênio construtor, mergulho tríplice na arquitextura, invasão da oficina onde Cabral fabricava vacinas contra a obviedade patético-poética. Um dizer afiado, um risco, uma aventura ou rasura no deserto.  Palavras-ponte sobre o leito seco de rios que correm nas veias dos seres humanos.

Para o meu amor em pedaços, para a minha calvície, para a minha melancolia ácida, para o meu niilismo militante, para a nossa dor de cabeça e de barriga, para o fantasma do desemprego e das dívidas, nada melhor do que drágeas de Cabral três vezes ao dia. 

Leia o primeiro poema após o café da manhã, o segundo após o almoço e o terceiro após a jantar. Em sete dias o seu amor estará de volta, você encontrará um bom emprego ou acertará na loteria. É tiro e queda. (Vou ver se daqui a sete dias a minha musa secreta me telefona. Se isso acontecer, a afirmação realmente fará sentido).







Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

                        2.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

(In Antologia poética. 7ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 17-18.)




Catar feijão

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
E jogar fora o leve e oco, palha e eco.

                           2.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
O de que entre os grãos pesados entre
Um grão qualquer, pedra ou indigesto,
Um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
A pedra dá à frase seu grão mais vivo:]
Obstrui a leitura fluviante, flutual,
Açula a atenção, isca-a com o risco.

(In Antologia poética. 7ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 18-19.)





Rios sem discurso

Quando um rio corta, corta-se de vê
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma,
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
    fio de água por que ele discorria.

O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloquência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

(In Antologia poética. 7ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1989, p. 23.)

Manuel Bandeira




















SATÉLITE




Fim de tarde.
No céu plúmbeo
A Lua baça
Paira


Muito cosmograficamente
Satélite.


Desmetaforizada.
Desmitificada.


Despojada do velho segredo de melancolia,
Não é agora o golfão de cismas,
O astro dos loucos e dos enamorados,
Mas tão-somente
Satélite.


Ah Lua deste fim de tarde,
Demissionária de atribuições românticas:
Sem show para as disponibilidades sentimentais!


Fatigado de mais-valia,
Gosto de ti assim:
Coisa em si,
- Satélite.

(BANDEIRA, Manuel. In Estrela da vida inteira. 4a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, p. 232.)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

PAUL VALÉRY





LE CIMETIÈRE MARIN


          Me, phila psukha, Bion athanaton
            spheude, tan demphrakton anlei makhanan.
            (Pindare. Phythiques III)


Ce toit tranquille, où marchent des colombes,
Entre les pins palpite, entre les tombes;
Midi le juste y compose de feux
La mer, la mer, toujours recommencée
O récompense après une pensée
Qu'un long regard sur le calme des dieux!

Quel pur travail de fins éclairs consume
Maint diamant d'imperceptible écume,
Et quelle paix semble se concevoir!
Quand sur l'abîme un soleil se repose,
Ouvrages purs d'une éternelle cause,
Le temps scintille et le songe est savoir. 

Stable trésor, temple simple à Minerve,
Masse de calme, et visible réserve,
Eau sourcilleuse, Oeil qui gardes en toi
Tant de sommeil sous une voile de flamme,
O mon silence! . . . Édifice dans l'âme,
Mais comble d'or aux mille tuiles, Toit! 

Temple du Temps, qu'un seul soupir résume,
À ce point pur je monte et m'accoutume,
Tout entouré de mon regard marin;
Et comme aux dieux mon offrande suprême,
La scintillation sereine sème
Sur l'altitude un dédain souverain. 

Comme le fruit se fond en jouissance,
Comme en délice il change son absence
Dans une bouche où sa forme se meurt,
Je hume ici ma future fumée,
Et le ciel chante à l'âme consumée
Le changement des rives en rumeur. 

Beau ciel, vrai ciel, regarde-moi qui change!
Après tant d'orgueil, après tant d'étrange
Oisiveté, mais pleine de pouvoir,
Je m'abandonne à ce brillant espace,
Sur les maisons des morts mon ombre passe
Qui m'apprivoise à son frêle mouvoir. 

L'âme exposée aux torches du solstice,
Je te soutiens, admirable justice
De la lumière aux armes sans pitié!
Je te tends pure à ta place première,
Regarde-toi! . . . Mais rendre la lumière
Suppose d'ombre une morne moitié. 

O pour moi seul, à moi seul, en moi-même,
Auprès d'un coeur, aux sources du poème,
Entre le vide et l'événement pur,
J'attends l'écho de ma grandeur interne,
Amère, sombre, et sonore citerne,
Sonnant dans l'âme un creux toujours futur! 

Sais-tu, fausse captive des feuillages,
Golfe mangeur de ces maigres grillages,
Sur mes yeux clos, secrets éblouissants,
Quel corps me traîne à sa fin paresseuse,
Quel front l'attire à cette terre osseuse?
Une étincelle y pense à mes absents. 

Fermé, sacré, plein d'un feu sans matière,
Fragment terrestre offert à la lumière,
Ce lieu me plaît, dominé de flambeaux,
Composé d'or, de pierre et d'arbres sombres,
Où tant de marbre est tremblant sur tant d'ombres;
La mer fidèle y dort sur mes tombeaux! 

Chienne splendide, écarte l'idolâtre!
Quand solitaire au sourire de pâtre,
Je pais longtemps, moutons mystérieux,
Le blanc troupeau de mes tranquilles tombes,
Éloignes-en les prudentes colombes,
Les songes vains, les anges curieux! 

Ici venu, l'avenir est paresse.
L'insecte net gratte la sécheresse;
Tout est brûlé, défait, reçu dans l'air
A je ne sais quelle sévère essence . . .
La vie est vaste, étant ivre d'absence,
Et l'amertume est douce, et l'esprit clair. 

Les morts cachés sont bien dans cette terre
Qui les réchauffe et sèche leur mystère.
Midi là-haut, Midi sans mouvement
En soi se pense et convient à soi-même
Tête complète et parfait diadème,
Je suis en toi le secret changement. 

Tu n'as que moi pour contenir tes craintes!
Mes repentirs, mes doutes, mes contraintes
Sont le défaut de ton grand diamant! . . .
Mais dans leur nuit toute lourde de marbres,
Un peuple vague aux racines des arbres
A pris déjà ton parti lentement. 

Ils ont fondu dans une absence épaisse,
L'argile rouge a bu la blanche espèce,
Le don de vivre a passé dans les fleurs!
Où sont des morts les phrases familières,
L'art personnel, les âmes singulières?
La larve file où se formaient les pleurs. 

Les cris aigus des filles chatouillées,
Les yeux, les dents, les paupières mouillées,
Le sein charmant qui joue avec le feu,
Le sang qui brille aux lèvres qui se rendent,
Les derniers dons, les doigts qui les défendent,
Tout va sous terre et rentre dans le jeu! 

Et vous, grande âme, espérez-vous un songe
Qui n'aura plus ces couleurs de mensonge
Qu'aux yeux de chair l'onde et l'or font ici?
Chanterez-vous quand serez vaporeuse?
Allez! Tout fuit! Ma présence est poreuse,
La sainte impatience meurt aussi! 

Maigre immortalité noire et dorée,
Consolatrice affreusement laurée,
Qui de la mort fais un sein maternel,
Le beau mensonge et la pieuse ruse!
Qui ne connaît, et qui ne les refuse,
Ce crâne vide et ce rire éternel! 

Pères profonds, têtes inhabitées,
Qui sous le poids de tant de pelletées,
Êtes la terre et confondez nos pas,
Le vrai rongeur, le ver irréfutable
N'est point pour vous qui dormez sous la table,
Il vit de vie, il ne me quitte pas! 

Amour, peut-être, ou de moi-même haine?
Sa dent secrète est de moi si prochaine
Que tous les noms lui peuvent convenir!
Qu'importe! Il voit, il veut, il songe, il touche!
Ma chair lui plaît, et jusque sur ma couche,
À ce vivant je vis d'appartenir! 

Zénon! Cruel Zénon! Zénon d'Êlée!
M'as-tu percé de cette flèche ailée
Qui vibre, vole, et qui ne vole pas!
Le son m'enfante et la flèche me tue!
Ah! le soleil . . . Quelle ombre de tortue
Pour l'âme, Achille immobile à grands pas! 

Non, non! . . . Debout! Dans l'ère successive!
Brisez, mon corps, cette forme pensive!
Buvez, mon sein, la naissance du vent!
Une fraîcheur, de la mer exhalée,
Me rend mon âme . . . O puissance salée!
Courons à l'onde en rejaillir vivant. 

Oui! grande mer de délires douée,
Peau de panthère et chlamyde trouée,
De mille et mille idoles du soleil,
Hydre absolue, ivre de ta chair bleue,
Qui te remords l'étincelante queue
Dans un tumulte au silence pareil 

Le vent se lève! . . . il faut tenter de vivre!
L'air immense ouvre et referme mon livre,
La vague en poudre ose jaillir des rocs!
Envolez-vous, pages tout éblouies!
Rompez, vagues! Rompez d'eaux réjouies
Ce toit tranquille où picoraient des focs! 




O CEMITÉRIO MARINHO

 
Tradução: Jorge Wanderley


          Ó minha alma, não aspira à vida
          imortal, mas esgota o campo do possível.
          (Píticas, III)



Esse teto tranquilo, onde andam pombas,
Freme em tumbas e pinhos, quando tomba
Pleno o Meio-Dia e cria, abrasado,
O mar, o mar, sempre recomeçado!
Ó recompensa, após o ter pensado,
O olhar à paz dos deuses, prolongado!

Que labor de lampejos se consuma
Plural diamante de furtiva espuma
E a paz que se parece conceber!
Quando no abismo um sol procura pausa,
Pura obra-prima de uma eterna causa,
O Tempo cintila e o Sonho é saber.

Tesouro estável, templo de Minerva,
Massa de calma e visível reserva,
Mar soberano, olho a guardar secreto
Sob um véu de chama o sono que acalma,
Ó meu silêncio!.. Edifício em minh’alma
Dourado cume de mil telhas, Teto!

Templo do Tempo, expresso num suspiro
Chegado ao alto eu amo o meu retiro,
De todo envolto em meu olhar marinho;
E como aos deuses melhor doação,
Semeia a serena cintilação
Desdém soberbo em meu alto caminho.

Como no gozo o fruto se dissolve,
E em delícia sua ausência se resolve
Na boca em que se extingue sua forma,
Sorvo aqui o futuro dos meus fumos,
E canta o céu, à alma que consumo,
As margens que em rumores se transformam.

Belo céu, vero céu me transfiguro!
Depois de tanto orgulho e estranho e impuro
Lazer – mesmo com forças a contento -
Eu me abandono ao reluzente espaço
E ao lar dos mortos, feito sombra, passo
Confinado a seus débeis movimentos.

Às tochas do solstício a alma aceita
E bem defende a justiça perfeita
Da luz, com suas armas sem piedade!
Torno-te, em teu lugar de origem, pura;
Mas olha!… ter a luz por criatura
Supõe de sombra uma triste metade.

Só pra mim, exclusividade extrema,
Perto de um peito, às fontes do poema,
Dividido entre o vácuo e o fato puro,
Quero escutar minha grandeza interna,
Amarga, escura e sonora cisterna,
N’alma um vazio som, sempre futuro!

Ó falso prisioneiro da folhagem,
Golfo que engole as grades em ramagem,
Vês nos meus olhos segredos ardentes,
Que corpo ao seu fim ocioso me impele,
Que fronte aos ossos da terra o compele?
Uma centelha lembra meus ausentes.

Fechado, sacro, em fogo imaterial,
Terreno ofertado à luz matinal,
Pleno de chamas – amo este lugar,
Composto em ouro e pedra, sombras, árvores
Onde por sobre sombras treme o mármore;
Sobre as tumbas, fiel, repousa o mar!

Cão esplendente, afasta adoradores!
Quando sozinho, em riso de pastores
Calmo apascento ovelhas misteriosas,
Rebanho branco de tumbas quiescentes,
Afasta logo essas pombas prudentes,
E os sonhos vãos e os anjos curiosos!

Aqui chegado, é preguiça, o futuro,
Toda a secura arranha, o inseto puro;
Queimado e findo é tudo ao ar doado
E a alguma que não sei, severa essência…
A vida é ampla, quando ébria de ausência
Doce amargura , o espírito aclarado.

Os mortos vão bem, guardados na terra
Que os aquece e os mistérios lhes encerra.
O meio-dia imóvel na amplidão
Pensa em si mesmo, e se vê satisfeito…
Completa fronte, diadema perfeito,
Eu sou em ti secreta alteração.

Só tens a mim para te proteger!
Remorsos, dúvidas que eu conhecer,
Do teu grande diamante são defeitos…
Mas numa noite pesada de mármores
Um povo errante entre raízes de árvores
Tem lentamente o teu partido aceito.

Eles se apagam numa ausência franca,
Bebeu a argila rubra a espécie branca.
O dom da vida em flores se recria!
Dos mortos, onde as frases familiares
As artes próprias, almas singulares?
E fia a larva onde o pranto nascia.

Os gritos das donzelas excitadas,
Os olhos, dentes, pálpebras molhadas,
O seio, encanto que brinca com fogo,
O sangue, luz nos lábios que se rendem,
Os bens finais e os dedos que os defendem,
Tudo retorna à terra e ao mesmo jogo!

E tu, grande alma, por um sonho esperas
Que já não tem as cores das quimeras
Que a humanos olhos o ouro e a onda trazem?
Cantarás, quando apenas vaporosa?
Tudo me foge à presença porosa,
Sagradas ânsias também se desfazem!

Magra imortalidade, negra e de ouro.
Consoladora horrível em seus louros,
Que fazes da morte um seio materno,
Bela mentira, a cilada mais pia,
Quem não conhece e quem não repudia
O crânio oco, este sorrir eterno?

Profundos pais, cabeças desertadas,
Sob o peso e o trabalho das enxadas
Sois a terra, e os passos nos perturbais;
O irrefutável roedor, o verme,
Não é para vós, que dormis inermes,
É para a vida e não me deixa mais!

Amor, talvez, ou ódio é que o anima?
Tanto o seu dente oculto se aproxima
Que os nomes todos lhe são convenientes!
Que importa? Ele vê, sonha, quer, reclama!
Ama-me a carne, e mesmo em minha cama
A este ser pertenço eternamente!

Zenão, Zenão de Eléia, desumano!
Feriste-me de um dardo alado e insano
Que voa e está inerte nos espaços!
Gera-me o som, rouba-me o dardo a vida!
Ó sol… Que tartaruga à alma surgida,
Ver Aquiles imóvel nos seus passos!

Não, não!… De pé!… às horas sucessivas!
Quebra, meu corpo, a forma pensativa!
Bebe, meu seio, a brisa renascida!
Um novo frescor, do mar exalado
Devolve-me a alma… Ó poder salgado!
Vamos à onda, ao ímpeto da vida!

Sim! Grande mar de delírios dotado,
Pelo de pantera, manto rasgado
É por mil ídolos do sol ferido,
Ébria da carne azul, hidra absoluta
Que em luz a própria cauda morde e luta
Num tumulto ao silêncio parecido,

Eis se ergue o vento!… Há que tentar viver!
O ar me abre e fecha o livro que ia ler;
Vaga audaciosa, às rochas te esfacelas!
Pois voa, página que enlouqueceste!
Rompei, vagas,de águas felizes, este
Teto tranquilo onde bicavam velas!

In:VALÉRY, Paul. O cemitério marinho. Trad. Jorge Wanderley. 2..ª ed, São Paulo: Max Limonad, 1984.


sábado, 19 de novembro de 2011

GÉRARD DE NERVAL (1808-1885)




 O primeiro Nerval a ser conhecido foi o tradutor de Goethe. O segundo o poeta amável das “Odelentes”, o autor de lieder alemães em língua francesa, o lírico delicado dos Petits châteaux de Bohème. O terceiro, e o maior e definitivo, é o visionário, o louco, real e não apenas literário, o criador de mitologias de Aurélia e das “Quimeras”. Como com o Hölderlin da última fase, o preço da travessia do portal que se abre ao mundo invisível foi a loucura, assim como com William Blake ou Swedenborg. Em nenhum desses casos chegáramos ainda à decisão racional e pré-surrealista de ser tornar um “vidente”, como fez Rimbaud, através de um desregramento geral de todos os sentidos teorizado e procurado.

Entramos assim na controversa relação entre gênio e loucura. Poucas obras poéticas, em toda a literatura francesa, deram origem a tão vasta bibliografia como essas duas dezenas de sonetos, na verdade menos que isso, se considerarmos os que são quase variações de outros e partes de outros, estranhamente permutadas. Na tentativa vã de encontrar uma interpretação definitiva todas as doutrinas e escolas de pensamento foram chamadas, da alquimia à psicanálise, da cabala ao orfismo, da teosofia à numerologia, sem que nunca se tenha chegado a um resultado totalmente convincente. De fato, a pan-religiosidade das “Quimeras”, a sua antiortodoxia em relação a qualquer sistema são os índices infalíveis da derrota de toda tentativa de interpretação absoluta. Pois, mais do que uma afirmação da existência de determinada verdade oculta, essa poesia originalíssima é a própria verdade oculta, que se realiza mas não se desvela. Através dela entramos num mundo de sensibilidade desconhecido para nós. Depois dela, apesar de sabermos que lá estivemos, ele permanece desconhecido. Esse é um milagre típico da arte, a possibilidade de penetrar o mistério sem desvendá-lo, o que significaria destruí-lo. E como não perceber que o grande significado intrínseco do mistério é a sua própria permanência, tal como ele é, na iminência potencial de um desvendamento que é o seu predicado mais autêntico?

Figura dócil e discreta do grande momento do Romantismo, biograficamente tendendo a um estado de revêrie muito comum até em individualidades bem secundárias daquele período, Nerval foi pouco a pouco- nutrido de todas as frustrações pessoais e sonhos não cumpridos que acompanham qualquer homem, além de uma continuada leitura dos grandes autores iniciáticos – abrindo a brecha na grande muralha da realidade concreta e indivisível, através da qual, nos seus últimos anos de vida, conceberia o estranho coroamento de sua obra. Nas “Quimeras”, mais do que a estetização de qualquer doutrina, encontramos um puro e intocado anelo do sagrado, alimentado indiscriminadamente de todas as suas manifestações externas, mesmo antagônicas. (...)

Nerval, alimentado há muito por leituras ocultistas, gnósticas, pitagóricas e cabalistas, alem do ambiente romântico favorável a todo o fantástico, viveu pessoalmente o mergulho na floresta das analogias arquetípicas, das genealogias fantásticas, das simbologias delirantes. Anos depois, numa experiência semelhante, Strindeberg vagaria pelas mesmas ruas de Parias procurando nos menores incidentes um sinal escapado da verdadeira ordem oculta do mundo, a autêntica frente da tapeçaria, da qual vemos apenas o reverso que é a verdadeira origem, final e determinação de tudo que nos acontece.

Entrando, como um arqueólogo, no anfiteatro das ciências mortas, tocado para lá por suas frustrações amorosas, biográficas ou outras necessidades mais obscuras e profundas, Nerval se encontra no meio das ruínas de todas as religiões, templos derruídos, estátuas derrubadas, inscrições mutiladas, estranhas arquiteturas sacras de cultos desconhecidos ou mesmo inconciliáveis, mas que no entanto se misturaram no trovão ensurdecedor e escuro de suas quedas concomitantes, perante a pretensa invasão da razão de um século de luzes.

Neste chão juncada de humanidade há símbolos cristãos revestindo deuses egípcios, árvores sagradas gregas crescendo sobre fundamentos de zigurates babilônicos, cordas de liras órficas enroscadas aos rosários de santas peninsulares, e a noite eterna da alma, como a única catedral indestrutível, crescendo sobre tudo.

Ele antão, já o criador de genealogias alucinadas, descente de persas e cruzados, de troncos napoleônicos e normando, como um grande iluminado, como um que realmente em sua vida passou pela experiência do desdobramento, a visão de que todo este universo é apenas um lado da moeda, penetra, feito um novo arquiteto, para reconstruir, em duas dezenas de sonetos, em duas dezenas de “Quimeras”, o seu tempo órfico-céltico.egípcio-pitagórico-cabalístico-cristão, onde ele mesmo, com o sangue mitologicamente nobre que corre em suas veias, é o neófito e o mestre, o sacrificador e a vítima, o sacerdote e o ídolo oculto.

Aí estão as fadas e as rainhas, os dragões mortos e os deuses vingadores, as santas e as grotas impenetráveis, dos quais só uma mente tem a visão e o segredo. E desta confusão de todos os arquétipo, dessa corrida alucinada de todas as analogias, desta compensação sagrada de todas as limitações de nossa vida miserável, desta série de quadros de Moreau pintados com palavras antes que Moreau os pintasse, emergem, pela primeira vez, e nunca tão claramente, o Simbolismo, fonte de toda a poesia moderna, e o Surrealismo, que sempre de alguma maneira impregnou toda a literatura que lhe sucedeu.

Fragmento da introdução de Alexei Bueno ao livro - por ele traduzido - As Quimeras, de Gérard Nerval – Rio de Janeiro: Topbooks, 2006, do qual retirei os sete poemas abaixo.





EL DESDICHADO

Je suis le Ténébreux, - le Veuf, - l’Inconsolé,
Le Prince d’Aquitaine à la Tour abolie:
Ma seule Etoile est morte, et mon luth constellé
Porte le Soleil noir de la Mélancolie.

Dans la nuit du Tombeau, Toi qui m’as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon coeur désolé,
Et la treille ou le Pampre à la Rose s’allie.

Suis-je Amour ou Phébus?...  Lusignan ou Biron?
Mon front est rouge encor du baiser de la Reine;
J’ai revê dans la Grotte où nage la Syrène...

Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron:
Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée
Les soupirs de la Sainte et les cris de la Fée.

(p. 20)


EL DESDICHADO

Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,
O Senhor de Aquitânia à Torre da abulia:
Meu único Astro é morto, o meu alaúde iriado
Irradia o Sol negro da Melancolia.

Na noite Sepulcral, Tu que me hás consolado,
O Posílipo e o mar Itálico me envia,
A flor que tanto amava o meu ser desolado,
E a treliça onde a Vinha à Roseira se alia.

Sou Biron, Lusignan?...  Febo ou Amor?  Na fronte
Ainda o beijo da Rainha rubro me incendeia;
Eu sonhei na Caverna onde nada a Sereia...

E duas vezes cruzei vencedor o Aqueronte:
Modulando na cítara a Orfeu consagrada
Os suspiros da Santa e os arquejos da Fada.

(p. 21)






MYRTHO

Je pense à toi, Myrtho, divine enchanteresse,
Au Pausilippe altier, de mille feux brillant,
A ton front inondé des clartés d’Orient,
Aux raisins noirs mêlés avec l’or de ta tresse.

C’est dans ta coupe aussi que j’avais bu l’ivresse,
Et dans l’éclair furtif de ton oeil souriant,
Quand aux pieds d’Iacchus on me voyait priant,
Car la Muse m’a fait l’un des fils de la Grèce.

Je sais pourquoi là-bas de volcan s’est rouvert…
C’est qu’hier tu l’avais touché d’un pied agile,
Et de cendres soudain l’horizon s’est couvert.

Depuis qu’um duc normand brisa tes dieux d’argile,
Toujours, sous les rameaux du laurier de Virgile,
Le pâle hortensia s’unit au myrte vert!

(p. 22)


MIRTO

Eu penso, Mirto, em ti, mágica divindade,
No Posílipo altivo, em mil fogos ardente,
Em tua fronte que mina os brilhos do Oriente,
Na tua trança entre as uvas na áurea escuridade.

Em tua taça também eu bebi a ebriedade,
E no raio furtivo em teu olhar ridente,
Quando de Iacchus aos pés me viram como crente,
Porque a Musa me fez um Grego de outra idade.

Eu sei por que o vulcão além rugiu desperto...
Foi que o houveste tocado ontem de um pé ligeiro,
E o horizonte de cinzas logo foi coberto.

Se os teus deuses em pó fez um duque estrangeiro,
Sempre, sob a virgílica haste do loureiro,
À branca hortênsia se une o verde mirto aberto!

(p. 23)




HORUS

Le dieu Kneph en tremblant ébranlait l’universe:
Isis, la mére, alors se leva sur sa couche,
Fit un geste de haine à son époux farouche,
Et l’ardeur d’autrefois brilla dans ses yeux verts.

“Le voyez-vous, dit-elle, il meurt, ce vieux pervers,
Tous les frimas du monde ont passé par sa bouche,
Attachez son pied tors, éteignez son oeil louche,
C’este le dieu des volcans et le roi des hivers!”

“L’aigle a déjà passé, l’esprit nouveau m’appelle,
J’ai revêtu pour lui la robe de Cybèle...
C’est l’enfant bien-aimé d’Hermès et d’Osiris!”

La déesse avait fui sur sa conque dorée,
La mer nous renvoyait son image adorée,
Et les cieux rayonnaient sous l’écharpe d’Iris.

(p.24)


HÓRUS

O deus Kneph tremendo abalava o universo:
Ísis, a mãe, então ergueu-se do seu leito,
Fez um gesto de ódio ao esposo contrafeito,
E ao verde olhar surgiu o antigo ardor imerso.

Disse ela: “Ei-lo que morre, este velho perverso,
Toda a geada do mundo em sua boca achou preito,
Amarrai seu pé torto, arriai o olho imperfeito,
Este é o deus dos vulcões e o rei do inverno adverso!

A águia passou, o novo espírito me impele,
Por ele eu me vesti com as roupas de Cibele...
É o bem-amado infante de Hermes e de Osíris!”

Fugira a deusa já em sua concha dourada,
O mar fazia rever sua imagem adorada,
E brilhavam os céus por sob o manto de Ísis.

(p. 25)


 



ANTEROS

Tu demandes pourquoi j’ai tant de rage au coeur
Et sur um col flexible une tête indomptée;
C’est que je suis issu de la race d’Antée,
Je retourne les dards contre le dieu vainqueur.

Oui, je suis de ceux-là qu’1inspire le Vengeur,
Il m’a marqué le front de sa lèvre irritée,
Sous la pâleur d’Abel, hélas!  ensanglantée,
J’ai parfois de Caïn l’implacable rougeur!

Jéhovah! le dernier, vaincu par ton génie,
Qui, du fond des enfers, criait: “O tyrannie!”
C’est mon aïeul Bélus ou mon père Dagon…

Ils m’ont plongé trois fois dans les eaux du Cocyte,
Et, protégeant tout seul ma mère Amalécyte,
Je ressème à ses pieds les dents du vieux dragon.

(p. 26)


ANTEROS

Tu perguntas por que na alma tanto furor
E sobre o frágil ombro uma fronte indomada,
É que a raça de Anteu é a minha árvore herdade,
E eu volto os dardos contra o deus triunfador.

Eu sou um dos que sorvem a alma ao Vingador,
Na testa me pousou sua boca irritada,
Na palidez de Abel, oh! Deus, ensanguentada,
Eu chego a ter de Caim o implacável rubor!

O último, Jeová!, findo por tua magia,
Que lá do fundo inferno uivava: “Oh! Tirania!”
É Belus meu avô ou o meu pai Dagão...

Três vezes do Cocito hauri a água maldita,
E, só, guardando a minha mãe Amalecita,
Eu plantei aos seus pés os dentes do dragão.

(p. 27)




DELFICA

           Ultima Cumaei venit Jam carminis aetas.

La connais-tu, Dafné, cette ancienne romance,
Au pied du sycomore, ou sous les lauriers blancs,
Sous l’olivier, le myrte ou les saules tremblants,
Cette chanson d’amour qui toujours recommence?

Reconnais-tu le TEMPLE, au péristyle immense,
Et les citrons amers où s’imprimaient tes dentes?
Et la grotte, fatale aux hôtes imprudents,
Où du dragon vaincu dort l’antique semence?...


Ils reviendront, ces Dieux que tu pleures toujours!
Le temps va ramener l’ordre dess anciens jours;
La terre a tressailli d’un souffle prophétique...

Cependent la sibylle au visage latin
Est endormie encore sous l’arc de Constantin:
- Et rien n’a derangé le sévère Portique.

(p. 28)

DÉLFICA

          Ultima Cumaei venit jam carminis aetas.

Tu a conheces, Dafne, esta antiga romança,
Do sicômoro aos pés, sob os louros pendentes,
Sob a oliveira, o mirto e os salgueiros trementes,
Esta canção de amor que além sempre se lança?

Reconheces o TEMPLO onde a cornija avança,
E os amargos limões onde entravam teus dentes?
E a caverna fatal a hóspedes imprudentes
Onde o dragão vencido esconde a íntima herança?...

Eles retornarão, os Deuses que tu choras!
O tempo recriará a ordem das velhas horas;
De um profético sopro o chão foi sacudido...

Enquanto isso a sibila de rosto latino
Ainda dorme por sob o arco de Constantino:
- E nada perturbou o Pórtico esquecido.

(p. 29)































VERS DORÉS

              Eh quoi!  Tou est sensible!
                                PYTHAGORE


Homme, libre penseur! te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la vie éclate en toute chose?
Des forces que tu tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes conseils l’univers est absent.

Respecte dans la bête un esprit agissant:
Chaque fleur est une âme à la Nature éclose;
Un mystére d’amour dans de metal repose;
“Tou est sensible!”  Et tout sur ton être est puissant.

Crains, dans le mur aveugle, un regard qui t’épie:
A la matière même un verbe est attaché…
Ne la fais pas servir à quelque usage impie!

Souvent dans l’être obscur habite un Dieu caché;
Et, comme un oeil naissant couvert par sés paupières,
Un pur esprit s’accroît sous l’écorce des pierres!

(p. 42)


VERSOS ÁUREOS

              Mas como!  Tudo é sensível!
                                    PITÁGORAS

Oh! homem pensador, julgas que é em ti somente
Que há a razão neste mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos teus o universo está ausente.

Respeita no animal um espírito agente:
Cada flor é uma alma à Natureza erguida;
Um mistério de amor no metal tem guarida;
“Tudo é sensível!” Tudo em teu ser é potente.

Teme, no muro cego, um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria um verbo está sepulto...
Não a faças servir a alguma função ímpia!

No ser obscuro às vezes mora um Deus oculto,
E, como olho a nascer por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um puro espírito disperso!

(p. 43)