terça-feira, 21 de junho de 2011

QUNTA POÉTICA - 38ª. edição




Governo de São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura e Escrituras Editora convidam para a QUINTA POÉTICA – 38a edição – 30 de junho de 2011, a partir das 19h – na Casa das Rosas (evento gratuito).

Com os poetas convidados:

Bárbara Lia (Curitiba - PR), Gracco Oliveira (Diadema - SP) e Maiara Gouveia (São Paulo – SP).

Participação especial de Sansakroma - Julio e Débora D'Zambê (Contos e Mitos Africanos)


Curadoria: José Geraldo Neres


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Próxima QUINTA POÉTICA: ESPECIAL MINAS GERAIS 28-julho-2011, na CASA DAS ROSAS.

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Saiba mais sobre o evento e os convidados:

QUINTA POÉTICA – 38ª edição
Curadoria: José Geraldo Neres

Mensalmente, a Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura abre suas portas para a Quinta Poética, um grande encontro dos amantes da boa poesia, com a presença de poetas consagrados e novos talentos, que têm a oportunidade de apresentar seu trabalho. Intervenções artísticas das mais diferentes expressões, como dança, música, artes plásticas, cultura popular, envolvem a leitura dos poemas. Grandes nomes da poesia já estiveram presentes nesses encontros, que são promovidos pela Escrituras Editora e a Casa das Rosas - Espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura.

Os poetas:

Bárbara Lia nasceu em Assaí, norte do Paraná. Publicou os livros: O sorriso de Leonardo (2.004), O sal das rosas (Poesia, Lumme editor – 2.007), A última chuva (Poesia, ME – MG – 2.007), Solidão Calcinada (Romance, Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná - 2008), Constelação de Ossos (Romance, Vidráguas/2010), Tem um pássado cantando dentro de mim (Poesia – 2011). Por duas vezes finalista Prêmio SESC de Literatura. Menção Honrosa no Conc. Nacional de Contos Newton Sampaio/2009. Conc. Nacional de Poesias Helena Kolody – SEEC – PR 2007. Premiada no Concurso de Contos Grotescos – Prêmio Edgar Alan Poe/2009. Prêmio Ufes Literatura/2009. Faz parte do livro de entrevistas O que é poesia? (Ed. Confraria do Vento), organizada por Edson Cruz.

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Maiara Gouveia de São Paulo, Capital escritora, publicou artigos, ensaios e poemas em alguns países da América Latina e também em Portugal e nos Estados Unidos. Participou de inúmeros eventos literários, oficinas, e integrou a organização da FLAP – Festival Literário Internacional. Em 2006, foi finalista do Prêmio Nascente com o livro de poemas O Silêncio Encantado. A obra inaugural sofreu alterações e hoje se chama Pleno Deserto (Nephelibata: 2009). Dos livros à espera de publicação, menciona Antes que se rompa o fio de prata, disponível para download.
Blog: http://ocorpoestranho.wordpress.com/

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Gracco Oliveira é de Diadema, SP. Publicou “Refém das Ideias” em edição independente. Músico. Blog: eunaoleria.wordpress.com

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Sansakroma - Julio e Débora D'Zambê (Contos e Mitos Africanos) Formados em Artes Plásticas na Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Estudaram música e se tornaram professores de arte. Iniciaram o projeto cultural "Sansakroma", escrevendo, ilustrando, cantando e contando histórias para quem quisesse ouvir, pelo Brasil afora e em muitos outros países. Site: http://www.sansakroma.com/

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Curador da Quinta Poética:
José Geraldo Neres. Poeta, ficcionista e roteirista. Publicou: Outros Silêncios, Prêmio ProAC - 2008, (Escrituras Editora, poesia, 2009 - bolsista da Fundação Biblioteca Nacional em 2007/2008), e Pássaros de papel (Dulcinéia Catadora, poesia, SP, 2007). O livro Olhos de Barro recebeu menção especial no 3º Prêmio Gov. de Minas Gerais de Literatura (ficção - 2010). Blog: http://neres-outrossilencios.blogspot.com/

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Escrituras Editora
Rua Maestro Callia, 123 - Vila Mariana
04012-100 - São Paulo - SP - Brasil
Tel.: (11) 5904-4499 (Pabx)
www.escrituras.com.br
www.youtube.com/user/EscriturasEditora
http://escrituraseditora.blogspot.com/
www.twitter.com/escriturasedit
www.facebook.com/escritura
s.editora




IV ENCONTRO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA



Programa
Dia 23 de Junho (Quinta-feira)

15h30 – Discurso de boas-vindas pelo Presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana, Dr. Manuel do Carmo Mendes.
15h45 – Discurso de abertura do IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora e balanço das edições anteriores, pelo Presidente da Direcção do C.E.M.D., Escritor Delmar Maia Gonçalves.
16h00 – Discurso de Homenagem aos 36 anos da Independência da República de Moçambique pelo Sr. Embaixador Dr. Miguel Mkaima.
Homenagem dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora ao Sr. Embaixador da República Moçambique em Portugal, Dr. Miguel Mkaima e à Sra. Embaixatriz Dra. Glória Mkaima, pela Artista Plástica Lara Guerra e outras Personalidades presentes.

1º Painel
16h15 – Apresentação da Associação OLAMIGO – Dr. Tiago Bastos
16h30 – Apresentação da Fundação GEOLÍNGUA – Doutor Roberto Moreno
16h45 – Apresentação da Organização da Mulher Moçambicana (O.M.M.-Núcleo de Lisboa) – Binte Insa
Moderador – Escritor Delmar Maia Gonçalves

17h00 – Pausa para café

2º Painel
17h15 – Mestre Flávia Ba -
17h30 – Mestre Madalena Mendes – “Moçambique, a metáfora do Uni-verso”
 17h45 – Manuel Rodrigues Vaz (Jornalista e Escritor) – “Afonso Ribeiro – três setas apontadas ao presente”
18h00 - Delmar Maia Gonçalves (Escritor) – “Os Escritores Moçambicanos na Diáspora – Ontem e Hoje”
18h15 - Debate
Moderador – Doutor António José Borges (Escritor)
Lançamento de Livro
18h30 – Lançamento do livro “Retalhos de Tecido e Arte” de Ísis Mgaba (Estilista).
Apresentação pelo Escritor Delmar Maia Gonçalves e pelo Artista Plástico Ntaluma.
Entrega do Diploma de Sócio Honorário e homenagem dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora ao Artista Plástico Ntaluma.
19h00 – Encerramento

Dia 24 de Junho (Sexta-feira)
15h30 – Reabertura do IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora pelo Presidente do C.E.M.D., Delmar Maia Gonçalves.
1º Painel
15h35 - Mestre João Craveirinha (Escritor) - “A Herança do Atlântico Africano – a contribuição Moçambicana”. (30-40 min.).
16h15 - Debate
Entrega de Diploma de Sócio Honorário do C.E.M.D. e homenagem dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora.
Moderador – Delmar Maia Gonçalves (Escritor)

2º Painel  
16h30 – Doutora Fernanda Angius – “A Literatura Moçambicana Contemporânea”.
16h45 – Carlos Gil (Escritor) – “Palavras cruzadas, emoções baralhadas”.
17h00 – Jorge Viegas (Escritor) – “Literatura e ideologia”
17h15 - Debate
Moderador – Doutora Cármen Maciel

17h30 – Pausa para café

3º Painel
17h45 – Dr. Augusto Carlos (Escritor) – “Um novo paradigma da organização do trabalho – Dos Gregos à actualidade”.
18h00 – Mestre Sóstenes Rego – “Moçambique – País rico em línguas”.
18h15 – Dra. Paula Ferraz – Entre a História e as estórias. Zefanias Sforza, de Luís Carlos Patraquim, nas margens da teoria literária.
18h30 – Debate
Moderador – Jorge Viegas (Escritor)

Apresentação de Revista
18h45 – Apresentação da Revista Nova Águia nº 7 “Nos 15 anos da CPLP: Minha pátria é a Língua Portuguesa”, pelo Doutor Renato Epifânio (Filósofo).
19h00 – Encerramento

Dia 25 de Junho (Sábado)
10h30 – Reabertura do IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora pelo Presidente da Direcção do C.E.M.D. Escritor Delmar Maia Gonçalves.

1º Painel
10h35 – Ascêncio de Freitas (Escritor) – “Falando de mim” (30-40 min.).
11h10 – Delmar Maia Gonçalves (Escritor) – “Identidade e Criação Literária”
11h25 - Debate
Moderador – Fernanda Angius

Momento Musical
11h40 – Momento Musical com Malenga

12h30 – Pausa para almoço.

Lançamento de Livro
14h30 – Lançamento do livro “O amor essa forma de desconhecimento” de Ana Mafalda Leite (Escritora).
Apresentação pela Doutora Jessica Falconi
15h20 – Leitura de textos de Ana Mafalda Leite por membros do C.E.M.D. com acompanhamento musical pelo Professor Walter Lopes.
Entrega de Diploma de Sócio Honorário do C.E.M.D. e Homenagem dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora.


15h30 – Recital de Poesia
Elsa de Noronha (Moçambique)
Edite Gil e José Machado (Jograis do Atlântico) (Portugal)
Carlos Peres Feio (Portugal)
Delmar Maia Gonçalves (Moçambique)
(com Luna Delmar na Flauta)
Ribeiro Couto (Moçambique)
Jorge Viegas (Moçambique)
José António Borges (Portugal)
Fernando Machado (Portugal)
Vera Novo Fornelos (Portugal)
Ilda Oliveira (Portugal)
Celeste Cortez (Portugal)
Myriam Carvalho (Portugal)
Cátia Mendes (Portugal)
Miguel Duarte(Portugal)
Sejó Vieira (Portugal/França)

17h00 – Inauguração da Mostra Internacional de Pintura e Escultura pelo Sr. Embaixador da República de Moçambique em Portugal, Dr. Miguel Mkaima.
Entrega de Diploma de Sócio Honorário e de Homenagem dos Encontros de Escritores Moçambicanos na Diáspora ao Mestre Ribeiro Couto.
Cocktail

18h00 – Encerramento do IV Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora pelo Presidente da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana, Dr. Manuel do Carmo Mendes, pelo Sr. Embaixador da República de Moçambique em Portugal, Dr. Miguel Mkaima e pelo Presidente da Direcção do C.E.M.D.

Contactos
Delmar Maia Gonçalves
Tel:912107297

Localização

Auditório da Junta de Freguesia de São Domingos de Rana
Rua do Zambujal,
 2785 Cascais
tel: 214 524 444

Indicações:
Quem vem pela A5 sai na direcção Parede, Carcavelos e seguir sempre na direcção Parede, até chegar à Igreja de São Domingos de Rana.
Entrar na rua que fica à esquerda da Igreja e seguir sempre indicações dos Correios. Na Junta de Freguesia existe uma loja dos CTT.

domingo, 12 de junho de 2011

HILDA HILST




 SETE POEMAS DE HILDA HILST

I

Se já soubesse quem sou
Te saberia. Como não sei
Planto couves e cravos
E espero ver uma cara
Em tudo que semeei.

Pois não dizem que te mostras
Por vias tortas, nos mínimos?
Te mostrarás na minha horta
Talvez mudando o destino
Dessa de mim que só vive

Tentando semeadura
Dessa de mim que envelhece
Buscando sua própria cara
E muito através, a tua
Que a mim me apeteceria
Ver frente a frente.

Há luas luzindo o verde
E luas luzindo os cravos.
Couves de tal estatura
E carmesins dilatados

Que os que passam me perguntam:
São os canteiros de Deus?
Digo que sim por vaidade
Sabendo dos infinitos
De uma infinita procura
De tu e eu.

(In Poemas malditos, gozosos e devotos)


Manabu Mabe




















II

Honra-me com teus nadas.
Traduz meu passo
De maneira que eu nunca me perceba.
Confunde estas linhas que te escrevo
Como se um brejeiro escoliasta
Resolvesse
Brincar a morte de seu próprio texto.
Dá-me pobreza e fealdade e medo.
E desterro de todas as respostas
Que dariam luz
A meu eterno entendimento cego.
Dá-me tristes joelhos.
Para que eu possa fincá-los num mínimo de terra
E ali permanecer o teu mais esquecido prisioneiro.
Dá-me mudez. E andar desordenado. Nenhum cão.
Tu sabes que amo os animais
Por isso me sentiria aliviado. E de ti, Sem Nome
Não desejo alívio. Apenas estreitez e fardo.
Talvez assim te encantes de tão farta nudez.
Talvez assim me ames: desnudo até o osso
Igual a um morto.

(In Sobre a tua grande face)


Manabu Mabe



















III

Devo viver entre os homens
Se sou mais pelo, mais dor
Menos garra e menos carne humana?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada de mão que empunha a faca
Devo continuar a caminhada?

Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da Casa que é a tua alma?
Ai, Luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?”

(In Amavisse)


Manabu Mabe
























IV

“Empoçada de instantes, cresce a noite
Descosendo as falas. Um poema entre-muros
Quer nascer, de carne jubilosa
E longo corpo escuro. Pergunto-me
Se a perfeição não seria o não dizer
E deixar aquietadas as palavras
Nos noturnos desvãos. Um poema pulsante

Ainda que imperfeito quer nascer.

Estando sobre a mesa o grande corpo
Envolto na sua bruma. Expiro amor e ar
Sobre as suas ventas. Nasce intensa
E luzente a minha cria
No azulecer da tinta e à luz do dia.

(In Amavisse)


Manabu Mabe























V

Porco-poeta que me sei, na cegueira, no charco
À espera da Tua Fome, permita-me a pergunta
Senhor dos porcos e de homens:
Ouviste acaso, ou te foi familiar
Um verbo que nos baixios daqui muito se ouve
O verbo amar?

Porque na cegueira, no charco
Na trama dos vocábulos
Na decantada lâmina enterrada
Na minha axila de pelos e de carne
Na esteira de palha que me envolve a alma

Do verbo apenas entrevi o contorno breve:
É coisa de morrer e de matar mas tem som de sorriso.
Sangra, estilhaça, devora, e por isso
E entender-lhe o cerne não me foi dada a hora.

É verbo?
Ou sobrenome de um deus prenhe de humor
Na péripla aventura da conquista?

(In Amavisse)


Manabu Mabe



















VI

De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo

Entardecido de sons que não compreendo
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas
Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entardecer. E o do ouro que sai
Da garganta dos loucos, o que há de ser?

(In Amavisse)


Manabu Mabe
























VII

Para um Deus, que singular prazer.
Ser o dono de ossos, ser o dono de carnes
Ser o senhor de um breve Nada: o homem:
Equação sinistra
Tentando parecença contigo, Executor.
O Senhor do meu canto, dizem? sim.
Mas apenas enquanto dormes.
Enquanto dormes, eu tento meu destino.
Do teu sono
Depende meu verso minha vida minha cabeça.
Dorme, inventado imprudente menino.
Dorme. Para que o poema aconteça.

(In Poemas malditos, gozosos e devotos)


sexta-feira, 10 de junho de 2011

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE - III





DOZE POEMAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


Legado

Que lembrança darei ao país que me deu
tudo que lembro e sei, tudo quanto senti?
Na noite do sem-fim, breve o tempo esqueceu
minha incerta medalha, e a meu nome se ri.


E mereço esperar mais do que os outros, eu?
Tu não me enganas, mundo, e não te engano a ti.
Esses monstros atuais, não os cativa Orfeu,
a vagar, taciturno, entre o talvez e o se.


Não deixarei de mim nenhum canto radioso,
uma voz matinal palpitando na bruma
e que arranque de alguém seu mais secreto espinho.


De tudo quanto foi meu passo caprichoso
na vida, restará, pois o resto se esfuma,
uma pedra que havia em meio do caminho.



Adriana Varejão























Oficina Irritada

Eu quero compor um soneto duro
como poeta algum ousara escrever.
Eu quero pintar um soneto escuro,
seco, abafado, difícil de ler.

Quero que meu soneto, no futuro,
não desperte em ninguém nenhum prazer.
E que, no seu maligno ar imaturo,
ao mesmo tempo saiba ser, não ser.

Esse meu verbo antipático e impuro
há de pungir, há de fazer sofrer,
tendão de Vênus sob o pedicuro.

Ninguém o lembrará: tiro no muro,
cão mijando no caos, enquanto Arcturo,
claro enigma, se deixa surpreender.



Soneto da Perdida Esperança

Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.
A rua é inútil e nenhum auto
passaria sobre meu corpo.

Vou subir a ladeira lenta
em que os caminhos se fundem.
Todos eles conduzem ao
princípio do drama e da flora.

Não sei se estou sofrendo
ou se é alguém que se diverte
por que não? na noite escassa

com um insolúvel flautim.
Entretanto há muito tempo
nós gritamos: sim! ao eterno.

Adriana Varejão

























Quarto em desordem

Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor

que não sabe como é feita: amor
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar

a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais indefeso, corpo! Corpo, corpo, corpo

verdade tão final, sede tão vária
a esse cavalo solto pela cama
a passear o peito de quem ama.


Adriana Varejão





















Castidade

O perdido caminho, a perdida estrela
que ficou lá longe, que ficou no alto,
surgiu novamente, brilhou novamente
como o caminho único, a solitária estrela. 


Não me arrependo do pecado triste
que sujou minha carne, suja toda carne.
O caminho é tão claro, a estrela tão larga,
Os dois brilham tanto que me apago neles. 


Mas certamente pecarei de novo
(a estrela cala-se, o caminho perde-se),
pecarei com humildade, serei vil e pobre,
terei pena de mim e me perdoarei. 


De novo a estrela brilhará, mostrando
o perdido caminho da perdida inocência.
E eu irei pequenino, irei luminoso
conversando anjos que ninguém conversa.




Mãos Dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Adriana Varejão




























Não se mate

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe
o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguém sabe nem saberá. 







Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.



Poesia

Gastei uma hora pensando em um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?


Adriana Varejão































Canção Amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me vêem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças.


Sentimental

Ponho-me a escrever teu nome
com letras de macarrão.
No prato, a sopa esfria, cheia de escamas
e debruçados na mesa todos contemplam
esse romântico trabalho.

Desgraçadamente falta uma letra,
uma letra somente
para acabar teu nome!

- Está sonhando? Olhe que a sopa esfria!

Eu estava sonhando...
E há em todas as consciências um cartaz amarelo:
"Neste país é proibido sonhar."