sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Murilo Mendes


 


  
Um livro cuja leitura me impressionou muito foi  As metamorfoses,  de Murilo Mendes, que li numa edição da Record, de 2002, com um revelador prefácio de Fábio de Sousa Andrade. A obra divide-se em duas partes:  “As metamorfoses”, com poemas de 1938, e “Véu do Tempo”, com textos datados de 1941. 


O título ovidiano aponta para uma marca profunda  no autor de Convergência, Tempo espanhol e tantos outros livros essenciais: uma inquietação permanente que o leva a um alargamento do seu universo poético tanto no aspecto imagístico e temático quanto no aspecto formal, numa apurada linha de pesquisa estética. 


Gosto dos abismos e das tentações expostas em seus textos, dos pianos flutuando em seus versos, das mulheres que escapam ao descritivismo realista e acendem desejos secretos. A poética muriliana parece traçar um risco no caos, escrita forte o suficiente para nos deixar flutuando em estado de deslumbramento. Uma poética em expansão apoiada sobre uma força visionária, capaz de potencializar a face católica com todas as impurezas pecaminosas.  Também me agrada muitíssimo o ato de confrontar o tempo com imagens poderosas como se fosse possível rasgar o tecido temporal e saltar para o aberto – a arte como fuga para a eternidade, sem silenciar, no entanto, o espanto com a crueza insuportável da história. Poeta de nuvens, longe de ser um nefelibata, mas sim pela altura do seu voo lírico e onírico. Precisamos ler com mais carinho e profundidade Murilo Mendes, que nos deixou no título de um de seus livros e em toda a sua obra poética uma divisa que vale para qualquer texto poético: POESIA LIBERDADE.


Todos os poemas foram retirados do livro citado acima. As ilustrações são do grande amigo de Murilo, o pintor Ismael Nery (1900-1934).


José Antônio Cavalcanti


POEMAS




Ideia fortíssima

Uma ideia fortíssima entre todas menos uma
Habita meu cérebro noite e dia,
A ideia de uma mulher, mais densa que uma forma.
Ideia que me acompanha
De uma a outra lua,
De uma a outra caminhada, de uma a outra angústia,
Que me arranca do tempo e sobrevoa a história,
Que me separa de mim mesmo,
Que me corta em dois como o gládio divino.
Uma ideia que anula as paisagens exteriores,
Que me provoca terror e febre,
Que se antepõe à pirâmide de órfãos e miseráveis,
Uma ideia que verruma todos os poros do meu corpo
E só não se torna o grande cáustico
Porque é um alívio diante da ideia muito mais forte e violenta de Deus.

(p. 29)



O poeta futuro

O poeta futuro já se encontra no meio de vós.
Ele nasceu da terra
Preparada por gerações de sensuais e de místicos:
Surgiu do universo em crise, do massacre entre irmãos,
Encerrando no espírito épocas superpostas.
O homem sereno, a síntese de todas as raças, o portador da vida
Sai de tanta luta e negação, e do sangue espremido.
O poeta futuro já vive no meio de vós
E não o pressentis.
Ele manifesta o equilíbrio de múltiplas direções
E não permitirá que algo se perca,
Não acabará de apagar o pavio que ainda fumega,
Transformando o aço da sua espada
Em penas que escreverão poemas consoladores.

O poeta futuro apontará o inferno
Aos geradores de guerra,
Aos que asfixiam órfãos e operários.

(p. 34)




Corrente contínua

Decifremos o código da Criação.

Há um telégrafo surdo
De rosa a rosa, de pássaro a pássaro, de estrela em estrela.

Assaltam-me todos os sonhos
Que existiram desde o princípio do tempo.
Meus braços acolhem migrações de sereias.

Sou um campo onde se decide a sorte dos fantasmas.
Não me podes dispensar, crescimento do mito:
É preciso continuar a trama fluida
Pela qual Lilith, Ariadna, Morgana receberão o alimento.

Vinde beber no meu peito,
Cavaleiros andantes e volantes deste século,
Mulheres sem asilo, corações mutilados, Antígona.
Ó vós todos que temeis a força da matéria,
Comparsas de ópera, musas desprezadas dos poetas,
Nuvens anônimas: procurai minha sede.

(p. 35)


 


O espectador

Eu me envolvo numa nuvem e suscito os fantasmas
Para a inquisição dos vivos que destroem a poesia.

Que fazes de tuas mãos criadas para a oferenda,
Que fazes de teus olhos, comunicantes da estrela,
Que fazes da tua boca talhada pra receber o Verbo?
Profanas teu corpo e impedes o crescimento de tua alma.

Convocas o demônio das cidades malditas,
Semeias pólvora e máscaras contra gases mortíferos.
Que esperarão um dia teus filhos,
Que dura e tenebrosa herança tu lhes deixas...

Ó meus irmãos, travestidos de homens
Dançais a dança do aniquilamento,
E não ouvis o alto coro dos pobres e dos nus,
Ó meus irmãos, criados à imagem e semelhança de Deus.

(p. 42)





Estudo nº 4

Quando se acalmará
Esta doença fértil a que chamam Vida?
Não quero soletrar o horizonte
Nem seguir o desenho da onda na areia,
Nem quero conversar flores no campo idílico.
Quero antes correr a cortina sobre mim mesmo,
Transcender minha história
E esperar que Deus remova meu corpo.
Quero tudo, ou nada:
Todas as paixões, todos os crimes, delícias e propriedades.
Ou então mergulhar num saco de cinzas,
Montar num avião de fogo, e nunca mais descer.

(p. 43)




Revelação

A dona da cidade maldita
Penteia os cabelos no relâmpago.
Ó filhos morenos dos mares do sul
Que vos suicidais pelo seu olhar,
Sou vosso cúmplice e vosso irmão:
Somos todos sua vítima.

Que nos adiantam os pianos
E os clarins marchando na manhã?
Espero o fogo, o fogo sobre nós.
Quem troca seu corpo por um pão?
Pedimos água e nos dão veneno.

A dona da cidade maldita,
Lilith, anda solta ao microfone.

Que à sua voz caiam os muros da cidade
E os cães da febre a devorem.
Queremos a visão branca, imaculada,
Para quebrar o espelho de demônio.

(p. 47)




Fim

Eu existo para assistir ao fim do mundo.
Não há outro espetáculo que me invoque.
Será uma festa prodigiosa, a única festa.
Ó meus amigos e comunicantes,
Tudo o que acontece desde o princípio é a sua preparação.

Eu preciso presto assistir ao fim do mundo
Para saber o que Deus quer comigo e com todos
E para saciar minha sede de teatro.
Preciso assistir ao julgamento universal,
Ouvir os coros imensos,
As lamentações e as queixas de todos,
Desde Adão até o último homem.

Eu existo para assistir ao fim do mundo,
Eu existo para a visão beatífica.

(p. 56)





Aerograma

Viver triste, asfixiado,
Uma eternidade vermelha,
Na tua boca de concha,
Suspenso entre céu e mar.

Colher pássaros no peito,
Soletrar as nuvens calmas
Esperando o raio agir
No limiar do filho pródigo.
Filtrarei um dia os séculos
Que se acumulam no olhar
Até que a pedra suspire
Os segredos da atmosfera.

Sementes de pianos crescem
Pra órfãos que sobem escadas,
Ao passo que peixes azuis
Bebem no oceano do poeta.

(p. 62)




Estudo para um caos

O último anjo derramou seu cálice no ar.

Os sonhos caem na cabeça do homem,
As crianças são expelidas do ventre materno,
As estrelas se despregam do firmamento.
Uma tocha enorme pega fogo no fogo,
A água dos rios e dos mares jorra cadáveres.
Os vulcões vomitam cometas em furor
E as mil pernas da Grande dançarina
Fazem cair sobre a terra uma chuva de lodo.
Rachou-se o teto do céu em quatro partes:
Instintivamente eu me agarro ao abismo.
Procurei meu rosto, não o achei.
Depois a treva foi ajuntada à própria treva.

(p. 67)




A criação e o criador

O poema obscuro dorme na pedra:

“Levanta-te, toma essência, corpo”.

Imediatamente o poema corre na areia,
Sacode os pés onde já nascem asas,
Volta coberto com a espuma do oceano.

O poema entrando na cidade
É tentado e socorrido por um demônio,
Abraça-se ao busto de Altair,
Recebe contrastes do mundo inteiro,
Ouve a secreta sinfonia
Em combinação com o céu e os peixes.

E agora é ele quem me persegue
Ora branco, ora azul, ora negro,
É ele quem empunha o chicote
Até que o verbo da noite
O faça voltar domado
Ato pó de onde proveio.

(p. 75)

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Rainer Maria Rilke

 




Poeta, romancista e ensaísta que explorava temas espirituais e místicos, equilibrado entre um romantismo melancólico e o modernismo. Modernista antes do tempo e romântico muito depois de já estar fora de moda, esse célebre escritor tchecoslovaco fez uma ponte sobre o abismo da literatura alemã entre o poeta lírico Heinrich Heine e os "ismos" da década de 1920. 

René Karl Wilhelm Johann Josef Maria Rilke - mais conhecido pelo pseudônimo de Rainer Maria Rilke - nasceu no dia 4 de dezembro de 1875, na cidade de Praga, Tchecoslováquia. Sua mãe costumava chamá-lo de Sophia até ele completar cinco anos de idade, colocando nele as roupas de menina que pertenciam a sua irmã falecida. Quiçá tal fato pode ter influenciado de forma contundente em sua obra literária e em seu modo de vida. Entretanto, sua mãe também encorajou seu amor pela poesia, apresentando-lhe a obra do grande dramaturgo alemão Friedrich Schiller.
Por toda a vida, Rilke estaria cercado de mulheres influentes e intrigantes; contudo, nenhuma foi mais marcante que a romancista e psicanalista russa Lou-Andreas Salomé (1861-1937), que coincidentemente também foi o grande "amor platônico" do renomadíssimo filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), o qual igualmente não resistiu aos encantos irradiados por essa misteriosa mulher... Salomé introduziu Rilke na colônia de artistas de Worpswede onde vivia a pintora Paula Modersohn-Becker, pioneira do expressionismo. Lá, ele conheceu aquele que viria a ser sua esposa, a artista Clara Westhoff, que por sua vez o apresentou ao seu professor, o escultor Auguste Rodin, para quem Rilke trabalhou como secretário a partir de 1902.

Inspirado em Rodin, Rilke desenvolveu um novo tipo de poesia deliberadamente calcado nas esculturas do artista. Eram os seus "Dinggedichten" (Poemas-coisa), que condensavam observações objetivas em versos poderosos. Entre 1912 e 1922, desalojado pela Primeira Guerra Mundial, Rilke trabalhou em sua obra-prima, Elegias de Duíno. Em um frenético período criativo de dois meses, ele completou as elegias e escreveu o belo Sonetos a Orfeu (obra publicada em 1922), no qual o poeta fala sobre a proximidade da morte. Após essas duas importantes sequências, a saúde de Rilke decaiu e ele passou os cinco anos seguintes viajando entre um sanatório em Territet, na Suíça, e Paris. Apesar do diagnóstico de leucemia, ele produziu um conjunto de poemas em francês com base nas meditações sobre a rosa que ele acreditava causar sua morte. Faleceu no dia 29 de dezembro de 1926, na cidade de Montreux, na Suíça. 

Além das obras apresentadas anteriormente, publicou outras belíssimas, tais como o romance Laurids Brigge (publicado em 1910), as obras poéticas Leben und Lieder Vida e Canções, em português - (publicada em 1894), Neue Gedichte Novos Poemas, em português - (publicada em 1907), Der Neuen Gedichte Anderer Teil A Outra Parte dos Novos Poemas, em português - (publicado em 1908) e na não-ficção publicou em 1934 Cartas a um Jovem Poeta.


POEMAS



O torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erguer-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

(Tradução: Paulo Quintela)


 

- Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.

Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)


Manuscritode Hora Grave























Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)




Morgue

Estão prontos, ali, como a esperar
que um gesto só, ainda que tardio,
possa reconciliar com tanto frio
os corpos e um ao outro harmonizar;

como se algo faltasse para o fim.
Que nome no seu bolso já vazio
há por achar? Alguém procura, enfim,
enxugar dos seus lábios o fastio:

em vão; eles só ficam mais polidos.
A barba está mais dura, todavia
ficou mais limpa ao toque do vigia,

para não repugnar o circunstante.
Os olhos, sob a pálpebra, invertidos,
olham só para dentro, doravante.

(Tradução: Augusto de Campos)



                 
A pantera

      No Jardin des Plantes, Paris

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

(Tradução: Augusto de Campos)


A Gazela

                            Gazella Dorcas

Mágico ser: onde encontrar quem colha
duas palavras numa rima igual
a essa que pulsa em ti como um sinal?
De tua fronte se erguem lira e folha

e tudo o que és se move em similar
canto de amor cujas palavras, quais
pétalas, vão caindo sobre o olhar
de quem fechou os olhos, sem ler mais,

para te ver: no alerta dos sentidos,
em cada perna os saltos reprimidos
sem disparar, enquanto só a fronte

a prumo, prestes, para: assim, na fonte,
a banhista que um frêmito assustasse:
a chispa de água no voltear da face.

(Tradução: Augusto de Campos)




São Sebastião

Como alguém que jazesse, está de pé,
sustentado por sua grande fé.
Como mãe que amamenta, a tudo alheia,
grinalda que a si mesma se cerceia.

E as setas chegam: de espaço em espaço,
como se de seu corpo desferidas,
tremendo em suas pontas soltas de aço.
Mas ele ri, incólume, às feridas.

Num só passo a tristeza sobrevém
e em seus olhos desnudos se detém,
até que a neguem, como bagatela,
e como se poupassem com desdém
os destrutores de uma coisa bela.

(Tradução: Augusto de Campos)





O Anjo

Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas Ihe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

(Tradução: Augusto de Campos)


Fonte Romana

                               Borghese

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais em baixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

(Tradução: Augusto de Campos)





Dançarina Espanhola

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

(Tradução: Augusto de Campos)





O Cego

Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

(Tradução: Augusto de Campos)




Exercícios ao Piano
 
O calor cola. A tarde arde e arqueja.
Ela arfa, sem querer, nas leves vestes
e num étude enérgico despeja
a impaciência por algo que está prestes

a acontecer: hoje, amanhã, quem sabe
agora mesmo, oculto, do seu lado;
da janela, onde um mundo inteiro cabe,
ela percebe o parque arrebicado.

Desiste, enfim, o olhar distante; cruza
as mãos; desejaria um livro; sente
o aroma dos jasmins, mas o recusa
num gesto brusco. Acha que á faz doente.

(Tradução: Augusto de Campos)


O Castelodo Duíno





















O Solitário
 
Não: uma torre se erguerá do fundo
do coração e eu estarei à borda:
onde não há mais nada, ainda acorda
o indizível, a dor, de novo o mundo.

Ainda uma coisa, só, no imenso mar
das coisas, e uma luz depois do escuro,
um rosto extremo do desejo obscuro
exilado em um nunca-apaziguar,

ainda um rosto de pedra, que só sente
a gravidade interna, de tão denso:
as distâncias que o extinguem lentamente
tornam seu júbilo ainda mais intenso.

(Tradução: Augusto de Campos)


MANUSCRITOS DAS ELEGIAS DE DUINO
























O Fruto
 
Subia, algo subia, ali, do chão,
quieto, no caule calmo, algo subia,
até que se fez flama em floração
clara e calou sua harmonia.

Floresceu, sem cessar, todo um verão
na árvore obstinada, noite e dia,
e se soube futura doação
diante do espaço que o acolhia.

E quando, enfim, se arredondou, oval,
na plenitude de sua alegria,
dentro da mesma casca que o encobria
volveu ao centro original.

(Tradução: Augusto de Campos)




O mundo estava no rosto da amada -
 
O mundo estava no rosto da amada -
e logo converteu-se em nada, em
mundo fora do alcance, mundo-além.

Por que não o bebi quando o encontrei
no rosto amado, um mundo à mão, ali,
aroma em minha boca, eu só seu rei?

Ah, eu bebi. Com que sede eu bebi.
Mas eu também estava pleno de
mundo e, bebendo, eu mesmo transbordei.

(Tradução: Augusto de Campos)