segunda-feira, 30 de abril de 2012

Mário Cesariny



 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
YOU ARE WELCOME TO ELSINORE

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam

e podem dar-nos morte violar-nos tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós

e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenore

E há palavras noturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos conosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o
amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Carlos Drummond de Andrade


domingo, 29 de abril de 2012

Armando Rubio (1955-1980)

Roberto Matta

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONFESIONES 

Soy bestia umbilical, delgada y andariega,
con un aire de pájaro en la calle.

Atado a los semáforos
por ley irrevocable.
Suelo ser atacado por mis hábitos
y por los vendedores ambulantes
que me auscultan la cara
de bar destartalado y decadente.

Amo a la ciudad más que a nadie:
las calles y edificios,
noches pobladas de mamíferos
domésticos y astutos, que transitan por bares,
y beben, y comen, y se ríen, y se ríen, y se mueren.

Soy bestia siempre en celo,
pájaro individual, enfermo.

Confiado ciegamente en mis zapatos,
no me pierdo un detalle
de lo que está pasando, que es muy grave.

Me entristecen los hombres, me deprimen
sus orejas, sus dientes, y las blandas
extremidades; las ojeras;
y los rostros desérticos, tortuosos;
bigotes, anteojos, pelos, anillos, monedas;
cigarros defendidos contra viento y marea; el fraudulento
pudor de las camisas;
y el orgullo, ese orgullo inconcebible…

Sobre todos,
los hombres que van solos por el mundo,
unánimes espaldas, hombros, rabia.

¡Voltear los autobuses, y tocarles
la oreja a los absurdos transeúntes,
saber de abuelas suyas y de hermanas,
y de la fecha atroz en que nacieron!

Cordialmente aborrezco
a los hombres de gafas, que saludan
suficientes, constreñidos,
con una mano blanda, lisa, como de nieve,
y se vuelven, y mueren
de cara ante el periódico;
a todos los que pasan
las horas entre muslos y aguardientes
perpetuando la fiesta de este mundo.

Extraña la ciudad cuando parece
no haber nadie, ni voces de Zutano o Mengano,
cuando una sombra inmensa, resollando
se descuelga de muros, y se manda cambiar,
de una vez por todas, hacia un patio sin hambre;
aunque haya transeúntes
con ojos de paloma y pecho duro,
y algunos que se tienden en las calles
con un olor a muertos
y a padre avejentado por sus sueños.

Ninguna novedad hoy en la tarde.
La ciudad y su curso inevitable.
Yo, bestia umbilical, pájaro enfermo,
he de seguir de noche
atado al parpadear de los semáforos,
a la misma ciudad donde parece
que ya no habita nadie.

Jorge Teillier (1935-1996)




















Um poema do chileno Jorge Teillier (1935-1996)

DESPEDIDA

"...el caso no ofrece
ningún adorno para la diadema de las Musas."
- Ezra Pound

Me despido de mi mano
que pudo mostrar el paso del rayo
o la quietud de las piedras
bajo las nieves de antaño.

Para que vuelvan a ser bosques y arenas
me despido del papel blanco y de la tinta azul
de donde surgían los ríos perezosos,
cerdos en las calles, molinos vacíos.

Me despido de los amigos
en quienes más he confiado:
los conejos y las polillas,
las nubes harapientas del verano,
mi sombra que solía hablarme en voz baja.

Me despido de las Virtudes y de las Gracias del planeta:
Los fracasados, las cajas de música,
los murciélagos que al atardecer se deshojan
de los bosques de casas de madera.

Me despido de los amigos silenciosos
a los que sólo les importa saber
dónde se puede beber algo de vino,
y para los cuales todos los días
no son sino un pretexto
para entonar canciones pasadas de moda.

Me despido de una muchacha
que sin preguntarme si la amaba o no la amaba
caminó conmigo y se acostó conmigo
cualquiera tarde de esas que se llenan
de humaredas de hojas quemándose en las acequias.
Me despido de una muchacha
cuyo rostro suelo ver en sueños
iluminado por la triste mirada
de trenes que parten bajo la lluvia.

Me despido de la memoria
y me despido de la nostalgia
-la sal y el agua
de mis días sin objeto -

y me despido de estos poemas:
palabras, palabras -un poco de aire
movido por los labios- palabras
para ocultar quizás lo único verdadero:
que respiramos y dejamos de respirar.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Catulo

Jarek Kubicki
























Um poema de Catulo com tradução de Haroldo de Campos.


vivamus, mea lesbia, atque amemus

Vivamos minha Lésbia, e amemos,
e as graves vozes velhas
- todas -
valham para nós menos que um vintém.
Os sóis podem morrer e renascer:
quando se apaga nosso fogo breve
dormimos uma noite infinita.
Dá-me pois mil beijos, e mais cem,
e mil, e cem, e mil, e mil e cem.
Quando somarmos muitas vezes mil
misturaremos tudo até perder a conta:
que a inveja não ponha o olho de agouro
no assombro de uma tal soma de beijos.



vivamus, mea lesbia, atque amemus

vivamus, mea lesbia, atque amemus,
rumoresque senum severiorum
omnes unius aestimemus assis.
soles occidere et redire possunt:
nobis, cum semel occidit brevis lux,
nox est perpetua una dormienda.
da mi basia mille, deinde centum,
dein mille altera, dein secunda centum,
deinde usque altera mille, deinde centum.
dein, cum milia multa fecerimus,
conturbabimus illa, ne sciamus,
aut nequis malus invidere possit,
cum tantum sciat esse basiorum.


CATULLUS, Gaius Valerius. Select poems of Catullus. Edited by Francis P. Simpson. London: Macmillan, 1948.

CAMPOS, Haroldo de. "catuliana". In: Crisantempo: no espaço curvo nasce um. São Paulo: Perspectiva, 2004.

Fernando Pessoa


























Um poema de Alberto Caeiro:

Universo não é uma ideia minha.
A minha ideia do Universo é que é uma ideia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.



De: PESSOA, Fernando. “Ficções de interlúdio” (Poemas completos de Alberto Caeiro: ‘Poemas inconjuntos’). In: Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996.

Artur Gomes


Maria Gabriela Llansol


Jarek Kubicki






























Saber esperar alguém


Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.

In: O começo de um livro é precioso. Assírio & Alvim, 2003.

domingo, 22 de abril de 2012

Símias de Rodes

Abaixo o primeiro poema visual da história da poesia, "O ovo",  composto três séculos antes de Cristo por Símias de Rodes. A tradução é de Jose Paulo Paes.
.


                               
     

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Jorge Luis Borges


'O suicida', tela do pintor francês Édouard Manet (1832-1883
























El suicida

No quedará en la noche una estrella.
No quedará la noche
Moriré y conmigo la suma
Del intolerable universo.
Borraré las pirámides, las medallas,
Los continentes y las caras.
Borraré la acumulación del pasado.
Haré polvo la historia, polvo el polvo.
Estoy mirando el último poniente.
Oigo el último pájaro.
Lego la nada a nadie.


De: BORGES, J.L. "La rosa profunda". In: Obras completas. 1975-1985. Vol.2. Buenos Aires: Emecé, 1989, p.86.






Fragmento de Empédocles de Agrigento: poema ix.569 da Antologia grega: traduzido por José Paulo Paes




IX.569


ἤδη γάρ ποτ᾽ ἐγὼ γενόμην κοῦρός τε κόρη τε


θάμνος τ᾽ οἰωνός τε καὶ ἔξαλος ἔλλοπος ἰχθύς.





IX.569


Pois em verdade eu já fui rapaz, já fui donzela,


fui arbusto, pássaro, ardente peixe do mar.





In: Poemas da Antologia grega ou palatina. Tradução de José Paulo Paes. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

terça-feira, 17 de abril de 2012

ZBIGNIEW HERBERT (1924-98)



Zbigniew Herbert



Um poema de Zbigniew Herbert traduzido pelo poeta Nelson Ascher.






RELATÓRIO DO PARAÍSO

No paraíso se trabalha trinta horas por semana
o salário é mais alto os preços caem sempre
o trabalho braçal não cansa (graças à baixa gravidade)
cortar árvores é tão fácil como datilografar
há um sistema social estável dirigentes esclarecidos
de fato o paraíso é mais feliz do que qualquer outro país

De início era para ter sido diferente
coros rodeados de luz gradientes de abstração
mas como não deu para separar direito
carne e espírito chegava-se aqui
com uma gota de gordura um fiapo de músculo
foi preciso considerar as conseqüências
mesclar um grão de absoluto com um grão de argila
mais um desvio da doutrina um último desvio
apenas João o anteviu: ressuscitareis em carne e osso

Poucos vêem Deus
ele é só para os que são 100% pneuma
os demais ouvem boletins sobre milagres e dilúvios
um dia Deus será visto por todos
mas quando ninguém sabe

Por enquanto todo sábado ao meio-dia
sirenes uivam suavemente
e saindo das fábricas os proletários celestiais
sobraçam desajeitados suas asas que nem violinos

PS (do tradutor): O polonês Zbigniew Herbert foi, com Paul Celan, o maior poeta europeu da segunda metade do séc. 20. Ele foi tbém o poeta dotado do senso mais original, abrangente e agudo de história desde Kaváfis. (Agradeço a meu amigo Henryk Siewierski a revisão da trad. acima.)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Murilo Mendes

A Chemist Lifting with Extreme Precautions the Cutiele of a Grand Piano 
(1926), Salvador Dalí
























O pastor pianista


Soltaram os pianos na planície deserta
Onde as sombras dos pássaros vêm beber.
Eu sou o pastor pianista,
Vejo ao longe com alegria meus pianos
Recortarem os vultos monumentais
Contra a lua.

Acompanhado pelas rosas migradoras
Apascento os pianos: gritam
E transmitem o antigo clamor do homem

Que reclamando a contemplação,
Sonha e provoca a harmonia,
Trabalha mesmo à força,
E pelo vento nas folhagens,
Pelos planetas, pelo andar das mulheres,
Pelo amor e seus contrastes,
Comunica-se com os deuses.


MENDES, Murilo. Poesia liberdade. In: Poesia completa e prosa. Org. Luciana Stegagno Picchio. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, v. 1.p. 343.

Fernando Pessoa

Pintura de Siegfried Zademack






















 



ISTO

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!


PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In: Obra poética. Organização de Maria Aliete Galhoz. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1999. p.165.