sexta-feira, 29 de junho de 2012

François Villon





François Villon adotou o sobrenome em homenagem a Guillaume de Villon, que o educou quando o poeta, ainda menino, ficou órfão de pai. A vida do genial autor de Testamento assume um ar de lenda ou roteiro de supreprodução hollywoodiana. Dizem que teve estudos regulares, chegando a frequentar a Universidade de Paris, onde se tornou bacharel e mestre, alegam que matou um padre em briga de rua, por isso teria sido expulso de Paris, comentam que levou um vida devassa, transitando entre tavernas e bordéis, lembram que cultivava amizade de marginais, espalham que era arruaceiro e ladrão. Sabe-se apenas que desapareceu em 1463, depois de ter a sentença de pena de morte por enforcamento revogada. O que aconteceu depois? Pura especulação.
A linguagem desbocada de François Villon modula essa balada gaulesa envenenada por uma dicção satírica provavelmente com endereço certo. A imprecação foi seguramente destinada a esconjurar os diversos inimigos adquiridos numa existência underground avant la lettre. O poema guarda um encantamento rítmico e uma expressiva galeria imagística que o transforma em sessão de feitiçaria.


BALLADE

En realgar, en arcenic rochier,
En orpiment, en salpestre et chaulx vive,
En plomb boullant our mieulx les esmorchier,
En suif et poix destrempez de lessive
Faicte d’estrons et de pissat de juifve,
En lavailles de jambes a meseaulx,
En racleure de piez et viels houseaulx,
En sang d’aspic et drogues venimeuses,
En fiel de loups, de regnars et blereaulx,
Soient frittes ces langues envieuses!

En cervelle de chat qui hayt peschier,
Noir, et si viel qu’il n’ait dent en gencive,
D’ung viel mastin, qui vault bien aussi chier,
Tout enragié, en sa bave et salive,
En l’escume d’une mulle poussive
Detrenchiee menu a bons ciseaulx,
En eaue ou ratz plongent groings et museaulx,
Raines, crappaulx et bestes dangereuses,
Serpens, lesars et telz nobles oyseaulx,
Soient frittes ces langues envieuses!

En sublime, dangereux a touchier,
Et ou nombril d’une couleuvre vive,
En sang qu’on voit es palletes sechier
Sur ces barbiers, quant plaine lune arrive,
Dont l’ung est noir, l’autre plus vert que cive,
En chancre et fiz, et en ces ors cuveaulx
Ou nourrises essangent leurs drappeaulx,
En petiz baings de filles amoureuses
(Qui ne m’entent n’a suivy les bordeaulx)
Soient frittes ces langues envieuses!

Prince, passez tous ces frians morceuals,
S’estamine, sacs n’avez ou bluteaulx,
Parmy le fons d’unes brayes breneuses;
Mais, par avant, en estrons de pourceaulx
Soient frittes ces langues envieuses!


BALADA

Que em realgar, em arsênico testáceo,
Em salitre, cal viva e ouro-pigmento,
Em chumbo que a ferver faça-as pedaços,
Na fuligem e pez do vazamento
De mijo de judia e de excrementos,
Em água onde leprosos são lavados,
Em raspagens de pés e de calçados,
Sangue de cobra e drogas venenosas,
Fel de lobo, raposa e assemelhados,
Se fritem essas línguas invejosas!

Que nos miolos de um gato que a água odeie,
Negro e tão velho que nem tem mais dente,
Ou de um velho mastim da mesma grei,
Raivoso e a se babar constantemente,
No escarro de uma mula enlanguescente
Cortado com tesouras em aparas,
Na água em que ratos metem suas caras,
Bem como sapos, rãs, feras danosas,
Serpentes e lagartos, aves raras,
Se fritem essas línguas invejosas!

Que em sublimado em que é bom nem tocar,
No umbigo de uma cobra viva e nua,
Em sangue como o que se vê secar
Na tina dos barbeiros, onde, à lua,
Ora o negro ora o verde se acentua,
Em cancros e tumores, nas gamelas
Onde se lavam panos de mazelas,
Em água de abluções das amorosas
(Quem nunca viu não sabe quem são elas)
Se fritem essas línguas invejosas!

Príncipe, todos esses bons bocados,
Se não tendes coadores apropriados,
Passai-os por ceroulas bem sebosas;
Antes, porém, em bostas de capados
Se fritem essas línguas invejosas!

In VILLON, François. Testamento. Tradução Afonso Félix de Sousa. Belo Horizonte: Itatiaia, 1987. p.118-121.

quinta-feira, 28 de junho de 2012




Um poema de Li Po (China, 701 a 762) traduzido com maestria por Cecília Meireles.

ROSA VERMELHA


Li Po
 

A esposa do guerreiro está sentada à janela.

De coração aflito, borda uma rosa branca numa almofada de seda.
Picou-se no dedo! Seu sangue corre na rosa branca, que se torna vermelha.
Seu pensamento vai ter com seu amado, que está na guerra
e cujo sangue tinge, talvez, a neve de vermelho.
Ouve o galope de um cavalo... Chega, enfim, seu amado?
É apenas o coração que lhe salta com força no peito...
Curva-se mais sobre a almofada e borda com prata
as lágrimas que cercam a rosa vermelha.



Poema publicado do livro: Poemas Chineses / Li Po e Tu Fu. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996.

Li Po (Li Bai ou Li Bo) é considerado o maior dos poetas da dinastia Tang, uma família que governou a China entre 618 e 907. É o mais citado poeta chinês no mundo ocidental. Era muito conhecido por ser um bebedor inveterado. Seus melhores poemas foram escritos enquanto estava bêbado. Escrevia sobre a natureza, o vinho, a solidão, a amizade e o amor.
Numa noite, o poeta estava bêbado em seu barco. Tentou abraçar o reflexo da lua no rio na Yangtze e morreu afogado. Uma morte triste, mas poética. Rendeu muitos poemas.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Rafael Alberti

 
 Galope

Las tierras, las tierras, las tierras de España,
las grandes, las solas, desiertas llanuras.
Galopa, caballo cuatralbo,
jinete del pueblo,
al sol y a la luna.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

A corazón suenan, resuenan, resuenan
las tierras de España, en las herraduras.
Galopa, jinete del pueblo,
caballo cuatralbo,
caballo de espuma.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

Nadie, nadie, nadie, que enfrente no hay nadie;
que es nadie la muerte si va en tu montura.
Galopa, caballo cuatralbo,
jinete del pueblo,
que la tierra es tuya.

¡A galopar,
a galopar,
hasta enterrarlos en el mar!

sábado, 16 de junho de 2012

Fernando Pessoa



















A Minha Vida é um Barco Abandonado

A minha vida é um barco abandonado
Infiel, no ermo porto, ao seu destino.
Por que não ergue ferro e segue o atino
De navegar, casado com o seu fado?

Ah! falta quem o lance ao mar, e alado

Torne seu vulto em velas; peregrino
Frescor de afastamento, no divino
Amplexo da manhã, puro e salgado.

Morto corpo da ação sem vontade

Que o viva, vulto estéril de viver,
Boiando à tona inútil da saudade.

Os limos esverdeiam tua quilha,

O vento embala-te sem te mover,
E é para além do mar a ansiada Ilha. 




Abdicação  


Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho.
Eu sou um rei
Que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços

Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.

Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.  






Chove? Nenhuma Chuva Cai...


Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...

No claustro sequestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...


 
Poemas do livro Cancioneiro.

Mia Couto

 

















Identidade 


Preciso ser um outro
para ser eu mesmo

Sou grão de rocha

Sou o vento que a desgasta

Sou pólen sem insecto


Sou areia sustentando

o sexo das árvores

Existo onde me desconheço

aguardando pelo meu passado
ansiando a esperança do futuro

No mundo que combato morro

no mundo por que luto nasço


Poema do livro Raiz de Orvalho e Outros Poemas.

terça-feira, 12 de junho de 2012

LISTA DE REFERÊNCIAS PARA PROFESSORES DE LITERATURA

Agradeço ao ILEEL - Portal do Instituto de Letras e Linguística da Universidade Federal de Uberlândia a inclusão de Poemargens à Lista de Referências para professores de literatura -  http://www.ileel.ufu.br/ileel/default.asp?ileel=ref_prof_literatura

domingo, 10 de junho de 2012

Minha série de poemas "Não hai nem kai" foi publicada na edição atual do Portal Cronópios. Agradeço conferirem e divulgarem.

sábado, 9 de junho de 2012

Revista Arraia PajéuBR

Lançamento em São Paulo, no dia 17 de julho, às oito da noite, no espaço da Funarte, da revista Arraia PajéurBR de número 4, editada por Carlos Emílio C. Lima, que tem muitos filhotes em seu bojo, incluindo a contologia e poemantologia na novíssima literatura brasileira contemporânea com autores selecionados  do portal Cronópios. Entre eles fui incluído com dois textos:  Hematoma e Invocabulus.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Artur Rimbaud




















Chanson de la plus haute tour

                     Artur Rimbaud

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par delicatesse
J’ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’éprennent.

Je me suis dit: laisse,
Et qu’on ne te voie:
Et sans la promesse
De plus hautes joies.
Que rien ne t’arrête,
Auguste retraite.

J’ai tant fait patience
Qu’à jamais j’oublie;
Craintes et souffrances
Aux cieux sont parties.
Et la soif malsaine
Obscurcit mes veines.

Ainsi la Prairie
A l’oubli livrée,
Grandie, et fleurie
D’encens et d’ivraies
Au bourdon farouche
De cent sales mouches.

Ah! Mille veuvages
De la si pauvre âme
Qui n’a que l’image
De la Notre-Dame!
Est-ce que l’on prie
La Vierge Marie?

Oisive jeunesse
A tout asservie,
Par délicatesse
J’ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’éprennent!

Maio 1872


Canção da mais alta torre

   Tradução Augusto de Campos

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas.

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida.
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante!


 In: Rimbaud livre. Introdução e tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Perspectiva, 1992. p. 42-45.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Jules Supervielle


Jules Supervielle et sa femme Pilar Saavedra à Punta del Este, Uruguay en 1907.


Jules Supervielle fue un escritor que nació el 16 de enero de 1884 en Montevideo pero que creció tanto en Uruguay como en Francia, donde sus padres habían decidido instalarse.

El destino quiso que este poeta perdiera a sus progenitores, quienes fallecieron víctimas de cólera, durante sus primeros años de vida. Su crianza estuvo entonces a cargo de su abuela y, tiempo después, fue adoptado por sus tíos, con quienes vivió en Uruguay, país donde el matrimonio había fundado un banco, y más tarde en París, donde Jules cursó sus estudios secundarios. 

En 1901, años después de haber comenzado a crear poemas en secreto, este autor franco-uruguayo que se licenció en Literatura y debió abandonar el servicio militar por su delicada salud, publicó sus primeros trabajos bajo el título de “Brumes du passé”. Sin embargo, su primera colección importante de poemas recién aparecería en 1922, con la publicación de “Débarcadères”

Entre medio de esos años, Supervielle contrajo matrimonio con Pilar Saavedra, la madre de sus seis hijos, se instaló en París y desarrolló numerosas tareas en el Ministerio de Defensa.

Al comenzar la Segunda Guerra Mundial, la tensión internacional, sus problemas de salud y las dificultades financieras provocaron que el escritor, que fue nombrado Officier de la Legion d`Honneur, se exiliara durante siete años en Uruguay, donde se dedicó a la traducción y brindó una serie de conferencias sobre literatura francesa. 

En 1946, tras haber sido nombrado corresponsal cultural para la delegación de Uruguay en París, el poeta regresa a Francia y publica, bajo el título de “Orphée”, sus primeros cuentos mitológicos. 

El 17 de mayo de 1960, el también creador de obras como “Boire à la source” y “Le Corps Tragique”, fallece en París y su cuerpo es enterrado en Oloron-Sainte-Marie, la ciudad que habían elegido sus padres para criarlo. 


Figures *

Je bats comme des cartes
Malgré moi des visages,
Et, tous, ils me sont chers.
Parfois l´un tombe à terre
Et j´ai beau le chercher
La carte a disparu.
Je n´en sais rien de plus.
C´était un beau visage
Pourtant, que j´aimais bien.
Je bats les autres cartes.
L´inquiet de ma chambre,
Je veux dire mon coeur,
Continue à brûler
Mais non pour cette carte,
Qu´une autre a remplacée:
C´est un nouveau visage,
Le jeu reste complet
Mais toujours mutilé.
C´est tout ce que je sais,
Nul n`en sait davantage.

* Poema publicado no livro Les Amis inconnus, de 1934. Já saíraanteriormente na Nouvelle Revue Française, n. 229, de outubro de 1932.


Rostos

   Tradução de Carlos Drummond de Andrade *

Baralho a contragosto
Como cartas os rostos,
E todos me são caros.
Às vezes algum tomba,
Inútil procurá-lo.
Desaparece a carta.
Nada sei a respeito.
Entretanto era um rosto
Que eu amava, e tão belo.
Baralho as outras cartas.
O inquieto do meu quarto,
Ou seja, o coração,
A arder continua,
Não já por essa carta,
Por outra em seu lugar.
É um novo semblante.
E o baralho, completo,
Mas sempre desfalcado.
Eis tudo quanto sei,
E ninguém sabe mais.

* A tradução foi retirada do livro "Poesia Traduzida", da Cosac Naify, que reúne os poemas traduzidos por Drummond.

José Paulo Paes





















OFERENDAS COM AVISO

vamos pôr uma bengala de cego no túmulo de homero
para que ele possa vagar em segurança pelas trevas do hades

vamos pôr um sapato de chumbo no túmulo de dante
para que ele possa ascender mais depressa ao encontro de beatriz

vamos pôr uma corda de enforcado no túmulo de villon
para que ele possa balançar-se em boa companhia

vamos pôr um olho de vidro no túmulo de camões
para que ele possa assistir à volta d’el-rei d.sebastião

vamos pôr um pedaço de carniça no túmulo de baudelaire
para que ele possa sentir o cheiro da vida aqui fora

vamos pôr um silenciador no túmulo de maiakóvski
para que o seu revólver não perturbe os quinquenais

claro que em cada túmulo junto com as oferendas
poremos também o aviso de praxe
FIQUEM TODOS ONDE ESTÃO


PAES, José Paulo. Poesia completa. São Paulo: Cia das Letras, 2008. p. 272.