quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Sylvia Plath - "Tulips"



Tulips

by Sylvia Plath

The tulips are too excitable, it is winter here.
Look how white everything is, how quiet, how snowed-in.   
I am learning peacefulness, lying by myself quietly
As the light lies on these white walls, this bed, these hands.   
I am nobody; I have nothing to do with explosions.   
I have given my name and my day-clothes up to the nurses   
And my history to the anesthetist and my body to surgeons.

They have propped my head between the pillow and the sheet-cuff   
Like an eye between two white lids that will not shut.
Stupid pupil, it has to take everything in.
The nurses pass and pass, they are no trouble,
They pass the way gulls pass inland in their white caps,
Doing things with their hands, one just the same as another,   
So it is impossible to tell how many there are.

My body is a pebble to them, they tend it as water
Tends to the pebbles it must run over, smoothing them gently.
They bring me numbness in their bright needles, they bring me sleep.   
Now I have lost myself I am sick of baggage——
My patent leather overnight case like a black pillbox,   
My husband and child smiling out of the family photo;   
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

I have let things slip, a thirty-year-old cargo boat   
stubbornly hanging on to my name and address.
They have swabbed me clear of my loving associations.   
Scared and bare on the green plastic-pillowed trolley   
I watched my teaset, my bureaus of linen, my books   
Sink out of sight, and the water went over my head.   
I am a nun now, I have never been so pure.

I didn’t want any flowers, I only wanted
To lie with my hands turned up and be utterly empty.
How free it is, you have no idea how free——
The peacefulness is so big it dazes you,
And it asks nothing, a name tag, a few trinkets.
It is what the dead close on, finally; I imagine them   
Shutting their mouths on it, like a Communion tablet.   

The tulips are too red in the first place, they hurt me.
Even through the gift paper I could hear them breathe   
Lightly, through their white swaddlings, like an awful baby.   
Their redness talks to my wound, it corresponds.
They are subtle : they seem to float, though they weigh me down,   
Upsetting me with their sudden tongues and their color,   
A dozen red lead sinkers round my neck.

Nobody watched me before, now I am watched.   
The tulips turn to me, and the window behind me
Where once a day the light slowly widens and slowly thins,   
And I see myself, flat, ridiculous, a cut-paper shadow   
Between the eye of the sun and the eyes of the tulips,   
And I have no face, I have wanted to efface myself.   
The vivid tulips eat my oxygen.

Before they came the air was calm enough,
Coming and going, breath by breath, without any fuss.   
Then the tulips filled it up like a loud noise.
Now the air snags and eddies round them the way a river   
Snags and eddies round a sunken rust-red engine.   
They concentrate my attention, that was happy   
Playing and resting without committing itself.

The walls, also, seem to be warming themselves.
The tulips should be behind bars like dangerous animals;   
They are opening like the mouth of some great African cat,   
And I am aware of my heart: it opens and closes
Its bowl of red blooms out of sheer love of me.
The water I taste is warm and salt, like the sea,
And comes from a country far away as health.


Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo *

Tulipas



Tulipas são excitáveis demais, é inverno aqui.
Vê como tudo está branco, tão silencioso, coberto de neve.
Aprendo a paz, deitada sozinha em silêncio
Enquanto a luz se espalha nessas paredes brancas, nesta cama, nestas mãos.
Não sou ninguém; não tenho nada a ver com as explosões.
Dei meu nome e minhas roupas às enfermeiras
Minha história ao anestesista e meu corpo aos cirurgiões.

Apoiaram minha cabeça entre o travesseiro e a dobra do lençol
Como um olho entre duas pálpebras brancas que ficassem abertas.
Pupila tola, tudo ela tem que engolir.
As enfermeiras não se cansam de passar, não me incomodam,
Passam como gaivotas no interior, em seus chapéus brancos,
Fazendo coisas com as mãos, uma igual à outra,
Por isso é impossível dizer quantas são.

Fazem de meu corpo um seixo, que elas cuidam como a água
Cuida dos seixos por onde corre, alisando-os com carinho.
Trazem-me o torpor em suas agulhas brilhantes, trazem-me o sono.
Perdida de mim, estou cansada da bagagem toda —
Meu estojo de couro noturno, caixa preta de comprimidos,
Meu marido e minha filha sorriem na foto de família;
Seus sorrisos fisgam minha pele, pequenos anzóis sorridentes.

Deixei coisas escaparem, navio de carga com trinta anos
Teimosamente se prendendo a meu nome e endereço.
Eles me lavaram de minhas associações amorosas.
Assustada e nua sobre a cama de rodas com travesseiros de plástico verde,
Assisti meu aparelho de chá, minhas roupas de linho, meus livros
Submergirem e sumirem, e a água cobrir minha cabeça.
Sou freira agora, nunca fui tão pura.

Não queria flores, só me deitar
De mãos pra cima e completamente vazia.
Quanta liberdade, você não faz idéia —
A paz é tão imensa que entorpece,
E não pergunta nada, um crachá, coisinhas de nada.
É do que se aproximam os mortos, enfim; e os imagino
Fechando suas bocas sobre ela, como hóstia de comunhão.

Tulipas são vermelhas demais, me machucam.
Mesmo através do celofane as ouço respirando
De leve, através de suas faixas brancas, como um bebê terrível.
Sua vermelhidão conversa com minha ferida, elas combinam.
São tão sutis: parecem flutuar, embora sinta seus pesos,
Me aborrecendo com suas súbitas cores e línguas,
Uma dúzia de chumbadas vermelhas presas no pescoço.

Antes ninguém me observava, agora sou observada.
As tulipas se viram para mim, e para a janela às minhas costas
Onde, uma vez por dia, a luz lentamente se dilata e lentamente se dilui,
E me vejo, estendida, ridícula, uma silhueta de papel
Entre o olho do sol e os olhos das tulipas,
E não tenho face, eu que tanto quis me apagar.
As tulipas vívidas devoram meu oxigênio.

Antes de chegarem havia sossego no ar,
Indo e vindo, a cada alento, sem alvoroço.
Mas as tulipas o ocuparam por inteiro, como um alarme.
Agora o ar se enrosca e redemoinha ao seu redor como o rio
Ao redor de um motor enferrujado e submerso.
Elas concentram minha atenção, foi divertido
Brincar e descansar sem compromisso.

As paredes também parecem se aquecer.
Tulipas deviam estar atrás das grades, como feras perigosas;
Elas se abrem como a boca de um grande felino africano,
E estou consciente de meu coração: ele se abre e se fecha,
Seu bojo vermelho viceja de total amor por mim.
A água que provo é morna e salgada, como a do mar,
E vem de um país distante como a saúde.

* Tradução retirada do excelente blog do poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes - Estúdio Realidade

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Arnaut Daniel (1180- 1295)





















Sol sui qui sai lo sobrafan qu’em sortz
al cor d’amor sofren per sobramar,
que mos volers es tant ferms et entiers
c’anc non s’esduis de celei, ni s’estors
cui encubic al prim vezer s’e pois:
c’ades ses leis dic a leis cochos motz;
pois quand la vei non sai, tant l’ai, que dire.

D’autras vezer sui secs e d’auzir sortz
qu’en sola leis vei e aug e esgar,
e jes d’aisso no’ l sui fals plazentiers
que mais la vol non ditz la boca’l cors,
qu’eu non vau tant chams, vauz, ni plas, ni pois
qu’en un sol cors trob aissi bons aips totz,
qu’en leis los volc Deus triar e assire.

Já ai estat a maintas bonas cortz,
mas sai ab leis trob pro mais que lauzar:
mesur’e já e autres bos mestiers,
beutat, joven, bos faitz e bels demors;
gen l’enseignet cortesia la dois
tant a de si totz faitz desplazens rotz
de leis non cre res de já si’a dire.

Nuls jauzimen no’m fora breus ni cortz
de leis, cui prec qu’o volha devinar,
o já per mi non o sabra estiers
si’l cors, ses dich, no’s presenta de fors,
que jes Rozers, per aiga que l’engros,
non a tal bru c’al cor plus larga dotz
no.m fass’ estanc d’amor, quan la remire.

Jois e solatz d’autra.m par fals e bortz,
c’una de pretz ab leis no’is pot egar,
que’l seus solatz es dels autres sobriers.
Ai, si no l’ai, las, tan mal m’a comors!
Pero l’afans m’es deportz, ris e jois,
car en pensan sui de leis lecs e glotz:
ai Deus, si já.n serai estiers gauzire!

Anc mais, so’us pliu: no’m plac tant treps ni bortz,
ni res al cor tant de joi no.m poc dar
cum fertz aquel, don anc feinz lausengiers
non s’esbruic, c’a mi sol so’s tresors.
Dic trop? Eu non, sol leis non si’enois:
bella, per Deu, lo parlar e la votz
volh perdr’enans que diga ren que’us tire.

E ma chanzos prec que no’us si’enois
car, si voletz grazir lo son e’ls motz,
pauc prez’Arnautz cui que plass’o que tire.

Tradução de Graça Videira Lopes

Só eu é que sei o grande afã que me invade
o coração, de amor sofrendo por demais amar,
pois a minha vontade é tão firme e inteira
que disso não se afasta, nem se pode desviar
daquela que me prendeu a primeira vez e depois;
que quando está longe longamente lhe falo,
e quando a vejo não sei, tendo tanto, que lhe dizer.

A outras ver sou cego e de ouvir surdo,
que a ela somente vejo, escuto e acato;
e não lhe faço aqui falsos louvores
que mais não diz a boca do que o coração quer;
pois passo tantos campos, vales, planícies, montes
e num só ser encontro assim as virtudes todas:
que nela Deus as quis reunir e fixar.

Certamente estive em muitas grandes cortes,
mas sei que nela encontro muito mais que louvar:
mesura e sensatez e muitos outros méritos,
beleza, juventude, bons feitos, gestos belos;
Nobreza lhe ensinou Cortesia e a dotou;
de tal forma de si afastou os defeitos
que dela nenhum bem fica ainda para dizer.

Prazer nenhum me virá breve e fraco
dela, a quem peço que o queira adivinhar,
ou já por mim não o saberá inteiro,
se o coração, a sua fala, à força não se mostrar:
que até o Reno, quando as águas sobem,
não tem a força que no coração mais corre
e me faz estancar de amor, quando a contemplo.

Alegria e prazer de outra me parecem falsos e ocos
pois o mérito de nenhuma se lhe pode comparar,
que o seu favor é aos outros superior.
Ai! se não for minha, helàs! assim me cativou!
Mas o afã me distrai e é riso e alegria
pois pensando, sou dela alegre e desejoso:
ai Deus, pudesse eu já inteiramente gozar!

E mais vos digo: não prezo tanto jogos e torneios,
nem nada ao coração tanta alegria me pode dar
como deu aquela, de que nem os falsos aduladores
se gabam, e que para mim só é um tesouro.
Digo demais? Eu não, assim não se aborreça ela:
bela, por Deus, o falar e a voz
quero perder antes que diga algo que vos canse.

A minha canção peço que não vos aborreça,
pois se quiserdes acolher a música e as palavras,
pouco importa a Arnaut a quem agrade ou canse.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Anarquipélago




O livro Anarquipélago, de José Antônio Cavalcanti,  já está disponível para venda nas Livrarias Cultura e Travessa virtuais. Pedidos também podem ser feitos à editora Ibis Libris - http://www.ibislibris.net/site/

José Antônio Cavalcanti

























Dois no ringue


Escalafobético,
dizia-me
com certo deboche
de moça de família nobre,
os olhinhos
pulavam de alegria
acima da boca esnobe.
Depois
usava o sutiã
em jogo de cabra cega,
a calcinha
alimentava estilingue
antes que as mãos tremessem
na roleta russa.




Robert Creeley



















Poema de Robert Creeley traduzido por Régis Bonvicino.


The Language


Locate I
love you some-
where in

teeth and
eyes, bite
it but

take care not
to hurt, you
want so

much so
little. Words
say everything.

I
love you
again,

then what
is emptiness
for. To

fill, fill.
I heard words
and words full

of holes
aching. Speech
is a mouth.


* * *

A Linguagem


Perceba Eu
te amo algum
lugar en-

tre dentes e
olhos, morda
mas

tome cuidado
para não ferir,
você tão

pouco quer tan-
to. Palavras
dizem tudo.

Eu
te amo
de novo,

o que
é vazio
para. Pre-

encher. Encher.
Ouvi palavras
e palavras cheias

de buracos
doendo. Fala
é a boca.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Czeslaw Milosz

Trabalho de Cy Twombly






















NÃO MAIS

Preciso contar um dia como mudei
Minha opinião sobre a poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos 
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.

Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das galeotas
Arribadas àquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera pela luz
Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores da cerejeira
E os crisântemos e a lua cheia.

Montgeron, 1957

In Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Editora UNB, Brasília, 2003


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Leopoldo María Panero



Leopoldo María Panero nasceu em 1948, em Madrid, filho, irmão e sobrinho de poetas. Em 1970 participou da importante antologia organizada por José María Castellet Nueve novísimos poetas españoles.  Estudou Filosofia e Letras. na Universidad Complutense de Madrid. e Filologia Francesa. na Universidad Central de Barcelona. Exerceu militância antifranquista, o que lhe valeu passagem pela prisão. Mergulhou no mundo das drogas, experiência que resultou num impressionante conjunto de poemas dedicados à heroína em 1992. Na década de 70 foi internando em instituição psiquiátrica. As repetidas internações não o afastaram de intensa produção de poemas, traduções, ensaios e narrativas. No final da década de 80, época em que sua obra alcançou o reconhecimento da crítica, tomou a decisão de ingressar definitivamente no manicômio de de Mondragón. Atualmente vive por vontade própria na Unidade Psiquiátrica de Las Palmas de Gran Canaria.

O grande poeta maldito da Espanha, Panero produz uma lírica insólita, dolorosa, explosiva e transgressora que ao revelar o universo instável e estilhaçado do artista contemporâneo expõe pequena parcela da matéria escura do nosso tempo.

Bibliografia
Poesía
Por el camino de Swan (1968) / Así se fundó Carnaby Street (Ocnos, 1970) / Teoría (Lumen, 1973) / Narciso en el acorde último de las flautas (1979) / Last River Together (1980) / El que no ve (1980) / Dioscuros (1982) / El último hombre (1984) / Antología (1985) / Poesía 1970–1985 (1986) / Contra España y otros poema de no amor (1990) / Agujero llamado Nevermore (Selección poética, 1968–1992) (1992) / Heroína y otros poemas (1992) / Piedra negra o del temblar (1992) / Orfebre (1994) / Tensó (1996) / El tarot del inconsciente anónimo (1997) / Guarida de un animal que no existe (1998)
Abismo (1999) / Teoría lautreamontiana del plagio (1999) / Poemas del manicomio de Mondragón (1987) / Suplicio en la cruz de la boca (2000) / Teoría del miedo (2000) / Poesía completa (1970–2000) (2001) / Águila contra el hombre: poemas para un suicidamiento (2001) / Me amarás cuando esté muerto (2001)/ ¿Quién soy yo?: apuntes para una poesía sin autor (2002) / Buena nueva del desastre (2002) / Poemas del manicomio del Dr. Rafael Inglot (2002) / Conversación (2003) / Esquizofrénicas o la balada de la lámpara azul (2004) / Erección del labio sobre la página (2004) / Danza de la muerte (2004) / CD-Libro Moviedisco (2004) / Poemas de la locura seguido por El hombre elefante (2005) / Presentación del superhombre (2005) / Visión (2006) / Outsider, un arte interior (2007) / Páginas de excremento o dolor sin dolor (2008) / Sombra (2008) / Escribir como escupir (2008) / «Conjuros contra la vida» (2008) / Voces en el desierto (2008) / Esphera (2009) / Tango (2009) / La tempesta di mare (2009) / Reflexión (2010) / Locos de altar (2010) / La flor en llamas (2011) / Traducciones / Perversiones  (2011) / Territorio del miedo / Territoire de la peur  (2011) / Cantos del frío (2011) / Poesía completa. 2000-2010 (2013).

Narrativa 
El lugar del hijo (1976) / Dos relatos y una perversión (1984) / Y la luz no es nuestra (1993) / Palabras de un asesino (1999) / Los héroes inútiles (2005) / Papá, dame la mano que tengo miedo (2007) / Cuentos completos (2007)

Ensayos
Mi cerebro es una rosa (1998) / Prueba de vida. Autobiografía de la muerte (2002)

























La poesía destruye al hombre...

La poesía destruye al hombre
mientras los monos saltan de rama en rama
buscándose en vano a sí mismos
en el sacrílego bosque de la vida
las palabras destruyen al hombre
¡y las mujeres devoran cráneos con tanta hambre
de vida!
Sólo es hermoso el pájaro cuando muere
destruido por la poesía.

In "El último hombre", 1984


Glosa a un epitafio

(carta al padre)

                                 «And fish to catch regeneration»
                          Samuel Butler, Pescador de muertos.

Solos tú y yo, e irremediablemente
unidos por la muerte: torturados aún por
fantasmas que dejamos con torpeza
arañarnos el cuerpo y luchar por los despojos
del sudario, pero ambos muertos, y seguros
de nuestra muerte; dejando al espectro proseguir en vano
con el turbio negocio de los datos: mudo,
el cuerpo, ese impostor en el retrato, y los dos siguiendo
ese otro juego del alma que ya a nada responde,
que lucha con su sombra en el espejo-solos,
caídos frente a él y viendo
detrás del cristal la vida como lluvia, tras del cristal
            asombrados
por los demás, por aquellos-Vous etes combien? que nos
            sobreviven
y dicen conocernos, y nos llaman
por nuestro nombre grotesco, ¡ah el sórdido, el
viscoso templo de lo humano!
                                                    Y sin embargo
solos los dos, y unidos por el frío
que apenas roza brillante envoltura
solos los dos en esta pausa
eterna del tiempo que nada sabe ni quiere, pero dura
como la piedra, solos los dos, y amándonos
sobre el lecho de la pausa, como se aman
                                                                       los muertos
«amó», dijiste, autorizado por la muerte
porque sabías de ti como de una tercera persona
bebió dijiste, porque Dios estaba (Pound dixit)
en tu vaso de whiski
amo bebió, dijiste, pero ahora espera
¿espera? y en efecto la resurrección
desde un cristal inválido te avisa
que con armas nuestra muerte florece
                                                                   para ti que sólo
sabías de la muerte. Aquí
¿debajo o por encima?
                                        de esta piedra
tú que doraste la sobrenatural dureza y el
dolor sobrenatural de los edificios desnudos
                                                                       ¿en qué perspectiva
-dime- acoger la muerte?
                                             en la mesa de disección
tú que danzaste
                            enloquecido en la plaza desierta
tropezando
hiriéndote las manos en el trapecio del silencio
en pie contra las hojas muertas que
se adherían a tu cuerpo, y contra la hiedra que tapaba
obsesivamente tu boca hinchada de borracho,
                                                                             danzas, danzaste
sin espacio, caído, pero
no quiero errar en la mitología
de ese nombre del padre que a todos nos falta,
porque somos tan sólo hermanos de una invasión de lo imposible
y tus pasos repiten el eco de los míos en un largo
corredor donde
                           retrocedo infatigable, sin
jamás moverme
                            ¡ah los hermanos, los hermanos invisibles
               que florecen,
en el Terror! ¡Ah los hermanos, los hermanos que se defienden
inútilmente de la luz del mundo con las manos,
que se guardan del mundo por el Miedo, y cultivan en la
               sombra
de su huerto nefasto la amenaza de lo eterno, en
el ruin mundo de los vivos! ¡Ah los hermanos,
                                                                                Y el ave,
el ave que vuela sobre el mundo en llamas, diciendo sólo
a los mortales que se agitan debajo, diciendo
sólo: ABISMO, ABISMO!
                                             Abismo, sí, tibia guarida
de nuestro amor de hermanos, padre.
                                                                  ¡Pero tan solos!
¡Tan solos! Fantasmas que hace visible la hiedra
-como hiedramerlín como niñadecabezacortada como
mujermurciélago la niña que ya es árbol-
                                                                      crecen hojas
en la foto, y un florecer te arranca
de los labios caníbales de nuestra madre Muerte, madre
de nuestro rezo
florecen los muertos florecen
unidos acaso por el sudor helado
muerto de muchas cabezas hambrientas de los vivos
te esperamos ave, ave nacida
de la cabeza que explotó al crepúsculo
ave dibujada en la piedra y llena
de lo posible de la dulzura, de su sabor
ajeno que es más que la vida, de su crueldad
que es más que la vida
                                         ¡ira
de la piedra, ira que a la realidad insulta,
                                                                       que apalea
a la cabaña torpe de la mentira con verbos
que no son, resplandecen, ira
suprema de lo mudo!
                                     (te esperamos
en la delgada orilla de lo que cae, en el prado
nocturno que atraviesan lentos
los elefantes
                      percibís el frío
                                              la
                                              conspiración de las algas,
                                              gelatina, escamas, mano
que sobresale de la tumba
manos que surgen de la tierra como tallos
surcos arados por la muerte,
cabezas de ahorcados que echan flor:
                                     decapitados que dialogan
a la luz decreciente de las velas,
                                      ¡oh quién nos traerá la rima
la música, el sonido que rompa la campana
de la asfixia, y el cristal borroso
de lo posible, la música del beso!
                                     De ese beso, final, padre, en
que
         desaparezcan
de un soplo nuestras sombras, para
asidos de ese metro imposible y feroz, quedarnos
a salvo de los hombres para siempre,
solos yo y tú mi amada

In "Teoría", 1973

























Proyecto de un beso

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

Te mataré mañana poco antes del alba
cuando estés en el lecho, perdida entre los sueños
y será como cópula o semen en los labios
como beso o abrazo, o como acción de gracias.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra
y en el pico me traiga la orden de tu muerte
que será como beso o como acción de gracias
o como una oración porque el día no salga.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y ladre el tercer perro en la hora novena
en el décimo árbol sin hojas ya ni savia
que nadie sabe ya por qué está en pie en la tierra.

Te mataré mañana cuando caiga la hoja
decimotercera al suelo de miseria
y serás tú una hoja o algún tordo pálido
que vuelve en el secreto remoto de la tarde.

Te mataré mañana, y pedirás perdón
por esa carne obscena, por ese sexo oscuro
que va a tener por falo el brillo de este hierro
que va a tener por beso el sepulcro, el olvido.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y verás cómo eres de bella cuando muerta
toda llena de flores, y los brazos cruzados
y los labios cerrados como cuando rezabas
o cuando me implorabas otra vez la palabra.

Te mataré mañana cuando la luna salga,
y al salir de aquel cielo que dicen las leyendas
pedirás ya mañana por mí y mi salvación.

Te mataré mañana cuando la luna salga
cuando veas a un ángel armado de una daga
desnudo y en silencio frente a tu cama pálida.

Te mataré mañana y verás que eyaculas
cuando pase aquel frío por entre tus dos piernas.

Te mataré mañana cuando la luna salga
te mataré mañana y amaré tu fantasma
y correré a tu tumba las noches en que ardan
de nuevo en ese falo tembloroso que tengo
los ensueños del sexo, los misterios del semen
y será así tu lápida para mí el primer lecho
para soñar con dioses, y árboles, y madres
para jugar también con los dados de noche.

Te mataré mañana cuando la luna salga
y el primer somormujo me diga su palabra.

In "El último hombre", 1984

























Ars Magna

Qué es la magia, preguntas
en una habitación a oscuras.
Qué es la nada, preguntas,
saliendo de la habitación.
Y qué es un hombre saliendo de la nada
y volviendo solo a la habitación.

In "Poesía", 1970 – 1985


El lamento del vampiro

Vosotros, todos vosotros, toda
esa carne que en la calle
se apila, sois
para mí alimento,
todos esos ojos
cubiertos de legañas, como de quien no acaba
jamás de despertar, como
mirando sin ver o bien sólo por sed
de la absurda sanción de otra mirada,
todos vosotros
sois para mí alimento, y el espanto
profundo de tener como espejo
único esos ojos de vidrio, esa niebla
en que se cruzan los muertos, ese
es el precio que pago por mis alimentos.

In "Last night together", 1980


























La maldad nace de la supresión hipócrita del gozo

Una cucaracha recorre el jardín húmedo
de mi chambre y circula por entre las botellas
vacías:
la miro a los ojos y veo tus dos ojos
azules, madre mía.
Y cantas, cantas por las noches parecida a la locura,
velas
con tu maldición para que no me caiga dormido,
para que no me olvide
y esté despierto para siempre frente a tus
dos ojos
azules, madre mía.

In "Poesía", 1970 – 1985


Unas palabras para Peter Pan
                                                                                                                                                       
          "No puedo ya ir contigo, Peter. He olvidado volar, y...
          Wendy se levantó y encendió la luz: él
           lanzó un grito de dolor... »
                                                                                                                                                                                     James Matthew Barrie, Peter Pan


Pero conoceremos otras primaveras, cruzarán el cielo otros nombres -Jane, Margaret-. El desvío en la ruta, la visita a la Isla-Que-No-Existe, está previsto en el itinerario. Cruzarán el cielo otros nombres hasta ser llamados, uno tras otro, por la voz de la señora Darling (el barco pirata naufraga, Campanilla cae al suelo sin un grito, los Niños Extraviados vuelven el rostro a sus esposas o toman sus carteras de piel bajo el brazo, Billy el Tatuado saluda cortésmente, el señor Darling invita a todos ellos a tomar el té a las cinco). Las pieles de animales, el polvo mágico que necesitaba de la complicidad de un pensamiento, es puesto tras de la pizarra, en una habitación para ellos destinada en el n° 14 de una calle de Londres, en una habitación cuya luz ahora nadie enciende. Usted lleva razón, señor Darling, Peter Pan no existe, pero sí Wendy, Jane, Margaret y los Niños Extraviados. No hay nada detrás del espejo, tranquilícese, señor Darling, todo estaba previsto, todos ellos acudirán puntualmente a las cinco, nadie faltará a la mesa. Campanilla necesita a Wendy, las Sirenas a Jane, los Piratas a Margaret. Peter Pan no existe. «Peter Pan, ¿no lo sabías? Mi nombre es Wendy Darling». El río dejó hace tiempo la verde llanura, pero sigue su curso. Conocer el Sur, las Islas, nos ayudará, nos servirá de algo al fin y al cabo, durante el resto de la semana. Wendy, Wendy Darling. Deje ya de retorcerse el bigote, señor Darling, Peter Pan no es más que un nombre, un nombre más para pronunciar a solas, con voz queda, en la habitación a oscuras. Deje ya de retorcerse el bigote, todo quedará en unas lágrimas,en un sollozo apagado por la noche: todo está en orden, tranquilícese, señor Darling.


In "Así se fundó Carnaby Street", 1970