quarta-feira, 19 de junho de 2013

VI ENCONTRO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA




PROGRAMA

Quarta-feira – 26 de Junho


Abertura do VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora
15h00
Discurso de boas-vindas da direcção da Fundação José Saramago;
15h10
Discurso de abertura do VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora pelo Presidente da Direcção do C.E.M.D., Escritor Delmar Maia Gonçalves;
15h15
Intervenção do Sr. Embaixador da República de Moçambique em Portugal, Dr. Jacob Nyambir;

LITERATURA MOÇAMBICANA
[Moderador – Javier Betemps]
15h25
Ascêncio de Freitas – “Crise…verdade ou mentira?”
15h40
Fernanda Angius – “Ascêncio de Freitas e o seu legado de fidelidade e coerência à Literatura da diáspora”
15h55
16h10
Delmar Maia Gonçalves – “Quelimane – berço de poetas”
Debate

LÍNGUAS, MULTICULTURALIDADE E DIÁSPORA NO ESPAÇO DA LUSOFONIA
[Moderador – Fernando Gil]
16h20
Eugénio Almeida – "A Lusofonia cultural na Diáspora"
16h35
Amadeu Ferreira - “A diversidade linguística no espaço da Lusofonia
16h50
João Craveirinha – “Lusofonia ou Bantofonia eis a questão”
17h05
Renato Epifânio – “Lusofonia, palavra-chave do Século XXI”       
17h20
Debate                     

17h30
Lançamento da Revista Cultural
“Nova Águia” nº11

18h00
Encerramento


Sexta-feira – 28 de Junho


14h30
Reabertura do VI Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora pelo Presidente do C.E.M.D., Delmar Maia Gonçalves

LITERATURA MOÇAMBICANA
[Moderador – Fernanda Angius]
14h35
Carlos Paradona – “Literatura Moçambicana no Feminino Depois da Independência
14h50
Ana Mafalda Leite - "Reflexões sobre a poesia moçambicana contemporânea”
15h05
Fátima Mendonça – “Ficção narrativa moçambicana contemporânea”
15h20
Amélia Margarida Matavele – “Jovens Escritores Moçambicanos – potencialidade, desafios e dificuldades”
15h35
Debate


LITERATURA MOÇAMBICANA NA DIÁSPORA
[Delmar Maia Gonçalves]
15h45
Rodrigues Vaz – “Gabriel Mithá Ribeiro e a luta contra o pensamento único”
16h00
Luís Marina Bravo – “A Obra de Alberto Lacerda”
16h15
Debate

MULTICULTURALIDADE NO ESPAÇO DA LUSOFONIA
[Moderador – Myriam Jubilot de Carvalho]
16h25
Delmar Domingos de Carvalho – “Intercâmbios culturais e raciais na lusofonia”
16h40
Lurdes Breda - “Literatura para crianças e jovens: uma ponte inter e multicultural”
16h55
Debate

17h00

Lançamento do livro
“Perigoso, porque és honesto” de Vítor Gomes
17h30
Encerramento


Sábado – 29 de Junho


10h30
Reabertura do VI EEMD

10h40
Apresentação do 2º Concurso Literário para Jovens Escritores “La Atrevida”

10h50
Apresentação da Antologia Universal Lusófona – “Rio dos Bons Sinais”

11h00


11h20
LEITURAS DE POESIA
Myriam Jubilot de Carvalho | Cristina Fernandes | Ilda Oliveira

LEITURAS DE POESIA
Amaral Jorge | Ana Casanova | Carlos Bondoso | Nery Ribeiro


11h35
LEITURAS DE POESIA
João Craveirinha | Silvia Gallanni | Carlos Peres Feio | Liliana Lima

11h55
João Craveirinha – “A Importância da Memória Histórica na Construção da Identidade”(com projecção curta de vídeo)

12H10
PAUSA PARA ALMOÇO

14h00
Lançamento da Revista Cultural
“Milandos da Diáspora 2013”

14h20
LEITURAS DE POESIA
Gisela Ramos Rosa | Elsa de Noronha | Vera Barbosa | Luísa Demétrio Raposo

14H40
LEITURAS DE POESIA
Amélia Margarida Matavele | Inês Leitão | Vera Fornelos

14h55
LEITURAS DE POESIA
José Guerra | Samuel Pimenta | José Ilídio Torres

15H10
LEITURAS DE POESIA
Fernando Grade | Luís Ferreira | Ribeiro Canotilho | José Narciso

15h30
LEITURAS DE POESIA
Maria do Sameiro Barroso | Lara Guerra | Ana Maria Calado | Catarina Almeida

15H50
Apresentação do Livro
“Entre dois rios com margens” de Delmar Maia Gonçalves

16h10

16h20
Reconhecimento Póstumo dos EEMD ao Poeta Nuno Guimarães

ACORDO ORTOGRÁFICO - Debate com…
Ascêncio de Freitas, Maria do Sameiro Barroso, Maria Alzira Seixo, Madalena Homem Cardoso, Ivo Luís Miguel Barroso, Delmar Maia Gonçalves, Fernanda Angius, Rodrigues Vaz e Fernando Grade.

17h00
Encerramento

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mar Becker



Mar Becker (Marceli Andresa Becker - 1986) é formada em Filosofia pela UPF (Universidade de Passo Fundo), trabalha como professora. Faz especialização em Metafísica e Epistemologia na Universidade Federal da Fronteira-Sul. Edita a revista eletrônica Mallarmargens, espaço de referência obrigatória ao que se faz de melhor na poesia contemporânea, e publica os seus textos no blog De ter de onde se ir (http://deterdeondeseir.blogspot.com.br/), grande parte deles numa espécie de galeria subterrânea sob constante escavação denominada Cadernos de experimentação. A poesia neles se instala como impuro veneno, constante mover-se de uma criadora tentacular, espalhando corpos e sintaxe, sempre em fuga constante à previsibilidade. Uma poesia que não conduz, mas joga, que não fornece conforto, antes propicia um grau de indeterminação sobre domínios, autodomínios, a pólvora que se espalha pelo corpo, pela biografia, por Eros e tânatos. Recentemente foi reconhecida pelo Suplemento Literário de Minas Gerais como uma das principais vozes da poesia brasileira contemporânea. Já há algum tempo, aliás, o poeta e crítico Claudio Daniel vem chamando a atenção para a excelência dos textos dessa gaúcha capaz de abraçar Wittengenstein e Akhmatova numa mesma respiração. 






POEMAS

[um halo]


1

um halo de braços giratórios: roda negra da fortuna
kali e seu colar de crânios

*

se uma mulher se vê no espelho enquanto ama, o terror mandibular, as caldeiras da engenharia onírica do sangue

se ela encharca a voz
no sangue do homem

e o mistério de repente atravessa sua garganta

*

nove línguas vêm e voltam, vêm e voltam, forma-serpentina da loucura. limbo. filamentos, centenas de tentáculos para se enrolar ao homem

kali, noturnamente
namaha

diríamos: é uma mulher que sonha com as lâminas-luas
das palavras do homem

como se elas fossem
minicrânios

*

fratura, esfarela
aniquila




Sou uma coluna crematória.
queimo teu nome,
aquática.

hidra.

sou o desaguadouro desta espiral de mortos que te antecede. redemoinho. digo que no alto de meu pensamento há uma hóstia: a lâmina de teu minicrânio lunar, liso,

de teus antivocalises de mármore.

*

sou uma hidra de nove línguas, e embaixo de cada uma dessas línguas estão as miniluas-palavras que tu não sabes dizer. os nomes de teus mortos,

intactos.

teus antepassados.

*

é um fluir de espelhos que se ilumina e se turva
na minha saliva.

nas bocas das centenas de mortos
que beijo

através da tua boca.



Deambulações - I


1

o poema desce.

nas coxas da mulher que recém amou, o poema desce
com um terror diabólico.

os vergões em sua pele, branco em branco: as marcas da gadanha que o ferreiro
lapidou por anos nas cavernas,

no silêncio de seus corpos
cavernosos.

porque toda palavra começa pelo sêmen:
o poema desce

como se quisesse psicografar
sua própria origem.


2

os pés da mulher que recém amou se afundam no exercício
de putrefação do poema.

em busca do tacho.

o poema desce como se fosse enterrado
pela boca de quem o escreve,

e como se essa boca fosse uma espécie de fogo.

as palavras, seus séculos
de cozimento.


3

depois o curso das amamentações ocupa esta ideia.

a luz batendo em cheio nas tetas,
vocábulos: variações

da luz.

a lactose deflagra seus aneurismas, pesa.

e o poeta já não sabe
abrir a boca.




S. T., - I



imagine um útero que tem a forma fantasmática de um desentupidor de pia. o cabo acompanha a coluna. a embocadura se gruda aos grandes lábios, internamente. sempre que necessário.



à noite, o diabo pressiona e puxa, pressiona e puxa, com o poder de seu pensamento. pelo cabo-coluna. desde pequena sei que esses são seus jogos de vaivém, antikundalini.

no movimento, me sugo toda para dentro
de mim.



[atribua também a esse desentupidor-fantasma intrauterino
a seguinte característica:

infinitude.]



como se ele me sugasse infinitamente para dentro de mim. como se a buceta que carrego entre as pernas fosse um fruto — o maldito fruto — de minha autofagia




MEMENTO MORI - II

deve ter sido a experiência de fazer o exame periódico. detesto médicos:
a obscenidade precisa de seus bisturis.

*

[um poema apodrecia no interior da música.

caixas acústicas de teto,
antena 1,

"like a bridge over a troubled water..."

*

ligar a cabeça com eletrodos ao apodrecimento do poema.

ligar a cabeça com eletrodos
ao que fede no poema:

ao peso.

o que apelidei carinhosamente
de "carniça lírica".]

*

as enfermeiras conversavam em códigos umas com as outras. eram nove ao todo, se recordo bem: suas cabeças surgiam aqui e ali, pelos corredores — como se pertencessem a um só corpo. uma espécie rara de hidra de lerna.

poderia decepá-las nos meus sonhos.

mulheres mortas, seus olhos cor de pinho sol.
mulheres que se põem.

*

detesto médicos. o fracasso dissecatório da razão. como poderia se abrir? perceba que em nenhum caso teríamos como ver mais de perto.

*

[o sangue produzia ecos dentro das seringas.
no bolso do jaleco, a identificação

em bordado industrial:
"ninguém".]





















DAS IRMÃS - I

1

o fogo.
erguer-se dos desfiladeiros,
o corpo —
como se as partituras regressassem ao mistério das mãos.
à quiromancia dos chamados.

2

boca, comei este pão e tomai este vinho anti-horário;
girai as fabulosas torneiras da vascularidade,
a cabeça exorcista da pequena regan,
180 graus
de febre: este é o meu corpo e este é o meu sangue.

3

na cidade,
todos sussurram nomes de obituários
à noite,

4

o que se consome,
vazio:
ouço.

5

o poema criando raízes nas virilhas
da minha solidão.
as trombetas em que meu sexo se transfigura,
(soprá-las),
o que se anuncia, as boas-novas:
a vingança.

DAS IRMÃS - II

por vezes minhas unhas crescem
mais que o habitual.
lembram as unhas dos mortos:
inoxidáveis —
ganchos onde eu poderia pendurar
tuas vísceras,
(o peso),
levá-las de lá para cá,
(o amor),
como uma espécie de açougue
ambulante.
sabes, sou assim.
tenho sonhos em que me transformo
em lady zumbi.
para cada homem deus ofertou um pedaço fálico
de sua ausência.
tu és um deles:
não perdoo.

DAS IRMÃS - III

regressam à mansão com lamparinas gravitando
em torno da cabeça.
eixo dos satélites do fogo, da suprema
incandescência,
elas: minhas irmãs mortas, gravitando em torno de seus nomes vazios.
como se fossem dizê-los.

*

a luz se despede do sangue.
as minhocas descem para aquele continente
onde o silêncio se avoluma
e produz ecos.

*

"perdoa-nos", suplicam.


DAS IRMÃS - IV

queimam-se as pontas
dos cabelos.
o dossel se abre como as manhãs ou um pássaro enorme.

*

é ela, a irmã que ama.
a irmã louca.
em algum lugar da última palavra que dirá
o vento devasta omoplatas
e fêmures.
um par de rosas brota nas órbitas
de sua caveira.

*

conheço homens que podem suspendê-la da vida e da morte
com seus guindastes, o canto.
os lábios oníricos.

*

prendem-na às cordas furiosas.
giram as roldanas de seu corpo.
puxam-na para o alto, para o alto — eternamente.

DAS IRMÃS - V

fala-se no espírito de uma mendiga.
somente os sexos conseguem
psicografá-lo.

*

fala-se num vale onde os mortos sobem em pernas de pau
e atingem alturas inconcebíveis.
a mediunidade paira sobre suas cabeças:
o enxame de moscas.

*

é tão triste apodrecer.

*

o pão se entrega à sarna noturna.
a fome se entrega à fome.

*

minhas irmãs não suportam se ver nuas.


DAS IRMÃS - VI

gestos da criança que ela não teve se espalham pelo jardim
como uma missa de cinzas.
juntam-se à neblina.

*

às cinco e meia, precisamente, os sinos da melancolia
fulminam a torre.
(nas cordas, as mãos frias
da irmã.)

*

ouvem-se suas badaladas
por toda a terra.








DAS IRMÃS - VII

ninguém pelos corredores a partir das nove
(regras de funcionamento):
o piso em madeira não absorve o impacto do caminhar.
seria impossível dormir com as noviças indo
e voltando do banheiro,
seus chinelinhos tristes,
suas camisolas de chorar pétalas.

*

a ventania abre uma segunda noite entre as folhas do hinário, na mesa da sala.
já nos respectivos quartos, elas abrem as pernas
e se tocam longamente.




DAS IRMÃS - VIII

lounge, lira. fertilização ao modo psytrance. minhas irmãs se dopam com as três partes do segredo de fátima e gargalham.

um abutre vesgo enrodilha as pick-ups. aqui estão mãe, filha e neta. a primeira escorre na segunda, que escorre na terceira. suas palavras datam de milhares de gerações.
*

não se sabe exatamente quantas há. você vê larvas de procedência rara saindo do umbigo do poema. lounge, lira, três vezes autópsia,

psy, psy, psycadáver
de fátima.

litros de loção e cera depilatória descem pelas ruas de ibiza.
elas se ajoelham e oram.

DAS IRMÃS - IX

não levantarás
não estarás vivo
para ver
meu sexo descende da hélice anti-horária, a palavra de judas
o meu e o das irmãs
sei que um dia esses sexos girarão infinitamente
e nós subiremos com o peso
todo o peso do mundo
inclusive o teu
inclusive o teu
tuas pernas de coliseu elétrico
tua outra artilharia
de senhas

as 33 vozes que nasceram e se puseram como um sol

nos teus cabelos
este será o dia, amor
o único dia que terá havido sobre a terra
não levantarás
estarás morto