segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Leonor Silvestri



























Leonor Silvestri por Florencia Arriola: “Supo ser especialista en filología antigua y, aunque ha vivido muchas muertes en su existencia, hoy se dedica a dar clases en su casa como una sofista en la antigüedad. Poco humana y radical, deconstructora del amor romántico y destructora de la heteronorma, Leonor Silvestri hace poesía, escribe, practica deportes de combate y baila dancehall y reggaeton. Así es como se empodera y se reinventa, mientras busca nuevas formas de afectación más potentes que dejen a un lado el heterocapitalismo.”

Abaixo, três poemas da poeta argentina Leonor Silvestri, pouco conhecida por aqui.




Margaret Hassan

I

Una mujer se pone un velo
Un velo en el rostro
Impudicia del pie desnudo de la modelo
De la planchita y del rouge lancom
Una mujer se pone un velo

Una mujer elige y habla otra lengua
Elige y piensa otra lengua
Elige y usa otro apellido
Elige el apellido del varón que más le gusta
Inmundicia de mi nombre occidental
Que violó todos mis sueños de mujer

Una mujer se pone un velo
Que dice no
Que aprendió a decir no
Lo estabas pidiendo
A gritos
Deberías aprender
A decir NO
Sobrevivir a eso
Una mujer se puso un velo

II

Explicarte lo que siento ante la evidencia incuestionable
La respuesta es simple.
La respuesta es fácil.
Sonreía, lisonjeaba, suplicaba ante las cámaras.

¿Tenemos derecho a decir que ya te has muerto?
Se nos olvida cuántas antes han estado en tu lugar
Ese lugar, del que no se sale

Este es mi cuerpo,
Estos, mis orificios
Con los que te levanto
Con los que me acuesto


Margaret, llora
Margaret, se desmaya
Un vaso de agua, a la cara
Para que vuelvas, a mí
Margaret, implora
A una mujer le sacaron su velo


III
Soy una muñeca vestida de musulmana
Soy una parte de mí
Una mujer
¿Por el resto de mi vida?
Que no se olvide
Soy una boca de arroz y leche
Una mueca horrible
Un pastel y un caballito
Soy preciosa
Una marioneta
Vestida de azul


A falta de lengua
Me dieron manos
De yegua
Para escribirte mejor

IV
Esta es mi lengua
Es mi propiedad, mi dirección
Es mi mundo, privado

Yo soy mía, mi dueña, de esta, mi lengua, que me han cortado, para que no hable, para que no vuelva a crecer, como la cola de una lagartija.

Nos construyo, lengua mía, sin andamios, sin red y sin paracaídas.


Pentesilea

Demasiado buena para ser mujer
Demasiado hábil
Demasiado diestra
Ay, Demasiado Demasiado.

Ese arco
Esa flecha
que se clava
que se clava bien adentro
Mío
en  el momento de tu morte,
Pentesilea.

Debo matarte para que no te mueras.
Debo matarte para poder hacerte mía.
¿Acaso querrías de otra forma compartir conmigo tu cuerpo de guerrera                   virginal?
Lo lamento, Pentesilea:
La épica no escribe de mujeres que amam a mujeres.

Te veo caer
Como una pluma
liviana tu gracia de golondrina
Herida
Moribunda
Agonizante.

Aun asi te resistirás
como el león Penélope sitiado por los pretendientes.
Tendré que tomarte por la fuerza
como se toma todo en la guerra
como se toma a las mujeres.

¿No lo sabés acaso, Pentesilea?:
Serás mia
aunque deba matarte.


Lili, la dentista
Interacción morfológica.
Factores oclusales.
Funciones relativas.
El desarrollo parece sepultarse en el hueso.
Asociación inferior copulativa.
Formando una cripta esférica comunicante.
Mordida abierta anterior al esqueleto.
Una larga ventana da fácil acceso.
El lado medial del plano.
Posiciones cuspidales e intercuspidales retraídas.
Se deslizan más.
Cruzadas linguales.
Cinco o más dientes perdidos posteriores
Cinco figuras unilaterales.
Cambios óseos de ligamentos dentro de la articulación.
Temporormandibular.
La corriente literatura indica que:
durante la adolescencia
generalmente
no se incre mente no se decae
las chances de desarrollo.
Particular mecanismo.
Extracción de protocolos.
Gnathologicamente
especifica no resulta en signos o síntomas.
Los signos y los síntomas ocurren en individuos sanos.
Particularmente
durante la adolescencia.
Los Desordenes, fenómenos que ocurren naturalmente.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Celan/Ingeborg Bachmann

















Vai-se o domingo a nos dizer que o voo de poetas que se amam acaba em direção contrária, pois as asas recusam-se a enlace e permanência.
“Corona”, de Paul Celan, na tradução de Flavio Klothe  “Este falar sombrio”, da poeta austríaca Ingeborg Bachmann (1926-1973) , traduzido por Matheus Jacob Barreto para o número  maio/2014 da Revista Cisma, da USP..

CORONA

Da mão o outono me come sua folha: somos amigos.
Descascamos o tempo das nozes e o ensinamos a andar: 
o tempo retorna à casca.

No espelho é domingo, 
no sonho se dorme, 
a boca não mente. 

Meu olho desce ao sexo da amada: 
olhamo-nos, 
dizemo-nos o obscuro, 
amamo-nos como ópio e memória, 
dormimos como vinho nas conchas, 
como o mar no raio sangrento da lua.

Entrelaçados à janela, olham-nos da rua: 
já é tempo de saber! 
Tempo da pedra dispor-se a florescer, 
de um coração palpitar pelo inquieto,

É tempo do tempo ser.. É tempo.


ESTE FALAR SOMBRIO


Ingeborg Bachmann

Qual Orfeu canto eu,
com a Lira da Vida, a Morte,
e, de dentro da beleza do mundo
e dos olhos teus que regem os céus,
só sei este falar sombrio.

Não te esqueças que também tu, de súbito,
naquela manhã - quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho, e o cravo
ainda aguçava o coração teu -
tu também viste o Rio das Sombras
que passava por ti.

Enquanto a Lira Silenciosa
te retesava ainda as ondas de sangue,
eu agarrei teu coração pulsante.
Transformara-se a onda dos teus cabelos
no cabelo escuro da noite,
e nevava melancolia em ti,
os flocos a te cortar o rosto.

E eu não pertenço a ti.
Queixamo-nos ambos agora.

Mas qual Orfeu sei eu
sobre a vida, da Margem da Morte,
- e ante mim escurecem
os teus olhos pra sempre fechados.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Pier Paolo Pasolini



















Ao príncipe

Se torna o sol, se o crepúsculo baixa,
se a noite tem gosto de noites futuras,
se uma tarde de chuva parece voltar
de tempos muito amados e jamais possuídos de todo,
eu não sou mais feliz, nem disso extraio prazer ou pena:
não sinto mais, diante de mim, toda a vida...
Para ser poeta é preciso ter tempo de sobra:
horas e horas de solidão são o único meio
de se formar algo, que é força, abandono,
vício, liberdade, de dar estilo ao caos.
Tempo hoje tenho pouco: por culpa da morte
que vem e avança, no ocaso da juventude.
Mas também por culpa de nosso mundo humano
que aos pobre tira o pão, aos poetas, a paz.


Al principe

Se torna il sole, se discende la sera,
se la notte ha un sapore di notti future,
se un pomeriggio di pioggia sembra tornare
da tempi troppo amati e mal avuti del tutto,
io non sono più felice, né di goderne né di soffrirne:
non sento più, davanti a me, tutta la vita...
Per essere poeti, bisogna avere molto tempo:
ore e ore di solitudine sono il solo modo
perché si formi qualcosa, che è forza, abbandono,
vizio, libertà, per dare stile al caos.
Io tempo ormai ne ho poco: per colpa della morte
che viene avanti, al tramonto della gioventù.
Ma per colpa anche di questo nostro mondo umano,
che ai poveri toglie il pane, ai poeti la pace.



Do belíssimo livro Poemas, traduzido por Maurício Santana Dias e organizado pelo peso pesado Alfonso Berardinelli, autor da introdução, pp. 130~131. Uma das últimas publicações da Cosac Naify.


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Paul Verlaine





















No fundo da primeira prateleira, guardado como tesouro, Paul Verlaine on the road traduzido pelo hoje esquecido Guilherme de Almeida.

A voz dos botequins…

A voz dos botequins, a lama das sarjetas,
Os plátanos largando no ar as folhas pretas,
O ônibus, furacão de ferragens e lodo,
Que entre as rodas se empina e desengonça todo,
Lentamente, o olhar verde e vermelho rodando,
Operários que vão para o grêmio fumando
Cachimbo sob o olhar de agentes de polícia,
Paredes e beirais transpirando imundícia,
A enxurrada entupindo o esgoto, o asfalto liso,
Eis meu caminho – mas no fim há um paraíso.


Le bruit des cabarets...

Le bruit des cabarets, la fange des trottoirs,
Les platanes déchus s’effeuillant dans l’air noir,
L’omnibus, ouragan de ferraille et de boues,
Qui grince, mal assis entre ses quatre roses,
Et roule ses yeux verts Et rouges lentement,
Les ouvriers allant au club, tout en fumant
Leur brûle-gueule au nez des agents de police,
Toits qui dégouttent, murs suitants, pave qui glisse,
Bitume defonéc, ruisseaux comb lant l’égout,

Violà ma route – avec le paradis au bout.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Álvaro de Campos





















Às vezes a leitura confirma tudo o que se arrastou ao longo do dia. Entardeço e empurro com a barriga providências redentoras, salvações, recomeços. No relógio não há números, só lacunas e reticências. A sombra de Álvaro de Campos dança na persiana champanhe onde esse poema parece acender-se à medida que escurece.


Adiamento

     Álvaro de Campos

Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei. Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...


Três doses transformadoras de licor Petrarca

Wesley Duke Lee





















Três doses transformadoras de licor Petrarca

l'amante nell'amato si trasforma” - Petrarca

Soneto

     Luís de Camões

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co’a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Tríptico (fragmento)

     Herberto Hélder

I
Transforma-se o amador na coisa amada com seu
feroz sorriso, os dentes,as mãos que relampejam no escuro. Traz ruído
e silêncio. Traz o barulho das ondas frias
e das ardentes pedras que tem dentro de si.
E cobre esse ruído rudimentar com o assombrado
silêncio da sua última vida.
O amador transforma-se de instante para instante,
e sente-se o espírito imortal do amor
criando a carne em extremas atmosferas, acima
de todas as coisas mortas.

Transforma-se o amador. Corre pelas formas dentro.
E a coisa amada é uma baía estanque.
É o espaço de um castiçal,
a coluna vertebral e o espírito
das mulheres sentadas.
Transforma-se em noite extintora.
Porque o amador é tudo, e a coisa amada
é uma cortina
onde o vento do amador bate no alto da janela
aberta. O amador entra
por todas as janelas abertas. Ele bate, bate, bate.
O amador é um martelo que esmaga.
Que transforma a coisa amada.

Ele entra pelos ouvidos, e depois a mulher
que escuta
fica com aquele grito para sempre na cabeça
a arder como o primeiro dia do verão. Ela ouve
e vai-se transformando, enquanto dorme, naquele grito
do amador.
Depois acorda, e vai, e dá-se ao amador,
dá-lhe o grito dele.
E o amador e a coisa amada são um único grito
anterior de amor.

E gritam e batem. Ele bate-lhe com o seu espírito
de amador. E ela é batida, e bate-lhe
com o seu espírito de amada.
Então o mundo transforma-se neste ruído áspero
do amor. Enquanto em cima
o silêncio do amador e da amada alimentam
o imprevisto silêncio do mundo
e do amor.
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)  


Escada

     Eucanaã Ferraz

De transformar-se o amador na coisa amada
transformam-se o pescador em peixe o capitão
em arma em piano o pianista em desastre
o equilibrista o arquiteto desaparecido
quem sabe converteu-se em luz no livre
alto vão da escada
e como ela em espiral
transformam-se em madrugada a namorada
em ácido o químico em mágica o mágico em livro
o bibliotecário em poeta o poema o poema em água
e por virtude de muito imaginar hoje sou você
graça – de ver em mim a parte desejada.

in Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. 




Arquíloco de Paros























De Arquíloco de Paros (séc. VII a.C.) a primeira referência à palavra ditirambo (“διθύραμβος”).

ὡς Διωνύσου ἄνακτος καλὸν ἐξάρξαι μέλος
οἶδα διθύραμβον οἴνῳ συγκεραυνωθεὶς φρένας.

Sei como entoar o ditirambo, belo canto do senhor Dioniso,
eu que tenho a mente fulminada pelo vinho.
Arquíloco, Fr. 120 W



Christophe Tarkos - Un homme de merde [Um homem de merda] legendado









Christophe Tarkos, morto em 2004. em suas próprias palavras:
"Nasci em 1963. Não existo. Fabrico poemas.
1. Sou lento, de uma grande lentidão.
2. Inválido, na invalidade.
3. Temporadas regulares em hospitais psiquiátricos há dez anos."


Eucanaã Ferraz

Rony Bellinho





















Pequeno grande poema de Eucanaã Ferraz

À

Legítima estupidez a minha (a dos que amam):
deixar o mel à tona.


Melancolia previsível
que agora moscas o comam.

In Escuta. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 122.


segunda-feira, 27 de julho de 2015

John Ashbery

Colagem de John Ashbery e Guy Maddin



























Poema de John Ashbery  pirateado do excelente blog Acontecimentos, de Antonio Cícero (http://antoniocicero.blogspot.com.br/), autor desta tradução em parceria com Wally Salomão.




Que é a poesia


A cidade medieval, com frisa
De escoteiros de Nagoya? A neve

Que veio quando queríamos que nevasse?
Belas imagens? Tentar evitar

Ideias, feito neste poema? Mas
Voltamos a elas como a uma esposa, largando

A amante que desejamos? Agora
Terão que acreditar

Como acreditamos. Na escola
O pente fino tirou todo pensamento:

O que sobrou era feito uma planície.
Feche os olhos, para senti-la por milhas em torno.

Abra-os agora num caminho estreito e vertical.
Ela talvez nos dê – o que? – algumas flores em breve?


What Poetry Is


The medieval town, with frieze
Of boy scouts from Nagoya? The snow

That came when we wanted it to snow?
Beautiful images? Trying to avoid

Ideas, as in this poem? But we
Go back to them as to a wife, leaving

The mistress we desire? Now they
Will have to believe it

As we believed it. In school
All the thought got combed out:

What was left was like a field.
Shut your eyes, and you can feel it for miles around.

Now open them on a thin vertical path.
It might give us--what?--some flowers soon?


In: ASHBERY, John. "Houseboat days". In: Selected poems. New York: Penguin, 1986.


domingo, 26 de julho de 2015

Diana Bellessi













Cuatro poemas de Diana Bellessi



He construido un jardín...

He construido un jardín como quien hace
los gestos correctos en el lugar errado.
Errado, no de error, sino de lugar otro,
como hablar con el reflejo del espejo
y no con quien se mira en él.
He construido un jardín para dialogar
allí, codo a codo en la belleza, con la siempre
muda pero activa muerte trabajando el corazón.
Deja el equipaje repetía, ahora que tu cuerpo
atisba las dos orillas, no hay nada, más
que los gestos precisos
dejarse ir para cuidarlo
y ser, el jardín.
Atesora lo que pierdes, decía, esta muerte
hablando en perfecto y distanciado castellano.
Lo que pierdes, mientras tienes, es la sola compañía
que te allega, a la orilla lejana de la muerte.

Ahora la lengua puede desatarse para hablar.
Ella que nunca pudo el escalpelo del horror
provista de herramientas para hacer, maravilloso
de ominoso. Sólo digerible al ojo el terror
si la belleza lo sostiene. Mira el agujero
ciego: los gestos precisos y amorosos sin reflejo
en el espejo frente al cual, la operatoria carece
de sentido.

Tener un jardín, es dejarse tener por él y su
eterno movimiento de partida. Flores, semillas y
plantas mueren para siempre o se renuevan. Hay
poda y hay momentos, en el ocaso dulce de una
tarde de verano, para verlo excediéndose de sí,
mientras la sombra de su caída anuncia
en el macizo fulgor de marzo, o en el dormir
sin sueño del sujeto cuando muere, mientras
la especie que lo contiene no cesa de forjarse.
El jardín exige, a su jardinera verlo morir.
Demanda su mano que recorte y modifique
la tierra desnuda, dada vuelta en los canteros
bajo la noche helada. El jardín mata
y pide ser muerto para ser jardín. Pero hacer
gestos correctos en el lugar errado,
disuelve la ecuación, descubre páramo.
Amor reclamado en diferencia como
cielo azul oscuro contra la pena. Gota
regia de la tormenta en cuyo abrazo llegas
a la orilla más lejana. I wish you
were here amor, pero sos, jardinera y no
jardín. Desenterraste mi corazón de tu cantero.





























Ekstasis
   
Moverme en lo abierto
como lo hace el cazador
   
 bañar y silbar como el viento
en lo abierto
   
como la roca en el torrente y la piedra
en el granizo y el mosquito
   
con sus ojos abiertos
solamente a ello y nada más
   
en lo abierto
de una forma impensada
   
sin ver
ya nada, ya nada
    























Son los gingo…

Son los gingo bilova
árboles muy antiguos
descubiertos en la China
a fines del último siglo
Fósiles los llaman
porque vienen de un tiempo
donde todo se ha perdido
¿Perdido? En el denso corazón
de la tierra duermen
marcas de las formas idas
Diseños impresos en las rocas
y rica la materia
orgánica donde duerme,
se disuelve lo que ha vivido
Los gingo, les decía
son árboles gigantes
que crecen lentos y coronan
de bellas hojas
vueltas de oro cuando al otoño
entran. Arbol de los mil escudos
le llamaron. Una raíz
pivotante entrando casi
al centro de la tierra
y el aspecto, de bebé, simple
como la frágil envergadura de un poroto

El gingo se multiplica en dos:
macho y hembra. Sólo la hembra
en su diadema de flores
genera frutos. Redondos y pequeños
un tinte anaranjado
e intenso
olor tienen los frutos. Su pepita adentro
acorazando, la semilla capaz
de atravesar las edades
Usted puede verlos:
hay dos especímenes
adultos en el Jardín
Botánico de Buenos Aires
Cuando declina el verano
la pulpa de los frutos amarillea
y después, caen sobre la tierra despidiendo
su olor intenso

Los gingos son ahora
reclamados por los dueños
de los parques, mas no la hembra
Sólo machos inoloros se demandan
Así, los viveros injertan una vara
macho
sobre todo bebé. Ingeniería
genética. Excluida la hembra al fin:

¿un fósil se hará de un árbol?























Robin Hood

¿Lleva cerrojo la boca del sueño?
Seguir es fatigoso, voluntad
vuelta deseo no es lo mismo, creo,
que el aire incandescente donde ver
vuelve al deseo anhelo, compromiso
solamente de no caer, grosera
gravedad del pensamiento que empuja
a tierra la manzana, ¿la ves allí?,
en la punta de su rama, cintila
la sustancia plena y modelada
en su peso justo orlada del brillo
que le da la pertenencia. Decir:
copa del manzano, brazos donde ir
sin transición del sueño a la página,
abolida intemperie de la imagen
que reclama, siempre, una coherencia
como precio del peaje, soñar
en vigilia es tejer el hilo roto,
ver la boca del hambre, el mordisco,
la manzana y trasladar el abrazo
a nuestro brazos, compromiso en
despertar temprano. Pertenencia