segunda-feira, 27 de junho de 2016

Mark Strand





















Um poema de Mark Strand traduzido por Wagner Miranda

Comendo poesia

Tinta escorre pelos cantos da minha boca.
Não há felicidade como a minha.
Andei comendo poesia.

A bibliotecária não acredita no que vê.
Com olhos tristes
ela caminha com as mãos sobre o vestido.

Os poemas se foram.
A luz é parca.
Os cães estão na escada do porão, subindo.

Seus olhos giram,
suas pernas loiras queimam como um pincel.
A pobre bibliotecária começa espernear e chorar.

Ela não entende.
Quando eu me ajoelho e lambo sua mão,
ela grita.

Eu sou um novo homem.
Eu rosno para ela e lato.
Eu faço a festa na escuridão dos livros.


Eating Poetry

Ink runs from the corners of my mouth.
There is no happiness like mine.
I have been eating poetry.

The librarian does not believe what she sees.
Her eyes are sad
and she walks with her hands in her dress.

The poems are gone.
The light is dim.
The dogs are on the basement stairs and coming up.

Their eyeballs roll,
their blond legs burn like brush.
The poor librarian begins to stamp her feet and weep.

She does not understand.
When I get on my knees and lick her hand,
she screams.

I am a new man,
I snarl at her and bark,
I romp with joy in the bookish dark.

Fonte: https://brincandodedeus.wordpress.com/tag/poemas-de-mark-strand/

sábado, 25 de junho de 2016

Andrei Voznesenski















A Preguiça

Abençoada preguiça, que delícia de armadilha,
quando é tanta que nem me levanto, nem durmo de novo.

Preguiça de atender o telefone. Você o alcança, passando uma perna por cima de meu corpo,

ouço a sua voz pertinho de mim, soando como um sino,
e meu estômago é comprimido pelo seu ombro.

"Entradas?" - diz você -"Que vão para o diabo. Ai, que preguiça!"
Dentro de nós a lentidão dos dias mergulha na sombra,

A preguiça é o motor do progresso. A chave para Diógenes é a preguiça.
Só o que sei é que você é encantadora -
o resto é lixo.

Este mundo é feio? Dê um jeito de ir levando.
Preguiça de ir pegar o telegrama - passe-o por baixo da porta.

Preguiça de ir jantar, preguiça de apagar a luz,
preguiça até de terminar a frase:
hoje é segun...
Nesta estrada o mês de junho,
bêbado, derramou-se:
sátiro com pés de bode
descalços - e usando shorts.


In Poesia Soviética. Tradução, seleção e notas de Lauro Machado Coelho. São Paulo: Algol, 2007.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Conceição Evaristo



Conceição Evaristo, vencedora do Prêmio Jabuti do ano passado - categoria contos e crônicas, com o livro Olhos D’água, é uma das vozes mais fortes da literatura atual. Dona de uma linguagem que alia contundência e qualidade, crava nas letras de seus textos estacas sobre as feridas, infelizmente sempre renovadas, abertas pelos preconceitos racial, sexual e social que desabam com muito maior intensidade sobre a mulher negra e pobre.

 Nascida numa favela de Belo Horizonte, conseguiu conciliar com grandes dificuldades o trabalho de doméstica com os estudos. Após concluir o curso Normal, ingressou no magistério. Posteriormente, estudou Letras na UFRJ. Fez mestrado em Literatura Brasileira na PUC-Rio, tornou-se doutora em Literatura Comparada pela UFF. Seus escritos começaram a ser publicados nos “Cadernos Negros”, uma iniciativa do Grupo Quilombhoje, de São Paulo, Hoje é ficcionista e poeta consagrada, estudada em universidades e com obras traduzidas em outras latitudes.

Publicou Ponciá Vicêncio (2003) e Becos da Memória (2006) – romances -, além de Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) – contos.
















Da Calma e do Silêncio
 
                     
Quando eu morder
a palavra,
por favor,
não me apressem,
quero mascar,
rasgar entre os dentes,
a pele, os ossos, o tutano
do verbo,
para assim versejar
o âmago das coisas.

Quando meu olhar
se perder no nada,
por favor,
não me despertem,
quero reter,
no adentro da íris,
a menor sombra,
do ínfimo movimento.

Quando meus pés
abrandarem na marcha,
por favor,
não me forcem.
Caminhar para quê?
Deixem-me quedar,
deixem-me quieta,
na  aparente inércia.
Nem todo viandante
anda estradas,
há mundos submersos,
que só o silêncio
da poesia penetra.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Recordar é preciso

O mar vagueia onduloso sob os meus pensamentos.
A memória bravia lança o leme:
Recordar é preciso.
O movimento de vaivém nas águas-lembranças
dos meus marejados olhos transborda-me a vida,
salgando-me o rosto e o gosto. Sou eternamente náufraga.
Mas os fundos oceanos não me amedrontam nem me imobilizam.
Uma paixão profunda é a boia que me emerge.
Sei que o mistério subsiste além das águas.

in Cadernos Negros – vol. 15

Todas as manhãs

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.

in Cadernos Negros – vol. 21















A noite não adormece nos olhos das mulheres

    Em memória de Beatriz Nascimento

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
a lua fêmea, semelhante nossa,
em vigília atenta vigia
a nossa memória.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
há mais olhos que sono
onde lágrimas suspensas
virgulam o lapso
de nossas molhadas lembranças.

A noite não adormece
nos olhos das mulheres
vaginas abertas
retêm e expulsam a vida
donde Ainás, Nzingas, Ngambeles
e outras meninas luas
afastam delas e de nós
os nossos cálices de lágrimas.

A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher
de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.
in Cadernos Negros – vol. 19

Eu-Mulher

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.
Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo
Antes – agora – o que há de vir.
Eu fêmea-matriz.
Eu força-motriz.
Eu-mulher
abrigo da semente
moto-contínuo
do mundo.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.






















Vozes-mulheres

A voz de minha bisavó ecoou
criança
nos porões do navio.
Ecoou lamentos
De uma infância perdida.

A voz de minha avó
ecoou obediência
aos brancos-donos de tudo.

A voz de minha mãe
ecoou baixinho revolta
No fundo das cozinhas alheias
debaixo das trouxas
roupagens sujas dos brancos
pelo caminho empoeirado
rumo à favela.A minha voz ainda
ecoa versos perplexos
com rimas de sangue
                            e
                            fome.

A voz de minha filha
recorre todas as nossas vozes
recolhe em si
as vozes mudas caladas
engasgadas nas gargantas.

A voz de minha filha
recolhe em si
a fala e o ato.
O ontem - o hoje - o agora.
Na voz de minha filha
se fará ouvir a ressonância
o eco da vida-liberdade.

In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

Do feto que em mim brota
                 
Do meu corpo
o feto ossificado
há de brotar um dia.
Ele apenas se escondeu
nos vãos de minhas
sofridas entranhas,
enquanto eu de soslaio
assunto a brutalidade
do tempo.

Do meu olhar
a flor petrificada
em meu íntimo solo
contempla a distração de muitos
e balbucia uma estranha fala,
mas, eu sei qualquer dizer,
pois, quem convive
com os forçados à morte,
decifra todos os sinais
e sabe quando o silêncio,
julgado eterno,
está  para ser rompido.


In Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte: Nandyala, 2008.

quinta-feira, 16 de junho de 2016

Jorge Luis Borges/James Joyce





















Poema de Jorge Luis Borges neste Bloomsday.

James Joyce

En un día del hombre están los días
del tiempo, desde aquel inconcebible
día inicial del tiempo, en que un terrible
Dios prefijó los días y agonías

hasta aquel otro en que el ubicuo río
del tiempo terrenal torne a su fuente,
que es lo Eterno, y se apague en el presente,
el futuro, el ayer, lo que ahora es mío.

entre el alba y la noche está la historia
universal. Desde la noche veo
a mis pies los caminos del hebreo,

Cartago aniquilada, Infierno y Gloria.
Dame, Señor, coraje y alegría
para escalar la cumbre de este día.

Cambridge, 1968

* * *
James Joyce
Tradução de Augusto de Campos

Em apenas um dia estão os dias
Do tempo, desde aquele inconcebível
Dia inicial do tempo, em que o terrível
Deus prefixou os dias e agonias

Até aquele em que o ubíquo rio
Do tempo terrenal torne à nascente,
Que é o Eterno, e se apague no presente,
O futuro, o que foi e o que ora expio.

Entre a aurora e a noite está a história
Universal. Vejo, do fundo breu
A meus pés o caminho do hebreu,

Cartago aniquilada, Inferno e Glória
Dá-me, Senhor, coragem e alegria
Para escalar a escarpa deste dia.

Cambridge, 1968. São Paulo, 2013.


In BORGES, Jorge Luis. Quase Borges: 20 poemas e uma entrevista. Tradução de Augusto de Campos. São Paulo: Terracota, 2013.

quarta-feira, 15 de junho de 2016

Adrienne Rich (1929-2012)















Tempo norte-americano II

Tudo o que escrevemos
Será usado contra nós
ou contra aqueles que amamos.
São estas as condições,
é pegar ou largar.
A poesia nunca teve hipótese
de se pôr fora da história.
Um verso dactilografado há vinte anos
pode ser escarrapachado a tinta na parede
para glorificar a arte como distanciamento
ou tortura daqueles que
não amamos mas também
não quisemos matar

Nós seguimos mas as nossas palavras ficam
tornam-se responsáveis
por mais do que tínhamos na intenção

e isto é privilégio verbal.

Tradução de Maria Ramalho e Mónica Andrade

In Uma Paciência Selvagem. Lisboa: Cotovia. 2008.

sábado, 4 de junho de 2016

Boris Pasternak















Belíssimo poema do poeta russo Boris Pasternak na tradução de Augusto de Campos.

Ser famoso não é bonito.
Não nos torna mais criativos.
São dispensáveis os arquivos.
Um manuscrito é só um escrito.

O fim da arte é doar somente.
Não são os louros nem as loas.
Constrange a nós, pobres pessoas,
Estar na boca de toda a gente.

Cumpre viver sem impostura.
Viver até os últimos passos.
Aprender a amar os espaços
E a ouvir o som da voz futura.

Convém deixar brancos à beira
Não do papel, mas do destino,
E nesses vãos deixar inscritos
Capítulos da vida inteira.

Apagar-se no anonimato,
Ocultando nossa passagem
Pela vida, como à paisagem
Oculta a nuvem com recato.

Alguns seguirão, passo a passo,
As pegadas do teu passar,
Porém não deves separar
Teu sucesso de teu fracasso.

Não deves renunciar a um mín-
Imo pedaço do teu ser,
Só estar vivo e permanecer
Vivo, e viver até o fim.

In CAMPOS, Augusto de. Poesia da recusa. São Paulo: Perspectiva, 2006. p.103-104.