terça-feira, 26 de julho de 2016

Herberto Hélder e Zbigniew Herbert,





















O que acontece quando Zbigniew Herbert nasce em língua portuguesa pelas mãos de Herberto Hélder ultrapassa os limites da tradução.

Sobre tradução de poesia

Zumbindo um besouro pousa
numa flor e encurva
o caule delgado
e anda por entre filas de pétalas folhas
de dicionários
e vai direito ao centro
do aroma e da doçura
e embora transtornado perca
o sentido do gosto
continua
até bater com a cabeça
no pistilo amarelo
e agora o difícil o mais extremo
penetrar floralmente através
dos cálices até
à raiz e depois bêbado e glorioso
zumbir forte:
penetrei dentro dentro dentro
e mostrar aos cépticos a cabeça
coberta de ouro
de pólen

In Ouolof. Lisboa: Assírio & Alvim, 1997, pp. 9-10.

* * *

“Quanto a mim, não sei línguas. Trata-se da minha vantagem. Permite-me verter poesia do Antigo Egito desconhecendo o idioma, para português. Pego no Cântico dos Cânticos, em inglês ou francês, como se fosse um poema inglês ou francês, e, ousando, ouso não só um poema português como também, e, sobretudo, um poema meu. Versão direta, diz alguém. Recriação pessoal, diz alguém. Diletantismo ocioso, diz alguém. Não digo nada, eu. Se dissesse, diria: prazer. O meu prazer é assim, deambulatório, ao acaso, por súbito amor, projetivo. Não tenho o direito de garantir que esses textos são traduções. Diria: são explosões velozmente laboriosas. O meu labor consiste em fazer com que eu próprio ajuste cada vez mais ao meu gosto pessoal o clima geral do poema já português: a temperatura da imagem, a velocidade do ritmo, a saturação atmosférica do vocábulo, a pressão do adjetivo sobre o substantivo. Uma pessoa pergunta: e a fidelidade? Não há infidelidade. É que procuro construir o poema português pelo sentido emocional, mental, linguístico que eu tinha, subrepticiamente, ao lê-lo em inglês, francês, italiano ou espanhol. É bizarramente pessoal. Mas não há infidelidade que não o seja. Senão, claro, a ainda mais bizarra fidelidade gramatical que, de tão neutra, não pode ser fidelidade.”

In HÉLDER, Herberto. Photomaton & Vox. 3.ª ed. Lisboa: Assírio & Alvim, 1995, pp. 71-72.




terça-feira, 19 de julho de 2016

Jacques Roubaud

Foto de Alix Cléo Roubaud



















Poema de Jacques Roubaud traduzido por Inês Oseki-Dépré.

Em mim reinava a desolação

Onde tua existência era tão forte. tornara-se forma de ser.
Em mim reinava a desolação. como falando em voz baixa.
Mas as palavras não tinham a força de atravessar.
De atravessar apenas. pois não havia o quê.
Volta-se para o mundo. volta-se para si.
Não se queria habitar de modo algum.
É o núcleo habitual do infortúnio.
“Você” era nossa maneira de tratamento. fôra.
Morta eu não podia mais dizer senão : “tu”.

In Algo: preto. São Paulo: Perspectiva, 2005.




En moi régnait la désolation
Où ton inexistence était si forte. elle était devenue forme d'être.
En moi régnait la désolation. comme conversant à voix basse.
Mais les paroles n’avaient pas la force de franchir.
De franchir seulement. car il n'y avait pas quoi.
On se tourne vers le monde. on se tourne vers soi.
On voudrait n'habiter aucunement.
C'est le noyau habituel de l'infortune.
"Vous" était notre mode d'adresse. l’avait été.
Morte je ne pouvais plus dire que : "tu".