segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Luís Miguel Nava
















Sem outro intuito
  

Atirávamos pedras
à água para o silêncio vir à tona.
O mundo, que os sentidos tonificam,
surgia-nos então todo enterrado
na nossa própria carne, envolto
por vezes em ferozes transparências
que as pedras acirravam
sem outro intuito além do de extraírem
às águas o silêncio que as unia.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Charles Baudelaire

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LXXXIII

L’HÉAUTONTIMOROUMÉNOS *

A J. G. F.

Je te frapperai sans colère
Et sans haine, comme un boucher,
Comme Moïse le rocher!
Et je ferai de ta paupière,

Pour abreuver mon Saharah,
Jaillir les eaux de la souffrance.
Mon  désir gonflé d’espérance
Sur tes pleurs salés nagera

Comme un vaisseau qui prend le large,
Et dans mon coeur qu’ils soûleront
Tes chers sanglots retentiront
Comme un tambour qui bat la charge!

Ne suis-je pas un faux accord
Dans la divine symphonie,
Grâce à la vorace Ironie
Qui me secoue et qui me mord?

Elle est dans ma voix, la criarde!
C’est tout mon sang, ce poison noir!
Jê suis le sinistre miroir
Où la mégère se regarde.

Je suis la plaie et le couteau!
Je suis le soufflet et la joue!
Je suis les membres et la roue,
Et la victime et le bourreau!

Je suis de mon coeur le vampire,
— Un de ces grands abandonnés
Au rire éternel condamnés,
Et qui ne peuvent plus sourire!


* Título tomado a uma comédia de Terêncio, O carrasco de si mesmo.

* * *

      Tradução de Ivan Junqueira

O HEAUTONTIMOROUMENOS

A J. G. F.

Sem cólera te espancarei,
Como o açougueiro abate a rês,
Como Moisés à rocha fez!
De tuas pálpebras farei,

Para o meu Saara inundar,
Correr as águas do tormento.
O meu desejo ébrio de alento
Sobre o teu pranto irá flutuar

Como um navio no mar alto,
E em meu saciado coração
Os teus soluções ressoarão
Como um tambor que toca o assalto!

Não sou acaso um falso acorde
Nessa divina sinfonia,
Graças à voraz Ironia
Que me sacode e que me morde?

Em minha voz ela é quem grita!
E anda em meu sangue envenenado!
Eu sou o espelho amaldiçoado
Onde a megera se olha aflita.

Eu sou a faca e o talho atroz!
Eu sou o rosto e a bofetada!
Eu sou a roda e a mão crispada,
Eu sou a vítima e o algoz!

Sou um vampiro a me esvair
— Um desse tais abandonados
Ao riso eterno condenado,

E que não podem mais sorrir!

In BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,1985, pp. 306-309.


Gary Snyder

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Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat – o mais importante movimento literário e comportamental do pós-guerra nos Estados, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara em nossos dias: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã de nossa complexa paisagem cultural. No seu caso, defende seu papel tem sido o de ser uma testemunha da natureza, do mundo não humano.
Ele já foi chamado de “o Thoreau da geração beat”. Faz sentido. Incansável ativista ecológico, Snyder vem repetindo pelo menos desde os anos 50 e 60 um mantra que se tornou comum nos dias de hoje: devido à nossa obsessão com o consumo e materialismo e nossa violência sistemática contra a natureza (ou o que ele chama de “guerra contra a natureza”) o ser humano está com os dias contados.
Incluindo gêneros como poesia, ensaio, diário, tradução e prosa, sua obra corresponde aos principais movimentos contraculturais americanos: dos beats, nos anos 50 e hippies, nos anos 60, até os movimentos ecológicos dos anos 80 (como o Ecologia Profunda) e os movimentos antiglobalização dos anos 90. Sua literatura está marcada por uma assimilação e um diálogo profundo com as religiões e as culturas do Extremo Oriente e dos índios norte-americanos, além de uma ênfase na ligação entre ética e estética num grau máximo. Poesia, na sua definição, é “um instrumento de sobrevivência ecológica”, “o uso inspirado e hábil da voz e da linguagem para incorporar estados mentais raros e poderosos”. Sua poesia meditativa soube fundir o legado de Whitman, Thoreau, Ezra Pound, William Carlos Williams com os preceitos básicos do budismo, da filosofia e da poesia oriental, além da mitologia dos índios norte-americanos. Poucos fizeram tal fusão com tamanha competência.
Desde que foi celebrado como herói contracultural no romance The Dharma Bums (Os Vagabundos Iluminados), de Jack Kerouac (1958), na figura do personagem Japhy Ryder, muita água rolou: depois de ser marinheiro, lenhador, guarda florestal e passar mais de dez anos vivendo no Japão como um monge zen-budista, traduziu poesia japonesa e chinesa (Han Shan, entre outros), viajou pela Índia e retornou para os Estados Unidos. Depois, construiu seu rancho nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, onde vive até hoje, teve filhos, ganhou o Prêmio Pulitzer em 1975 (por seu livro Turtle Island), e foi membro do conselho de artes da Califórnia. Atualmente, Snyder faz leituras e conferências por todo o país.


Texto retirado de Protopia.


LMFBR

Death himself,
                (Liquid Metal Fast Breeder Reactor)
                stans grinning, beckoning.
Plutonium tooth-glow.
Eyebrows buzzing.
Strip-mining scythe.
Kālī dances on the dead stiff cock.
                Aluminium beer cans, plastic spoons,
plywood veneer, PVC pipe, vinyl seat covers,
                               don’t exactly burn, don’t quite rot,
                               flood over us,
                               robes and garbs
                               of the Kālī-yūga
                                     end of days.

* * *

Tradução: Fabio Malavoglia

RRRML

A morte em si,
                (Reator de Resfriamento Rápido por Metal Líquido)
                gargalha, de pé, chamando.
Dente de esmalte-plutônio.
Supercílios zumbindo.
Cimitarra de talho fino.
Kālī dança sobre a rola dura e morta.
                Alumínio de latas, plástico de colheres,
compensado em folhas, PVC de canos, vinil de capas de assentos,
                não queimam bem, e nem sequer apodrecem,
                vertem-se sobre nós.
                roupas e mantos
                do Kālī-yūga

                    fim dos dias.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

Dois tankas



Tanka de Jorge Luis Borges

No haber caído, 
Como otros de mi sangre, 
En la batalla.


Ser en la vana noche 
El que cuenta las sílabas


(In Lo oro de los tigres)

* * *

Não haver caído
Como outros de meu sangue,
Na batalha.

Ser na inútil noite
O que conta as sílabas.

 



Tanka de José Antônio Cavalcanti

A mulher que chora
alto no alpendre vazio
respira mais fundo.



O vento carrega rosas
no galope da lua cheia.




Lezama Lima





Ah, que tú escapes

Ah, que tú escapes en el instante
en el que ya habías alcanzado tu definición mejor.
Ah, mi amiga, que tú no quieras creer
las preguntas de esa estrella recién cortada,
que va mojando sus puntas en otra estrella enemiga.

Ah, si pudiera ser cierto que a la hora del baño,
cuando en una misma agua discursiva
se bañan el inmóvil paisaje y los animales más finos:
antílopes, serpientes de pasos breves, de pasos evaporados
parecen entre sueños, sin ansias levantar
los más extensos cabellos y el agua más recordada.
Ah, mi amiga, si en el puro mármol de los adioses
hubieras dejado la estatua que nos podía acompañar,
pues el viento, el viento gracioso,
se extiende como un gato para dejarse definir.



Do livro Enemigo rumor, 1943.


Franz Kafka




Kafka, a aristocracia e as leis

“Nossas leis não são conhecidas por todos, elas são um segredo do pequeno grupo de aristocratas que nos domina. Estamos convencidos de que essas velhas leis são observadas com exatidão, mas é algo extremamente torturante ser dominado por leis que não se conhecem. Não estou aqui pensando nas diversas possibilidades de interpretação e nos prejuízos daí decorrentes, quando só alguns, e não o povo todo, podem participar da interpretação. Talvez esses prejuízos nem sejam tão grandes. Afinal, as leis são tão antigas, séculos trabalharam em sua interpretação, inclusive essa interpretação já deve ter se tornado lei, e, embora possíveis liberdades exegéticas ainda persistam, elas devem ser, no entanto, muito limitadas. Além disso, a aristocracia não tem, evidentemente, nenhuma razão para se deixar influenciar na interpretação em nosso desfavor por seu interesse pessoal, pois, afinal, as leis foram fixadas desde o início a favor da aristocracia, a aristocracia está acima da lei, e, justamente por isso, a lei parece ter-se colocado exclusivamente nas mãos da aristocracia.”


Início do texto “Sobre a questão das leis”, de Franz Kafka. In  Nas galerias. Tradução de Flávio R. Kothe. São Paulo: Estação Liberdade, 1989, p, 93.


João Cabral de Melo Neto



Porque viver é sem abrigo, como disse de modo notável João Cabral de Melo Neto.

A Carlos Drummond de Andrade

Não há guarda-chuva
contra o poema
subindo de regiões onde tudo é surpresa
como uma flor mesmo num canteiro.

Não há guarda-chuva
contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer boca,
que tritura como um desastre.

Não há guarda-chuva
contra o tédio:
o tédio das quatro paredes, das quatro
estações, dos quatro pontos cardeais.

Não há guarda-chuva
contra o mundo
cada dia devorado nos jornais
sob as espécies de papel e tinta.


Não há guarda-chuva
contra o tempo,
rio fluindo sob a casa, correnteza
carregando os dias, os cabelos.

Bocage




Escreveu Bocage, próximo ao fim do século XVIII, alguns poemas críticos ao despotismo em Portugal. Isso contribuiu para que o convidassem a gozar dos privilégio de uma prisão por crime de lesa-majestade, afinal todos os tiranos impõem elogios ou silêncio. Encontrei o poeta português hoje no Largo de Pilares, atônito, mais de duzentos anos depois, sem saber o que escrever. Ao pegar o ônibus para Duque de Caxias, deixou cair este poema.


Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
Porque (triste de mim!) porque não raia
Já na esfera de Lísia a tua aurora?

Da santa redenção é vinda a hora
A esta parte do mundo que desmaia.
Oh! Venha... Oh! Venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz, que nos devora!

Eia! Acode ao mortal, que, frio e mudo,
Oculta o pátrio amor, torce a vontade,
E em fingir, por temor, empenha estudo.

Movam nossos grilhões tua piedade;
Nosso númen tu és, e glória, e tudo,
Mãe do gênio e prazer, oh Liberdade!


Hölderlin e eu



Voltar a Hölderlin numa noite chuvosa de domingo é ouro.

A viagem da vida

Para o alto forcejava meu espírito, mas
Amor trouxe-o logo para baixo, mais ainda
Encurvou-o o sofrimento; assim, eis que o arco
Da vida me trouxe ao ponto de partida.

Tradução de José Paulo Paes

Aqui um pálido reflexo que incluí no livro Movimento Suspeito, Editora Urutau, 2016.

A ilha de Kant


Atlântida infundada
a vida
apenas
ponto de partida
nenhum
porto de chegada.


Walter Benjamin


Jean Selz (left), Paul Gauguin (the painter’s grandson), Benjamin, and fisherman Tomás Varó (with hat) sailing in the bay of San Antonio, May 1933.
















Passagem pela Rua de mão única


Certos textos são assustadores pelas semelhanças que despertam. Hoje reencontrei Walter Benjamin numa esquina da Rua de mão única.
- Troque a última palavra da nossa conversa por "brasileiros" - disse-me baixinho ao nos despedirmos.

"Um estranho paradoxo: as pessoas só têm em mente o mais estreito interesse privado quando agem, mas ao mesmo tempo são determinadas mais que nunca em seu comportamento pelos instintos da massa. E mais que nunca os instintos de massa se tornaram desatinados e alheios à vida. Onde o obscuro impulso do animal - como o narram inúmeras anedotas - encontra a saída do perigo que se aproxima e que ainda parece invisível, ali essa sociedade, da qual cada um tem em mira unicamente seu próprio inferior bem-estar, sucumbe, como massa cega, com inconsciência animal, mas sem o inconsciente saber dos animais, a cada perigo, mesmo o mais próximo, e a diversidade de alvos individuais se torna irrelevante perante a identidade das forças determinantes. Repetidamente se mostrou que seu apego à vida habitual, agora já perdida há muito tempo, é tão rígido que frustra a aplicação propriamente humana do intelecto, a previdência, mesmo no perigo drástico. De modo que nela a imagem da estupidez se completa: insegurança, perversão mesmo, dos instintos vitalmente importantes, e impotência, declínio mesmo, do intelecto. Essa é a disposição da totalidade dos burgueses alemães."

In Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1987, p.21.


Franz Kafka





O porteiro de Kafka


“Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo dirige-se a este porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde. ‘É possível’, diz o porteiro, ‘mas agora não.’ Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta, e o porteiro se põe de lado, o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso, o porteiro ri e diz: ‘Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala, porém, existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a visão do terceiro’.”


In KAFKA, Franz. O processo. Tradução de Modesto Carone. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 214.

Walter Benjamin




Em nova caminhada pela Rua de mão única, tantas vezes percorrida outrora, parei em frente ao nº 268 no exato momento em que Walter Benjamin colava na vitrine de uma livraria às moscas este texto.


“O bom escritor não diz mais do que pensa. E isso é muito importante. É sabido que o dizer não é apenas a expressão do pensamento, mas também a sua realização. Do mesmo modo, o caminhar não é apenas a expressão do desejo de alcançar uma meta, mas também sua realização. Mas a natureza da realização – faça justiça à meta ou se perca, luxuriante e imprecisa, no desejo – depende do treinamento de quem está a caminho. Quanto mais mantiver a disciplina e evitar os movimentos supérfluos, desgastantes e oscilantes, tanto mais cada postura do corpo satisfará a si própria e tanto mais apropriada será sua atuação. Ao mau escritor ocorrem muitas coisas, e nisso se gasta tanto quanto o mau corredor não treinado nos movimentos indolentes e gesticulados dos músculos. Mas exatamente por isso nunca pode dizer sobriamente o que pensa. É dom do bom escritor, com seu estilo,, conceder ao pensamento o espetáculo oferecido por um corpo gracioso e bem treinado. Nunca diz mais do que pensou. Por isso, o seu escrito não reverte em favor dele mesmo, mas daquilo que quer dizer.”




Jean-Luc Nancy




“A poesia é, por essência, mais e outra coisa que a própria poe­sia. Ou ainda: a própria poesia pode muito bem ser encontrada ali onde sequer há poesia. Ela pode até mesmo ser o contrário ou a recusa da poesia, e de toda a poesia. A poesia não coincide consigo mesma: talvez essa não coincidência, essa impropriedade substan­cial, seja o que faz propriamente a poesia”.


Jean-Luc Nancy em "Fazer, a poesia".


Emílio Moura (1902-1971)




Um poema de Emílio Moura, do time dos poetas esquecidos.

Canção

Viver não dói. O que dói
é a vida que se não vive.
Tanto mais bela sonhada,
quanto mais triste perdida.

Viver não dói. O que dói
é o tempo, essa força onírica
em que se criam os mitos
que o próprio tempo devora.

Viver não dói. O que dói
é essa estranha lucidez,
misto de fome e de sede
com que tudo devoramos.

Viver não dói. O que dói,
ferindo fundo, ferindo,
é a distância infinita
entre a vida que se pensa
e o pensamento vivido.


Que tudo o mais é perdido.


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

José Antônio Cavalcanti

Caderno de rascunho de Samuel Beckett

















Caderno de rascunho

O lugar onde
nada acontece
ainda
apenas o risco
de (fora da linha)
a palavra
(que não virá)
acontecer.


Poema do livro Movimento suspeito, Urutau, 2016.


Anne Sexton





The Firebombers
    
We are America.
We are the coffin fillers.
We are the grocers of death.
We pack them in crates like cauliflowers.

The bomb opens like a shoebox.
And the child?
The child is certainly not yawning.
And the woman?
The woman is bathing her heart.
It has been torn out of her
and as a last act
she is rinsing it off in the river.
This is the death market.

America,
where are your credentials?

 ***

Os bombardeiros

        Tradução de José Antônio Cavalcanti

Nós somos a América.
Somos enchedores de caixões.
Nós somos mascates da morte.
Arrumamos cadáveres como couves-flores em caixotes.

A bomba se abre qual caixa de sapatos.
E a criança?
A criança certamente não boceja.
E a mulher?
A mulher lava o seu coração.
Foi-lhe arrancado vivo
e agora, num último ato,
enxágua-o no rio.
Este é o mercado da morte.

América,

onde estão as tuas credenciais?


Tristan Corbière





Paysage mauvais

Sables de vieux os - Le flot râle
Des glas : crevant bruit sur bruit ...
- Palud pâle, où la lune avale
De gros vers, pour passer la nuit.

- Calme de peste, où la fièvre
Cuit ... Le follet damné languit.
- Herbe puante où le lièvre
Est un sorcier poltron qui fuit ...

- La Lavandière blanche étale
Des trépassés le linge sale,
Au soleil des loups... - Les crapauds,

Petits chantres mélancoliques
Empoisonnent de leurs coliques,
Les champignons, leurs escabeaux..


Paisagem má

        Tradução de José Antônio Cavalcanti *

Areias de antigos ossos, a onda
Em cólera, dobra-se ao açoite...
No pântano pálido, redonda
Lua devora vermes, à noite...

Calma de peste, onde alta febre
Queima... Um gênio louco se estiola.
- Erva fétida, fugidia lebre
Invoca um xamã frouxo e se evola...

A alva Lavadeira não se inibe,
A roupa suja da morte exibe
ao sol dos lobos... - Sapos singelos,

Pequenas criaturas melancólicas,
Contaminam com suas próprias cólicas

Chão de caracóis e cogumelos.
 

* Li as traduções de Augusto de Campos e Marcos Siscar. Resolvi aventurar a minha. Fugi ao octossílabo original, optando pelo eneassílabo.



César Vallejo





César Vallejo jogou as letras do idioma de Pizarro em vaso cerimonial, temperou-as com ervas e preces quíchuas. O que ficou no fundo, sacudiu com as mãos ossudas até obter o movimento rotatório construído com papel e barro - o círculo milenar que guarda lhama, condor, puma e poeta. Muito além dos Andes paira o mistério da passagem ritualística do micro ao macro, viagem clandestina do ponto de sagração e de sangramento à esfera instável do planeta e de todo o universo. Meu exercício de tradução é mais um gesto de devoção.

Huaco
    
Yo soy el coraquenque ciego
que mira por la lente de una llaga,
y que atado está al Globo,
como a un huaco estupendo que girara.

Yo soy el llama, a quien tan sólo alcanza
la necedad hostil a trasquilar
volutas de clarín,
volutas de clarín brillantes de asco
y bronceadas de un viejo yaraví.

Soy el pichón de cóndor desplumado
por latino arcabuz;
y a flor de humanidad floto en los Andes,
como un perenne Lázaro de luz.

Yo soy la gracia incaica que se roe
en áureos coricanchas bautizados
de fosfatos de error y de cicuta.
A veces en mis piedras se encabritan
los nervios rotos de un extinto puma.

Un fermento de Sol;
levadura de sombra y corazón!



Huaco

        Tradução de José Antônio Cavalcanti

Eu sou o coraquenque cego
que olha pela lente de uma chaga,
atado ao Globo
como a um huaco estupendo que giragira.

Eu sou o lhama, a quem tão só alcança
a necedade hostil de tosquiar
ornatos de clarim,
ornatos de clarins brilhantes de asco
e bronzeados de velho yaraví.

Sou filho de condor desplumado
por latino arcabuz;
e à flor da humanidade flutuo sobre os Andes
como eterno Lázaro de luz.

Eu sou a graça incaica que se rói
em áureos coricanchas batizados
de fosfato de erro e cicuta.
Às vezes em minhas pedras se encabritam
os nervos exaustos de um extinto puma.

Um fermento de Sol;
levedura de sombra e coração!


Notas:

Huaco, cerâmica pré-colombiana. 
Corequenque, ave sagrada dos incas que usavam as suas plumas na confecção de coroas destinadas aos soberanos. 
Yaraví, canção que funde elementos de origem indígena e hispânica. 

Coricancha, grande Templo do Sol, em Cuzco; sobre as suas ruínas os espanhóis construíram a igreja de Santo Domingo.