quinta-feira, 31 de maio de 2012

Mário de Andrade: reinventando o Brasil. (Mestres da Literatura)





Nascido em São Paulo no ano de 1893, Mário Raul de Morais Andrade começou sua carreira artística dedicando-se à arte musical: formado em Música no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde seria mais tarde professor de História de Música. Seu contato com a literatura começa também bem cedo, através de críticas de arte que Mário escrevia para jornais e revistas. 

Em 1917 publica seu primeiro livro, sob o pseudônimo de Mário Sobral: Há uma Gota de Sangue em Cada Poema. Um dos principais participantes da Semana de Arte Moderna em 1922, respirou como ninguém os ares do novo
movimento, vindo a publicar Paulicéia Desvairada (1922), o primeiro livro  de poesias do Modernismo. Lecionou por algum tempo na Universidade do Distrito Federal e exerceu vários cargos públicos ligados à cultura, de onde sobressaía sua faceta de importante pesquisador do folclore brasileiro (incorporando-o inclusive em suas obras).
Teve ainda participação importante nas principais revistas de caráter Modernista: "Klaxon", "Estética", "Terra Roxa e Outras Terras". 
A obra de Mário de Andrade é indispensável para se entender todas as faces da arte moderna pregada na Semana de 22, marco de nosso Modernismo, á que ela se estende desde a poesia até o romance e o conto, além de suas importantes teses sobre a literatura em nosso país. Sua grande virtude está em quebrar com o Parnasianismo da elite, criando uma nova linguagem literária, mais brasileira. Trabalhando muito bem com a sonoridade das palavras, Mário resgata em nossas letras um vocabulário que une desde as palavras providas de línguas indígenas até os neologismos e estrangeirismos dos bairros italianos de São Paulo.
 A poesia de Mário de Andrade mostra nítidos estágios de evolução: seu primeiro livro, Há uma Gota de Sangue em Cada Poema (1917), mostra poemas ainda num estilo mais conservador. A preocupação é usar a poesia enquanto instrumento de paz e denunciar os horrores da primeira guerra mundial.
Os livros Pauliceia Desvairada (1922) e Losango Cáqui (1926) já denotam toda a sua tendência modernista: versos livres, linguagem solta e lírica, nacionalismo exaltado, principalmente em sua paixão declarada em cantar a cidade de São Paulo com toda a sua agitação, seu barulho, e elementos como o cimento armado, a garoa e a fumaça. São poemas que mostram a vida quotidiana, a preocupação em descrever simples ideias e emoções, uso da ironia e do poema-piada, a poesia-telegrama (poemas curtos, porém providos sempre de grande significação), a montagem e a colagem de imagens (características próprias da pintura de vanguarda) e divulgação das ideias de vanguarda (Cubismo, Futurismo, Dadaísmo, etc.). O livro Paulicéia Desvairada, primeira obra poética modernista, já continha em seu início o famoso "Prefácio Interessantíssimo": conjunto de ideias onde são expostas as características do Modernismo.
 O livro Clã do Jabuti (1927) já denota sua fase mais nacionalista, na busca de uma identidade mais brasileira dentro de sua poesia, com o vasto uso de nosso rico folclore, conciliando as tradições africanas, indígenas e sertanejas.
A última fase poética pode ser vista nos livros posteriores, principalmente em Lira Paulistana (1946), que revela uma poesia mais madura, pessoal, sem a ironia e a agitação dos primeiros anos do Modernismo. Os poemas nessa fase são marcados por um tom mais solene, sereno e triste.
Em prosa, destaque para os dois romances: Macunaíma (1928) e Amar, Verbo Intransitivo (1927). Em Macunaíma está presente todo o seu nacionalismo e sua forte ligação com o folclore. Há uma colagem de anedotas e lendas brasileiras, onde as culturas do norte e do sul convivem juntas. O personagem Macunaíma, anti-herói (ou "herói sem nenhum caráter", como sugere o livro) serve de ponte para a fusão de todas as nossas vertentes culturais, nossas tradições e expressões de linguagem. Em Amar, Verbo Intransitivo, há a denúncia da hipocrisia da elite burguesa de São Paulo, bem como uma profunda análise psicológica dos personagens que retoma as teorias de Freud e desmistifica a relação familiar.
Como contista, os trabalhos mais significativos de Mário de Andrade acham-se em Os contos de Belazarte e Contos Novos. O primeiro livro mostra a preocupação do autor em denunciar as desigualdades sociais. O segundo se constitui de textos esparsos (reunidos em publicação póstuma), mas traz os contos mais importantes, como "Peru de Natal" e "Frederico Paciência".

O autor de Macunaíma teve uma atuação destacada na “Semana de Arte Moderna” e participou ativamente das revistas que ajudaram a divulgar as propostas modernistas, como  "Klaxon", "Estética" e "Terra Roxa e Outras Terras".

Mário de Andrade deixou ainda uma vasta lista de obras, principalmente a respeito de Música e Folclore, bem como correspondências a amigos e intelectuais, reunidas posteriormente sob a forma de livros.

Morreu de ataque cardíaco, em 1945, aos 51 anos. Sua obra poética foi reunida e publicada postumamente em "Poesias Completas".


Bibliografia
Há uma gota de sangue em cada poema, 1917; Paulicéia desvairada, 1922; A escrava que não é Isaura, 1925; Losango cáqui, 1926; Primeiro andar, 1926; A clã do jabuti, 1927; Amar, verbo intransitivo, 1927; Ensaios sobra a música brasileira, 1928; Macunaíma, 1928; Compêndio da história da música, 1929 (reescrito como Pequena história da música brasileira, 1942);Modinhas imperiais, 1930; Remate de males, 1930; Música, doce música, 1933; Belasarte, 1934; O Aleijadinho de Álvares de Azevedo, 1935; Lasar  Segall, 1935; Música do Brasil, 1941;Poesias, 1941; O movimento modernista, 1942; O baile das quatro artes, 1943; Os filhos da Candinha, 1943; Aspectos da literatura brasileira 1943; O empalhador de passarinhos, 1944; Lira paulistana, 1945; O carro da miséria, 1947; Contos novos, 1947; O banquete, 1978; Será o Benedito!, 1992; Obras completas, publicação iniciada em 1944, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo, compreendendo 20 volumes; Poesias completas, 1955; Poesias completas, editora Martins - São Paulo, 1972.






Todos os poemas transcritos foram retirados do livro acima. ANDRADE, Mário de. Poesias completas: Edição crítica de Diléa Zanotto Manfio. Belo Horizonte: Itatiaia; Sao Paulo, USP, 1987.



FRAGMENTOS DO PREFÁCIO INTERESSANTÍSSIMO


1. Leitor:
    Está fundado o Desvairismo.

4. Quando sinto a impulsão lírica escrevo sem pensar: tudo o que meu inconsciente me grita. (...)

5. Aliás muito difícil nesta prosa saber onde termina a blague, onde principia a seriedade. Nem eu sei.

6.Não sou futurista (de Marinetti). Disse e repito-o. tenho pontos de contacto com o futurismo. Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou. (...)

18. Um pouco de teoria?
      Acredito que o lirismo, nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada.

19. (...) Arte que, somada a Lirismo, dá Poesia. (...)

51. Pronomes? Escrevo brasileiro. Si uso ortografia portuguesa é porque, não alterando o resultado, dá-me uma ortografia.

54. (...) Somos na realidade os primitivos duma nova era. (...)

Organizadores da Semana de Arte Moderna de 1922: René Thiollier, Manuel Bandeira, Manoel Villaboin, Francesco Petinatti, Paulo Prado, Afonso Schmidt, Mário de Andrade, Cândido Mota Filho, Graça Aranha, Goffredo da Silva Telles, Couto de Barros, Borba de Morais, Luís Aranha, Tácito de Almeida e Oswald de Andrade 





















DEZ POEMAS



Inspiração


          “Onde até na força do verão havia tempestades de ventos
           e frios de crudelíssimo inverno”
                                                                Fr. Luís de Sousa


São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...

São Paulo! comoção de minha vida...
Galicismo a berrar nos desertos da América.

(p. 83)


Mário de Andrade por Tarsila do Amaral





























O Trovador

Sentimentos em mim do asperamente
dos homens das primeiras eras...
As primaveras de sarcasmo
Intermitentemente no meu coração arlequinal...
Intermitentemente...
Outras vezes é um doente, um frio
na minha alma doente como um longo som redondo...
Cantabona! Cantabona!
Dlorom...

Sou um tupi tangendo um alaúde!

(p. 83)






Ode ao burguês


Eu insulto o burguês! O burguês-níquel,
O burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! o homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
É sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampeões! os condes Joões! os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos;
E gemem sangue de alguns milréis fracos
Para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
E tocam o "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
O êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! ao burguês-tílburi!
Padaria Suíça! Morte viva ao Adriano!
"- Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
- Um colar... - Conto e quinhentos!!!
Mas nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte e infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados!
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
Cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

(p. 88-89)



 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jorobabel


Um choro aberto sobre o universo desaba
A badalar... Um choro aberto sobre a Terra
Em bandos de ais... Guaiar profético se expande...
Anda fraco no mundo o agouro da miséria...

Job abúlico baba o fel que o devora... Hirta
A multidão que despareceu Abel...
Um choro... E a vida excessivamente infinita!...
Clamor! Ninguém se entende! Um Deus não vem!... Babel!...

Babel! Um choro aberto sobre a confusão
Das raças! Babel! Os sinos em arremessos
Bélicos! Badalar dos sinos! Multidão
Hirta! Jerusalém incendiada... Rebate

Babel! Jerusalém! Jorobabel! Babel!
Batem os bronzes bimbalhando! Pobre Job
Sem ouro, multidão devora e baba o fel!...
Um choro aberto de entes misérrimos...

(p. 143)


Mário de Andrade, 1931
























Cabo Machado

Cabo Machado é cor de jambo,
Pequenino que nem todo brasileiro que se preza,
Cabo Machado é moço bem bonito.
É como si a madrugada andasse na minha frente.
Entreabre a boca encarnada num sorriso perpétuo
Adonde alumia o Sol de ouro dos dentes
Obturados com luxo oriental.

Cabo Machado marchando
É muito pouco marcial.
Cabo Machado é dançarino, sincopado,
Marcha vem-cá-mulata.
Cabo Machado traz a cabeça levantada
Olhar dengoso pros lados.
Segue todo rico de joias olhares quebrados
Que se enrabicharam pelo posto dele
E pela cor-de-jambo.

Cabo Machado é delicado, gentil.
Educação francesa mesureira.
Cabo Machado é doce que nem mel
E polido que nem manga-rosa.
Cabo Machado é bem o representante duma terra
Cuja Constituição proíbe as guerras de conquista
E recomenda cuidadosamente o arbitramento.
Só não bulam com ele!
Mas amor menos confiança!
Cabo Machado toma um jeito de rasteira...

Mas traz unhas bem tratadas
Mãos transparentes frias,
Não rejeita o bom-tom do pó-de-arroz.
Si vê bem que prefere o arbitramento,
E tudo acaba em dança!
Por isso cabo Machado anda maxixe.

Cabo Machado...  bandeira nacional!

(p. 144)


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 A serra do rola-moça (*)



A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
Eles eram do outro lado,
Vieram na vila casar.
E atravessaram a serra,
O noivo com a noiva dele
Cada qual no seu cavalo.

Antes que chegasse a noite
Se lembraram de voltar.
Disseram adeus pra todos
E se puserem de novo
Pelos atalhos da serra
Cada qual no seu cavalo.
Os dois estavam felizes,
Na altura tudo era paz.
Pelos caminhos estreitos
Ele na frente, ela atrás.
E riam. Como eles riam!
Riam até sem razão.
A Serra do Rola-Moça
Não tinha esse nome não.
As tribos rubras da tarde
Rapidamente fugiam
E apressadas se escondiam
Lá embaixo nos socavões,
Temendo a noite que vinha.
Porém os dois continuavam
Cada qual no seu cavalo,
E riam. Como eles riam!
E os risos também casavam
Com as risadas dos cascalhos,
Que pulando levianinhos
Da vereda se soltavam,
Buscando o despenhadeiro.
Ali, Fortuna inviolável!
O casco pisara em falso.
Dão noiva e cavalo um salto
Precipitados no abismo.
Nem o baque se escutou.
Faz um silêncio de morte,
Na altura tudo era paz ...
Chicoteado o seu cavalo,
No vão do despenhadeiro
O noivo se despenhou.
E a Serra do Rola-Moça
Rola-Moça se chamou.

* -  Este poema na verdade é uma parte do longo “Noturno de Belo Horizonte”, publicado em Clã de Jabuti, 1924.

(p; 164-186)































Eu Sou Trezentos...

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh espelhos, ôh Pirineus! ôh caiçaras!
Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

Abraço no meu leito as milhores palavras,
E os suspiros que dou são violinos alheios;
Eu piso a terra como quem descobre a furto
Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
Mas um dia afinal eu toparei comigo...
Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
Só o esquecimento é que condensa,
E então minha alma servirá de abrigo.

(p. 211)



























Lundu do escritor difícil

Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquisila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

Misturo tudo num saco,
Mas gaúcho maranhense
Que para no Mato Grosso,
Bate este angu de caroço
Ver sopa de caruru;
A vida é mesmo um buraco,
Bobo é quem não é tatu!

Eu sou um escritor difícil,
Porém culpa de quem é!...
Todo difícil é fácil,
Abasta a gente saber.
Bagé, piché, chué, ôh "xavié",
De tão fácil virou fóssil,
O difícil é aprender!

Virtude de urubutinga
De enxergar tudo de longe!
Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu cassange!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
- Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
(p.306-307)


Mário de Andrade pintado por Lasar Segall





















Os gatos


Que beijos que eu dava...
Não tigre, vossa boca é mesmo que um gato
Imitando tigre.
Boca rajada, boca rasgada de listas,
De preto, de branco,
Boca hitlerista,
Vossa boca é mesmo que um gato.

Nas paredes da noite estão os gatos.
Têm garras, têm enormes perigos
De exércitos disfarçados,
Milhares de gatos escondidos por detrás da noite incerta,
Irão estourar por aí de repente,
Já estão com mil rabos além de São Paulo,
Nem sei mais si são as fábricas que miam
Na tarde desesperada.

Penso que vai chover sobre os amores dos gatos.
Fugirão?... e só eu no deserto das ruas,
Oh incendiária dos meus aléns sonoros,
Irei buscando a vossa boca,
Vossa boca hitlerista,
Vossa boca mais nítida que o amor,
Ai, que beijos que eu dava...
Guardados na chuva...
Boiando nas enxurradas
Nosso corpo de amor...
Que beijos, que beijos que eu dou!

Vamos enrolados pelas enxurradas
Em que boiam corpos, em que boiam os mortos,
Em que vão putrefatos milhares de gatos...
Das casas cai mentira,
Nós vamos comas enxurradas,
Com a perfeita inocência dos fenômenos da terra,
Voluptuosamente mortos,
Os sem ciência mais nenhuma de que a vida
Está horrenda, querendo ser, erguendo os rabos
Por trás da noite, em companhia dos milhões de gatos verdes.

(p. 313-314)

Mário de Andrade em Araraquara






















Moça linda bem tratada


Moça linda bem tratada,
Três séculos de família,
Burra como uma porta:
          Um amor.

Grã-fino do despudor,
Esporte, ignorância e sexo,
Burro como uma porta:
          Um coió.

Mulher gordaça, filó,
De ouro por todos os poros
Burra como uma porta:
          Paciência...

Plutocrata sem consciência,
Nada porta, terremoto
Que a porta de pobre arromba:
          Uma bomba.

(p. 380)



quarta-feira, 30 de maio de 2012

Nicanor Parra
























EL HOMBRE IMAGINARIO

El hombre imaginario

vive en una mansión imaginaria
rodeada de árboles imaginarios
a la orilla de un río imaginario

De los muros que son imaginarios

penden antiguos cuadros imaginarios
irreparables grietas imaginarias
que representan hechos imaginarios
ocurridos en mundos imaginarios
en lugares y tiempos imaginarios

Todas las tardes tardes imaginarias
sube las escaleras imaginarias
y se asoma al balcón imaginario
a mirar el paisaje imaginario
que consiste en un valle imaginario
circundado de cerros imaginarios

Sombras imaginarias
vienen por el camino imaginario
entonando canciones imaginarias
a la muerte del sol imaginario
Y en las noches de luna imaginaria
sueña con la mujer imaginaria
que le brindó su amor imaginario
vuelve a sentir ese mismo dolor
ese mismo placer imaginario
y vuelve a palpitar
el corazón del hombre imaginario.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Dylan Thomas




Dylan Thomas nasceu em Swansea, Glamorganshire, Wales (1914) e faleceu em Nova York (1953). Um dos mais importantes poetas universais do século XX, natural do País de Gales, foi um incompreendido em vida (faleceu aos trinta e nove anos), mas a qualidade soberba da sua Obra salvou-o para a História da Literatura. Hoje é estudado em Universidades, cantado por vozes de diferentes continentes e até o famoso Bob Dylan usou o seu sobrenome como pseudónimo artístico. Saído de uma escola literária que teve autores como T. S. Eliot, Edith Sitwell, W. H. Auden ou Stephen Spender, não deixou, infelizmente, uma obra vasta à Humanidade. Mas a sua poesia, intensa, contemporânea, plena de vivência dos sentidos, toca a sensibilidade de gerações e está viva, em muitas línguas do globo, incluindo a portuguesa. «Deaths and Entrances" (1946) é um dos seus livros mais conhecidos, a par com os seus «Collected Poems» (1934-1952). É um ícones culturais do século passado.
 
Obra (poesia, prosa e teatro): 18 Poems (1934), 25 Poems (1936), The Map of Love (1939), The World I Breathe (1939), Portrait of the Artist as a Young Dog (1940), New Poems (1943), Deaths and Entrances (1946), Twenty-Six Poems (1950), In Country Sleep (1952), Collected Poems, 1934-1952 (1952), The Doctors and the Devils (1953), Under Milkwood (1954), Quite Early One Morning (1954), Adventures in the Skin Trade and Other Stories (1955), A Prospect of the Sea (1955), A Child’s Christma
 
 
TRÊS POEMAS



AND DEATH SHALL HAVE NO DOMINION

And death shall have no dominion.
Dead men naked they shall be oneWith the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan't crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.
 
 
 
E A MORTE NÃO IRÁ SE IMPOR

            Tradução de Nelson Ascher

E a morte não irá se impor.
Quando já nus os mortos cuja ossada
Se une a quem vai no vento ou sobrenada
Ao luar ocidental não forem nada,
Estrelas brilharão em seu redor ;
Hão de ser sãos mesmo se insanos antes
E salvos mesmo sob o mar e amantes
Mesmo os que nada mais são salvo amor ;
E a morte não irá se impor

E a morte não irá se impor.
Tampouco ao soçobrar foi-se assombrado
Quem jaz no mar sombrio nem foi malgrado
Só sobrem rotos seus tendões dobrado
Na roda e nos tormentos da tormenta ;
Se a fé nas mãos desdobra-se e conforme
Irrompe tal desastre que unicorne
Rompe-o de cima a baixo, ele se aguenta ;
E a morte não irá se impor.

E a morte não irá se impor.
Não que ouçam mais gaivotas a gritar
Ou rebentando costa afora o mar
Mas onde já floriu se ora ao azar
Da chuva nem há flor, mesmo se for
Cinzas às cinzas tudo que eram, cada
Feição deles aflora cinzelada
Ao sol enquanto houver sol numa flor,
E a morte não irá se impor .

 
Dylan Thomas e Caitlin MacNamara em Blashford, Hampshire, pouco depois de seu
casamento em 1937.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
IN MY CRAFT OR SULLEN ART

In my craft or sullen art
Exercised in the still night
When only the moon rages
And the lovers lie abed
With all their griefs in their arms,
I labor by singing light
Not for ambition or bread
Or the strut and trade of charms
On the ivory stages
But for the common wages
Of their most secret heart.

Not for the proud man apart
From the raging moon I write
On these spindrift pages
Nor for the towering dead
With their nightingales and psalms
But for the lovers, their arms
Round the griefs of the ages,
Who pay no praise or wages
Nor heed my craft or art.
 
 
 
NO MEU OFÍCIO OU ARTE AMARGA

                    Tradução de Ivo Barroso

No meu ofício ou arte amarga
Que à noite tarda é exercido
Quando alucina só a lua
E dormem lassos os amantes
Com as dores todas entre os braços,
É que trabalho à luz cantante
Não pela glória ou pelo pão,
Desfile ou feira de fascínios
Por sobre palcos de marfim,
Mas pela paga mais afim
De seus secretos corações!

Não para alguém altivo à parte
Da lua irada é que eu escrevo
Os respingados destas páginas
Nem pelos mortos presumidos
Cheios de salmo e rouxinóis.
Mas para amantes cujos braços
Têm os cansaços das idades
Que não me dão louvor nem paga
Nem prezam meu ofício ou arte. 
 

Cartão postal com imagens de Swansea, Glamorganshire, Wales, terra natal do poeta



 

 

 

 

 

 

 

 

A WINTER'S TALE

It is a winter's tale
That the snow blind twilight ferries over the lakes
And floating fields from the farm in the cup of the vales,
Gliding windless through the hand folded flakes,
The pale breath of cattle at the stealthy sail,

And the stars falling cold,
And the smell of hay in the snow, and the far owl
Warning among the folds, and the frozen hold
Flocked with the sheep white smoke of the farm house cowl
In the river wended vales where the tale was told.

Once when the world turned old
On a star of faith pure as the drifting bread,
As the food and flames of the snow, a man unrolled
The scrolls of fire that burned in his heart and head,
Torn and alone in a farm house in a fold

Of fields. And burning then
In his firelit island ringed by the winged snow
And the dung hills white as wool and the hen
Roosts sleeping chill till the flame of the cock crow
Combs through the mantled yards and the morning men

Stumble out with their spades,
The cattle stirring, the mousing cat stepping shy,
The puffed birds hopping and hunting, the milkmaids
Gentle in their clogs over the fallen sky,
And all the woken farm at its white trades,

He knelt, he wept, he prayed,
By the spit and the black pot in the log bright light
And the cup and the cut bread in the dancing shade,
In the muffled house, in the quick of night,
At the point of love, forsaken and afraid.

He knelt on the cold stones,
He wept form the crest of grief, he prayed to the veiled sky
May his hunger go howling on bare white bones
Past the statues of the stables and the sky roofed sties
And the duck pond glass and the blinding byres alone

Into the home of prayers
And fires where he should prowl down the cloud
Of his snow blind love and rush in the white lairs.
His naked need struck him howling and bowed
Though no sound flowed down the hand folded air

But only the wind strung
Hunger of birds in the fields of the bread of water, tossed
In high corn and the harvest melting on their tongues.
And his nameless need bound him burning and lost
When cold as snow he should run the wended vales among

The rivers mouthed in night,
And drown in the drifts of his need, and lie curled caught
In the always desiring centre of the white
Inhuman cradle and the bride bed forever sought
By the believer lost and the hurled outcast of light.

Deliver him, he cried,
By losing him all in love, and cast his need
Alone and naked in the engulfing bride,
Never to flourish in the fields of the white seed
Or flower under the time dying flesh astride.

Listen. The minstrels sing
In the departed villages. The nightingale,
Dust in the buried wood, flies on the grains of her wings
And spells on the winds of the dead his winter's tale.
The voice of the dust of water from the withered spring

Is telling. The wizened
Stream with bells and baying water bounds. The dew rings
On the gristed leaves and the long gone glistening
Parish of snow. The carved mouths in the rock are wind swept strings.
Time sings through the intricately dead snow drop. Listen.

It was a hand or sound
In the long ago land that glided the dark door wide
And there outside on the bread of the ground
A she bird rose and rayed like a burning bride.
A she bird dawned, and her breast with snow and scarlet downed.

Look. And the dancers move
On the departed, snow bushed green, wanton in moon light
As a dust of pigeons. Exulting, the grave hooved
Horses, centaur dead, turn and tread the drenched white
Paddocks in the farms of birds. The dead oak walks for love.

The carved limbs in the rock
Leap, as to trumpets. Calligraphy of the old
Leaves is dancing. Lines of age on the stones weave in a flock.
And the harp shaped voice of the water's dust plucks in a fold
Of fields. For love, the long ago she bird rises. Look.

And the wild wings were raised
Above her folded head, and the soft feathered voice
Was flying through the house as though the she bird praised
And all the elements of the slow fall rejoiced
That a man knelt alone in the cup of the vales,

In the mantle and calm,
By the spit and the black pot in the log bright light.
And the sky of birds in the plumed voice charmed
Him up and he ran like a wind after the kindling flight
Past the blind barns and byres of the windless farm.

In the poles of the year
When black birds died like priests in the cloaked hedge row
And over the cloth of counties the far hills rode near,
Under the one leaved trees ran a scarecrow of snow
And fast through the drifts of the thickets antlered like deer,

Rags and prayers down the knee-
Deep hillocks and loud on the numbed lakes,
All night lost and long wading in the wake of the she-
Bird through the times and lands and tribes of the slow flakes.
Listen and look where she sails the goose plucked sea,

The sky, the bird, the bride,
The cloud, the need, the planted stars, the joy beyond
The fields of seed and the time dying flesh astride,
The heavens, the heaven, the grave, the burning font.
In the far ago land the door of his death glided wide,

And the bird descended.
On a bread white hill over the cupped farm
And the lakes and floating fields and the river wended
Vales where he prayed to come to the last harm
And the home of prayers and fires, the tale ended.

The dancing perishes
On the white, no longer growing green, and, minstrel dead,
The singing breaks in the snow shoed villages of wishes
That once cut the figures of birds on the deep bread
And over the glazed lakes skated the shapes of fishes

Flying. The rite is shorn
Of nightingale and centaur dead horse. The springs wither
Back. Lines of age sleep on the stones till trumpeting dawn.
Exultation lies down. Time buries the spring weather
That belled and bounded with the fossil and the dew reborn.

For the bird lay bedded
In a choir of wings, as though she slept or died,
And the wings glided wide and he was hymned and wedded,
And through the thighs of the engulfing bride,
The woman breasted and the heaven headed

Bird, he was brought low,
Burning in the bride bed of love, in the whirl-
Pool at the wanting centre, in the folds
Of paradise, in the spun bud of the world.
And she rose with him flowering in her melting snow.



CONTO DE INVERNO
 
 
      Tradução Ivan Junqueira

É um conto de inverno

Que o cego crepúsculo de neve transporta sobre os lagos
E os flutuantes campos da fazenda na taça dos vales,
Deslizando tranquilo entre os flocos agarrados com a mão,
Sobre o pálido bafio do rebanho junto à vela furtiva,

E as estrelas que caem frias,

E o cheiro do feno em meio à neve, e a distante coruja
Que adverte entre os apriscos e o gélido refúgio
Agarrado à fumaça branco-ovelha da chaminé da estância
Nos vales cruzados pelo rio onde a história é contada.

Outrora, quando o mundo envelheceu

Numa estrela de fé pura como o pão que boiava sem destino,
Como o alimento e as chamas da neve, um homem desenrolou
Os pergaminhos de fogo que ardiam em sua cabeça e em seu coração
Rasgados e esquecidos numa casa sobre uma dobra da campina.

E ardendo então

Em sua ilha flamejante cingida pela neve alada
E as esterqueiras brancas como a lã e os poleiros das galinhas
Que dormiam enregeladas até que a chama da aurora
Penteasse os pátios encapotados e os homens da manhã

Tropeçassem nas enxadas,

E o rebanho espreguiçasse, e o gato arisco perseguisse o rato,
E os pássaros eriçados saltassem para caçar, e as suaves
Ordenhadoras arrastassem seus tamancos sobre o céu desmoronado,
E toda a fazenda despertasse em seus brancos afazeres,

Ele se ajoelhou, chorou, rezou,

Junto ao assador e à caneca escura sob a faiscante luz da lenha
E à xícara e ao pão partido entre as sombras bailarinas,
Na casa abafada, no decorrer da noite,
À beira do amor, apreensivo e atraiçoado.

Ajoelhou-se sobre as pedras frias,

Chorou desde a crista da dor, rezou ao céu nublado
Para que a fome fosse embora uivando sobre alvos ossos nus
Além das estátuas dos estábulos e das pocilgas com tetos celestes
E do cristal da lagoa dos patos e dos ofuscantes currais solitários

Até o lugar das orações

E das chamas, onde pudesse vagar sob a nuvem
De seu amor cego pela neve e precipitar-se para as brancas tocas.
Sua miséria desnuda o golpeava e, arqueado, ele uivava
Embora som algum flutuasse no ar enrugado em sua mão

A não ser o vento que excitava

A fome dos pássaros nos campos do pão, da água, lançados
Nos altos trigais e a colheita a derreter-se em suas línguas.
E sua anónima miséria o enlaçava e ele ardia extraviado
Quando, frio como a neve, tinha de correr entre os vales cruzados

Pelos rios que desaguam na noite,

E afogar-se nos torvelinhos de sua miséria, e estender-se enrolado,
Agarrado ao centro desde sempre desejado do branco
Berço desumano e do leito nupcial eternamente procurado
Pelo crente perdido e o proscrito expurgado da luz.

Liberta-o, gritava,

Perdendo-o de todo no amor, e arroja a sua miséria
Nua e solitária na engolfante noiva
Para que ela nunca germine nos campos da branca semente
Ou floresça escarranchada na carne agonizante.

Escuta. Cantam os trovadores

Nas aldeias mortas. O rouxinol,
Poeira nos bosques sepultos, voa com os órgãos de suas asas
E soletra o seu canto de inverno aos ventos dos mortos.
A voz da poeira líquida que vem das fontes extintas

Está falando. O córrego seco

Salta com balidos e latidos aquáticos. O orvalho repica
Nas folhas trituradas e nos reflexos que há muito já não brilham
Da paróquia de neve. As bocas entalhadas na rocha são
cordas tangidas pelo vento.
O tempo canta por entre as obscuras campânulas mortas. Escuta.

Foi um som ou certa mão

Que abriu de par em par a tenebrosa porta na terra de outrora
E lá fora, sobre o pão do solo,
Uma ave se ergueu radiante como uma noiva em chamas,
Uma ave amanheceu, e seu peito se emplumou de neve e escarlate.

Olha. E os bailarinos se movem

Sobre os mortos, a neve se vestiu de verde, liberta ao luar
Com uma revoada de pombos. Exultantes, os cavalos de cascos solenes,
Centauros mortos, regressam e percorrem os alvos pastos alagados
Nas fazendas dos pássaros. O carvalho morto sai em busca do amor.

Os membros esculpidos na rocha

Saltam como ao som das trombetas. A caligrafia das velhas folhas
Está dançando. Os traços da idade sobre a pedra se entrelaçam num rebanho.
A voz de harpa da poeira das águas se desgarra de uma dobra das campinas.
Em busca do amor, alça seu voo a ave de outrora. Olha.

E as asas selvagens se elevaram

Sobre a sua cabeça enrugada, e a doce voz das plumas
Esvoaçou pela casa como se o pássaro entoasse louvores
E todos os elementos da lenta queda se rejubilassem
Porque um homem solitário se ajoelhara na taça dos vales,

Sob o manto, em sossego,

Junto ao assador e à caneca escura sob a faiscante luz da lenha,
E o céu dos pássaros com a voz emplumada o erguia ao sortilégio
E ele corria como o vento atrás do voo em chamas
Para além dos celeiros sem luz e dos currais da fazenda em calma.

Nos pólos do ano

Quando os melros morriam como sacerdotes nas sebes embuçadas
E as distantes colinas tangenciavam o tecido dos condados,
Sob as árvores de uma só folha corria um espantalho de neve,
Precipitando-se por entre os torvelinhos das moitas esgalhadas como cervos,

Andrajos e orações caíam sobre

As colinas ajoelhadas e ecoavam nos lagos adormecidos,
Perdidos a noite inteira e a vagar por muito tempo no despertar
Da ave através dos tempos, das terras e dos flocos de neve.
Escuta e olha por onde ela navega no mar agitado pêlos gansos,

O céu, o pássaro, a noiva,

A nuvem, a miséria, as estrelas fincadas no azul, o júbilo
Para além dos campos semeados e o tempo escarranchado na carne agonizante,
E os céus, o céu, a tumba, a ardente pia batismal.
Na terra que já fora, a porta de sua morte se abriu de par em par

E o pássaro desceu

Numa colina branca como o pão sobre a concha da fazenda
E os lagos e os campos flutuantes e os vales cruzados pelo rio
Onde ele rezava para alcançar o derradeiro prejuízo
E a casa das preces e do fogo, já terminado o conto.

A dança se extingue

Na brancura que já não reverdece, e, morto o trovador,
Aflora o canto nas aldeias de desejos calçados pela neve
Que outrora entalharam as silhuetas dos pássaros no pão profundo
E fizeram deslizar as formas dos peixes voadores sobre os lagos de cristal

Degolou-se o ritual

Do rouxinol e do centauro morto. As fontes voltam a secar.
Os traços da idade dormem na pedra até que a aurora se anuncie.
Jaz o júbilo. O tempo sepulta o clima da primavera
Que retinha e saltava com o fóssil e o orvalho renascido.

Porque a ave se deitara

Num coro de asas, como se estivesse morta ou adormecida,
E as asas se movessem em surdina e ele se sentisse louvado e casado,
E por entre as coxas da noiva envolvente,
A mulher com seus seios e o pássaro de crista celestial,

Foi ele enfim derrubado Ardendo no leito nupcial do amor,

No torvelinho do centro desejado, nas dobras
Do paraíso, no botão rodopiante do universo.
E ela se ergueu com ele florescendo em sua neve derretida.