segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

Anise Koltz















Anise Koltz nasceu em 1928, em Eich, Luxembourg, onde vive até hoje. Foi uma das fundadoras da Academia Europeia de Poesia, da qual é atualmente a vice-presidente, pertence ao Pen Club da Bélgica, à  Academia Mallarmé de París e ao Institut Grand-Ducal dês Artes et Lettres. Apesar de mais de vinte livros publicados, nenhum deles foi lançado no Brasil Ganhou diversos prêmios, como o Blaise Cendrars (1991), o  Grand Prix de Littérature française hors de France (1994), o Batty Weber, o Prix National de Littérature - Luxembourg (1996) e o Prix Apollinaire (1998).


POEMAS


Arte poética

A poesia esburaca o tecido da linguagem.

A escrita deserta perpétuamente do seu espaço.

Cada palavra que escolhemos é a renúncia de outra
que nos teria escolhido.

A verdade é apenas uma partilha de ilusões.

Há fronteiras interditas ao homem, há lugares
onde a vida e a morte trocam os seus atributos.

Homem-ponte, passo de uma memória a outra.

E se Deus fosse a sua própria vítima?

O homem criou o tempo para justificar a sua presença.
Para justificar a sua ausência, criou a eternidade.

Deus existe fora do esquecimento, fora da memória,
mas a ambos atravessa.

O silêncio é o encontro que a palavra recusa.

Quanto mais se ama, mais a gravitação diminui.

In Cantos de Recusa, tradução colectiva* Casa de Mateus, revista e apresentada por Casimiro de Brito, 1994.

Tradutores: Casimiro de Brito / Egito Gonçalves / Fernando Echevarría / Fernando Luís / Fernando Pinto do Amaral / José Blanc de Portugal / Laureano Silveira / Maria de Lurdes Guimarães / Pedro Tamen.


* * *

Todas as traduções abaixo são minhas



Em um coração
cada pedaço está dedicado
a um deus diferente.

Aprendo suas ladainhas
e lhes arremesso incenso

Ninguém o preocupa

A terra gira e zumbe
como um inseto monstruoso



* * *

Me calo
meus poemas
armazenados em silos
apodrecem

A planta dos meus pés
não lança raízes

* * *

Peixes abissais
as frases morrem
quando sobem
à superfície

* * *

Me revolto
meu coração golpeia
o interior do meu corpo
como sapatos
de milhares de manifestantes

Deus está do lado
dos vencedores
seus anjos planam no céu
com os abutres


* * *

Marcher
sans rien atteindre
jusqu’à devenir chemin

Andar
sem chegar a nada
até converter-se em caminho

* * *

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

Herberto Helder

Herberto Helder habita o céu da poesia. Daqueles que sabem que poeta não é quem faz versos, mas quem cria uma poética. Muito o que aprender com o percurso que se revolve nas próprias águas, represando-as, fazendo-as evaporar, dando-lhes outros estados da matéria de palavras. Poucos alquimistas sobreviveram depois que migraram para a linguagem, Herberto é um deles.




           
"A transmutação é o fundamento geral e universal do mundo. Alcança as coisas, os animais e o homem como o seu corpo e a sua linguagem. Trabalhar na transmutação, na transformação, na metamorfose, é obra própria nossa. (...) o poema é o corpo da transmutação, a árvore do ouro, vida transformada: a obra."

(In O Corpo O Luxo A Obra. 1977, 21)

As Palavras

    Herberto Helder

Ficarão para sempre abertas as minhas
salas negras.
Amarrado à noite,
eu canto com um lírio negro sobre a boca.

Com a lepra na boca,
com a lepra nas mãos.
Este mamífero tem sal à volta,
este mineral transpira, a primavera precipita-se.

Com a lepra no coração.
Mais de repente,
só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo
de medo.
E uma vida mais lenta
só com uma estrela às costas,
uma tonelada de luz inquieta,
uma estrela respirando como um carneiro
vivo.

Igual a esta espécie de festa dolorosa,
apenas um ramo de cabelos violentos
e o seu odor a pimenta,
no lado escuro
como se canta que as salas vão levantar
o seu voo.

Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas
em dez dedos com sono,
como uma rosa acima do pénis.

Ao cimo do caule de sangue,
essa flor confusa.
Um equilíbrio igual,
só a estrela ao cimo do êxtase. 
Só alguma coisa parada no cimo de uma visão
tremente.
A primavera, que eu saiba,
tem o sal como cor imóvel,


Por um lado entra a noite,
assim de súbito negra.

De uma ponta à outra enche-se o espaço
aplainando tábuas.
Rasga-se seda para aprender o ritmo.
Abraço um corpo com as camélias
a arder.

Abertas para sempre as negras partes
de mais uma estação.

Semelhante a isto
as mulheres andam pelas galerias transparentes,
e o palácio queima a noite onde estou
cantando.

É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver —
e num lado há espelhos bêbedos,
no outro um cardume ilegível de sons
obscuros.

Sabe-se então pelo silêncio em volta,
sabe-se em volta que são lírios
sonoros.

Passando
as mulheres colhem estes sons irrompentes,
e as mãos ficam negras junto à beleza
insensata.

Elas sorriem depois com um talento
terrível.
Levamos às costas um carneiro palpitante.

Pesa tanto uma estrela
quando se acorda nas salas negras abertas de par em par,
e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos,
e sobre a boca um lírio em brasa,
branco, branco,

que não nos deixa respirar.
A lepra na boca,
que não nos deixa respirar.

Um ramo de lepra contra o corpo,
como isto então só o movimento de águas obscuras
pelos canais de um canto,
como um palácio de salas negras abertas
para sempre.

Este animal respira como um espelho de pé,
no ar,
no ar.

(In  HELDER, Herberto. A apresentação do rosto (as palavras). Editora Ulisseia, 1968.)

domingo, 18 de dezembro de 2016

Alejandro Zambra






Prólogo de Raul Zurita em Mudanza, de Alejandro Zambra

          “Yo he tenido 20 años y no permito que nadie
           venga a decirme que es la edad más hermosa” 
                      Paul Nizan: Aden Arabie
 
Leí por primera vez Mudanza con asombro y admiración; su trama, su inolvidable comienzo, su estructura, su musicalidad, su dolorosa contención, hacían de él uno de los poemas más sobresalientes de la ya notable poesía que los nuevos poetas habían comenzado a publicar hacia fines de los noventa, renovando el decepcionante panorama de la literatura chilena posterior a la dictadura. Sin embargo, ahora al volver a leerlo su impacto es aún mayor: no sólo se trata de un poema en el que ya están contenidos los ejes centrales de la obra de Alejandro Zambra, sino que nos muestra como muy pocos autores pueden hacerlo, que sean cuales sean sus nudos: la separación en este libro, la muerte en Bonsái, la ausencia en La vida privada de los árboles, la infancia en Formas de volver a casa o los jóvenes lúcidos y despojados de Mis documentos, escribir es siempre una mudanza, un cambio de piel que nos prepara a nosotros, los hipócritas lectores, para los ritos a menudo sangrantes de una despedida.
Es lo que me hizo recordar la frase de Paul Nizan, citada al comienzo. Repaso cada una de las líneas de este libro. Sus dos personajes no tienen nombres como si quisieran así ser preservados de una destrucción inminente, y me doy cuenta que es el mismo poema y que simultáneamente no lo es. A diferencia de la atemporalidad de la infancia(y posiblemente de los sueños), toda juventud es un ensayo de sobrevivencia y tanto la frase de Aden Arabie, una feroz denuncia de un joven al colonialismo francés,como la juventud de los personajes que cruzan la obra de Zambra, jóvenes que a los veinte años emergían de una dictadura, comparten un punto central que sólo se hace visible cuando ya la inminencia de la muerte se le revela al lector con la certeza de un hecho personal e irremediable.
Comprendemos entonces, once años después, que este poema no sólo marca el inicio de una de las narrativas más deslumbrantes de la nueva literatura hispanoamericana, para mí la más crucial y herida, sino que es la respuesta que un poeta joven le hace a la sentencia de Nizan: no es fácil tener veinte años, pero no lo es porque menos fácil aún es haberlos tenido. Me ha parecido que esa es una de las constataciones centrales de este enorme pequeño libro. Al menos lo es para mí. Y la muerte lo sabe.
Los lectores de esta nueva edición de Mudanza leerán así un poema con la conciencia de que su desenlace no está en él sino en su deriva y que por lo mismo posee un hondor distinto, una perspectiva de la que antes carecía. Como en Bonsái, en Mudanza hay un él y un ella. La voz que habla, él, es conminado a irse: “Me dijeron que avisara treinta días antes”. En Mudanza él o la voz que habla dice que ella duerme al lado de él y que no lo sabe porque duerme. En Bonsai él dice que al final ella muere y que el resto es literatura. La muerte es la gran crítica literaria. Ella poda y deja sólo los hechos cruciales. La escritura de Zambra está podada por la muerte, sólo queda lo esencial.
El resto son palabras. Dolorosa, perfecta, a menudo magistral, la obra de Alejandro Zambra se construye al otro lado de la literatura. Como si hubiese sido escrito un segundo antes de su fin, esta reedición de Mudanza conmueve porque el hombre que allí habla aún no sabe que la escritura es la forma que ha tomado para él lo irremediable.
Mayo, 2014.

Dos fragmentos de Mudanza.
 
Tres

Me quitaron las palabras de la boca,
esas cuatro o cinco líneas que diría
si de pronto regresaran con el vuelto
y las sillas tapizadas nuevamente:
grabadoras que repiten unas voces
tan seguras de que alguien las escucha.
Las llamadas telefónicas fracasan,
es muy tarde en Bad Hersfeld y en Madrid
es muy tarde en Elvas y en Manresa
en Granada nos quitaron
los cigarros de la boca
y alcanzamos con el vuelo
al mirador. Alguien dijo que la virgen no
demora, alguien dijo que esperáramos
al dealer, que grabáramos los nombres
de una vez, que juntáramos la plata
mientras tanto.
Cae la noche sobre Quito
y en Santiago 
treinta locutores prolongan las aristas
de un problema con múltiples
aristas: grabadoras que repiten
unas voces tan seguras de que alguien las
escucha. Ella viaja largas horas a Granada,
ella espera que la virgen no demore,
amanece en Albayzín y los borrachos
sentenciamos que esta vez
fue diferente, que los clavos se oxidaron
y el silencio
fue una especie de resuello reprimido,
que la virgen no mejora con los años.
Amanece en Sacromonte y en Santiago
y en Bad Hersfeld adelantan los relojes.
Este día es el más largo,
esta noche es la más larga
–nos advierten que los diarios de mañana
no cubrieron la noticia, que hace frío,
que conviene que cerremos las ventanas
y los ojos
     porque en días como estos
no se puede –no se pudo– hacer favores
ni hacer caso de las cosas que te dicen
las tarjetas de destino:
     a la cárcel
pero rápido, al cine al hospital a la plaza
de armas pero rápido, ella es débil
tú eres blanco pero a veces solamente,
cada tanto recomienza
lo que ahora desconoces, no nos quites
el saludo, no tenemos más
cigarros, ya no importa que despiertes
cuando rondas por la noche ni que pierdas
la jugada o la tajada muchas veces
el azar es previsible y la forma de 
la boca se conmueve cuando chupa:
las llamadas telefónicas fracasan
es muy tarde en Bad Hersfeld y en Madrid
es muy tarde en Elvas y en Manresa
en Granada nos quitaron los cigarros
de la boca y alcanzamos a llegar al mirador,
escogíamos lugar cuando te vimos
y quisiéramos saber si no te importa
que pasáramos de largo por la noche, muchas veces
el azar es previsible, las llamadas telefónicas
fracasan, me quitaron las palabras
de la boca, esas cuatro o cinco líneas que diría
si de pronto regresaran con el vuelto
y las sillas tapizadas nuevamente.




Cinco

Cada tanto recomienza una frase
improvisada: el descanso en la escalera
no permite demasiadas precisiones
y se pierden las señales cuando pasas
con los brazos ocupados. Medios
tonos o resabios, cicatrices en la boca,
nos faltaban -apenas- los matices
que ahora sobran cuando busco
con paciencia, cuadro a cuadro,
hendiduras en la cara, medios tonos
o resabios: alguien posa insegura de
su rostro, alguien saca con recelo y energía
-con las manos, con los ojos- los
fragmentos de la arena acumulada,
atardece cuadro a cuadro el horizonte,
alguien viaja largas horas en los últimos
asientos y no sabe cuánto falta
todavía, ella es joven y blanca, tu eres
débilmente oscuro y eso es todo
cuanto había no el fondo sino encima
de la cama cuando besas y te besa; reteníamos,
entonces, los ajustes a la falda,
sosteníamos, así, con alfileres, la fachada,
las bastillas, las insignias, los insectos
cuando trepan la solapa, amanece el horizonte
continuado y ella ríe o desespera, ella llora
o recupera la verdad, ella espera que
comprendan que el amor es una especie
de incidente, un ajuste de los ruidos
en la imagen, unos días, unas noches
con sus voces y sus voces y sus pausas:
decidíamos las veces, repasábamos
las pausas, desoíamos las voces y una forma
peligrosa escogía por nosotros
el camino, el descanso en la escalera no
permite demasiadas precisiones, ella duerme
sin saber que cruzarán la
turbulencia, alguien cubre el medio todo con
dos manos
de pintura, cada tanto recomienza
lo que ahora desconoces y se pierden
las señales cuando pasas con
los brazos ocupados.

Mobimento Suspeito

 


"Depois da excelente acolhida de Anarquipélago (2013), o autor nos apresenta Movimento suspeito, seu segundo livro de poemas. Se a viagem é a liga que enlaça existência e literatura, o poeta agora se afasta da miragem de ilhas e do sonho de ancorar-se a qualquer superfície, instala-se, com isso, paradoxalmente, na natureza  instável da procura, sem perder o vigor da obra de estreia, considerado por  Alberto Pucheu  “um livro de força e precisão. precisão de linguagem para o impreciso da vida, das anti-ilhas e anticidades”.

Palavras, lançadas como pedra ou sopro, movem mundos. De onde vem o vigor da linguagem que, expulsa da esfera da relevância, mantém aceso um movimento alheio a domínio e adestramento? De onde vem a potência corrosiva da palavra que se faz inaugural por simples deslocamento?  Antônio Miranda, poeta criador do Portal de Poesia Iberoamericana e leitor arguto, percebeu essa onda desestabilizadora:  “Mais do que uma surpresa, foi um susto a leitura do Anarquipélago (...). Metalinguagem pura, contaminando vida e literatura, mundo recriado ou inventado. “E se todo caminho for (clan)destino?” Desatino. Celebro o poeta e compartilho seus (ad)versos com nossos leitores: “A escrita / um corpo/ quase,/ devassa,/ devastação.”

Em Movimento suspeito, pele e linguagem seguem coladas na angustiada e angustiante linha de busca do inapreensível, sem temer a linha de aproximação ou afastamento entre poema e poesia, a incursão à zona limítrofe entre linguagem e  silêncio, os abismos.

O título nos remete à propriedade poética mais incômoda, a de subversão e  realinhamento de signos, o dizer livre da submissão do poema a qualquer ordem instituída — “o inservível / livre de servidão / ilumina / a linguagem”. 

Em Ìon, Platão valeu-se de Sócrates para rebaixar o trabalho poético à atividade menor: “Pois coisa leve é o poeta, e alada e sacra, e incapaz de fazer poemas antes que se tenha tornado entusiasmado e ficado fora de seu juízo e o senso não esteja mais nele”. A marca da suspeita, assim,  foi impressa na testa da linguagem que escapa a enquadramentos. 

Para o poeta, no entanto,  o importante é “buscar o que as mãos / não alcançam, / o que os olhos / não veem, o que a mente / sequer consegue imaginar”. Tenho certeza de que o leitor sairá enriquecido ao participar também deste Movimento suspeito."

Texto da orelha do livro Movimento suspeito, de José Antônio Cavalcanti


PEDIDOS À EDITORA URUTAU - http://www.editoraurutau.com.br/


Ida Vitale



















Poema de Ida Vitale,  escritora uruguaia  ganhadora do  XIII Premio Internacional de Poesía Federico García Lorca-Ciudad de Granada.

Obstáculos lentos

Si el poema de este atardecer
fuese la piedra mineral
que cae hacia un imán
en un resguardo hondísimo;

si fuese un fruto necesario
para el hambre de alguien,
y maduraran puntuales
el hambre y el poema;

si fuese el pájaro que vive por su ala,
si fuese el ala que sustenta al pájaro,
si cerca hubiese un mar
y el grito de gaviotas del crepúsculo
diese la hora esperada;

si a los helechos de hoy
—no los que guarda fósiles el tiempo—
los mantuviese verdes mi palabra;
si todo fuese natural y amable...


Pero los itinerarios inseguros
se diseminan sin sentido preciso.
Nos hemos vuelto nómades,
sin esplendores en la travesía,
ni dirección adentro del poema.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

João Cabral de Melo Neto (1929-19990















Antiode (contra a poesia dita profunda)

A

Poesia te escrevia:
flor! conhecendo
que és fezes. Fezes
como qualquer,

gerando cogumelos
(raros, frágeis, cogu-
melos) no úmido
calor de nossa boca.

Delicado, escrevia:
flor! (Cogumelos
serão flor? Espécie
estranha, espécie

extinta de flor, flor
não de todo flor,
mas flor, bolha
aberta no maduro.)

Delicado, evitava
o estrume do poema,
seu caule, seu ovário,
suas intestinações.

Esperava as puras,
transparentes florações,
nascidas do ar, no ar,
como as brisas.

B

Depois, eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(Pelas vossas iguais

circunstâncias? Vossas
gentis substâncias? Vossas
doces carnações? Pelos
virtuosos vergéis

de vossas evocações?
Pelo pudor do verso
– pudor de flor –
por seu tão delicado

pudor de flor,
que só se abre
quando a esquece o
sono do jardineiro?)

Depois eu descobriria
que era lícito
te chamar: flor!
(flor, imagem de

duas pontas, como
uma corda). Depois
eu descobriria
as duas pontas

da flor; as duas
bocas da imagem
da flor: a boca
que come o defunto

e a boca que orna
o defunto com outro
defunto, com flores,
– cristais de vômito.

C

Como não invocar o
vício da poesia: o
corpo que entorpece
ao ar de versos?

(Ao ar de águas
mortas, injetando
na carne do dia
a infecção da noite).

Fome de vida? Fome
de morte, frequentação
da morte, como de
algum cinema.

O dia? Árido.
Venha, então, a noite,
o sono. Venha,
por isso, a flor.

Venha, mais fácil e
portátil na memória,
o poema, flor no
colete da lembrança.

Como não invocar,
sobretudo, o exercício
do poema, sua prática,
sua lânguida horti-

cultura? Pois estações
há, do poema, como
da flor, ou como
no amor dos cães;

e mil mornos
enxertos, mil maneiras
de excitar negros
êxtases, e a morna

espera de que se
apodreça em poema,
prévia exalação
de alma defunta.

D

Poesia, não será esse
o sentido em que
ainda te escrevo:
flor! (Te escrevo:

flor! Não uma
flor, nem aquela
flor-virtude – em
disfarçados urinóis).

Flor é a palavra
flor, verso inscrito
no verso, como as
manhãs no tempo.

Flor é o salto
da ave para o voo;
o salto fora do sono
quando seu tecido

se rompe; é uma explosão
posta a funcionar,
como uma máquina,
uma jarra de flores.

E

Poesia, te escrevo
agora: fezes, as
fezes vivas que és.
Sei que outras

palavras és, palavras
impossíveis de poema.
Te escrevo, por isso,
fezes, palavra leve,

contando com sua
breve. Te escrevo
cuspe, cuspe, não
mais; tão cuspe

como a terceira
(como usá-la num
poema?) a terceira
das virtudes teologais.