AKHMÁTOVA / SZYMBORSKA



Os dois melhores poemas sobre a bíblica mulher de Lot (aquela que ao virar para trás, ao deixar Sodoma com seu marido e suas filhas, recebeu o castigo anunciado: virou uma estátua de sal) foram escritos por duas mulheres. A russa Anna Akhmátova e a polonesa Wislawa Szymborska. Nenhuma coincidência que sejam de onde são.

Para o poema de Anna Akhmátova: tradução de Lauro Machado Coelho; para o poema de Wislawa: tradução de Regina Przybycien.

Texto e montagem de Carlito Azevedo


A MULHER DE LOT


       Anna Akhmátova




      “A mulher de Lot, que o seguia, olhou
      para trás e transformou-se numa estátua de sal
                           Gênesis




E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.


Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:


"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".


Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.


E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.


Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?


E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.






A MULHER DE LOT

        Wislawa Szymborska




Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.


Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração - amarrando a tira da sandália.


Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.


Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.


Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.


Afetada pelo silêncio,
na esperança de Deus ter mudado de ideia.


Nossas duas filhas já sumiam lá no cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.


Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.


No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.


Já não eram bons nem maus - simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.


Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.


Ou quem sabe foi só um vento que bateu,
despenteou meu cabelo e levantou me vestido.


Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma e outra vez.


Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.


Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.


Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.


Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.


Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.


Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.


Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.


É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

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