sábado, 26 de maio de 2012

Oswald de Andrade


Oswald de Andrade, retrato pintado por Tarsila do Amaral



Fragmento do texto “Uma poética da radicalidade”, de Haroldo de Campos
                   

”Qual a linguagem literária vigente quando se aprontou e desfechou a revolução poética oswaldiana? O Brasil intelectual das primeiras décadas deste século [o texto é do século passado], em torno à Semana de 22, era ainda um Brasil trabalhado pelos ‘mitos do bem dizer’ (Mário da Silva Brito), no qual imperava o ‘patriotismo ornamental’ (Antonio Cândido), da retórica tribunícia, contraparte de um regime oligárquico-patriarcal, que persiste República adentro. Rui Barbosa, “a águia de Haia”; Coelho Neto, “o último heleno”; Olavo Bilac, ‘o príncipe dos poetas’, eram os deuses incontestes de um Olimpo oficial, no qual o Pégaso parnasiano arrastava seu pesado caparazão metrificante e a riqueza vocabular (entendida num sentido meramente cumulativo) era uma espécie de termômetro da consciência ‘ilustrada’. Evidentemente que a linguagem literária funcionava, nesse contexto, como um jargão de casta, um diploma de nobiliarquia intelectual: entre a linguagem escrita com pruridos de escorreição pelos convivas do festim literário e a linguagem desleixadamente falada pelo povo (mormente em São Paulo, para onde acudiam as correntes migratórias com as suas deformações orais peculiares), rasgava-se um abismo aparentemente intransponível. A poesia ‘pau-brasil’ de Oswald de Andrade representou, como é fácil de imaginar, uma guinada de cento e oitenta graus nesses status quo, onde – a expressão é do próprio Oswald de Andrade – ‘os valores estáveis da mais atrasada literatura do mundo, impediam qualquer renovação’. Repôs tudo em questão em matéria de poesia e, sendo radical na linguagem, foi encontrar, na ponta de sua perfuratriz dos estratos sedimentados da convenção, a inquietação do homem brasileiro novo, que se forjava falando uma língua sacudida pela ‘contribuição milionária de todos os erros’ num país que iniciava – precisamente em São Paulo –um processo de industrialização que lhe acarretaria fundas repercussões estruturais. ‘Se procurarmos a explicação do por que o fenômeno modernista se processou em São Paulo e não em qualquer outra parte do Brasil, veremos que ele foi uma consequência da nossa mentalidade industrial. São Paulo era de há muito batido por todos os ventos da cultura. Não só a economia cafeeira promovia os recursos, mas a indústria com a sua ansiedade do novo, a sua estimulação do progresso, fazia com que a competição invadisse todos os campos de atividade.’ É o retrospecto de Oswald em 1954.”


Abaporu, de Tarsila do Amaral

























POEMAS


AS MENINAS DA GARE


Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha



J.M.P.S.
(da cidade do porto)

Vício na fala

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mio
Para pior pió
Para telha dizem teia
E vão fazendo telhados


O GRAMÁTICO

Os negros discutiam
Que o cavalo sipantou
Mas o que mais sabia
Disse que era
Sipantarrou


O CAPOEIRA

- Qué apanhá sordado?
- O quê?
- Qué apanhá?
Pernas e cabeças na calçada


RELICÁRO

No baile da Corte
Foi o Conde d’Eu quem disse
Pra Dona Benvinda
Que farinha de Suruí
Pinta de Parati
Fumo de Baependi
É comê pitá e caí


SENHOR FEUDAL

Se Pedro Segundo
Vier aqui
Com história
Eu boto ele na cadeia


Operários, Tarsila do Amaral



















METALÚRGICA

1 300° à sombra dos telheiros retos
12 000 cavalos invisíveis pensando
40 000 toneladas de níquel amarelo
Para sair do nível das águas esponjosas
E uma estrada de ferro nascendo do solo
Os fornos entroncados
Dão o gusa e a escória
A refinação planta barras
E lá embaixo os operários
Forjam as primeiras lascas de aço


3 DE MAIO

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi


CIDADE

Foguetes pipocam o céu quando em quando
Há uma moça magra que entrou no cinema
Vestida pela última fita
Conversas no jardim onde crescem bancos
Sapos
Olha
A iluminação é de hulha branca
Mamães estão chamando
A orquestra rabecoa na mata


NOVA IGUAÇU

Confeitaria Três Nações
Importação e Exportação
Açougue Ideal
Leiteria Moderna
Café do Papagaio
Armarinho União
No país sem pecados


PRONOMINAIS

Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido

Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro


BIBLIOTECA NACIONAL

A criança abandonada
O Doutor Coppelius
Vamos com Ele
Senhorita Primavera
Código Civil Brasileiro
A arte de ganhar no bicho
O Orador Popular
O Polo em Chamas


HÍPICA

Saltos records
Cavalos da Penha
Correm jóqueis de Higienópolis
Os magnatas
As meninas
E a orquestra toca
Chá
Na sala de cocktails


CANTO DE REGRESSO À PÁTRIA

Minha terra tem palmares
Onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá

Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra

Outro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá

Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo.


AMOR

Humor


Antropofagia, quadro de Tarsila do Amaral






















ERRO DE PORTUGUÊS

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena!
Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

Todos os poemas foram retirados de ANDRADE, Oswald. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do livro, s/d. 1976.



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