segunda-feira, 23 de novembro de 2009

II ENCONTRO DE ESCRITORES MOÇAMBICANOS NA DIÁSPORA





PROGRAMA


Dia 27 de Novembro


(Sexta-feira)


1º Painel:


14h30
Discurso de Boas-vindas de um Representante da Casa de Goa

14h45
Discurso do Presidente da A.L.D.C.I., Dr. Fernando Machado

15h00
Discurso abertura do Comissário do II Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Delmar Maia Gonçalves

15h30
Homenagem ao Escritor Ascêncio de Freitas

16h00
Intervalo



2º Painel:

16h20
Dra. Fernanda Angius – “Os pioneiros da Literatura Moçambicana”

16h40
Jorge Viegas – “Alguns nomes da Literatura Moçambicana”

17h00
Zetho Cunha Gonçalves – “Chichorro e Craveirinha: duas cartas de navegação para o Índico”

17h20
Rodrigues Vaz – “Das Artes Plásticas em Moçambique e em Angola”

17h40
Dra. Madalena Mendes - "Educação e literatura ou os territórios da mestiçagem"

18h00
Delmar Maia Gonçalves – “O contributo dos escritores, poetas e artistas plásticos moçambicanos na sociedade portuguesa”

18h30
Debate

19h00
Encerramento dos trabalhos

Moderador – Isabel Ferreira





Dia 28 de Novembro

(Sábado)


1º Painel:

10h30
Reabertura – Discurso de Boas-vindas por Delmar Maia Gonçalves

10h40
Mestre Lívio de Morais – “A condição do Estatuto do Artista”

11h00
Augusto Carlos – “Será a figura de “Pai da Nação” incompatível com a Democracia?”

11h20
Carlos Gil

11h40
Debate

12h30
Pausa para almoço


Moderador – Fernando Gil


2º Painel:

14h30
Elsa de Noronha

15h00
Edite Correia (em representação de João Craveirinha) – “Lusofonia ou Portugofonia?”

15h20
Dra. Marta Rodrigues – “Os Objectivos da Federação das Mulheres para a Paz e o seu papel na sociedade”

15h40
Joaquim Evónio – Apresentação da “Varanda de Estrelícias” – site da Lusofonia


16h00
Intervalo

Moderador – Fernanda Angius


16h30
Inauguração de Exposição Lusófona de Pintura, Escultura e Fotografia pelo Sr. Embaixador da República de Moçambique em Portugal Dr. Miguel Mkaima


Artistas:


Lara Guerra
Moçambique
Pintura

Ruth Matchabe
Moçambique
Fotografia

Ntaluma
Moçambique
Escultura

Enid Abreu
Angola
Pintura

António Magina
Angola
Escultura

Cristina Araújo
Portugal
Pintura

Helena Paulo
Portugal
Pintura

Anselmo Amado
São-Tomé e Príncipe
Escultura

João de Barros
Guiné-Bissau
Pintura

17h30


Recital de poesia Moçambicana


Declamadores:

Elsa de Noronha

Ilda Oliveira

Jorge Viegas

Vera Novo Fornelos

Delmar Maia Gonçalves

Flauta:

Luna Delmar Gonçalves


18h30


Encerramento – Discurso do Sr. Embaixador da República de Moçambique em Portugal Dr. Miguel Mkaima

19h00


Encerramento – Discurso do Comissário do II Encontro de Escritores Moçambicanos na Diáspora Delmar Maia Gonçalves

19h30


Jantar Tertúlia no Restaurante Casa de Goa

















RESTAURANTE CASA DE GOA

Calçada do Livramento, 17 – Tel. 21 393 01 71



MENU


ENTRADAS:

Chamussas de carne

Baji Puri

Paparis

Bogés



PRATOS:

Caril de Gambas

Xacuti de Galinha

Sarapatel

Vindalho



DOCE:

Bebinca

Gelibi

Gelado de Manga

Gelado de Chocolate



BEBIDA:

Vinho tinto

Vinho branco

Refrigerantes

Sumos

Águas

Cafés


PREÇO:


20 € por pessoa



Restaurante Casa De Goa

Calçada do Livramento 17, Lisboa, 1350 - 213 930 171


Casa De Goa

Calçada do Livramento 17, Lisboa, 1350 - 21 393 00 78

(Junto ao Palácio das Necessidades)

sábado, 21 de novembro de 2009

CHARLES BAUDELAIRE (1821-1867)
























DOIS PEQUENOS POEMAS EM PROSA


XII


LES FOULES


Il n’est pas donné à chacun de prendre un bain de multitude: jouir de la foule est un art; et celui-là seul peut faire, aux dépens du genre humain, une ribote de vitalité, à qui une fée a insufflé dans son berceau de goût du travestissement et du masque, la haine du domicile et la passion du voyage.

Multitude, solitude: termes égaux et convertibles par le poète actif et fécond. Qui ne sait pas peupler sa solitude, ne sait pas non plus être seul dans une foule affairée.

Le poète jouit de cet incomparable privilège, qu’il peut à sa guise être lui-même et autrui. Comme ces âmes errantes qui cherchent un corps, il entre, quand il veut, dans le personnage de chacun. Pour lui seul, tout est vacant; et si de certaines places paraissent lui être fermées, c’est qu’à ses yeux elles ne valent pas la peine d’être visitées.

Le promeneur solitaire et pensif tire une singulière ivresse de cette universelle communion. Celui-là qui épouse facilement la foule connaît des jouissances fiévreuses, dont seront éternellement prives l’égoïste, fermé comme un coffre, et le paresseux, interné comme un mollusque. Il adopte comme siennes toutes les professions, toutes les joies et toutes les misères que la circonstance lui présente.

Ce que les hommes nomment amour est bien petit, bien restreint et bien faible, comparé à cette ineffable orgie, à cette sainte prostitution de l’âme qui se donne tout entière, poésie et charité, à l’imprévu qui se montre, à l’inconnu qui passe.

Il est bon d’apprendre quelquefois aux heureux de ce monde, ne fût-ce que pour humilier un instant leur sot orgueil, qu’il est des bonheurs supérieurs au leur, plus vastes et plus raffinés. Les fondateurs de colonies, les pasteurs de peuples, les prêtres missionnaires exilés au bout du monde, connaissent sans doute quelque chose de ces mystérieuses ivresses; et, au sein de la vaste famille que leur génie s’est faite, ils doivent rire quelquefois de ceux qui les plaignent pour leur fortune si agitée et pour leur vie si chaste.




















AS MULTIDÕES


Tradução de Gilson Maurity


Não é dado a todo o mundo tomar um banho de multidão: gozar da presença das massas populares é uma arte. E somente ele pode fazer, às expensas do gênero humano, uma festa de vitalidade, a quem uma fada insuflou em seu berço o gosto da fantasia e da máscara, o ódio ao domicílio e a paixão por viagens.

Multidão, solidão: termos iguais e conversíveis pelo poeta ativo e fecundo. Quem não sabe povoar sua solidão também não sabe estar só no meio de uma multidão ocupadíssima.

O poeta goza desse incomparável privilégio que é o de ser ele mesmo e um outro. Como essas almas errantes que procuram um corpo, ele entra, quando quer, no personagem de qualquer um. Só para ele tudo está vago; e se certos lugares lhe parecem fechados é que, a seu ver, não valem a pena ser visitados.

O passeador solitário e pensativo goza de uma singular embriaguez desta comunhão universal. Aquele que desposa a massa conhece os prazeres febris dos quais serão eternamente privados o egoísta, fechado como um cofre, e o preguiçoso, ensimesmado como um molusco. Ele adota como suas todas as profissões, todas as alegrias, todas as misérias que as circunstâncias lhe apresentem.

Isto que os homens denominam amor é bem pequeno, bem restrito, bem frágil comparado a esta inefável orgia, a esta solta prostituição da alma que se dá inteiramente, poesia e caridade, ao imprevisto que se apresenta, ao desconhecido que passa.

É bom ensinar, às vezes, aos felizes deste mundo, pelo menos para humilhar um instante o seu orgulho, que existem bondades superiores às deles, maiores e mais refinadas. Os fundadores de colônias, os pastores de povos, os sacerdotes missionários exilados no fim do mundo conhecem, sem dúvida, alguma coisa dessas misteriosas bebedeiras; e, no seio da vasta família que seu gênio criou, eles devem rir, algumas vezes, dos que se queixam de suas fortunas tão agitadas e de suas vidas tão castas.


XXXIII


ENIVREZ-VOUS


Il faut être toujours ivre. Tout est lá: c’est l’unique question. Pour ne pas sentir l’horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.

Mais de quoi? De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise. Mais enivrez-vous.

Et si quelquefois, sur les marches d’un palais, sur l’herbe verte d’un fossé, dans la solitude morne de votre chambre, vous vous réveillez, l’ivresse déjà diminuée ou disparue, demanddez au vent, à la vague, à l’étoile, à l’oiseau, á l’horloge, à tout ce qui fuit, à tout ce qui gémit, à tout ce qui roule, à tout ce qui chante, à tout ce qui parle, demandez quelle heure Il est; et le vent, la vague, l’étoile, l’oiseau, l’horloge, vos répondront: “Il est l’heure de s’enivrer! Pour n’être pas de esclaves martyrisés du Temps; enivrez-vous; enivrez-vous sans cesse! De vin, de poésie ou de vertu, à votre guise.”

























EMBEBEDAI-VOS


Tradução de Gilson Maurity


É preciso estar-se, sempre, bêbado. Tudo está lá, eis a única questão. Para não sentir o fardo do tempo que parte vossos ombros e verga-vos para a terra, é preciso embebedar-vos sem tréguas.

Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, a escolha é vossa. Mas embebedai-vos.

E se, às vezes, sobre os degraus de um palácio, sobre a grama verde de uma vala, na solidão morna de vosso quarto, vós vos acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que passa, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estela, o pássaro, o relógio, vos responderão: “É hora de embebedar-vos! Para não serdes escravos martirizados o Tempo, embebedai-vos, embebedai-vos sem parar! De vinho, de poesia ou de virtude: a escolha é vossa.”

In Pequenos poemas em prosa. Tradução de Gilson Maurity Santos. 2ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2009.



sexta-feira, 13 de novembro de 2009

PHILIP LARKIN


Philip Arthur Larkin (1922 - 1985), poeta, romancista, crítico de jazz e editor, nasceu em Coventry, Midlands, no Reino Unido. Após ter sido Leitor de Inglês em Oxford (St. John's College), torna-se bibliotecário - primeiro na universidade de Leicester, e, mais tarde, na de Hull; cargo este que assegurou até ao fim da sua vida.
Um dos poetas favoritos de John Lennon, é considerado um dos maiores poetas ingleses do pósguerra, e seu nome se liga aos poetas do assim chamado “The Movement”. Estreou com Night ship [1945], e publicou, entre outros, The whitsun weddings [1965], que o consagrou publicamente, High windows [1974] e Aubade [1977]. Em 1984, declinou de ser nomeado poeta laureado por "não dispor de tempo para os compromissos decorrentes dessa posição". Morreu de câncer aos 63 anos — exatamente como seu pai, que morreu da mesma causa, com a mesma idade, e que também tinha sido bibliotecário.


POEMAS


Demien HirsPOEMAS




















CHURCH GOING

Once I am sure there’s nothing going on
I step inside, letting the door thud shut.
Another church: matting, seats, and stone,
And little books; sprawl ings of flowers, cut
For Sunday, brownish now; some brass and stuff
Up at the holy end; the small neat organ;
And a tense, musty, unignorable silence,
Brewed God knows how long. Hatless, I take off
My cycle-cl ips in awkward reverence,

Move forward, run my hand around the font.
From where I stand, the roof looks almost new —
Cleaned, or restored? Someone would know: I don’ t.
Mounting the lec ter, I peruse a few
Hec toring large-scale verses, and pronounce
‘Here endeth’ much more loudly than I’d meant.
The echoes snigger briefly. Back at the door
I sign the book, donate an Irish sixpence,
Reflect the place was not worth stopping for.

Yet stop I did: in fact I of ten do,
And always end much at a loss l ike this,
Wondering what to look for; wondering, too,
When churches fall completely out of use
What we shall turn them into, if we shall keep
A few cathedrals chronically on show,
Their parchment, plate and pyx in locked cases,
And let the rest rent-f ree to rain and sheep.
Shall we avoid them as unlucky places?

Or, after dark, will dubious women come
To make their children touch a particular stone;
Pick simples for a cancer; or on some
Advised night see walking a dead one?
Power of some sort or other will go on
In games, in riddles, seemingly at random;
But superstition, l ike bel ief , must die,
And what remains when disbel ief has gone?
Grass, weedy pavement, brambles, buttress, sky,

A shape less recognisable each week,
A purpose more obscure. I wonder who
Will be the last, the very last, to seek
This place for what it was; one of the crew
That tap and jot and know what rood-lof ts were?
Some ruin-bibber, randy for antique,
Or Christmas-addict, counting on a whiff
Of gown-and-bands and organ-pipes and myrrh?
Or will he be my representative,

Bored, uninformed, knowing the ghostly sil t
Dispersed, yet tending to this c ross of ground
Through suburb scrub because it held unspil t
So long and equaly what since is found
Only in separation — marriage, and birth,
And death, and thoughts of these – for which was buil t
This spec ial shell? For, though I’ve no idea
What this accoutred f rowsty barn is worth,
It pleases me to stand in silence here;

A serious house on serious earth it is,
In whose blent air all our compulsions meet,
Are recognised, and robed as destinies.
And that much never can be obsolete,
Since someone will forever be surprising
A hunger in himself to be more serious,
And gravitating with it to this ground,
Which, he once heard, was proper to grow wise in,
If only that so many dead lie round.


A IGREJA INDO-SE...


Quando estou certo de que nada está ocorrendo,
Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.
Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dos
Livrinhos; as juncadas secas, que se cortam
Para o domingo; bronze e objetos a cobrir o
Altar; um órgão impecável e pequeno;
Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,
Há muito fermentado. Sem chapéu, retiro —
Genuflexão canhestra — os grampos de ciclista,

Ando e na pia de água benta esfrego a mão.
Vendo daqui, parece quase novo, o teto —
Foi limpo, restaurado? Um outro sabe: eu não.
Depois que subo até o atril, decifro certo
Versículo imperioso, numa letra grande,
E digo, sem querer, o “Aqui Termina” em tom
De voz mui to alto. O eco casquina um pouco. À entrada,
De novo, assino o livro, doo seis pence da Irlanda,
Concluo que não valia a pena essa parada.

Mas eu parei; e paro lá de vez em quando,
Depois, acabo por pegar-me assim, confuso,
Me perguntando o que buscar; me perguntando:
Quando igrejas caírem em total desuso,
Que vamos fazer delas? Pôr as catedrais
Perpetuamente abertas à visita, expondo
Pergaminho, pátena e píxide em vitrina,
Com o resto grátis para a chuva e os animais?
Vamos temê-las, como sítios de má sina?

À noite, umas mulheres de moral suspeita
Virão fazer os filhos pôr a mão em dada
Pedra, colher ervas prum câncer, ou, à espreita,
Já prevenidas, ver passar a alma penada?
Uma força qualquer continuará em vigor
Em jogos e em enigmas, como que fortuita;
Mas a superstição — e a crença — vão ter fim,
E o que restará quando a descrença se for?
Céu, sarça, erva, pilastras, lajes com capim,

Uma forma a cada semana menos clara,
Um fim mais obscuro. Fico me indagando
Quem será o último, o último, de fato, a andar a
Este local pelo que ele era; alguém do bando
Que fuce e tome nota e saiba o que era o jube?
O ébrio de ruínas, seco por antiqualha,
Ou o viciado em natais, um dependente
De baforadas de alva e estola, mirra e tubos
De órgão? Ou mesmo um tipo que me represente

Com tédio, inculto, vendo o lodo espiritual
Disperso, mas cruzando o arrabalde e o mato
Rumo a esta cruz de terra, que, de modo igual
E tanto tempo, soube conservar intato
O que, depois, só se separa — origem, morte
E matrimônio, idéias tais — em honra ao qual
Se ergueu tal concha? Pois, se ignoro por completo
Pra quê o celeiro ornado e com bolor, conforta e
Apraz deixar-me estar aqui, a sós e quieto;

É uma casa séria em terra séria, e ali, no
Seu ar mesclado, as nossas compulsões se cruzam,
Se reconhecem e disfarçam de destino.
E tudo isso não pode cair em desuso,
Visto que sempre vai haver alguém que um dia
Se pegue ansiando ser mais sério, e assim termine
Por gravitar para essa terra, que, conforme
Ensinam, contribui para a sabedoria,
Só pelo número de mortos que ali dormem.

Tradução: Alípio Correia de Franca Neto

Damien Hirst






























THE OLD FOOLS

What do they think has happened, the old fools,
To make them like this? Do they somehow suppose
It’s more grown-up when your mouth hangs open and drools,
And you keep on pissing yourself, and can’t remember
Who called this morning? Or that, if they only chose,
They could alter things back to when they danced all night,
Or went to their wedding, or sloped arms some September?
Or do they fancy there’s really been no change,
And they’ve always behaved as if they were crippled or tight,
Or sat through days of thin continuous dreaming
Watching light move? If they don’t (and they can’t), it’s strange 

  [Why aren’t they screaming?


At death, you break up: the bits that were you
Start speeding away from each other for ever
With no one to see. It’s only oblivion, true:
We had it before, but then it was going to end,
And was all the time merging with a unique endeavour
To bring to bloom the million-petalled flower
Of being here. Next time you can’t pretend
There’ll be anything else. And these are the first signs:
Not knowing how, not hearing who, the power
Of choosing gone. Their looks show that they’re for it:
Ash hair, toad hands, prune face dried into lines –
[How can they ignore it?

Perhaps being old is having lighted rooms
Inside your head, and people in them, acting.
People you know, yet can’t quite name; each looms
Like a deep loss restored, from known doors turning,
Setting down a lamp, smiling from a stair, extracting
A known book from the shelves; or sometimes only
The rooms themselves, chairs and a fire burning,
The blown bush at the window, or the sun’s
Faint friendliness on the wall some lonely
Rain-ceased midsummer evening. That is where they live:
Not here and now, but where all happened once.
 [This is why they give


An air of baffled absence, trying to be there
Yet being here. For the rooms grow farther, leaving
Incompetent cold, the constant wear and tear
Of taken breath, and them crouching below
Extinction’s alp, the old fools, never perceiving
How near it is. This must be what keeps them quiet:
The peak that stays in view wherever we go
For them is rising ground. Can they never tell
What is dragging them back, and how it will end? Not at night?
Not when the strangers come? Never, throughout
The whole hideous inverted childhood?
 [Well, we shall find out.


OS VELHOS TONTOS

O que eles pensam que houve, os velhos tontos, pra ficar
Como ficaram? Julgam mais adulto quem mantém
A boca aberta, fica a se babar e a se mijar
O tempo todo, sem lembrar-se de quem foi em casa
Pra visitá-los de manhã? Ou por acaso creem
Que é só querer que o mundo volta ao tempo em que cada um
Dançou a noite inteira, foi casar-se, ou sentou praça
Nalgum setembro? Ou creem que tudo é como antanho,
Que o jeito que eles têm de estropiado ou de bebum
Foi seu, e a vida, o sonho longo e frágil de quem fita,
Sentado, a luz passar? Se não (nem pode ser), é estranho:
 Por que é que ninguém grita?

Na morte, a gente se desmancha: cada fragmento
Que nos compunha põe-se velozmente a separar-se,
Sem ninguém ver e para sempre. É, mesmo, esquecimento:
Nós o tivemos, antes, só que ele ia terminar,
E sempre se fundia a fim de que desabrochasse
O botão de um milhão de pétalas que é nossa vida.
Na próxima, não vai ser mais possível simular
Que haverá algo. E eis os sinais: não ver como se passa,
Não ouvir quem, a faculdade de escolher perdida.
O próprio aspecto que eles têm é apenas um indício
Das cãs em cinza, mãos de sapo, cara de uva-passa;
Como ignoram isso?

Talvez velhice seja ter em nossa mente muitos
Salões iluminados, com pessoas atuando.
Você se lembra delas — não dos nomes; cada vulto
Assoma como a volta de profunda perda, cruza
Umbrais já vistos, pousa um castiçal, de vez em quando,
Sorri da escada, tira um livro familiar da estante;
Ou só salões, cadeiras, a lareira onde reluz
A chama, uma janela, o arbusto a balançar lá fora,
E na parede a fraca, afável luz do sol, durante
Vazia tarde estival, depois da chuva. Este é o seu lar:
Não hoje e aqui, mas onde tudo aconteceu outrora.
 Por isso têm um ar

De ausência e frustração, tentando estar ali, não obstante,
Estando aqui. Pois os salões se afastam mais e mais,
Deixando o frio incompetente, o desgaste constante
De sorver o ar, e os velhos, a agachar-se sob a crista
Do alpe do fim, os velhos tontos, sem notar jamais
Quão perto está. Talvez seja isso o que os mantém serenos:
Em qualquer canto onde se esteja, o pico sempre à vista
Para eles é subir o morro. Será que não veem
O que os arrasta para trás, e como acaba? Ao menos
De noite, ou quando estranhos chegam? Nunca, no correr
De toda essa execrável inversão da infância? Bem,
 Havemos de saber

Tradução: Alípio Correia de Franca Neto


















Damien Hirst



ESSENTIAL BEAUTY

In frames as large as rooms that face all ways
And block the ends of streets with giant loaves,
Screen graves with custard, cover slums with praise
Of motor-oil and cuts of salmon, shine
Perpetually these shaply-pictured groves
Of how life should be. High above the gutter
A silver knife sinks into golden butter,
A glass of milk stands in a meadow, and
Well-balanced families, in fine
Midsummer weather, owe their smiles, their cars,
Even their youth, to that small cube each hand
Stretches towards. These, and the deep armchairs
Aligned to cups at bedtime, radiant bars
(Gas or electric), quarter-profile cats
By slippers on warm mats,
Reflect none of the rained-on streets and squares

They dominate outdoors. Rather, they rise
Serenely to proclaim pure crust, pure foam,
Pure coldness to our live imperfect eyes
That stare beyond this world, where nothing’s made
As new or washed quite clean, seeking the home
All such inhabit. There, dark raftered pubs
Are filled with white-clothed ones from tennis-clubs,
And the boy puking his heart out in the Gents
Just missed them, as the pensioner paid
A halpenny more for Granny Graveclothes’ Tea
To taste old age, and dying smokers sense
Walking towards them through some dappled park
As if on water that unfocused she
No match lit up, nor drag ever brought near,
Who now stands newly clear,
Smiling, and recognizing, and going dark.


BELEZA ESSENCIAL

Em molduras tão grandes quanto salas, e que dão
Pra toda parte, obstruem o fim das ruas com pães enormes,
Tapam covas com creme, cobrem com uma louvação
De óleo e salmão os bairros, fulguram perpetuamente
Os oásis em foto artística da vida conforme
O que ela deveria ser. Acima da calçada,
faca de prata se afunda na manteiga dourada,
Um copo de leite se destaca numa campina
E uma família estável, na atmosfera clara e quente
De um dia de verão, deve o sorriso, até seu carro
E sua juventude, àquele cubo pequenino a
Que cada um estende o braço. Essas imagens, e cada
Poltrona, as xícaras na hora de deitar, tubos claros
(A gás ou elétricos) e gatos meio de perfil
Perto dos chinelos num tapete macio
Nada refletem das ruas nem das praças molhadas

De chuva que elas regem fora. Antes, se erguem, de um jeito
Sereno, a proclamar a crosta pura, a espuma pura,
A frieza pura aos nossos olhos vivos e imperfeitos,
Fitando além deste mundo, onde nada salta à vista
Tão novo, nada lava tão branco – olhos à procura
Do lar que habitam. Lá, os bares com suas vigas pretas
Estão cheios de tenistas vestindo branco, e certo
Rapaz no W.C., botando o coração pra fora,
Acaba de perdê-las, assim como o pensionista
Paga mais no Chá Mortalha da Vovó pra que sinta
Gosto de velhice, e fumantes moribundos ora
Pressentem que anda até eles, entre sombras dispersas
Do parque, como se sobre a água, essa ela indistinta,
A que não ilumina o fósforo, não arrasta a draga,
Que há pouco se tornou nítida, e vaga
Sorrindo, reconhecendo e escurecendo depressa.

Tradução: Alípio Correia de Franca Neto



















Damien Hirst



THIS BE THE VERSE

They fuck you up, your mum and dad.
They may not mean to, but they do.
They fill you with the faults they had
And add some extra, just for you.

But they were fucked up in their turn
By fools in old-style hats and coats,
Who half the time were soppy-stern
And half at one another’s throats

Man hands on misery to man.
It deepens like a coastal shelf.
Get out as early as you can.
And don’t have any kids yourself


SEJA ESTE O VERSO

Eles te fodem, teus queridos pais.
É sem querer, só que a verdade é esta —
Te enchem das culpas que tiveram mais
E dão, só pra você, uma dose extra.

Mas eles se foderam com uns néscios
De paletós e de chapéus à antiga,
Durante o dia, piegas e perversos,
À noite, se esganando numa briga.

Legamos dor aos nossos semelhantes.
Como um recife, ela se crava fundo.
Por isso, saia dessa o quanto antes,
E nunca ponha filhos neste mundo

Tradução: Alípio Correia de Franca Neto (poeta, tradutor e doutorando em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo, com o projeto “A Balada do Velho Marinheiro como representação artística da revery dos românticos”.)






















Damien Hirst



DAYS

What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.


OS DIAS

Para que servem os dias?
Os dias são o lugar onde vivemos.
Chegam, despertam-nos,
Uma e outra vez, repetidas vezes.
Existem para sermos felizes neles:
Onde é que podemos viver a não ser dias?

Ah, a resposta a esta questão
Traz o padre e o médico
A correrem pelos campos
De sobretudo.

Tradução: Pedro Silva Sena






















Damien Hirst



IGNORANCE

Strange to know nothing, never to be sure
Of what is true or right or real,
But forced to qualify or so I fell,
Or Well, it does seem so:
Someone must know.

Strange to be ignorant of the way things work:
Their skill at finding what they need,
Their sense of shape, and punctual spread of seed,
And willingness to change;
Yes, it is strange,

Even to wear such knowledge - for our flesh
Surrounds us with its own decisions -
And yet spend all our life on imprecisions,
That when we start to die
Have no idea why.


IGNORÂNCIA

Estranho nada saber, nunca ter a certeza
Do que é verdadeiro, certo ou real,
Forçado então a dizer pelo menos é o que sinto
Ou Bom, é o que parece:
Alguém deve saber.

Estranho ignorar o modo como as coisas funcionam:
A sua capacidade de encontrar o que necessitam,
O seu sentido de forma, e o espalhar da semente preciso,
E a sua vontade de mudar;
Sim, é estranho,

Trazer vestido até tal conhecimento – pois a nossa carne
Cerca-nos com as suas próprias decisões –
E ainda assim gastar a vida em imprecisões,
Tanto que quando começamos a morrer
Nem fazemos a ideia do porquê.

Tradução: Pedro Silva Sena

























Damien Hirst


REFERENCE BACK

That was a pretty one, I heard you call
From the unsatisfactory hall
To the unsatisfactory room where I
Played record after record, idly,
Wasting my time at home, that you
Looked so much forward to.

Oliver's Riverside Blues, it was. And now
I shall, I suppose, always remember how
The flock of notes those antique Negroes blew
Out of Chicago air into
A huge remembering pre-electric horn
The year after I was born
Three decades later made this sudden bridge
From your unsatisfactory age
To my unsatisfactory prime.

Truly, though our element is time,
We are not suited to the long perspectives
Open at each instant of our lives.
They link us to our losses: worse,
They show us what we have as it once was,
Blindingly undiminished, just as though
By acting differently we could have kept it so.


RECORDAÇÃO

Essa era muito gira, ouvi-te eu gritar
Do corredor insatisfatório
Para o quarto insatisfatório onde eu
Punha a tocar disco atrás de disco, indolente,
A gastar o meu tempo em casa, de que tu
Estavas tão desejosa de.

Era Oliver, Riverside Blues. E agora,
Suponho, terei presente, sempre,
Como aqueles negros fora de moda sopravam o bando de notas
Do ar de Chicago
Para uma enorme trompa pré-eléctrica de rememorar
O ano seguinte ao do meu nascimento
Três décadas depois fez esta repentina ponte
Da tua idade insatisfatória
À minha insatisfatória primavera.

Na verdade, embora o nosso elemento seja o tempo,
Não estamos talhados para as longas perspectivas
Abertas a cada instante das nossas vidas.
Elas tecem-nos laços com as nossas perdas: pior,
Mostram-nos o que temos tal como o tivemos,
Cegamente incólume, tal como se,
por agirmos de outro modo, o pudéssemos ter assim mantido.

Tradução: Pedro Silva Sena

















Damien Hirst



TOADS REVISITED

Walking around in the park
Should feel better than work:
The lake, the sunshine,
The grass to lie on,

Blurred playground noises
Beyond black-stockinged nurses -
Not a bad place to be.
Yet it doesn't suit me,

Being one of the men
You meet of an afternoon:
Palsied old step-takers,
Hare-eyed clerks with the jitters,

Waxed-fleshed out-patients
Still vague from accidents,
And characters in long coats
Deep in the litter-baskets -

All dodging the toad work
By being stupid or weak.
Think of being them!
Hearing the hours chime,

Watching the bread delivered,
The sun by clouds covered,
The children going home;
Think of being them,

Turning over their failures
By some bed of lobelias,
Nowhere to go but indoors,
No friends but empty chairs -

No, give me my in-tray,
My loaf-haired secretary,
My shall-I-keep-the-call-in-Sir:
What else can I answer,

When the lights come on at four
At the end of another year?
Give me your arm, old toad;
Help me down Cemetery Road.


SAPOS (REVISTO)

Dar uma volta pelo parque
Devia saber melhor que trabalhar:
O lago, o sol a brilhar,
A relva para nos deitarmos,

Sons de brincadeira esborratados
Por detrás de enfermeiras de meia preta –
Não é um sítio desagradável,
Porém, não me convém,

Sendo eu um daqueles homens
Que se conhece em uma tarde:
Velhos paralíticos de passinhos curtos,
Escriturários com nervos miudinhos e olhos de lebre,

Pacientes de ambulatório pálidos como cera
Ainda turvos dos acidentes,
E personagens de sobretudo
No fundo dos caixotes do lixo –

Cada um a fintar o trabalho do sapo
Sendo estúpido ou fraco.
Imaginem-se assim como eles!
A ouvir as horas a soar,

Observando o pão a ser distribuído,
O sol obnubilar-se,
As crianças a irem para casa;
Imaginem-se assim como eles,

A entregar os falhanços
Por um leito de lobélias,
Sem ter para onde ir senão entre as quatro paredes,
Sem amigos excepto cadeiras vazias –

Não, deem-me a minha correspondência
A minha secretária de cabelo cor de pão
A minha senhor-doutor-mantenho-esta-chamada-em-espera:
Que outra resposta posso eu dar,

Quando as luzes se acendem às quatro
No final de mais doze meses?
Dê-me o braço, amigo sapo;
Ampare-me até à Quinta dos Silêncios.

Tradução: Pedro Silva Sena

















Damien Hirst


TALKING IN BED

Talking in bed ought to be easiest
Lying together there goes back so far
An emblem of two people being honest.

Yet more and more time passes silently.
Outside the wind's incomplete unrest
builds and disperses clouds about the sky.

And dark towns heap up on the horizon.
None of this cares for us. Nothing shows why
At this unique distance from isolation

It becomes still more difficult to find
Words at once true and kind
Or not untrue and not unkind.


CONVERSAR NA CAMA

Conversar na cama devia ser mais fácil
Dois deitados juntos — é desde há muito
Um símbolo de duas pessoas sendo francas.

Ainda que mais e mais tempo passe em silêncio.
Lá fora, a intérmina inquietação do vento
Amontoa e dispersa nuvens pelo céu.

E cidades escuras se empilham no horizonte.
Nada disso se importa conosco. Nada mostra por que
A essa distância única do isolamento

Se torna ainda mais difícil achar
As veras palavras certas e sinceras
Ou não incertas e nem insinceras.

Tradução de Luiz Roberto Guedes




















Damien Hirst



HIGH WINDOWS

When I see a couple of kids
And guess he's fucking her and she's
Taking pills or wearing a diaphragm,
I know this is paradise

Everyone old has dreamed of all their lives —
Bonds and gestures pushed to one side
Like an outdated combine harvester,
And everyone young going down the long slide

To happiness, endlessly. I wonder if
Anyone looked at me, forty years back,
And thought, That'll be the life;
No God any more, or sweating in the dark

About hell and that, or having to hide
What you think of the priest. He
And his lot will all go down the long slide
Like free bloody birds. And immediately

Rather than words comes the thought of high windows:
The sun-comprehending glass,
And beyond it, the deep blue air, that shows
Nothing, and is nowhere, and is endless.


JANELAS ALTAS

Quando eu vejo um casalzinho jovem
E acho que ele trepa com ela, e ela
Toma pílula ou usa um DIU,
Eu sei que isso é o paraíso

Que gente velha sonhou a vida toda —
Gestos e laços postos de lado
Feito um traste antigo, fora de moda
E todo jovem arrebatado em longa fuga

Rumo à felicidade, sem fim. Fico pensando se
Alguém olhou para mim, quarenta anos atrás,
E pensou, Esse vai ser meu futuro.
Nada mais de Deus, nem de suar no escuro

Com medo do inferno, tudo isso, ou ter que
Esconder meus pensamentos do padre. Ele
E sua sorte serão arrebatados nessa fuga,
Livres como malditos pássaros. E, de imediato,

Mais do que palavras, vem o pensamento
[de janelas altas:
O vidro abarcando o sol,
E além dele, o profundo ar azul, que mostra
Nada, e é lugar nenhum, e é sem fim.

Tradução de Luiz Roberto Guedes

























Damien Hirst


STORY

Tired of a landscape known too well when young:
The deliberate shallow hills, the boring birds
Flying past rocks; tired of remembering
The village children and their naughty words,
He abandoned his small holding and went South,
Recognised at once his wished-for lie
In the inhabitants' attractive mouth,
The church beside the marsh, the hot blue sky.

Settled. And in this mirage lived his dreams,
The friendly bully, saint, or lovely chum
According to his moods. Yet he at times
Would think about his village, and would wonder
If the children and the rocks were still the same.
But he forgot all this as he grew older.


HISTÓRIA

Cansado de uma paisagem já bem conhecida desde jovem:
As pasmacentas colinas baixas, os pássaros maçantes
Voando sobre rochas; cansado de recordar
As crianças do povoado e suas bocas sujas,
Ele largou seu pedaço de chão e foi para o Sul
Logo reconheceu o lugar que almejava
Na boca amável dos habitantes,
A igreja junto ao pântano, o ardente céu azul.

Assentou-se. E nessa miragem viveu seus sonhos,
O alegre fanfarrão, santo, ou bom companheiro,
Dependendo de seu humor. Embora, às vezes,
Pensasse em seu vilarejo e se perguntasse
Se as crianças e rochas ainda eram as mesmas.
Mas esqueceu tudo isso quando ficou velho.
Tradução de Luiz Roberto Guedes

























Damien Hirst


WHY DID I DREAM OF YOU LAST NIGHT?

Why did I dream of you last night?
Now morning is pushing back hair with grey light
Memories strike home, like slaps in the face;
Raised on elbow, I stare at the pale fog
Beyond the window.

So many things I had thought forgotten
Return to my mind with stranger pain:
— Like letters that arrive addressed to someone
Who left the house so many years ago.


POR QUE SONHEI CONTIGO A NOITE PASSADA?

Por que sonhei contigo a noite passada?
Agora a manhã empurra cabelos para trás
[com uma luz grisalha
Lembranças batem de volta, como tapas na cara;
Apoiado no cotovelo, eu fito o branco nevoeiro
Além da janela.

Tantas coisas que eu pensava esquecidas
Voltam agora à mente numa estranha dor:
Como cartas que chegam para outra pessoa
Que há muito tempo já se foi.

Tradução de Luiz Roberto Guedes


FONTES: - As traduções de Alípio Correia de Franca Neto foram transcritas da Revista Crioula, n° 4, nov. 2008, publicada pela USP – www.fflch.usp.br/dlcv/revistas/crioula/

- As traduções de Pedro Silva Sena foram retiradas da Revista Inefável, jan.-jun., 2007. Endereço: http://revistainefável.weblog.com.pt

- As traduções de Luiz Roberto Guedes foram reproduzidas do site Germinal Literatura, endereço: http://www.germinaliteratura.com.br


quarta-feira, 11 de novembro de 2009

FORTUNA BEATRIZ MUNDI


Beatriz Ferreira Milhazes (Rio de Janeiro RJ 1960). Pintora, gravadora, ilustradora, professora. Formada em comunicação social pela Faculdade Hélio Alonso, no Rio de Janeiro em 1981, inicia-se em artes plásticas ao ingressar na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage em 1980, onde mais tarde leciona e coordena atividades culturais. Além da pintura dedica-se também a gravura, e a ilustração. De 1995 à 1996 cursa gravura em metal e linóleo no Atelier 78, com Solange Oliveira e Valério Rodrigues e em 1997 ilustra o livro As Mil e Uma Noites à Luz do Dia: Sherazade Conta Histórias Árabes, de Katia Canton. Beatriz Milhazes faz parte das exposições que caracterizam a Geração 80, grupo de artistas que buscam retomar a pintura em contraposição à vertente conceitual dos anos 1970, e tem por característica a pesquisa de novas técnicas e materiais. Sua obra faz referências ao barroco, à obra de Tarsila do Amaral (1886-1973) e Burle Marx (1909-1994), à padrões ornamentais e à art deco, entre outras. Entre 1997 e 1998, é artista visitante em várias universidades dos Estados Unidos. A partir dos anos 1990, destaca-se em mostras internacionais nos Estados Unidos e Europa e integra acervos de museus como o MoMa, Guggenheim e Metropolitan em Nova York.


"Como a pintura de Gauguin, a de Milhazes é também , a seu modo, enganosa: parece sugerir um paraíso repleto de flores e frutos exóticos de uma natureza abundante pintado em cores alegres e jubilosas, na expressão de Barry Schwabsky em texto publicado nesse livro. No entanto, são pinturas produzidas numa cidade estereotipada pela imagem da abundância da natureza, da beleza e de um variado espectro de prazeres: o Rio de Janeiro. Mais ainda, nos últimos anos as pinturas de Milhazes também vêm sendo exportadas para importantes coleções na Europa e nos Estados Unidos. Nesse aspecto, é fundamental compreender que a pintura de Milhazes recupera para os nativos não apenas a produção de suas próprias imagens, mas sobretudo o eixo de exportação e disseminação delas entre o Sul e o Norte.

Tal operação não é construída de maneira tão calculada pela artista, e o elemento crítico de suas pinturas parece fundar-se justamente na ambivalência. Um segundo olhar detecta mais do que flora e fauna tropicais: do símbolo da paz à joalheria de Miriam Haskell, dos padrões de tecido de Emilio Pucci ao design paisagístico de Burle Marx, do chitão às alegorias de carnaval, dos ornamentos arquitetônicos art déco às geometrias de Bridget Riley. Não se trata tanto de apropriação ou citacionismo, mas de um melting pot em que os elementos utilizados são submetidos a processos mediadores de adaptação, tradução e derivação. A antropofagia é uma forte referência. Se as cores são alegres e jubilosas, a técnica particular de colagem das formas que Milhazes aplica a suas telas confere um aspecto precário e fragmentado ao conjunto. A pintora tropical é uma surfista, e seus Mares do Sul, um vasto junkyard hiperfigurativo, pleno de elementos nativos, estrangeiros, exóticos, genéricos derivativos e bastardos".

Pedrosa, Adriano. Mares do Sul. In: MILHAZES, Beatriz. Mares do sul. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. p. 81


"(...) As pinturas de Milhazes tem também um caráter social autoconsciente. Com seus motivos de flores, contas e laços, falam da feminilidade como um constructo histórico e também como um modo de vida - do trabalho que as mulheres fizeram e de prazeres que desfrutaram. Mesmo sem aqueles fragmentos reconhecíveis de imagética que tecem seus caminhos pela abstração de Milhazes, nós observadores poderíamos ainda inalar o aroma desta reminiscência, destilada pela própria padronização à qual aquelas imagens recorrem.

Mas essa padronização, não importa o quão magnífica, não tem maior relevância nas pinturas de Milhazes do que aqueles fragmentos de imagética ornamental.

Aqui tanto o padrão como as imagens estão a serviço da cor - mas a cor funciona de uma maneira tal que sua mera nomeação (que poderia dar a ilusão de que um pouco de cor é uma entidade com auto-identidade, independente , cujos atributos ignoram sua interação com o entorno) é um contra-senso. Uma pintura como Milhazes nos mostra , é uma sociedade de cores, e como tal cria e caracteriza os indivíduos que a constituem. Portanto é a pintura como um todo que confere caráter a cada cor nela contida, tanto quanto ou mais ainda do que cada cor empresta certo caráter à pintura".

Schwabsky Barry. Beatriz Milhazes - cor viva. In: MILHAZES, Beatriz. Mares do sul. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 2002. p. 109 -110


"Trabalhando com um método de monotipia onde as imagens são preparadas sobre plástico transparente na medida inversa em que serão impressas na tela, a artista controla a espessura reduzida da matéria pictórica, esconde o gesto da pintura e congela a imagem decalcada. Nesse assentamento da fina película de tinta sobre a tela, pele sobre pele, derme sobre derme, o embate das formas circulares com o princípio geométrico cria uma pintura de sensibilidade hiperbólica, que nasce da luta desvairada entre figuração abarrocada e construção rigorosa - não da luta de um elemento contra outro, de uma vertente contra outra, mas da exaltação mútua que governa a sensualidade barroca revestida de cor matissiana e libera a emoção construtiva embrionária da obra.

As formas circulares reforçam núcleos ao mesmo tempo em que geram deslocamentos ora concêntricos ora expansivos, e perturbam qualquer desejo de hierarquia que a construção racional insiste em reinventar. Por isso são pinturas que não se oferecem ao primeiro olhar.

Impossível determinar planos ou privilegiar uma ou outra forma, pois são pinturas que se dão por inteiro e obrigam o olhar a percorrê-las de maneira escorregadia, sem conseguir singularizar qualquer instância.

Para Beatriz, o barroco se mantém como dado cultural, mas apenas como memória arquetípica. Como emoção, está deslocado e engana motivações saudosistas. Foi sem dúvida extraído por ela de raízes profundas garimpadas do nosso tempo histórico, porém transformou-se em imagem espelhada, em simulacro que adentra e reforça o redemoinho das estruturas construtivas da obra. (...)

É uma pintura onde a reflexão rastreia plasticamente as tensões que se assentam numa aparente solidez da história, mas que se dá como uma nova percepção dos fenômenos e dos significados da criação e da expressão da arte".

BARROS, Stella Teixeira de. [Beatriz Milhazes]. In: BEATRIZ Milhazes. São Paulo: Galeria Camargo Vilaça; Caracas: Sala Alternativa Artes Visuales, 1993. p. [5-6].


Beatriz Milhazes, entre 1981 e 1982, estuda pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage, na qual, mais tarde, leciona. Participa, em 1984, da exposição Como Vai Você, Geração 80? Na opinião do crítico Frederico Morais, a artista revela, desde o início da carreira, a vontade de enfrentar a pintura como fato decorativo, aproximando-se da obra de artistas como Henri Matisse (1869 - 1954). Interessa-se pela profusão da ornamentação barroca, sobretudo pelo ritmo dos arabescos e pelos motivos ornamentais presentes na obra de Guignard (1896 - 1962).

Suas obras da década de 1980 revelam uma tensão entre figura e fundo, entre representação e ornamentalismo. Posteriormente, faz opção por uma pintura de caráter decididamente bidimensional. Beatriz Milhazes revela sensibilidade no uso da cor, como nas obras O Príncipe Real (1996) ou As Quatro Estações (1997).

A artista trabalha freqüentemente com formas circulares, sugerindo deslocamentos ora concêntricos ora expansivos. Na maioria dos trabalhos, prepara imagens sobre plástico transparente, que são descoladas, como películas, e aplicadas na tela por decalque. Aglomera as imagens, preenchendo o fundo e retocando a imagem final. Os motivos e as cores são transportados para a tela por meio de colagens sucessivas, realizadas com precisão. A transferência das imagens da superfície lisa para a tela faz com que a gestualidade seja quase anulada. A matéria pictórica obtida por numerosas sobreposições não apresenta, entretanto, nenhuma espessura: os motivos de ornamentação e arabescos são colocados em primeiro plano. O olhar do espectador é levado a percorrer todas as imagens, acompanhando a exuberância gráfica e cromática presente em seus quadros.

Fonte: Enciclopédia Itaú Cultural - Artes Visuais



























FORTUNA BEATRIZ MUNDI


                          José Antônio Cavalcanti


I.

Movo-me entre miragens?
As cores com sabor de samba
em explosões Sapucaí?
Solar desfile biopictórico.
de sistemas insondáveis:
flores ou outros mundos
em telas estreladas?











 



















II.

Fazer o outro feliz
nos fios e filamentos
em fuga de pincéis
para olhares alheios.
Sonhos Beatriz
para Dantes em travessia.







 















III.

Colagens circulares
cercam olhos desertos.
É na retina,
lago de imagens inermes,
que luz e cor
sob forma de flor e lua
profanam a tela triste dos dias.







 















IV.

Quando pintar é doar-se,
reger orquestra de orquídeas
em fissuras,
reinar sob rascunhos e rasuras
mirando o ovo vazio
à procura de suculento abismo,
no risco de encarar as tintas
do nihilismo
e gerar alegria na cidade.









 








V.

A impropriedade dos círculos
é que disputam ao olhar o
movimento de leitura de almas.
Somos tomados
pelas formas redondas,
invadidos, devassados,
virados pelo avesso.
No final, imantizados por entretons e tonalidades
na pauta pincelada de hipnótica música plástica,
a exposição é toda nossa.








 













VI.

Tropicolor,
Tropicaos,
Tropicarioca.
Exuberância de passista
fantasiada de Matisse;
pinceladas são passes e cálculo,
geomentiras giroverdades.
Saldo da obra:
tensão entre incessância barroca
e rigor construtivista.




























VII.

Da monotipia
a mundos plurais.
Planos indeterminados
levam as formas a contínuos deslocamentos
ou somos nós que nos deslocamos
ao contemplá-las?
Bordado de Penélope,
o tempo circular anuncia o regresso
do humano ao humano.







 














VIII.

Cabeça de mulher.
planeta
ou óvulo,
tudo circunferências
em que se guardam mundos.
Espesso espaço de pensamentos vastos,
Campo magnético desconhecido
de tons ainda não inventados:
amarelo-fulgor, azul-imperatriz, verde-redondo.






 
















IX.

Giramundo
giravisão
girândola
geomotivos em constelações
hegemonia do múltiplo
a cromodiversidade da alegria
do viver carioca
na espacial dimensão humana
de perspectivas que escapam
a cálculo e controle.
























X.

Mandalas,
qual mago, monge ou mandarim
desenharia destinos florais
em vestidos ou tapetes de cortesãs?
Em que escola de samba
uma ala se abriria
para abolir a tinta escura
sobre a esfera oculta dos dias?


























XI.

Os círculos ausentes
são astros inscritos em órbitas impossíveis.
Seus movimentos
proveem as lacunas de águas misteriosas,
alimentam-nas de palavras incompreensíveis.
O que não veio
é o que está no centro,
o mais-para-dentro,
o secreto.
O círculo ausente não é o deserto,
pois os desertos são escritos e abertos.
Só o mais denso em nós se revela em silêncio
e em silêncio nos escapa.







 















XII.

Arcos sobre arcos
vão além do ornamento:
aportam no requinte.
Abundância barroca
costurada pelo rigor Milhazes.
Película, plástico, papel:
dinâmica da cor em velocidade.
Rodas em movimento na tela.





















XIII.

Disco de múltiplas camadas,
de era indeterminada.
Seu tempo foi amanhã
(se houver),
é ontem
e será hoje.
Babélico floral humano:
se a Beleza não resiste ao tempo
também não existe tempo sem Beleza.
A flor, então, é viço para sempre.








 













XIV.

Anel,
arco,
aro,
bola,
roda,
disco,
círculo,
circunferência,
flores, floreios, florilégios,
sacros, profanos, sacrilégios
Arquitextura Milhazes:
“tu és pólen e ao pólen voltarás”.






















XV.

Périplo do pigmento,
galáxia floral,
pintura corrosiva,
veneno antitédio antitristeza.
Limpo os meus olhos
de tantos detritos ao ver-te,
reinauguro a possibilidade
do olhar como forma de invenção.
O olho não apenas cópia,
tradução,
filtro da realidade,
mas o círculo mágico da criação.






 




















XVI.

Em que esferas nós vivemos?
Em que esferas nós dançamos?
Que sejam próximas ao mundo Milhazes,
esferas plenas de gáudio e poesia,
esferas a caminho do aberto e do impossível,
esferas de fantasias e de alegorias carnavalescas;
rodas rodas rodas de bambas
como a mais pura roda de samba.

Rio de Janeiro, 11/11/2009

 

Beatriz Milhazes c/ Helena Lara Resende/ TV Imaginária, 1

Os três vídeos fazem parte da entrevista realizada pela jornalista Helena Lara Resende com a artista plástica Beatriz Milhazes para o programa Sala de Notícias, do Canal Futura, numa produção da TV Imaginária.
A sua reprodução em Poemargens é o reconhecimento à pura poesia impura do mundo pictórico dessa artista extraordinária.

Beatriz Milhazes c/ Helena Lara Resende/ TV Imaginária, 2

Beatriz Milhazes c/ Helena Lara Resende/ TV Imaginária, 3

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

DENISE EMMER

Poeta, compositora, cantora, violoncelista e escritora.

Filha dos escritores Janete Clair e Dias Gomes, tornou-se primeiramente conhecida por temas musicais compostos para personagens das telenovelas,tais como "Pelas muralhas da adolescência", Bandeira 2, e "Alouette", Pai Herói, "Companheiros",Sinhá Moça, entre outros, alcançando depois, reconhecimento pela sua vasta e premiada produção poética.

É violoncelista da Orquestra Rio Camerata.

A poesia de Denise Emmer, sobretudo depois deste seu último volume Lampadário (Editora 7Letras, 2008), pode ser tida como um exemplo de obra que, mesmo antes do julgamento implacável do tempo histórico, irá se inscrever no cânone dos grandes poetas brasileiros. São poucos os autores dos quais podemos fazer tal ilação extemporânea, afirmando-a a partir, não da subjetividade do gosto, mas da análise do conjunto da própria obra em questão. Neste sentido, basta consultarmos o que sobre sua obra escreveram alguns dos mais notáveis críticos e poetas brasileiros contemporâneos.

(...)
Sem dizer tudo ou mais que o necessário, Denise Emmer nos diz o essencial, aquilo que, nada nos explicando, aflora no horizonte da linguagem como “algo” decifrador da essência humana, pois a explicação – como já afirmou Heidegger – pensa “mecanicamente”, e não no horizonte da linguagem. (...)

Sem abrir mão modernamente da imanência sagrada da linguagem poética, Denise Emmer, assim como um Cruz e Sousa ou uma Cecília Meireles, capta-a ao nível da linguagem mesma da poesia: seja pela musicalidade ou pela plasticidade de suas imagens.

Resumindo: seus poemas conseguem nos transmitir tanto a harmonia de um canto gregoriano como o rigor colorístico da profissão de fé de Paul Cézanne. A presença do sagrado em seus poemas não se restringe, portanto, a uma temática especificamente religiosa – ao contrário, ela imana do próprio mundo, da natureza, da vida. No terceiro poema metalingüístico de “Dicionário da língua bela”, ela escreve, confirmando tudo o que dissemos acima: “Das rochas escuto rimas / Deixo que passem pássaros / As palavras as vertigens / Não me aproprio ainda / Do seu imprevisto canto / Escalo a página em branco”.

Sendo, além de poetisa, romancista e musicista, uma aficcionada do alpinismo (Memórias da montanha é um relato memorialístico sobre o tema publicado pela Ediouro em 2006), o último verso citado acima – “Escalo a página em branco” – pode ser lido como uma sucinta definição do seu processo criativo. Afinal, uma das metáforas sobre a poesia não pode ser também a de deparar-se com o mistério da montanha e com o espanto de escalá-la?

Texto de Frederico Gomes - poeta e tradutor
(Jornal do Commércio - RJ)


Obras da autora:

POESIA

*Geração Estrela- Rio de Janeiro, Ed Paz e Terra 1975 (orelha Moacyr Félix)
*Flor do Milênio – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1981. (prefácio Moacyr Félix)
*Canções de Acender a Noite – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1982. (Prefácio João Paes Loureiro)
*A Equação da Noite – Rio de Janeiro, Ed Philobiblion, 1985. (Prefácio Pedro Lyra)
*Ponto Zero – Rio de Janeiro, Ed Globo, 1987. (Prefácio Antônio Houaiss e posfácio Olga Savary)
*O Inventor de Enigmas – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1989. (Prefácio Ivan Junqueira)
*Invenção para uma Velha Musa – Rio de Janeiro, Ed José Olympio, 1990. (Prefácio Nelson Werneck Sodré)
*Teatro dos Elementos & Outros Poemas – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1993. ( Prefácio Rachel de Queiroz)
*Cantares de Amor e Abismo – Rio de Janeiro, Ed 7Letras, 1995. (Prefácio Carlos Emílio Corrêa Lima)
*Poesia Reunida – Rio de Janeiro, Ediouro, 2002. (Organização Sérgio Fonta)
*Lampadário – Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 2008 (pref. Alexei Bueno)

ROMANCE

*O Insólito Festim – Rio de Janeiro, Ed Nova Fronteira, 1994. (Prefácio Rachel de Queiroz)
*O Violoncelo Verde – Rio de Janeiro, Ed Civilização Brasileira, 1997. (Prefácio Sérgio Viotti)
*Memórias da Montanha – Rio de Janeiro, Ediouro, 2006.

PRÊMIOS

**Prêmio Guararapes de Poesia, União Brasileira de Escritores, 1987
**Prêmio União Brasileira de Escritores- melhor autor jovem, 1988
**Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, poesia (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1990
**Prêmio APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte),1990
**Prêmio Olavo Bilac, poesia, Academia Brasileira de Letras – ABL, 1991
**Prêmio José Marti de Literatura, Conjunto de Obra, Casa Cuba- Brasil, 1995
**Prêmio Nacional de Literatura do PEN Club do Brasil, romance (Prêmio Luiza Claudio de Souza), 1995
**Prêmio Alejandro José Cabassa, romance, União Brasileira de Escritores, 1995
**Prêmio Yeda Schmaltz, UBE, poesia, 2002
**Prêmio José Picanço Siqueira, Memória Romanceada, União Brasileira de Escritores, 2007
**Prêmio Cecília Meireles de Poesia, da União Brasileira de Escritores, 2008
**Prêmio ABL de Poesia 2009


POEMAS

























DICIONÁRIO DA LÍNGUA BELA


- I -

Estrelas de azul vertigem
Nada me dizem falam de si
Maior abismo cava-se aqui

- II -

Amor amor
Viestes vazio
Nada me luz
Nada me cio
Já não me entregas teu rio

Ontem selvagem
hoje sombrio
O que me trazes
Jornal da tarde
Secas folhagens
- horas de estio.

- III -

Das rochas escuto rimas
Deixo que passem pássaros
As palavras as vertigens
Não me aproprio ainda
Do seu imprevisto canto
Escalo a página em branco.

- IV -

O que será a noite noite cheia
Céu que incendeia e nada clara
Nada me fala se não senões
Astros borrões rostos distantes
Quasar pulsante - de nada sei.










VIAS AVESSAS

Chegas por vias avessas escuto teus passos surdos
Deuses que movimentam a incoerência do mundo
Regem relógios quietos de horas que não existem
Feliz a insanidade das multidões irascíveis

Se há mares em teus abraços mergulho em sóis afundados
Decifro a nova linguagem que inutiliza tratados
E despedaça países fundidos em calmarias
O amor desgoverna os ventos assombros em abadia

Viajo os rumos trocados as ruas que se invertem
Distâncias que se encontram pernas que se perseguem
Olhos que confabulam dentro de rios quentes
Percebo outras cidades nos vãos de uma nova lente

O que me faz alcançar as caravelas aéreas
Andaimes velozes cumes a indizível matéria
São teus incêndios a luz que espalhas pelo Universo
E por meu corpo acendendo meus lampiões submersos.


















Rubens Gerschman



O BEIJO


Levou-me sem feitas frases

Somente passo e camisa

Roubou-me um beijo de brisa

Na quadratura da tarde


Jogou-me contra a parede

Rasgou-me a blusa de linho

Roubou-me um beijo de vinho

Diante das aves vesgas


Puxou-me para seu fundo

Rompeu a rosa pirâmide

Roubou-me um beijo de sangue

E bateu asas no mundo.




















Modigliani



A CARTA

Zarparam meus navios mar adentro
Levando minha carta sem palavras
Quando o dizer tudo é dizer nada
Poemas de horizontes reticências

Se posso discorrer a transparência
Já não me afogo em frases para tanto
E o que posto é uma folha em branco
Para dizer-te árvores sem flores

Não traço dores tampouco alegrias
Antes sorria agora sou um livro
Que abriga extensas pausas sem ruído
Quando o dizer mais é dizer findo.
























Siron Franco



MULHERES QUE ENTERRAM FILHOS:

Mulheres que enterram filhos
Invertem o curso dos rios

Deságuam o mar em regatos
Antecedem o fim do ato

Tratados de sóis contrários
O trovão antes do raio

São estrelas que se afundam
Big-Bang depois do mundo

Maçãs retornando à árvore
Tropeços da gravidade

Vulcões de tempero frio
Horizontes em desvio

Avesso do negativo
Padecer sem ter nascido

- Mulheres que enterram filhos –

Se alvo de velhas vingas
Se pacto de suicidas

Instauram o não previsto
E deixam pequenos cristos.





















OS ANIMAIS QUE MORREM

Os animais que morrem
viram luzes
assombros tão pequenos
entre escuros
espectro sereno
sobre muros

os animais que morrem
são futuros.