quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Sylvia Plath - "Tulips"



Tulips

by Sylvia Plath

The tulips are too excitable, it is winter here.
Look how white everything is, how quiet, how snowed-in.   
I am learning peacefulness, lying by myself quietly
As the light lies on these white walls, this bed, these hands.   
I am nobody; I have nothing to do with explosions.   
I have given my name and my day-clothes up to the nurses   
And my history to the anesthetist and my body to surgeons.

They have propped my head between the pillow and the sheet-cuff   
Like an eye between two white lids that will not shut.
Stupid pupil, it has to take everything in.
The nurses pass and pass, they are no trouble,
They pass the way gulls pass inland in their white caps,
Doing things with their hands, one just the same as another,   
So it is impossible to tell how many there are.

My body is a pebble to them, they tend it as water
Tends to the pebbles it must run over, smoothing them gently.
They bring me numbness in their bright needles, they bring me sleep.   
Now I have lost myself I am sick of baggage——
My patent leather overnight case like a black pillbox,   
My husband and child smiling out of the family photo;   
Their smiles catch onto my skin, little smiling hooks.

I have let things slip, a thirty-year-old cargo boat   
stubbornly hanging on to my name and address.
They have swabbed me clear of my loving associations.   
Scared and bare on the green plastic-pillowed trolley   
I watched my teaset, my bureaus of linen, my books   
Sink out of sight, and the water went over my head.   
I am a nun now, I have never been so pure.

I didn’t want any flowers, I only wanted
To lie with my hands turned up and be utterly empty.
How free it is, you have no idea how free——
The peacefulness is so big it dazes you,
And it asks nothing, a name tag, a few trinkets.
It is what the dead close on, finally; I imagine them   
Shutting their mouths on it, like a Communion tablet.   

The tulips are too red in the first place, they hurt me.
Even through the gift paper I could hear them breathe   
Lightly, through their white swaddlings, like an awful baby.   
Their redness talks to my wound, it corresponds.
They are subtle : they seem to float, though they weigh me down,   
Upsetting me with their sudden tongues and their color,   
A dozen red lead sinkers round my neck.

Nobody watched me before, now I am watched.   
The tulips turn to me, and the window behind me
Where once a day the light slowly widens and slowly thins,   
And I see myself, flat, ridiculous, a cut-paper shadow   
Between the eye of the sun and the eyes of the tulips,   
And I have no face, I have wanted to efface myself.   
The vivid tulips eat my oxygen.

Before they came the air was calm enough,
Coming and going, breath by breath, without any fuss.   
Then the tulips filled it up like a loud noise.
Now the air snags and eddies round them the way a river   
Snags and eddies round a sunken rust-red engine.   
They concentrate my attention, that was happy   
Playing and resting without committing itself.

The walls, also, seem to be warming themselves.
The tulips should be behind bars like dangerous animals;   
They are opening like the mouth of some great African cat,   
And I am aware of my heart: it opens and closes
Its bowl of red blooms out of sheer love of me.
The water I taste is warm and salt, like the sea,
And comes from a country far away as health.


Tradução: Rodrigo Garcia Lopes e Cristina Macedo *

Tulipas



Tulipas são excitáveis demais, é inverno aqui.
Vê como tudo está branco, tão silencioso, coberto de neve.
Aprendo a paz, deitada sozinha em silêncio
Enquanto a luz se espalha nessas paredes brancas, nesta cama, nestas mãos.
Não sou ninguém; não tenho nada a ver com as explosões.
Dei meu nome e minhas roupas às enfermeiras
Minha história ao anestesista e meu corpo aos cirurgiões.

Apoiaram minha cabeça entre o travesseiro e a dobra do lençol
Como um olho entre duas pálpebras brancas que ficassem abertas.
Pupila tola, tudo ela tem que engolir.
As enfermeiras não se cansam de passar, não me incomodam,
Passam como gaivotas no interior, em seus chapéus brancos,
Fazendo coisas com as mãos, uma igual à outra,
Por isso é impossível dizer quantas são.

Fazem de meu corpo um seixo, que elas cuidam como a água
Cuida dos seixos por onde corre, alisando-os com carinho.
Trazem-me o torpor em suas agulhas brilhantes, trazem-me o sono.
Perdida de mim, estou cansada da bagagem toda —
Meu estojo de couro noturno, caixa preta de comprimidos,
Meu marido e minha filha sorriem na foto de família;
Seus sorrisos fisgam minha pele, pequenos anzóis sorridentes.

Deixei coisas escaparem, navio de carga com trinta anos
Teimosamente se prendendo a meu nome e endereço.
Eles me lavaram de minhas associações amorosas.
Assustada e nua sobre a cama de rodas com travesseiros de plástico verde,
Assisti meu aparelho de chá, minhas roupas de linho, meus livros
Submergirem e sumirem, e a água cobrir minha cabeça.
Sou freira agora, nunca fui tão pura.

Não queria flores, só me deitar
De mãos pra cima e completamente vazia.
Quanta liberdade, você não faz idéia —
A paz é tão imensa que entorpece,
E não pergunta nada, um crachá, coisinhas de nada.
É do que se aproximam os mortos, enfim; e os imagino
Fechando suas bocas sobre ela, como hóstia de comunhão.

Tulipas são vermelhas demais, me machucam.
Mesmo através do celofane as ouço respirando
De leve, através de suas faixas brancas, como um bebê terrível.
Sua vermelhidão conversa com minha ferida, elas combinam.
São tão sutis: parecem flutuar, embora sinta seus pesos,
Me aborrecendo com suas súbitas cores e línguas,
Uma dúzia de chumbadas vermelhas presas no pescoço.

Antes ninguém me observava, agora sou observada.
As tulipas se viram para mim, e para a janela às minhas costas
Onde, uma vez por dia, a luz lentamente se dilata e lentamente se dilui,
E me vejo, estendida, ridícula, uma silhueta de papel
Entre o olho do sol e os olhos das tulipas,
E não tenho face, eu que tanto quis me apagar.
As tulipas vívidas devoram meu oxigênio.

Antes de chegarem havia sossego no ar,
Indo e vindo, a cada alento, sem alvoroço.
Mas as tulipas o ocuparam por inteiro, como um alarme.
Agora o ar se enrosca e redemoinha ao seu redor como o rio
Ao redor de um motor enferrujado e submerso.
Elas concentram minha atenção, foi divertido
Brincar e descansar sem compromisso.

As paredes também parecem se aquecer.
Tulipas deviam estar atrás das grades, como feras perigosas;
Elas se abrem como a boca de um grande felino africano,
E estou consciente de meu coração: ele se abre e se fecha,
Seu bojo vermelho viceja de total amor por mim.
A água que provo é morna e salgada, como a do mar,
E vem de um país distante como a saúde.

* Tradução retirada do excelente blog do poeta e tradutor Rodrigo Garcia Lopes - Estúdio Realidade

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Arnaut Daniel (1180- 1295)





















Sol sui qui sai lo sobrafan qu’em sortz
al cor d’amor sofren per sobramar,
que mos volers es tant ferms et entiers
c’anc non s’esduis de celei, ni s’estors
cui encubic al prim vezer s’e pois:
c’ades ses leis dic a leis cochos motz;
pois quand la vei non sai, tant l’ai, que dire.

D’autras vezer sui secs e d’auzir sortz
qu’en sola leis vei e aug e esgar,
e jes d’aisso no’ l sui fals plazentiers
que mais la vol non ditz la boca’l cors,
qu’eu non vau tant chams, vauz, ni plas, ni pois
qu’en un sol cors trob aissi bons aips totz,
qu’en leis los volc Deus triar e assire.

Já ai estat a maintas bonas cortz,
mas sai ab leis trob pro mais que lauzar:
mesur’e já e autres bos mestiers,
beutat, joven, bos faitz e bels demors;
gen l’enseignet cortesia la dois
tant a de si totz faitz desplazens rotz
de leis non cre res de já si’a dire.

Nuls jauzimen no’m fora breus ni cortz
de leis, cui prec qu’o volha devinar,
o já per mi non o sabra estiers
si’l cors, ses dich, no’s presenta de fors,
que jes Rozers, per aiga que l’engros,
non a tal bru c’al cor plus larga dotz
no.m fass’ estanc d’amor, quan la remire.

Jois e solatz d’autra.m par fals e bortz,
c’una de pretz ab leis no’is pot egar,
que’l seus solatz es dels autres sobriers.
Ai, si no l’ai, las, tan mal m’a comors!
Pero l’afans m’es deportz, ris e jois,
car en pensan sui de leis lecs e glotz:
ai Deus, si já.n serai estiers gauzire!

Anc mais, so’us pliu: no’m plac tant treps ni bortz,
ni res al cor tant de joi no.m poc dar
cum fertz aquel, don anc feinz lausengiers
non s’esbruic, c’a mi sol so’s tresors.
Dic trop? Eu non, sol leis non si’enois:
bella, per Deu, lo parlar e la votz
volh perdr’enans que diga ren que’us tire.

E ma chanzos prec que no’us si’enois
car, si voletz grazir lo son e’ls motz,
pauc prez’Arnautz cui que plass’o que tire.

Tradução de Graça Videira Lopes

Só eu é que sei o grande afã que me invade
o coração, de amor sofrendo por demais amar,
pois a minha vontade é tão firme e inteira
que disso não se afasta, nem se pode desviar
daquela que me prendeu a primeira vez e depois;
que quando está longe longamente lhe falo,
e quando a vejo não sei, tendo tanto, que lhe dizer.

A outras ver sou cego e de ouvir surdo,
que a ela somente vejo, escuto e acato;
e não lhe faço aqui falsos louvores
que mais não diz a boca do que o coração quer;
pois passo tantos campos, vales, planícies, montes
e num só ser encontro assim as virtudes todas:
que nela Deus as quis reunir e fixar.

Certamente estive em muitas grandes cortes,
mas sei que nela encontro muito mais que louvar:
mesura e sensatez e muitos outros méritos,
beleza, juventude, bons feitos, gestos belos;
Nobreza lhe ensinou Cortesia e a dotou;
de tal forma de si afastou os defeitos
que dela nenhum bem fica ainda para dizer.

Prazer nenhum me virá breve e fraco
dela, a quem peço que o queira adivinhar,
ou já por mim não o saberá inteiro,
se o coração, a sua fala, à força não se mostrar:
que até o Reno, quando as águas sobem,
não tem a força que no coração mais corre
e me faz estancar de amor, quando a contemplo.

Alegria e prazer de outra me parecem falsos e ocos
pois o mérito de nenhuma se lhe pode comparar,
que o seu favor é aos outros superior.
Ai! se não for minha, helàs! assim me cativou!
Mas o afã me distrai e é riso e alegria
pois pensando, sou dela alegre e desejoso:
ai Deus, pudesse eu já inteiramente gozar!

E mais vos digo: não prezo tanto jogos e torneios,
nem nada ao coração tanta alegria me pode dar
como deu aquela, de que nem os falsos aduladores
se gabam, e que para mim só é um tesouro.
Digo demais? Eu não, assim não se aborreça ela:
bela, por Deus, o falar e a voz
quero perder antes que diga algo que vos canse.

A minha canção peço que não vos aborreça,
pois se quiserdes acolher a música e as palavras,
pouco importa a Arnaut a quem agrade ou canse.


sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Anarquipélago




O livro Anarquipélago, de José Antônio Cavalcanti,  já está disponível para venda nas Livrarias Cultura e Travessa virtuais. Pedidos também podem ser feitos à editora Ibis Libris - http://www.ibislibris.net/site/

José Antônio Cavalcanti

























Dois no ringue


Escalafobético,
dizia-me
com certo deboche
de moça de família nobre,
os olhinhos
pulavam de alegria
acima da boca esnobe.
Depois
usava o sutiã
em jogo de cabra cega,
a calcinha
alimentava estilingue
antes que as mãos tremessem
na roleta russa.




Robert Creeley



















Poema de Robert Creeley traduzido por Régis Bonvicino.


The Language


Locate I
love you some-
where in

teeth and
eyes, bite
it but

take care not
to hurt, you
want so

much so
little. Words
say everything.

I
love you
again,

then what
is emptiness
for. To

fill, fill.
I heard words
and words full

of holes
aching. Speech
is a mouth.


* * *

A Linguagem


Perceba Eu
te amo algum
lugar en-

tre dentes e
olhos, morda
mas

tome cuidado
para não ferir,
você tão

pouco quer tan-
to. Palavras
dizem tudo.

Eu
te amo
de novo,

o que
é vazio
para. Pre-

encher. Encher.
Ouvi palavras
e palavras cheias

de buracos
doendo. Fala
é a boca.


domingo, 1 de dezembro de 2013

Czeslaw Milosz

Trabalho de Cy Twombly






















NÃO MAIS

Preciso contar um dia como mudei
Minha opinião sobre a poesia e por que
Me considero hoje um dos muitos 
Mercadores e artesãos do Império do Japão
Compondo versos sobre a floração da cerejeira,
Sobre crisântemos e a lua cheia.

Se eu pudesse descrever as cortesãs
De Veneza, como incitam com uma vareta o pavão no pátio
E desfolhar do tecido sedoso, da cinta nacarina
Os seios pesados, a marca
Avermelhada no ventre onde o vestido se abotoa,
Ao menos assim como as viu o dono das galeotas
Arribadas àquela manhã carregando ouro;
E se ao mesmo tempo pudesse encerrar seus pobres ossos
No cemitério, onde o mar oleoso lambe o portão,
Em palavras mais duráveis que o derradeiro pente
Que entre carcomas sob a lápide, só, espera pela luz
Não duvidaria. Da resistência da matéria
O que se retém? Nada, quando muito o belo.
Então devem nos bastar as flores da cerejeira
E os crisântemos e a lua cheia.

Montgeron, 1957

In Não Mais. Seleção, tradução e introdução de Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza. Editora UNB, Brasília, 2003