Arnaut Daniel (1180- 1295)





















Sol sui qui sai lo sobrafan qu’em sortz
al cor d’amor sofren per sobramar,
que mos volers es tant ferms et entiers
c’anc non s’esduis de celei, ni s’estors
cui encubic al prim vezer s’e pois:
c’ades ses leis dic a leis cochos motz;
pois quand la vei non sai, tant l’ai, que dire.

D’autras vezer sui secs e d’auzir sortz
qu’en sola leis vei e aug e esgar,
e jes d’aisso no’ l sui fals plazentiers
que mais la vol non ditz la boca’l cors,
qu’eu non vau tant chams, vauz, ni plas, ni pois
qu’en un sol cors trob aissi bons aips totz,
qu’en leis los volc Deus triar e assire.

Já ai estat a maintas bonas cortz,
mas sai ab leis trob pro mais que lauzar:
mesur’e já e autres bos mestiers,
beutat, joven, bos faitz e bels demors;
gen l’enseignet cortesia la dois
tant a de si totz faitz desplazens rotz
de leis non cre res de já si’a dire.

Nuls jauzimen no’m fora breus ni cortz
de leis, cui prec qu’o volha devinar,
o já per mi non o sabra estiers
si’l cors, ses dich, no’s presenta de fors,
que jes Rozers, per aiga que l’engros,
non a tal bru c’al cor plus larga dotz
no.m fass’ estanc d’amor, quan la remire.

Jois e solatz d’autra.m par fals e bortz,
c’una de pretz ab leis no’is pot egar,
que’l seus solatz es dels autres sobriers.
Ai, si no l’ai, las, tan mal m’a comors!
Pero l’afans m’es deportz, ris e jois,
car en pensan sui de leis lecs e glotz:
ai Deus, si já.n serai estiers gauzire!

Anc mais, so’us pliu: no’m plac tant treps ni bortz,
ni res al cor tant de joi no.m poc dar
cum fertz aquel, don anc feinz lausengiers
non s’esbruic, c’a mi sol so’s tresors.
Dic trop? Eu non, sol leis non si’enois:
bella, per Deu, lo parlar e la votz
volh perdr’enans que diga ren que’us tire.

E ma chanzos prec que no’us si’enois
car, si voletz grazir lo son e’ls motz,
pauc prez’Arnautz cui que plass’o que tire.

Tradução de Graça Videira Lopes

Só eu é que sei o grande afã que me invade
o coração, de amor sofrendo por demais amar,
pois a minha vontade é tão firme e inteira
que disso não se afasta, nem se pode desviar
daquela que me prendeu a primeira vez e depois;
que quando está longe longamente lhe falo,
e quando a vejo não sei, tendo tanto, que lhe dizer.

A outras ver sou cego e de ouvir surdo,
que a ela somente vejo, escuto e acato;
e não lhe faço aqui falsos louvores
que mais não diz a boca do que o coração quer;
pois passo tantos campos, vales, planícies, montes
e num só ser encontro assim as virtudes todas:
que nela Deus as quis reunir e fixar.

Certamente estive em muitas grandes cortes,
mas sei que nela encontro muito mais que louvar:
mesura e sensatez e muitos outros méritos,
beleza, juventude, bons feitos, gestos belos;
Nobreza lhe ensinou Cortesia e a dotou;
de tal forma de si afastou os defeitos
que dela nenhum bem fica ainda para dizer.

Prazer nenhum me virá breve e fraco
dela, a quem peço que o queira adivinhar,
ou já por mim não o saberá inteiro,
se o coração, a sua fala, à força não se mostrar:
que até o Reno, quando as águas sobem,
não tem a força que no coração mais corre
e me faz estancar de amor, quando a contemplo.

Alegria e prazer de outra me parecem falsos e ocos
pois o mérito de nenhuma se lhe pode comparar,
que o seu favor é aos outros superior.
Ai! se não for minha, helàs! assim me cativou!
Mas o afã me distrai e é riso e alegria
pois pensando, sou dela alegre e desejoso:
ai Deus, pudesse eu já inteiramente gozar!

E mais vos digo: não prezo tanto jogos e torneios,
nem nada ao coração tanta alegria me pode dar
como deu aquela, de que nem os falsos aduladores
se gabam, e que para mim só é um tesouro.
Digo demais? Eu não, assim não se aborreça ela:
bela, por Deus, o falar e a voz
quero perder antes que diga algo que vos canse.

A minha canção peço que não vos aborreça,
pois se quiserdes acolher a música e as palavras,
pouco importa a Arnaut a quem agrade ou canse.


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