ORIDES FONTELA

Orides Fontela (1940-1998) morreu na mais completa miséria, mesmo sendo considerada um dos nomes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

Entre os admiradores de Orides se incluem Antonio Candido, Marilena Chauí e Davi Arrigucci Jr.

Orides nasceu em 21 de abril de 1940, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Desde criança escrevia versos, e muito cedo começou a publicar seus poemas nos jornais da cidade. Nos anos 60, mudou-se para São Paulo e estudou filosofia na USP.

Em 1969, era publicado seu primeiro livro, Transposição. Depois vieram Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, Orides ganhou o prêmio Jabuti. Os quatro primeiros livros foram reunidos no volume Trevo, que fez parte da coleção Claro Enigma, da Editora Duas Cidades. Na França, os poemas foram publicados em dois volumes com o título Trèfle. A Cosac Naify lançou, em 2006, o volume Poesia Reunida.

Professora primária e bibliotecária, Orides viveu sempre em meio a grandes dificuldades. Sempre com os nervos à flor da pele, meteu-se em encrencas e provocou escândalos com seus melhores amigos. Boêmia e depressiva, várias vezes tentou o suicídio. Exageros que culminaram na morte precoce, aos 58 anos, num sanatório em Campos do Jordão.

Bibliografia: Transposição, 1969, Instituto de Espanhol da USP, coordenada por Davi Arrigucci Jr.; Helianto, 1973, Duas Cidades; Alba, 1983, Roswitha Kempf, Prêmio Jabuti; Rosácea, 1986, Roswitha Kempf; Trevo, 1988, Coleção Claro Enigma, organização de Augusto Massi; Teia, 1996, Marco Zero, Prêmio concedido pela APCA – Associação Paulista de Críticos de Arte; Poesia Reunida, 2006, Cosac Naif/7 Letras; Trèfle (Trevo), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 1998; Rosace (Rosácea), tradução Emmanuel Jaffelin e Márcio de Lima Dantas - Paris: L'Harmattan, 2000.

Já foram publicados alguns poemas de Orides aqui em Poemargens, num texto denominado Três Poetas do Barulho, em que ela é colocada ao lado de Hilda Hilst e Sylvia Plath. Abaixo transcrevo uma bela homenagem do poeta Donizeti Galvão à autora e um pequeno conjunto de poemas de Orides.



Orides Fontela:  o maior bem possível é a sua poesia
 
por DONIZETE GALVÃO
 
Impossível falar de Orides Fontela sem comentar a sua vida tão atormentada, numa sequência de depressões e doenças. Por isso, jornais e revistas sempre focalizaram mais os detalhes sórdidos de sua vida e pouco a sua poesia. Agora, que ela se foi, espera-se que a poesia de qualidade que ela produziu passe a ocupar o primeiro plano. Sua obra pequena, concentrada e econômica, tem qualidade e intensidade para continuar sendo lida e admirada. Mesmo em vida, Fontela teve um reconhecimento crítico considerável. Seu talento nunca foi negado. Já que falar da biografia de Orides Fontela é inevitável, convém desde o início esclarecer alguns equívocos que cercam sua história. Há uma tendência para fazer de Fontela uma vítima da sociedade. Muitos querem compará-la a Cruz e Souza ou a Lima Barreto. Ela mesma em uma entrevista disse que era a poeta mais pobre do Brasil. Igual a ela, dizia, somente Cruz e Souza. É verdade que veio de uma família muito pobre, de pais analfabetos, que inclusive transmitiram-lhe a sífilis. Esse complexo de inferioridade social acompanhou Orides desde São João da Boa Vista, terra que produziu muitos talentos, além dela, a pianista Guiomar Novais e o crítico Davi Arrigucci Jr. 

Uma matéria de Mario Sabino publicada na revista Veja de outubro de 1995 traça um perfil bem realista do que era o convívio com Orides. A verdade é que Orides encontrou em São Paulo apoio em diversas ocasiões. Antônio Cândido, Augusto Massi, Davi Arrigucci Jr., José Mindlin, Maria Antônia (da Livraria e Editora Duas Cidades), Marilena Chauí, Eunice Arruda, Ieda de Abreu sempre a auxiliaram. Aposentada, tinha uma pequena renda que não era muito diferente do que recebe a grande maioria. Todos do meio reconhecem a infinita paciência de Massi para com ela. A edição de Trevo, pela Duas Cidades, foi um dos melhores momentos da vida de Orides. Até o fim, teve a fidelidade e amizade de Gerda que soube compreender suas idiossincrasias. Portanto, a personalidade de Orides era muito complexa e difícil. Não cabe culpar aqueles de boa vontade que tentaram ajudá-la. Nem a ela, por ser de trato tão difícil. Em conversas que tive com ela, reconhecia que era áspera, sem travas na língua e que se indispunha com as pessoas. Muito isolada nos últimos anos, dizia que estava mais amena. A própria fragilidade física tirara-lhe a disposição para a briga. À sua maneira, era uma aristocrata. Pedíamos-lhe bom senso, bons modos, contenção e ela nos respondia com desdém, irreverência, frases cortantes e excessos aos nossos apelos de classe média bem comportada.
Como julgá-la quando muito de nós estávamos sendo assombrados pelos mesmos fantasmas? O poeta, dramaturgo e diretor de teatro Celso Alves Cruz traçou-lhe o retrato em um poema muito apropriadamente chamado “A selvagem Orides”. 

Filha única, solitária, sem filhos ou parentes próximos, sem móveis ou objetos acumulados,  a única e principal referência de Orides era a sua poesia. Embora tenha sido desleixada até mesmo com sua saúde, era zelosa com sua poesia. Tinha consciência do seu valor como poeta. Interessava-se pela divulgação e a edição de suas obras. Ultimamente, estava preocupada com a edição de Trevo na França que não chegou a ver. Na última vez que falamos ao telefone, já internada em Campos do Jordão, ela pediu notícias do livro. Portanto, a melhor homenagem que os poetas podem prestar-lhe é continuar editando sua poesia para que ela se multiplique. 

A obra de Orides permanece límpida e sem arestas. Nunca foi contaminada pela mesquinharia do quotidiano. Há um tom de amargura lírica e seca em seus poemas. Em momento algum, ela é sentimental, derramada ou frouxa. Sua voz poética original nasceu praticamente formada no primeiro livro. 

Seu alheamento a correntes ou modismos, possibilitou uma poesia que prima pela concisão, pela economia de recursos e densidade. Tornou-se lugar comum falar da poesia que busca o silêncio. Para alguns, isso significa não ter nada a dizer ou produzir fiapos sem sintaxe. Para outros, com Orides, significa deter-se no que é essencial. É uma poesia descarnada, sem enfeites, de uma dureza óssea e de cunho filosófico. Difere muito da poesia minimalista, coloquial e de descrição de paisagens miniaturizadas. Penso na poesia do mineiro Ronald Polito, autor de Intervalos, com uma das poucas que têm afinidade coma obra de Orides Fontela. Como leitor, costumava ler versos como quem lesse um koan. Para minha surpresa, não havia nenhuma suavidade na leitura feita pela própria Orides. Ela lia seus poemas de maneira forte, vigorosa, sincopada. Foi uma experiência reveladora vê-la numa grande cadeira da Livraria Duas Cidades tratando sua poesia com voz incisiva e decidida. Causava um estranhamento saber que aquela energia poética vinha de uma mulher tão frágil e com a saúde debilitada. 

Penso que ela gostaria de ser lembrada por sua produção poética. Numa entrevista, disse que "o maior bem possível é a poesia".  Seu fim em um hospital público foi o desenlace de um drama sempre anunciado. Não difere muito do fim de uma poeta como Marina Tsvetaeiva que foi jogada numa vala comum, depois de se suicidar, na Sibéria para onde fora deportada. Como quase todo poeta, Fontela não tinha o menor senso para a vida prática. Nunca conseguiu se desvencilhar dos traumas familiares e das armadilhas que a vida foi lhe reservando. Aos 58 anos, parecia ter vinte anos mais. O sofrimento acabou. Está calada sua voz áspera. O melhor e o mais precioso bem que ela nos legou é sua poesia.
Donizete Galvão é autor de Do silêncio da pedra e A carne e o tempo.



 


A ESTRELA PRÓXIMA

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe

- só existe o impossível.




ELEGIA (I)

Mas para que serve o pássaro?
Nós o contemplamos inerte.
Nós o tocamos no mágico fulgor das penas.
De que serve o pássaro se
desnaturado o possuímos?

O que era voo e eis
que é concreção letal e cor
paralisada, íris silente, nítido,
o que era infinito e eis
que é peso e forma, verbo fixado, lúdico

O que era pássaro e é
o objeto: jogo
de uma inocência que
o contempla e revive
— criança que tateia
no pássaro um
esquema de distâncias —

mas para que serve o pássaro?

O pássaro não serve. Arrítmicas
brandas asas repousam. 


 



KANT (relido)

Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.






FALA

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)





ESFINGE

Não há perguntas. Selvagem
o silêncio cresce, difícil.




VIAGEM

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.


 


MÉDIA

Meia luz.
Meia palavra.
Meia vida.

Não basta?


  


CARTILHA


Foi de poesia
lição
primeira:

 
"a arara morreu
na
aroeira".

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