ÁPORO


Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.

Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?

Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:

em verde, sozinha,
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.


In Reunião (10 livros de poesia). 5ª. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1973, p. 92.

“Áporo” já mereceu análises de especialistas como Décio Pignatari, em Contracomunicação, Davi Arrigucci Jr., em Coração partido: análise da poesia reflexiva de Drummond, de Francisco Achcar, em Folha explica Carlos Drummond de Andrade. No entanto, o que me despertou para o poema foram as observaçãos escritas sobre ele por Gilberto Mendonça Teles na Seleta em Prosa e Verso, com textos escolhidos pelo próprio Drummond, publicada em 1971 pela José Olympio. Desde então Áporo ganhou uma luz especial.


A melhor análise que já li sobre o “Áporo” foi escrita por Décio Pignatari e publicada no livro Contracomunicação, da Perspectiva, em 1971, p. 131-137. Transcrevo abaixo o texto na íntegra.

UM INSETO SEMIÓTICO

Áporo 1, s.m. (do gr. áporos). Mat. Problema de resolução impossível, como o da quadratura do círculo.Áporo 2, adj. Bot. Secção do gênero dendróbio. // Zool. Designativo das madréporas em que se encontram reunidos um aparelho sedimentar muito desenvolvido e uma muralha muito compacta.— Grande Dicionário da Língua Portuguesa (Morais).

Áporo, s.m. Gr. a + poros. Gênero da família das orquidáceas dendrobíceas. // 2. Entom. Gênero de esfingeanos himenópteros. // 3. Mat. O mesmo que aporismo.Aporismo, s.m. Gr. Aporos + ismo. Mat. Problema difícil ou impossível de resolver.— Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa (Laudelino Freire).

Aporia, do gr. “aporia”, dificuldade em passar; falta de recursos; falta, privação; falta de alimentação; necessidade, indigência, pobreza; embaraço, dificuldade; ansiedade (de doente); embaraço, incerteza, particularmente numa investigação, numa discussão; o fato de não adquirir qualquer coisa (pelo lat. “aporia”, embaraço, dúvida).— Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (José Pedro Machado).

Áporo, m. Problema de difícil solução. Planta das orquidáceas. Inseto himenóptero. (Gr. aporos).— Grande Dicionário (Cândido de Figueiredo).

Áporo, s .m. Inseto himenóptero. Problema difícil de resolver.— Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa.

Áporo, m s. m. (Didát.) Problema difícil ou impossível de resolver. // (Bot.) Gênero de plantas da família das orquidáceas, composto de várias espécies, todas herbáceas, de flores quase solitárias, ordinariamente esverdinhadas. // (Zool.) Gênero de insetoss himenópteros, da família dos cavadores, cujo tipo é o áporo-bicolor. // F. gr. Aporos (difícil, sem saída).— Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa (Caldas Aulete)

Lat. insectum, de insecare, couper, de in, en, et secare, couper (voy, section), ainsi dit à cause des étranglements du corps.— Dictionnaire de la Langue Française (Émile Littré).

Proposição Descritiva

Inserto no bastidor verbal (suporte), um texto-têxtil, ideográfico e ideofônico – inseto que, por isomorfismo, se fisicaliza e se metamorfoseia em flor-poema, à medida que o percorre e faz, perfura e perfaz.

Macroestrutura

Dois aspectos da macroestrutura do poema: interno e externo – este referindo-se à configuração visual do poema olhado como um todo, aquele à trama-de-suas-linhas-se-tramando. Seccionada em seus três anéis-sílabas, a palavra IN-SE-TO desencadeia um processo de aliterações verticais, com dois percursos principais, a que chamaremos: percurso-inseto e percurso-orquídea.

Percurso-Inseto

Comporta três pistas, conforme a tricotomia in-se-to. A pista que leva à saída do labirinto é a central, se (com sua principal variante espelhada, es), ícone sutil de inseto e verme, signo-inseto que, logo de início, se apresenta sitiado em si mesmo, in-se-to. (observem o desenho; o poema ganharai com um design tipográfico caprichado).

Percurso: inSEto / SEm / EScape / faZEr / EXausto / enlaCE / EiS / prESto SE dESata / forma-SE. É a trilha das fricativas. Sábia e incliticamente expelido da forma, vemos o inseto-flor-poema formando-se formado.

Uma da pistas laterais segue a trilha das nasais, várias das quais, caracteristicamente, abrem e introduzem versos: UM inseto, EM país, ENlace, EM verde, UMA orquídea.

Eis a pista completa: UM / INseto / sEM / alarME / perfurANdo / sEM / EM / ENlace / MINério / labirINto / EM / sozINHa / AntieuclidiANa / UMa / forMA-se. Lembrando uma vez mais: computam-se aqui não apenas as unidades de fonação, mas também unidades e parentescos tipográficos. Vale dizer: a “escritura” do poema é fono-gráfica, áudio-visual, o desenho tipográfico não servindo tão-somente de veículo-suporte de sons e significados.

A outra pista lateral segue a trilha das oclusivas línguo-dentais, a partir de inseTO, e continuando: / TErra / exausTO / noiTE / labirinTO / misTÉrio / presTO / desaTA.

Ao nível das microestruturas, observar que há momentos em que duas trilhas se cruzam em pequenas unidades vocabulares – como em SEM, por exemplo. Num ponto-evento extraordinário (7° verso, metade do poema), as três pistas se cruzam, produzindo “EnlaCE de noiTE” – EN-CE-TE, eco estocástico de INSETO, o himenóptero num estágio ou estado particular de sua operação de “cavar” o poema. Não por coincidência, o ritmo deste verso rompe com a andadura do poema até ali, como veremos mais adiante. De outra parte, assim como a unidade nasal inicial do primeiro verso, UM, anuncia a entrada do IN, unidade metonímica de IN-SE-TO, a unidade inicial do verso final, UMA, mudando de gênero, anuncia a orquídea, comparecendo, também, em forMA-se.

O Percurso-Orquídea

Paralelamente ao percurso-inseto, desenvolve-se o percurso-orquídea, que se inicia hipostasiado no primeiro, não na palavra inseto, mas numa outra persona do mesmo: a palavra cava, reduplicada e adentrando a terra-poema-labirinto; não se trata apenas do verbo cavar, mas do inseto cavador cavando.

O percurso-orquídea segue a trilha das oclusivas velares: CAva / CAva / esCApe / QUE / bloQUEado / eis QUE / antieuCLIdiana / orQUÍdea.

align="justify">Microestruturalmente, o fenômeno mais notável que se pode observar neste percurso é o fato de a palavra orquídea já se apreentar em formação, estocasticamente, dentro da palavra “antiEUCLIDIAna”: euclídia / orquídea.

Fechar-Abrir

Vê-se, assim, que o poema não está construído em aliterações simples, mas antes na dispersão, difusão e infusão das unidades que compõem uma matriz aliterante e que denominei aliteração vertical. O que não exclui outras linhas de apoio (uma variada gama da vibrante r, por exemplo), pois o poema todo é uma composição em variações toantes, como se em substituição à consonância das rimas — “rastilhos de luz em pedrarias”, diria Mallarmé.

Neste poema autofecundante e autogestatório, signo-fisiológico, o sentido de fechar-abrir, como predicado de base — para empregarmos uma noção de Todorov, extrapolada da prosa para a poesia — está presente em diversos níveis, desde o espelhamento de letras (al/la, ar/ra, se/es, na/na, etc.) até o nível das unidades verso e estrofe: sob a nova máscara da expressão oh razão mistério, o pertinaz “inseto” se apresenta encerrado não só dentro do parêntese como também dentro dos outros dois versos do terceto, o segundo dos quais anuncia a abertura, ao mesmo tempo em que, dentro dele, o bicho avança, se enleia e desenleia — “prESto SE dESata” — mas ainda preso, posicionalmente, para libertar-se, transubstanciado, em “formar-SE”.

Macroestrutura Externa

A configuração ideogrâmica da macroesturutra externa se constitui em algo assim como um índice-ícone (tal uma impressão digital) da forma do soneto, parodiado por miniaturização, diria mesmo, por bonsaização, técnica nipônica para produzir árvores-anãs. Algo assim como um soneto de versos decassílabos rasgado ao meio longitudinalmente, para produzir um inseto-soneto de pentassílabos, dentro de uma lógica teorêmica Q.E.D. euclidiana, mas que acaba resultando numa anti-lógica, analógic, propriamente poética. A metalinguagem crítica, parodística, da configuração externa apresenta também certas correspondências simbóicas na estrutura interna, a saber, naquelas expressões do primeiro terceto que aludem à altiloqüência do pseudo-castiço: Eis que, Oh razão, Presto. E não deixa de ser curioso o fato de INSETO ser um quase-anagrama de SONETO...

A configuração ideogrâmica e a aliteração vertical contribuem para romper com a diacronia da estrutura do verso, impondo-lhe um parâmetro sincrônico.

RitmoEm 1950, quando ainda militava na crítica literária, Sérgio Buarque de Holanda lançou mão de uma diferenciação entre ritmo e compasso — que, aqui, vem bem a propósito. Nos metros curtos, em geral, e neste poema, em particular, o peculiar ritmo drummondiano, aparentemente “prosaico” e desossado, parece decorrer de dois fatores principais: do corte dos versos, que é antes um corte informacional, se assim podemos dizer (corte para a gradativa introdução de informações) e do fato de fazer incidir vários acentos secundários, semilongos, em monossílabos átonos, ou seja, breves (é fácil observar neste poema não só a importância funcional e fisiognômica dos monossílabos, como também o teor de surpresa, de informação, que o poeta extrai da variação do comprimento das palavras).

Paradoxalmente, o ritmo do poema se revela mais claramente quando o traduzimos em termos de compasso, marcando como longos ou fortes os acentos secundários ou semilongos. Ouvimos, então, predominar a cadência binária, trocaica (longo/breve), de marcha batida e persistente, com disrupção nos 6°, 7° e 12° versos, onde se passa para um esquema binário/terciário, jâmbico-anapéstico (breve-longo/breve-breve-longo) — compassos de uma valsa surpreendente e irônica, mas plenamente isomórficos à denotação de enlace de noite / raiz e minério e que também pode funcionar como comentário de humor à forma do soneto. (Cf. mesmo esquema em Letra para uma valsa romântica, de Manuel Bandeira.)

Interpretação

Quanto a outros níveis do poema, o jogo fica aberta à interpretação — que nada pode acrescentar-lhe de essencial. Em todo caso, alguma coisa sempre conta saber que Áporo surge na coletânea de um Drummond-ápice, A Rosa do Povo, 1945, ano da agonia do nazifascismo e do Estado Novo (“em país bloqueado”), ano da soltura de Luís Carlos Prestes (“presto se desta”...), ano de todas as auroras.

Didática do Poema

Ou: Como o poema gera o seu próprio dicionário verbal e não-verbal, anti-dicionário, a partir de um dicionário. Drummond tornaria a fazê-lo, muitos anos depois e em igual nível, com Isto é Aquilo.

Método

Deveríamos valorizar mais o que eu chamaria de método indicativo: aquele que conduz à obra analisada — e não ao próprio método.

Apreciação do Poema

Uma das peças de poesia mais perfeitas e mais criativas, em âmbito internacional e dentro da tradição do verso pós-Mallarmé.

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