LUIZA NETO JORGE














No Jornal do Brasil, de 23.04.08, foi publicada uma matéria muito oportuna, assinada por Bolívar Torres, sobre o lançamento do livro 19 recantos e outros poemas, da poeta portuguesa Luiza Neto Jorge, pela Editora 7 Letras. Trata-se do primeiro livro de uma das vozes mais originais da poesia portuguesa contemporânea publicado por aqui. Dela só havia textos em antologias.
Como uma pequena forma de colaborar para a divulgação da obra de Luiza Neto Jorge, resolvi publicar uma pequena apresentação feita pelo organizador da antologia e alguns poemas da autora.












LUIZA NETO JORGE
ou Apresentação de uma espécie de corpo inenarrável


Jorge Fernandes Da Silveira

Poeta, tradutora (Lisboa, 1939-1989). A escrita revolucionária dos poemas de Luiza Neto Jorge volta a exigir uma mudança radical no hábito da leitura de poesia. Ler o seu primeiro livro - A Noite Vertebrada, 1960 - implica perceber como a expressão poética, a partir de uma interpretação pessoal da realidade, transforma os significados socialmente fixados em significantes produtores de outros sentidos. O lado referencial, institucionalizado portanto, da Terra Imóvel (1964) é visto através da literatura, pois, à semelhança dos poetas da sua geração, ao falar do tempo e do espaço que historicizam o seu poema, cita, de acordo com os princípios da intertextualidade, os autores que lê. Em Quarta Dimensão (1961), a sua participação em Poesia 61, o transporte entre os textos e a relação inter-estrófica - por meio de uma semântica em aberto, juntando poemas à primeira vista independentes - já caracterizam o estilo de Luiza Neto Jorge como, para usar um título seu, um "ciclópico acto": um modo de apropriação de diferentes e plurívocas linguagens, reinterpretadas pelo avesso, no choque casual de contradicções provocatoriamente fundidas. Esta poética, de quem ainda se distingue pela criação de textos para o teatro e o cinema, tem algo de uma encenação dramática. Publicado em 1969, Dezanove Recantos é a síntese extraordinária duma poesia de acontecimentos, de situações tensas entre o sujeito e as suas circunstâncias. O livro está dividido em 19 recantos e não em 20, como seria de esperar em texto que se nomeia, explicitamente, recanto camoniano, duplicação, pela leitura-escrita, dos 10 cantos d'Os Lusíadas. Em obra de vocação surrealizante, a multiplicação pela falta, pelo um em menos (10 + 10 = 19), é proposição evidente da reivindicação de uma nova narração dos acontecimentos. A matriz épica do livro - o fato de a escrita se dizer leitura de uma epopéia clássica - é, sem paradoxos, sinal da mais paradigmática modernidade na obra de Luiza. Semelhantes práticas de conhecimento em confluência mais sobressaem se associadas a uma outra de igual ou maior força: a hipótese de um modo feminino de escrever a história portuguesa, arbitrariamente transformada em história de homens ilustres, dos "barões assinalados". Neste aspecto, por meio de um surpreendente e desassombrado erotismo, a poesia de Luiza não encontra paralelo na literatura portuguesa desde sempre. Do "peito ilustre lusitano" ao seu avesso, seja ele o peito assassinado de Inês, ou o seu nome próprio assinado à maneira das bibliografias - "SO-NETO JORGE, Luiza"-, há uma prática de escrita intimamente, sexualmente na verdade, ligada às partes do corpo que escreve. Um corpo assim, eros frenético, assim movido e assinalado às avessas, é um corpo em estado de alarme. A poesia da autora de "Exame" é o alerta desse corpo alarmado e alarmante. Já que escreve poemas em que passa o sexo a ser eixo, ela tem muito a falar sobre as cópulas semânticas entre os gêneros masculino, feminino e literário. Numa zona, antes ambivalente agora pluralizada, pois alargada nos seus órgãos extremos, esta poesia requer para si uma área de transição, que é, no fundo, a expressão mais feliz que ela encontra para falar do prazer do sexo do e com o outro. É nessa zona a um só tempo fatal e vital, local de encontro do sujeito consigo e com os discursos que interpretam o mundo, que a poesia de Luiza Neto Jorge inscreve uma revolução nos instrumentos de estilo e composição, ditando à sua maneira a moda que lhe é contemporânea: ler o escrito e escrever o lido, sim, pois estes são Os Sítios Sitiados (1973); mas não como práticas colossais de isolamento em que a exclusão é o estigma permanente da indiferença pelo diferente. Em 1966, é publicado O Seu a Seu Tempo. Tempo de uma maravilhosa aventura poética que ao longo dos anos 60 escreveu os seus livros mais notáveis. No ano de1989, vem A Lume, o título que, literal e postumamente, esclarece um longo silêncio, às vezes interrompido por intervenções e colaborações nos mais diversos meios de comunicação. Igualmente póstumo tem de ser Poesia 1960-1989 (1993), embora nele estejam reunidos e vivos para sempre versos perfeitos, harmoniosamente irregulares, com uma musicalidade intensa, cortados por elipses frasais e semânticas, por uma exultante contundência, por um amor ardente, sarcástica e ferozmente doméstico, à portuguesa.
O texto acima foi transcrito de http://www.lusitanistasail.net/silveira01.htm.

POEMAS

Desinferno II

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria


Encantatória

Custa é saber
como se invoca o ser
que assiste à escrita,
como se afina a má-
quina que a dita,
como no cárcere
nu se evita,
emparedado, a lá-
grima soltar.

Custa é saber
como se emenda morte,
ou se a desvia,
como a tecla certa arreda
do branco suporte
a porcaria.
















A cabeça em ambulância

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância


A quem se interesse

A quem se interesse
por tecidos, peles
sistemas de ocultação

lembro Bartolomeu
santo, mártir, manequim

o que há séculos passeia
sobre os ombros
ou dependurada no braço
feita capa
a sua pele escorchada

adereços:
os pés e as mãos,
a murcha máscara
da cara.
















RECANTO I

Proposição:

Contorno-vos. Socorre-se a terra de mim
para vos contornar.

Enquanto se gastam montanhas
e a beleza se define como um sapato na relva
e a bondade é um mar
em contra-luz

vosso contorno vence
o meu poder.

Poder que vos desfoca, dinamite.

Invocação:

Mestre luz equívoca entre a página e o poema

e tu João num terraço
prisioneiro sobre o evidente
dinamitado

Pai dador de sangue

Vaídio gato animal sustido
no ovário de minha mãe vestíbulo e morgue

Eléctrico motor louco, louco navegante, máquina arborizada
a lançar faíscas pelo mundo
e sangue e seios e cílios sustentando o corpo!

Já o sol, nos pólos, era sol, o sempre.
Já um arco voltaico, mestre, em 33 rotações sonhava
alto
dava uma luz
sonora uma estridência
um íman

Assim veio a musa seus dedos apurados para
o exame dos mortos
deusa mão coçando-se
debaixo da terra
a empurrar.

(Idade de reabsorção)

Dedicatória:

Sobretudo a Dulcíssimo o amor em bruto, vinte vezes
banido 20 vezes assente sobre o chão 20 vezes
eternas a bater com a memória
no fundo do mar

a Ilo um ovo fecundo o mundo
a Ila viajante do espaço ínfimo entre dois planetas
revolucionados

e a Anjo um ser privado
ao que lava ao que perfuma
que foi um rio de espuma refluxo espérmico
entre muitas almas

a Telefonia, que foi boca sintética

contorno-vos
atravesso em vida o vosso ácido.

Serva milenária de senhores e servos
serviçal matéria com as flores mais ácidas
sombra meio brilhante era estar a olhar-vos
solenemente

e sair como todos em Sèvres-Babilónia
de um alçapão de morte e de alegria
de uma degradação
de um degredo de uma bondade movida por roldanas.

Narração:

Assim começa:

Por toda a cidade havia um terraço
onde me debrucei sobre um rio infindável sobre uma
chávena de café com cisnes sábios
sobre um rio que só tinha de humano o ir
secando.

No cinema, cão de caça
atrelado a deus
(Vejo-vos vejo-vos entrar pelas janelas para dentro da câmara
onde se investe deus)
homens atravessam o largo cosmos,
infatigáveis no trabalho
como quem dá brilho ao fecho
de uma porta aberta.


RECANTO 11

O verão deu-nos uma volta aos olhos.

Voltou-se ao mais princípio dos princípios
a Ilo um ovo perdido num campo de pérolas
chamou-se por uma mulher (Ila, irmã, ovário)
para recuperar o sexo

mas o que nos apareceu foi a clareira como víramos
num filme e na televisão a luz feita
espaço de calor aquela incandescência aberta
no juízo

que nos falava de um ser inexistente
de um ex-ser duplo
povoador de momentos agudos
de afiadas linhas da mão,

brancas gotas de amante à despedida
heróica incandescência metida
em supositório
pela artéria aorta.


Poema quase epitáfio

Violentamente só
desfeito em louco
- nem um gato lunar
te arranha um pouco

Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos

Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)

O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões

- Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?











As casas vieram de noite

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas


O poema

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontando ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme

II

Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa
de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira
ou apodrece o poema
ou se ateia

ou se despedaça
a mão ateia
ou cinco seis astros
se percorre
antes que o deserto
mate a fome














Pelo corpo

infinita invenção
de pétala a escaldar
desprende o falo

a palavra sublimada
que é ele a avançar-me
pelo corpo

a porta giratória
que me troca
pelo homem e, a este,

o fértil trajo
que lhe cria mais seios
pelo corpo.


Anos Quarenta, os Meus

De eléctrico andava a correr meio mundo
subia a colina ao castelo-fantasma
onde um pavao alto me aflorava muito
em sonhos à noite. E sofria de asma

alma e ar reféns dentro do pulmao
( como um chimpanzé que à boca da jaula
respirava ainda pela estendida mao ).
Salazar tres vezes, no eco da aula.

As verdiças tranças prontas a espigar
escondiam na auréola os mais duros ganchos.
E o meu coito quando jogava a apanhar
era nesse tronco do jardim dos anjos

que hoje inda esbraceja numa árvore passiva.
Níqueis e organdis, espelhos e torpedos
acabou a guerra meu pai grita "Viva".
Deflagram no rio golfinhos brinquedos.

Já bate no cais das colunas uma
onda ultramarina onde singra um barco
pra cacilhas e, no céu que ressuma
névoas águas mil, um fictício arco-
-irís como é, no seu cor-a-cor,
uma dor que ao pé doutra se indefine.
No cinema lis luz o projector
e o FIM através do tempo retine.



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