JULES LAFORGUE (1860-1887)


Considerado um mestre por T.S.Eliot, Ezra Pound e Marcel Duchamp, entre outros, sua poesia implicou uma mudança radical no modo de conceber a literatura. Sobre a importância da poesia de Laforgue, Mário Faustino afirmou: "Antes de mais nada, serviço de limpeza, de higiene, de purgação, de crítica. Depois dele um Flaubert não teria mais coragem de escrever Salammbô (...), ninguém na França ousará mais escrever pieguices auto-acalantos, etc. Ah se Laforgue (e Corbière) fosse mais lido no Brasil! Laforgue é um cadinho e um crivo da literatura francesa e do mundo burguês. Laforgue examina, seleciona, corta, amputa. Pega o que tem de bom em Verlaine (a preocupação com a Melopeia) e acrescenta-lhe o que faltava: o bom verbalismo (Pound), a boa logopeia, a 'prosa' poética e a 'poesia' prosaica. Diversifica como ninguém antes (...) a linguagem poética: vocabulário científico, gíria... E faz o que quer com o verso tradicional: não respeita nem o 'impar' de Verlaine nem o 'par' dos outros; cria seus próprios ritmos e, finalmente, juntamente com Gustave Kahn cria, ou recria, na França, o chamado vers libre, ou polirrítimico."




STÉRILITÉS


Cautérise et coagule
En virgules
Ses lagunes de cerises
Des félines Ophélies
Orphelines en folie.


Tarentules de feintises
La remise
Sans rancune des ovules
Aux félines Ophélies
Orphelines en folie.


Sourd aux brises des scrupules,
Vers la bulle
De la lune, adieu, nolise
Ces félines Ophélis
Orphelines en folie!...



Tradução de Paulo Leminski



Cauteriza, coagula
E virgula
As lagunas infelizes
Ó felinas Ophélias
Messalinas em férias.


Tarântulas das atrizes
O deslize
Strip-tease da medula
Pras felinas Ophélias
Messalinas em férias.


Surdo à brisa se encabula
Para a bula
Da lua, tchau, mobilize
As felinas Ophélias
Messalinas em férias.






AVANT-DERNIER MOT



L'Espace?
– Mon Coeur
Y meurt
Sans traces...


La Femme?
– J'en sors,
La mort
Dans l'âme...


Le Rêve?
– C'est bon
Quand on
L'achève...


Que faire
Alors
Du corps
Qu'on gère?


Ceci,
Cela,
Par-ci
Par-là...



Tradução de Augusto de Campos


O Espaço?
– A vida
Ida
Sem traço.


O Amor?
Seu preço:
Desprezo
E dor.


O Sonho?
Infindo,
É lindo
(Suponho).


Que vou
Fazer
Do ser
Que sou?


Isto;
Aquilo,
Aqui,
Ali.


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