MANOEL DE BARROS








Manoel de Barros, argiloso plasmador de palavras, ardiloso fazendeiro de pássaros e nuvens. Habita a superfície do nunca onde assobia poemas em cascas e vento. O sopro vira sílabas de trastes, o despejo das utilidades, os desejos encapsulados, as formigas sobre lascas, minúsculos objetos inúteis. O poeta toma conta do silêncio, é quem cuida do vazio e do inútil. O poeta é quem veste a manhã dos pássaros com luz e ruínas. Com o resíduo de mundos não nascidos é um maestro do vazio: o verdadeiro manancial da poesia, esse rio de palavras tão à margem que corrói a pretensa utilidade das coisas do mundo, a objetividade de uma suposta referência absoluta, o valor de uma razão que mercantiliza afetos e palavras. O poeta ignora a semântica lógico-contábil do discurso. Manoel de Barros é lagartixa, sapo, toco de lápis, pedra no fundo de um lago pantaneiro, menino guarani à beira da estrada. A poesia é a gota que cai na página no meio do rio e desenha a letra inaugural.
Um Nobel para Manoel.


Perfil

Cronologicamente Manoel de Barros pertence à geração de 45. Poeta moderno no que se refere ao trato com a linguagem. Avesso à repetição de formas e ao uso de expressões surradas, ao lugar comum e ao chavão. Mutilador da realidade e pesquisador de expressões e significados verbais. Temática regionalista indo além do valor documental para fixar-se no mundo mágico das coisas banais retiradas do cotidiano. Inventa a natureza através de sua linguagem, transfigurando o mundo que o cerca. Alma e coração abertos a dor universal. Tematiza o Pantanal, universalizando-o. A natureza é sua maior inspiração, o Pantanal é o de sua poesia.

(Fonte: Fundação Manoel de Barros)


“Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira”


“Escrevo o idioleto manoelês archaico* (idioleto é o dialeto que os idiotas usam para falar com as paredes e as moscas). Preciso de atrapalhar as significâncias. O despropósito é mais saudável do que o solene. (Para limpar das palavras alguma solenidade – uso bosta.) Sou muito higiênico. E pois. O que ponho de cerebral nos meus escritos é apenas uma vigilância pra não cair na tentação de me achar menos tolo que os outros. Sou bem conceituado para parvo. Disso forneço certidão.

*Falar em archaico: aprecio uma desviação ortográfica para o archaico. Estâmago por Estômago. Seja este um gosto que vem de detrás. Das minhas memórias fósseis. Ouvir estâmago produz uma ressonância atávica dentro de mim. Coisa que sonha de retraves.”

In Livro sobre nada. 11ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2004, p. 21.




POEMA 16

Agora só espero a despalavra: a palavra nascida
Para o canto — desde os pássaros.
A palavra sem pronúncia, ágrafa.
Quero o som que ainda não deu liga.
Quero o som gotejante das violas de cocho.
A palavra que tenha um aroma ainda cego.
Até antes do murmúrio.
Que fosse nem um risco de voz.
Que só mostrasse a cintilância dos escuros.
A palavra incapaz de ocupar o lugar de uma imagem.
O antesmente verbal: a despalavra mesmo.

In Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro, Record, 2002, p. 53.


Sabiá com trevas – Poema VI

Há quem receite a palavra ao ponto de osso, de oco;
ao ponto de ninguém e de nuvem.
Sou mais a palavra com febre, decaída, fodida, na
sarjeta.
Sou mais a palavra ao ponto de entulho.
Amo arrastar algumas no caco de vidro, envergá-las
pro chão, corrompê-las
até que padeçam de mim e me sujem de branco.
Sonho exercer com elas o ofício de criado:
usá-las como quem usa brincos.

In Arranjos para assobio. 5ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2007, p. 19.




Sabiá com trevas – poema IX

O poema é antes de tudo um inutensílio.

Hora de iniciar algum
convém se vestir roupa de trapo.

Há quem se jogue debaixo de carro
nos primeiros instantes.

Faz bem uma janela aberta
uma veia aberta.

Pra mim é uma coisa que serve de nada o poema
enquanto vida houver.

Ninguém é pai de um poema sem morrer.

Idem, p. 25.

Sabia com trevas – Poema XIII

Depende a criatura para ter grandeza de sua infinita deserção.
A gente é cria de frases!
Escrever é cheio de casca e de pérola.
Ai desde gema ou borra.
Alegria é apanhar caracóis nas paredes bichadas!
Coisa que não faz nome para explicar.
Como a luz que vegeta na roupa do pássaro.

Idem, p. 33.





Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) ou menos [fragmentos]

Poesia, s.f.

Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas frinchas de
um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc.
geralmente feitos por crianças pessoas esquisitas
loucos e bêbados

Idem, p. 43.

Boca, s.f.

Brasa verdejante que se usa em música
Lugar de um arroio haver sol
Espécie de orvalho cor de morango
Ave-nêspera!
Pequena abertura para o deserto.

Idem, p. 44







Poeta, s.m e f.

Indivíduo que enxerga semente germinar e engole céu
Espécie de um vazadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos desentendimentos como
um rosto

Idem, 45








Desenho de Manoel de Barros.

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