RAIMUNDO CORREIA
















O maranhense Raimundo Correia (1859-1911) foi um dos poetas mais populares de seu tempo. Hoje, após tantas escolas e tanta modificação da sensibilidade do leitor de poesia, é um autor que já não circula com a intensidade de outrora. Com um trajeto que vai do parnasianismo ao simbolismo, o autor de “As pombas” e “Mal secreto”, sonetos decorados por gerações, é inequivocamente um dos nossos maiores poetas.

O poeta sofreu muito com as acusações de plágio. Para muitos, “As pombas” é cópia de um trecho em prosa de Theóphile Gautier em Mademoiselle de Maupin; “Mal secreto” é plágio de uma oitava de Metastásio; o soneto “O vinho de Hebe”, plágio de composição de Mme. Ackermann (acusação que me parece injusta, pois o próprio Raimundo Correia em nota à edição de Poesias, uma seleção daqueles que considerou seus melhores trabalhos, afirma que aproveitou idéia contida em um dos sonetos de Mme. de Ackermann, mas não fez tradução nem paráfrase). Para mim, as acusações são infundadas, os seus formuladores parecem ignorar o diálogo entre as literaturas, as trocas enriquecedoras, além de confundirem apropriação de temas com realização poética. Os versos de Raimundo Correia só são possíveis em língua portuguesa, não importa a origem dos temas, e foram construídos com indiscutível maestria. Mais ainda: revelam um poeta culto, antenado com o que se produzia à sua época. Essa mesma concepção estreita de ver nas apropriações realizadas por criadores sobre criações alheias como plágio reduziria o sonetista Camões a um mero plagiário de Petrarca (nem Shakespeare escaparia). Basta o verso antológico “Raia sangüínea e fresca a madrugada...”, de “As pombas”, para dar a dimensão da grandeza da obra de Raimundo Correia.

Sobre um dos poemas publicados, afirmou Manuel Bandeira, em “Raimundo Correia e o seu sortilégio verbal”:
“Foi a propósito de ‘Plenilúnio’ que Lêdo Ivo criou o neologismo ‘lunaridade’ para denominar aquela encantação vocabular que faz da poesia outro idioma dentro de cada idioma. Realmente, não conheço em língua nenhuma, viva ou morta, exemplo mais cabal de lunaridade que esse poema, que exalta até as raias da loucura o sentimento de vigília noturna. Desde a terceira estrofe atinge ele as supremas paragens da visionária demência.”

















PLENILÚNIO

Além nos ares, tremulamente,
Que visão branca das nuvens vai!
Luz entre as franças, fria e silente;
Assim nos ares, tremulamente,
Balão aceso subindo vai...

Há tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor!
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência,
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência,
Lua dos loucos, loucos estão.

Quantos à noite, de alva sereia
O falaz canto na febre a ouvir,
No argênteo fluxo da lua cheia,
Alucinados se deixam ir...

Também outrora, num mar de lua,
Voguei na esteira de um louco ideal:
Exposta aos euros a fronte nua,
Dei-me ao relento, num mar de lua,
Banhos de lua que fazem mal.

Ah! Quantas vezes, absorto nela,
Por horas mortas postar-me vim
Cogitabundo, triste, à janela,
Tardas vigílias passando assim!

E assim, fitando-a noites inteiras,
Seu disco argênteo n’alma imprimi;
Olhos pisados, fundas olheiras,
Passei fitando-a noite inteiras,
Fitei-a tanto, que enlouqueci!

Tantos serenos tão doentios,
Friagens tantas padeci eu;
Chuva de raios de prata fios
A fronte em brasa me arrefeceu!

Lunárias flores, ao feral lume,
– Caçoilas de ópio, de embriaguez –
Evaporavam letal perfume...
E os lençóis d’água, do feral lume
Se amortalhavam na lividez...

Fúlgida névoa vem-me ofuscante
De um pesadelo de luz encher,
E a tudo em roda, desde esse instante,
Da cor da lua começo a ver.

E erguem por vias enluaradas
Minhas sandálias chispas a flux...
Há pó de estrelas pelas estradas...
E por estradas enluaradas
Eu sigo às tontas, cego de luz...

Um luar amplo me inunda, e eu ando
Em visionária lua a nadar,
Por toda parte, louco arrastando
O largo manto do meu luar...




















A CAVALGADA

A lua banha a solitária estrada...
Silêncio!... Mas além, confuso e brando,
O som longínquo vem-se aproximando
Do galopar da estranha cavalgada.

São fidalgos que voltam da caçada;
Vêm alegres, vêm rindo, vêm cantando.
E as trompas a soar vão agitando
O remanso da noite embalsamada...

E o bosque estala, move-se, estremece...
Da cavalgada o estrépito que aumenta
Perde-se após no centro da montanha...

E o silêncio outra vez soturno desce,
E límpida, sem mácula, alvacenta
A lua a estrada solitária banha...

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