WALLACE STEVENS









Wallace Stevens nasceu em 1879 em Reading, Pensilvânia, e faleceu em 1955. Graduou-se em Direito pela Universidade de Harvard. Publicou seu primeiro livro, Harmonium, em 1923, ou seja, só após os 40 anos, no entanto só obteve reconhecimento fora dos círculos especializados após receber o prêmio National Book Award, em 1954, com a publicação do livro Collected Poems.

Wallace Stevens é a negação completa do velho estereótipo romântico do poeta como um ser excepcional, cuja existência é algo rico em aventuras, completamente fora do comum. Longe de qualquer zona de turbulência, o poeta levou uma vida pacata, dedicada ao trabalho de consultor jurídico de uma companhia de seguros, função que desempenhou  com tanta eficiência a ponto de vir a ocupar o cargo de vice-presidente da empresa. Fechado em trajetória conservadora, fora da agitação literária, com poucos amigos, foi responsável por um dos momentos mais altos da poesia do século XX como pode ser parcialmente comprovado nos quatro poemas selecionados, que esperam levar algum eventual leitor à obra que selecionei, 

Obras do autor:

Poesia: Harmonium (1923); Ideas of Order (1936); Owl's Clover (1936); The Man with the Blue Guitar (1937); Parts of a World (1942); Transport to Summer (1947); The Auroras of Autumn (1950); Collected Poems (1954); Opus Posthumous (1957); The Palm at the End of the Mind (1972)

Prosa: The Necessary Angel (ensaios, 1951); Letters of Wallace Stevens (1966); Secretaries of the Moon: The Letters of Wallace Stevens & Jose Rodriguez Feo (1986); Sur plusieurs beaux sujects: Wallace Stevens's Commonplace Book (1989); The Contemplated Spouse: The Letter of Wallace Stevens to Elsie (2006)


Wassily Kandinky





















POEMAS

Domination of black

At night, by the fire,
The colors of the bushes
And of the fallen leaves,
Repeating themselves,
Turned in the room,
Like the leaves themselves
Turning in the wind.
Yes: but the color of the heavy hemlocks
Came striding.
And I remembered the cry of the peacocks.

The colors of their tails
Were like the leaves themselves
Turning in the wind,
In the twilight wind.
They swept over the room,
Just as they flew from the boughs of the hemlocks
Down to the ground.
I heard them cry -- the peacocks.
Was it a cry against the twilight
Or against the leaves themselves
Turning in the wind,
Turning as the flames
Turned in the fire,
Turning as the tails of the peacocks
Turned in the loud fire,
Loud as the hemlocks
Full of the cry of the peacocks?
Or was it a cry against the hemlocks?

Out of the window,
I saw how the planets gathered
Like the leaves themselves
Turning in the wind.
I saw how the night came,
Came striding like the color of the heavy hemlocks
I felt afraid.
And I remembered the cry of the peacocks.

Tradução de Paulo Henriques Britto

Predomínio do negro

À noite, ao pé do fogo,
As cores dos arbustos
E das folhas no chão
Giravam no quarto
E se repetiam,
Como as próprias folhas
Girando no vento.
Sim: mas a cor intensa dos açafrões
Invadiu o quarto.
E então lembrei o grito dos pavões.

As cores de suas caudas
Eram como as próprias folhas
Girando no vento,
Girando no poente,
Voaram para dentro,
Ao serem varridas dos ramos dos açafrões
E jogadas no chão.
Ouvi-os gritar - os pavões.
Seria um grito contra o poente
Ou contra a cor das folhas
Girando com o vento
Girando como as chamas 
Giravam no fogo,
Girando como as caudas dos pavões
Giravam no fogo estridente,
Estridente como os açafrões
Cheios de gritos de pavões?
Ou era um grito contra os açafrões?

Pela janela,
Vi os planetas se juntarem
Como as próprias folhas
Girando no vento.
Vi a noite chegar,
Invadindo o quarto, como a cor intensa dos açafrões.
E tive medo.
E então lembrei o grito dos pavões.

In Stevens, Wallace. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Seleção, introdução e tradução de Paulo Henriques Britto.



Wassily Kandinky



















The emperor of ice-cream

Call the roller of big cigars,
The muscular one, and bid him whip
In kitchen cups concupiscent curds.
Let the wenches dawdle in such dress
As they are used to wear, and let the boys
Bring flowers in last month's newspapers.
Let be be finale of seem.
The only emperor is the emperor of ice-cream.

Take from the dresser of deal,
Lacking the three glass knobs, that sheet
On which she embroidered fantails once
And spread it so as to cover her face.
If her horny feet protrude, they come
To show how cold she is, and dumb.
Let the lamp affix its beam.
The only emperor is the emperor of ice-cream.


Tradução de Paulo Henriques  Britto


O imperador do sorvete


Chama o enrolador de charutos,
O musculoso, e pede que ele bata
Em xícaras caseiras cremes lúbricos.
Que as raparigas vistam as roupas
Que é seu costume usar, e os rapazes
Tragam flores no jornal do mês passado.
Que parecer termine em ser somente.
O único imperador é o imperador do sorvete.

Pega no armário de pinho,
Com os puxadores de vidro quebrados,
O lençol que ela bordou com pombas
E cobre todo o corpo dela, até o rosto.
Se um pé ossudo aparecer, verão
Que fria e dura que ela está.
Que fixe a lâmpada seu feixe quente.
O único imperador é o imperador do sorvete.


In Stevens, Wallace. Poemas. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. Seleção, introdução e tradução de Paulo Henriques Britto.


Wassily Kandinky























Thirteen Ways of Looking at a Blackbird

I
Among twenty snowy mountains,
The only moving thing
Was the eye of the blackbird.

II
I was of three minds
Like a tree
In which there are three blackbirds.

III
The blackbird whirled in the autumn
winds.
It was a small part of the pantomime.

IV
A man and a woman
Are one.
A man and a woman and a blackbird
Are one.

V 
I do not know which to prefer,
The beauty of inflections
Or the beauty of innuendoes,
The blackbird whistling
Or just after.

 VI
Icicles filled the long window
With barbaric glass.
The shadow of the blackbird
Crossed it, to and fro.
The mood
Traced in the shadow
An indecipherable cause.

VII
O thin men of Haddam,
Why do you imagine golden birds?
Do you not see how the blackbird
Walks around the feet
Of the women about you?

VIII
I know noble accents
And lucid, inescapable rhythms;
But I know, too,
That the blackbird is involved
In what I know.

IX
When the blackbird flew out of sight,
It marked the edge
Of one of many circles.

X
At the sight of blackbirds
Flying in a green light,
Even the bawds of euphony
Would cry out sharply.

XI
He rode over Connecticut
In a glass coach.
Once, a fear pierced him,
In that he mistook
The shadow of his equipage
For blackbirds.

XII
The river is moving.
The blackbird must be flying.

XIII
It was evening all afternoon.
It was snowing
And it was going to snow.
The blackbird sat
In the cedar-limbs.


Tradução de Suely Cavendish


Treze maneiras de olhar-se para um melro
I
Em meio a vinte montanhas nevadas,
A única coisa movente
Era o olho do melro

II
Eu estava pleno das três mentes
Qual uma árvore
Na qual há três melros

III
O melro rodopiava nos ventos de outono
Era uma pequena parte da pantomima

IV
Um homem e uma mulher
São um
Um homem e uma mulher e um melro
São um

V
Não sei que prefira,
A beleza das inflexões
A beleza das insinuações
O melro assobiando
Ou logo após

VI
Pingentes cobriam a longa janela
Com gelo selvagem.
A sombra do melro
Atravessava-a, pra lá e pra cá.
O ânimo
Escrevia na sombra
Uma indecifrável causa.

VII
Ó homens magros de Haddam,
Por que imaginais pássaros dourados?
Não vês como o melro
Anda a volta dos pés
Das mulheres acerca de vós?

VIII
Conheço nobres cadências
E lúcidos, inescapáveis ritmos;
Mas sei, também,
Que o melro está implicado
No que sei.

IX
Quando o melro voou a perder de vista,
Marcou a borda
De um entre muitos círculos.

X
À visão dos melros
Voando numa luz verde,
Mesmo as rameiras da eufonia
Gritariam esganiçadas.

XI
Ele atravessou toda Connecticut
Num coche de vidro.
Uma vez, um medo o trespassou,
Quando ele confundiu
A sombra de sua carruagem
Com melros.
  
XII
O rio se move.
O melro deve estar voando.

XIII
Foi noite a tarde toda.
Nevava
E ia nevar.
O melro pousado
Nos galhos do cedro.

(Tradução de Suely Cavendish publicada na  Revista Eutomia


Wassily Kandinky



















The house was quiet and the world was calm

The house was quiet and the world was calm.
The reader became the book; and summer night

Was like the conscious being of the book.
The house was quiet and the world was calm.

The words were spoken as if there was no book,
Except that the reader leaned above the page,

Wanted to lean, wanted much most to be
The scholar to whom his book is true, to whom

The summer night is like a perfection of thought.
The house was quiet because it had to be.

The quiet was part of the meaning, part of the mind:
The access of perfection to the page.

And the world was calm. The truth in a calm world,
In which there is no other meaning, itself
Is calm, itself is summer and night, itself
Is the reader leaning late and reading there.


Tradução de Abgar Renault


A casa estava quieta e o mundo estava calmo

A casa estava quieta e o mundo estava calmo.
O leitor tornou-se o livro; e a noite de estio

era como o ser consciente do livro.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

As palavras eram faladas qual se não houvesse livro;
mas o leitor sobre a página se curvava,

queria curvar-se, queria muito ser
o sábio para quem seu livro é verdadeiro

e a noite de estio é como a perfeição do pensamento.
A casa estava quieta e o mundo estava calmo.

A paz era parte do sentido e do espírito:
o acesso da perfeição à página.

E o mundo estava calmo. A verdade em tal mundo,
onde não há outro sentido, ela própria,

é calma, ela própria é noite e estio, ela própria
é o leitor curvado até tarde e lendo ali.

(Poema traduzido por Abgar Renault. In: Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 116-119)


Wassily Kandinky


























Men made out of words

What should be without the sexual myth,
The human reverie or poem of death?

Castratos of moon-mash — Life consists
Of propositions about life. The human

Reverie is a solitude in which
We compose these propositions, torn by dreams,

By the terrible incantations of defeats
And by the fear tha defeats and dreams are one.

The whole race is a poet that writes down
The eccentric propositions of its fate.


Tradução de Abgar Renault


Os homens são feitos de palavras

Que seríamos sem o mito sexual,
o devaneio humano ou poema de morte?

Eunucos de massa da lua... A vida consiste
em proposições sobre a vida. O devaneio

humano é solicitude em que
compomos tais proposições, rasgadas pelos sonhos,

pelas terríveis feitiçarias das derrotas
e pelo medo de que as derrotas e os sonhos sejam um.

A raça inteira é um poeta que escreve
as proposições excêntricas do seu destino.

(Poema traduzido por Abgar Renault. In: Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro: Record, 1994, p. 118-119)


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