PEDRO TAMEN


 Pedro Tamen nasceu em Lisboa, em 1934 e estudou Direito na Universidade de Lisboa. Entre 1958 e 1975 foi director da Editora Moraes e depois, até 2000 (data em que se retirou da actividade profissional), administrador da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi também dirigente cineclubista, professor do ensino secundário e director-adjunto de uma revista de actualidades. Fez crítica literária no semanário Expresso. Foi presidente do P.E.N. Clube Português (1987-90). Foi membro da Direcção e presidente da Assembleia Geral da Associação Portuguesa de Escritores. Tem poemas traduzidos e publicados em francês, inglês, espanhol, italiano, alemão, neerlandês, sueco, húngaro, romeno, checo, eslovaco, búlgaro e letão.

Tem desenvolvido uma intensa actividade de tradutor literário e obteve em 1990 o Grande Prémio da Tradução. Foi duas vezes finalista do Prémio Europeu de Tradução. Traduziu recentemente À la Recherche du temps perdu, de Marcel Proust.

A sua obra poética, iniciada em 1956 com Poema para Todos os Dias (Ed. do Autor, Lisboa) encontra-se reunida em Retábulo das Matérias (Gótica, Lisboa, 2001). Posteriormente, em 2006, publicou um novo livro Analogia e Dedos e, em 2010, O Livro do Sapateiro. Em 1999 foi publicado um disco-antologia intitulado Escrita Redita (poemas ditos por Luís Lucas; Ed. Presença / Casa Fernando Pessoa). 

À sua poesia foram atribuídos o Prémio D. Dinis (1981), o Prémio da Crítica (1991), o Grande Prémio Inapa de Poesia (1991), o Prémio Nicola (1997), o Prémio Bordalo da Imprensa (2000), o Prémio do PEN Clube (2000), o Prémio Luís Miguel Nava (2007) e o Prémio Inês de Castro (2007).

Livros de poesia publicados:

POEMA PARA TODOS OS DIAS, ed. do Autor, Lisboa, 1956 (esg.)
O SANGUE, A ÁGUA E O VINHO, Moraes ed., Lisboa, 1958 (esg.)
PRIMEIRO LIVRO DE LAPINOVA, Moraes ed., Lisboa, 1960 (esg.)
POEMAS A ISTO, Moraes ed., Lisboa, 1962 (esg.)
DANIEL NA COVA DOS LEÕES, Moraes ed., Lisboa, 1970 (esg.)
ESCRITO DE MEMÓRIA, Moraes ed., Lisboa, 1973 (esg.)
OS QUARENTA E DOIS SONETOS, Livros Horizonte, Lisboa, 1973 (esg.)
AGORA, ESTAR, Moraes ed., Lisboa, 1975 (esg.)
POESIA 1956-1978 (incl. os livros anteriores e o inédito O APARELHO CIRCULATÓRIO; prefácio de Fernando
Guimarães), Moraes ed., Lisboa, 1978.
HORÁCIO E CORIÁCEO, Moraes ed., Lisboa, 1981 (esg.) - Prémio D. Dinis.
PRINCÍPIO DE SOL, Círculo de Leitores, Lisboa, 1982.
ANTOLOGIA PROVISÓRIA, Limiar, Porto, 1983.
ALLEGRIA DEL SILENZIO (a cura di Giulia Lanciani e Ettore Finazzi Agrò), Japadre editore, Roma, 1984.
DENTRO DE MOMENTOS (com reproduções de colagens de Fernando de Azevedo), Imprensa Nacional, Lisboa, 1984.
AS PALAVRAS DA TRIBO (antologia pessoal, conjuntamente com Fernando Guimarães, Mário Cláudio e Nuno Júdice; desenhos de José de Guimarães), Quetzal-Altamira, Lisboa, 1985.
DELFOS, OPUS 12, Gota de Água, Porto, 1987.
DELPHES, OPUS 12 & AUTRES POÈMES (traduction collective, Royaumont, revue et préfacée par Patrick Quillier), Les Cahiers de Royaumont, 1990.
TÁBUA DAS MATÉRIAS, Poesia 1956-1991, Tertúlia, Sintra, 1991; reed. Círculo de Leitores, Lisboa, 1995 - Prémio da Crítica; Grande Prémio Inapa da Poesia.
CARACÓIS (com Júlio Pomar), Quetzal Editores-Cerâmicas Ratton, Lisboa, 1993.
DEPOIS DE VER, Quetzal Editores, Lisboa, 1995.
VÉR VÍZ BOR (antologia org. por Pál Ferenc), ed. Íbisz, Budapeste, 1997.
GUIÃO DE CARONTE, Quetzal Editores, Lisboa, 1997 - Prémio Nicola de Poesia.
MAÎTRE ÈS-SANGLOTS (anthologie: traduction et préface de Patrick Quillier), ed. Le Taillis Pré, Châtelineau, 1998.
ЛИРНКА [Lírica] (antologia, incluindo Dentro de Momentos, Delfos, Opus 12 e outros poemas; tradução de Georgi Mitchov e Evelina Malinova), ed. Karina M, Sofia, 1999.
ESCRITA REDITA (disco-antologia: poemas ditos por Luís Lucas), Ed. Presença-Casa Fernando Pessoa, Lisboa, 1999.
MEMÓRIA INDESCRITÍVEL, ed. Gótica, Lisboa, 2000 – Prémio Bordalo da Imprensa; Prémio do PEN Clube português.
HONEY AND POISON: SELECTED POEMS (translated by Richard Zimler), Carcanet, Manchester, 2001.
RETÁBULO DAS MATÉRIAS, Poesia 1956-2001, Gótica, Lisboa, 2001.
CARONTE Y MEMORIA (traducción de Miguel Viqueira), Huerga y Fierro, Madrid, 2002.
CARONTE E MEMORIA (prefacio de Carlos Nejar), Escrituras, São Paulo, 2004.
XAРОН И ПАМЕТТА [Caronte e Memória] (tradução de Sidonia Pojarlieva e Vera Kirkova), ed. Adrassea, Sofia, 2005.
ANALOGIA E DEDOS, Oceanos, Lisboa, 2006 - Prémio Luís Miguel Nava, Prémio Inês deCastro.
O LIVRO DO SAPATEIRO, Dom Quixote, Lisboa, 2010.

POEMAS



René Magritte


NOÉ


Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
- o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.

(Analogia e Dedos, 2006)





SÓ DOS MORTOS DEVEMOS TER CIÚMES

Só dos mortos devemos ter ciúmes; acordar
de entre as pedras doentes dolorosos
que da beira das arribas nos atirem ao porto
onde enfim se encontre a nossa angústia.
Só eles lutam palmo a palmo pelo espaço
em que já vertical erguemos nosso braço
em busca de que sumo ou de que céu. É que só eles
nos retiram da cama de que por nós foi feita
a escolha: a macieza intensa que julgámos
eterna, que nos parecia tão cordatamente
entregue à nossa própria suma sumaúma.
Só os mortos, horror, inda que vivos, vivem
paredes meias com os nossos dedos, logo afastam
os momentos ferozes que tocássemos, e as nuvens
por sobre o mar dos olhos: é bem feito,
dizem os meninos. Pois que dos vivos vivos
a vida nos desvia e nisso nos conduz, assaz
encaminhados pelo que vamos querendo.
Só os mortos nos mordem, nos apontam
a dedo frio e tenso, entorpecem desejos
e, pois pior, só eles nos expulsam
do vero som dos sinos numa entrega
às palavras baldadas do comércio.
A luta clara que sonhada fosse
pela mão dada e limpa que nos dessem
tropeça, polvo, com misérias nossas
e enterra-te na pérfida, agoniada leira
onde dominam eles nossas bocas e o sangue
que nelas perpassasse. Só os mortos,
invisíveis, letais, pesados entes,
nos disputam a vida, e só por fim nos matam.

(Agora, Estar, 1975)



Manabu Mabe


A LUZ QUE VEM DAS PEDRAS

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?

(Agora, Estar, 1975)





O MAR É LONGE

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Anselm Kiefer


NÃO TENHO PARA TI QUOTIDIANO

Não tenho para ti quotidiano
mais que a polpa seca ou vento grosso,
ter existido e existir ainda,
querer a mais a mola que tu sejas,
saber que te conheço e vai chegar
a mão rasa de lona para amar.

Não tenho braço livre mais que olhar
para ele, e o que faz que tu não queiras.
Tenho um tremido leito em vala aberta,
olhos maduros, cartas e certezas.

Neste comboio longo, surdo e quente,
vou lá ao fundo, marco o Ocupado.
Penso em ti, meu amor, em qualquer lado.
Batem-me à porta e digo que está gente.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Antonio Bandeira



REGANDO LENTAMENTE AS FLORES DO RISO


Regando lentamente as flores do riso,
vou já de neve em neve e lume em lume,
contornando a nordeste o paraíso
em terrenos de pedras ou de estrume,
com pequenas palavras na algibeira
das calças que mantenho ainda frias
da presença dos lares à minha beira.

E meto mãos e dentes nas vazias
flanelas limpas para o flanar antigo,
marcho directo e escasso, colocando
os pés azadamente.
Não persigo
ventos ou cores: sou pedro, zé, femando,
nomes comuns, impróprios, que desdigo
baixinho e surdo, curto, enquanto ando.

(Daniel na Cova dos Leões, 1970)



Adriana Varejão


NÃO FALO DE PALAVRAS


Não falo de palavras, nem de goivos,
mas de horas atadas ao pescoço.
Poema verdadeiro é sermos noivos:
saber tirar a pele e o caroço

ao grito entre a morte e outra morte
que nos mantenha lassos e despertos
até que venha o talhe que nos corte
e nos retire os poços e desertos.

Por isso, meu amor, o que te dou,
beijo beijado em corpo claro e vivo,
é mais que o verso que te dizem, ou
aliterante, agudo ou conjuntivo.

Colado a tudo, mesmo a contragosto,
o rio inventa o verso, e não assim
como se ao espelho visse o próprio rosto,
mas tu além-palavra, ao pé de mim.

(Escrito de Memória, 1973)





AGORA ABANDONADO SEM SENTIMENTO ALGUM

Agora abandonado sem sentimento algum
de ter valido a pena ou de não isso,
de olhos abertos mais, assumo e amo,
encordoado como não sei que bicho,
de pé-coxinho como não sei que homem.
Olho A e B, e a ti, porém contando
com posição de mar roçando a praia alheia,
tão marginal mas útil de outra forma,
tão mar e marginal, desfeito mas fazendo.
O lar sonhado não é aqui, mas onde
não sonhe mais por ele. Vivo
de pé, completo com aquilo
que outro vento não tive que me desse,
e mais ainda, com o que não tenho agora
nem pretendo rever: o dia é grande,
a morte igual, a voz silente.
Não posso pedir mais que o dom da sede.

(Horácio e Coreáceo, 1981)

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