PAULO HENRIQUES BRITTO



Paulo Fernando Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de dezembro de 1951. Residiu sempre no Rio de Janeiro, exceto nos períodos em que viveu nos Estados Unidos: de 1962 a 1964 em Washington, e em 1972 em Los Angeles, Califórnia, e de 1972 a 1973 em São Francisco, Califórnia. Foi durante este tempo que Paulo teve acesso ao inglês, língua da qual e para a qual ele traduz. É formado em Português e Inglês pela PUC-Rio, onde também obteve seu título de mestre em língua portuguesa. Em 1973 começou a trabalhar como professor num cursinho de inglês, transferindo-se em seguida para o IBEU (Instituto Brasil Estados-Unidos), onde trabalhou por cinco anos. Também deu aulas particulares de inglês nessa época. No ano de 1974, quando foi morar sozinho e arranjou seu primeiro emprego como professor num curso de inglês, Paulo começou a fazer traduções com o fim de complementar sua renda. Hoje, além de tradutor profissional, poeta e ensaísta, atua como professor nas áreas de tradução, criação literária e literatura brasileira na PUC-Rio, que lhe concedeu em 2002 o título de Notório Saber.

Traduziu, além de obras de ficção de vários autores, a poesia de Byron, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Allen Ginsberg e Ted Hughes. Publicou cinco livros de poesia e um volume de contos, Paraísos artificiais (2004). Uma antologia de poemas seus foi lançada nos Estados Unidos, The clean shirt of it, com tradução e introdução de Idra Novey (2007).

Prestigiado pelo seu trabalho não apenas como tradutor mas também como escritor, foi contemplado com os seguintes prêmios:

Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira, pela obra Macau, concedido pela Portugal Telecom, 9 de novembro de 2004.
Prêmio Alceu Amoroso Lima – Poesia 2004, pela obra Macau, concedido pelo Centro Alceu Amoroso Lima Para a Liberdade e a Universidade Candido Mendes, 9 de dezembro de 2004.
Prêmio Alphonsus de Guimaraens na categoria Poesia, pela obra Trovar claro, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, 22 de dezembro de 1997.
Prêmio Paulo Rónai na categoria Tradução de Autores Estrangeiros para o Português da obra A mecânica das águas, de E. L. Doctorow, concedido pela Fundação Biblioteca Nacional, 20 de dezembro de 1995.

LIVROS DE POESIA PUBLICADOS

Tarde. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
Macau. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.  
Trovar claro. São Paulo: Companhia das Letras, 1997.  
Mínima lírica. São Paulo: Livraria Duas Cidades, 1989.  Coleção Claro Enigma.
Liturgia da matéria. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.  

POEMAS

 
    Manabu Mabe


ACALANTO

Noite após noite, exaustos, lado a lado,
digerindo o dia, além das palavras
e aquém do sono, nos simplificamos,

despidos de projetos e passados,
fartos de voz e verticalidade,
contentes de ser só corpos na cama;

e o mais das vezes, antes do mergulho
na morte corriqueira e provisória
de uma dormida, nos satisfazemos

em constatar, com uma ponta de orgulho,
a cotidiana e mínima vitória:
mais uma noite a dois, um dia a menos.

E cada mundo apaga seus contornos
ao aconchego de um outro corpo morno.

(Macau, 2003)


 
   Fukushima


ESPIRAL

A noite é um morcego manso
sobrevoando uma cidade quase adormecida,
tomando cada rua, cada casa,

como um cheiro adocicado de fruta
quase apodrecida que penetrasse uma casa,
ganhasse cada quarto, cada sala,

como cheiro morno de coisa morta
ainda há pouco se espalhando
por uma cidade quase entorpecida,

como uma noite que descesse sobre casas
mortas, como uma peste,
como se nunca houvesse havido dia.

A noite é um morcego morto.

(Liturgia da matéria, 1982)



   Manabu Mabe


MINIMA POETICA – IV

Dizer não tudo, que isso não se faz,
nem nada, o que seria impossível;
dizer apenas tudo que é demais
pra se calar e menos que indizível.
Dizer apenas o que não dizer
seria uma espécie de mentira:
falar, não por falar, mas pra viver,
falar (ou escrever) como quem respira.
Dizer apenas o que não repita
a textura do mundo esvaziado:
escrever, sim, mas escrever com tinta;
pintar, mas não como aquele que pinta
de branco o muro que já foi caiado;
escrever, sim, mas como quem grafita.

(Mínima lírica, 1989)


 
    Manabu Mabe


SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA – II

Tento dizer: a tarde tem o tom
exato de outra tarde que conheço,
mas qual? (Mas neste instante escuto o som

de uma outra voz, que é minha e desconheço,
e o que ela diz é belo, é certo e é bom.
Mas o que digo assim não reconheço.

É como um deus de bolso, esta presença
que o próprio gesto de negar evoca.
A voz é dela, embora me pertença
a música. E mais a mão que a toca.)

Naturalmente, enquanto isso a tarde
se apaga, anêmica, despercebida,
e vem a noite, com seu negro alarde.
Desde o começo a causa era perdida.

(Trovar claro, 1997)


 
     Manabu Mabe


POMO

Da vida só têm substância
a casca e o caroço.
No meio só tem amido,
embromações do carbono.
Porém todo o gosto reside
nessa carne intermediária,
sem valor alimentício,
sem realidade, sem nada.


É nela que os dentes encontram
o que os mantém afiados;
com ela é que a língua elabora
a doce palavra.

(Mínima lírica, 1989)

 
 
   Manabu Mabe



VÉSPERA


No trivial do sanduíche a morte aguarda.
Na esquiva escuridão da geladeira
dorme a sono solto, imersa em mostarda.

A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira
algo cricrila sem parar — insetos?
O abacaxi impera na fruteira,

recende esplêndido, desperdiçando espetos.
A lua bate o ponto e vai-se embora.
Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.

A geladeira treme. Mas ainda não é hora.
Se houvesse um gato, ele seria pardo.
A morte ainda demora. O dia tarda.

(Macau, 2003)


   Manabu Mabe


MÍNIMA POÉTICA

Poesia como forma de dizer
o que de outras formas é omitido—
não de calar o que se vive e vê
e sente por vergonha do sentido.
Poesia como discurso completo,
ao mesmo tempo trama de fonemas,
artesanato de éter, e projeto
sobre a coisa que transborda o poema
(se bem que dele próprio projetada).
Palavra como lâmina só gume
que pelo que recorta é recortada,
cinzel de mármore, obra e tapume:
a fala —esquiva, oblíqua, angulosa-
do que resiste á retidão da prosa.

(Mínima poética, 1989)



   Manabu Mabe


OSSOS DO OFÍCIO

 
O que se pensa não é o que se canta.
Difícil sustentar um raciocínio
com a rima atravessada na garganta.

Mesmo o maior esforço não adianta:
da sensação à ideia há um declínio,
e o que se pensa não é o que se canta.

Difícil, sim. E é por isso que encanta.
Há que sentir – e aí está o fascínio –
com a rima atravessada na garganta.

Apenas isso justifica tanta
dedicação, tanto autodomínio,
se o que se pensa não e o que se canta,

mesmo porque (constatação que espanta
qualquer espírito mais apolíneo)
a rima atravessada na garganta

é o trambolho que menos se agiganta
nesse percurso nada retilíneo,
ao fim do qual se pensa o que se canta,

depois que a rima atravessa a garganta.

(Tarde, 2007)

 
    Manabu Mabe

EPÍLOGO


Finda a leitura, o livro está completo
em sua solidão mais-que-perfeita
de couro falso e íntimo papel.

Lá fora, o mundo segue, arquitetando
as mesmas contingências costumeiras
que nunca esbarram numa irrefutável

conclusão que se possa resumir
em três letras letais, inalienáveis.
Que paz será possível nessa selva

sem índices, prefácios, rodapés?
indaga, da estante mais excelsa,
o livro. Porém, nada disso importa,

se todas as dúvidas se dissipam,
com tudo mais, quando o bibliotecário
apaga as luzes, sai e tranca a porta.

(Tarde, 2007)

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