KONSTANTINOS KAVÁFIS






Konstantinos Kaváfis, nascido e falecido em Alexandria, no Egito (1863-1933) é um dos mais fascinantes, mas também um dos mais desconcertantes poetas da poesia grega moderna. Esse homem solitário, que, nas palavras de Kazantzákis, realizou “a proeza da arte, orgulhosa e silenciosamente, e submeteu a curiosidade, a ambição e a sensualidade ao ritmo severo de uma ascese epicureia”, deixou uma obra rara, minuciosa e quantitativamente pequena: apenas 154 poemas breves. Mas, no escrever esses poemas e retocá-los obstinadamente até a forma com que desejou que se tornassem conhecidos do mundo, criou uma das obras poéticas mais originais do século XX.

De fato, alguns de seus poemas parecem pertencer ao domínio da alquimia, uma vez que na sua elaboração ele utiliza, simultânea e indistintamente, tanto citações de poetas ou filósofos antigos, fragmentos de inscrições funerárias, crônicas helenísticas ou bizantinas, quanto notações ou expressões tomadas de empréstimo da língua cotidiana, transformando em poesia ingredientes fundamentalmente não poéticos, de origem prosaica. Na verdade, Kaváfis encontra-se na fronteira em que a poesia se despoja e confina com a prosa.

Temível fronteira que separa e ao mesmo tempo une a prosa e a poesia, tão impalpável e tênue em sua obra quanto um fio estendido entre dois abismos, no qual o tradutor deve se arriscar à maneira de um equilibrista! É isso que torna tão difícil, em todo caso, tão aleatório, qualquer tradução de Kaváfis: o equilíbrio a ser mantido entre as notações, enunciados, citações ou fragmentos prosaicos que entremeiam seus poemas e o próprio poema, constituído muitas vezes de materiais não poéticos, como acuradamente notou Lacarrière.



O texto acima consta do livro Poemas de K. Kaváfis, publicado pela Editora Odysseus, de São Paulo, em 2006, com introdução, tradução e notas de Isis Borges B. da Fonseca. Recomendo essa edição bilíngue - grego e português - a todos aqueles que, como eu, amam esse extraordinário poeta grego. Dela publico os quatro poemas abaixo.



A CIDADE

Disseste “Irei à outra terra, irei a outro mar.
Uma outra cidade há de achar-se melhor que esta.
Cada esforço meu é uma condenação fatal;
e está meu coração – como morto – enterrado.
Meu espírito até quando ficará neste marasmo?
Para onde volte meu olhar, para qualquer lugar que atente
ruínas negras de minha vida vejo aqui,
onde tantos anos passei, e a destruí e arruinei”.

Novos lugares não encontrarás, não encontrarás outros 
                                                                            / mares.
A cidade te seguirá. Às mesmas ruas voltarás.
E nos mesmos bairros envelhecerás,
e nestas mesmas casas encanecerás.
Sempre a esta cidade chegarás. Quanto a outros lugares – 
                                                   / não tenhas esperanças –
não há navio para ti, não há caminho.
Assim como destruíste tua vida aqui
neste pequeno recanto, em toda a terra arruinaste-a.





MURALHAS

Sem consideração, sem piedade, sem pudor,
grandes e altas muralhas em torno de mim construíram.

E agora estou aqui e me desespero.
Outra coisa não penso: este destino devora meu espírito;

porque muitas coisas lá fora eu tinha que fazer.
Ah! quando construíam as muralhas, como não dei atenção?

Entretanto, jamais ouvi batidas ou rumores de pedreiros.
Imperceptivelmente, encerraram-me fora do mundo.




QUE O DEUS ABANDONAVA ANTÔNIO


Quando de repente, à meia-noite, ouvir-se
um invisível tíaso passar
com músicas maravilhosas, com vozes –
tua sorte que já decai, tuas obras
que fracassaram, os projetos de tua vida
que se tornaram todos decepções, não lamentes em vão.
Como homem preparado há muito tempo, como homem corajoso,
despede-te dela, da Alexandria que se distancia.
Sobretudo não te enganes, não digas que foi
um sonho, que teu ouvido se enganou:
não aceites tais esperanças vãs.
Como homem preparado há muito tempo, como homem corajoso,
como convém a ti que mereceste uma tal cidade,
aproxima-te firmemente da janela,
e escuta com emoção, mas não
com as súplicas e os lamentos dos covardes,
tal qual um último deleite, os sons,
os maravilhosos instrumentos do misterioso tíaso,
e despede-te dela, da Alexandria que perdes.

























VELAS


Os dias do futuro erguem-se diante de nós
como uma série de pequenas velas acesas - 
pequenas velas douradas, quentes e vivas.


Os dias passados ficam atrás,
uma triste fileira de velas apagadas;
as mais próximas ainda exalam fumaça,
velas frias, derretidas e recurvadas.


Não quero vê-las; entristece-me seu aspecto,
e entristece-me lembrar seu primeiro clarão.
Adiante contemplo minhas velas acesas.

Não quero voltar-me para não ver, apavorado,

com que rapidez a sombria fileira se alonga,
com que rapidez se multiplicam as velas apagadas.

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