terça-feira, 20 de setembro de 2011

RODOLFO ALONSO



A POESIA DE RODOLFO ALONSO

por António Ramos Rosa

A voz de Rodolfo Alonso tem um acento de autenticidade iniludível. Discreta, lenta, como que distante, ela apoia-se nas palavras mais simples e quotidianas, nas locuções aparentemente mais insignificantes, como que para verificar a valor da linguagem, a resistência dos seus nexos. Esta distância que acentuámos é o sinal de uma intimidade e de um rigor. É que esta voz é sempre de alguém, de um hombre. Mas se o seu timbre não fere porque discreto, se o poema tende a resolver-se circularmente numa leve ondulação que se alarga até à beira do silêncio -- um mar maior donde ele emerge e onde retorna --, se, enfim, esta voz tem o peso grave da solidão, tem-o igualmente da responsabilidade que admiràvelmente nos é proposta neste dístico : los ojos que sostienen el mundo / no deben detenerse. A solitud deste poeta não é um obstáculo à comunhão fraterna, dir-se-ia até ser condição dela. Seja como for, nao há aí comprazimento nem renúncia, mas o gosto acre da consciência em tensão com a existência, a tensão própria de quem procura o justo equilíbrio, o verdadeiro centro da realidade, onde as diferenças acidentais se anulam para deixar lugar à diferença essencial, à verdadeira presença do eu ao mundo e aos outros. Uma poesia que na sua contensão e na sua elegância não escamoteia os dados dolorosos da condição humana e nos convida a uma presença a um tempo mais autêntica e mais vasta é uma poesia que não pode deixar de nos interesar porque capaz de dar toda a medida da dignidade humana e do duro ofício de viver do mundo de hoje.


As traduções são  de Anderson Braga Horta.






 



Dons para dar

O que me deram dou-te.
Dou aquele sagrado
cheiro a terra molhada
e essa voz que é o vento
por entre as ramas altas.

Quanto tive devolvo:
as árvores irmãs,
as flores que modula
a névoa, o grilo, o pássaro
cantando na garoa.

Sem herança ou legado.
Tão-só paixão e tempo.
A intensa vida, o ar,
a manhã radiante
e a celagem nos olhos.

Nada levamos, nada.
É o que merecemos?
A chama do momento,
colorações no sol,
o crepúsculo juntos.

O fogo da fogueira
em que vamos ardendo.

E vejo o que me vê?
No exato instante, o liso,
o claro resplendor
do meio-dia nítido
sobre uma mesa branca

e frutas entoadas
como parentes próximos:
a luz, a gama, o íris,
bananas com limões
e com a maçã verde.

Cabemos bem na chuva,
instantâneos, de súbito,
íntimos e gregários,
próximos e distantes.
A chuva é nosso templo.

A canção evidente,
a palavra encarnada,
o que chegou de fora
porque soava dentro.
Ou não seremos, língua?

E o fogo da espécie,
horizonte e passado.



Dones para donar
Te doy lo que me dieron:
aquel sagrado olor
a la tierra mojada,
y esa voz que es el viento
entre las ramas altas.

Devuelvo lo que tuve:
los árboles hermanos,
las flores que modula
la niebla, el grillo, el pájaro
cantando en la garúa.

Ni herencia, ni legado.
Sólo pasión y tiempo.
La intensa vida, el aire,
la mañana radiante
y cielos en los ojos.

No nos llevamos nada.
¿Es que lo merecimos?
La llama del instante,
colores en el sol,
el crepúsculo juntos.

El fuego de la hoguera
donde vamos ardiendo.

¿Y veo lo que me ve?
En el momento justo,
el liso resplandor
del neto mediodía
sobre una mesa blanca

y frutas entonadas
como parientes próximos:
la luz, la gama, el iris,
limones con bananas
y la manzana verde.

En la lluvia cabemos,
instantáneos, de pronto,
íntimos y gregarios,
cercanos y distantes.
La lluvia es nuestro templo.

La canción evidente,
la palabra encarnada,
lo que llegó de afuera
porque sonaba dentro.
¿O es que no somos, lengua?

Y el fuego de la especie,
horizonte y pasado.




 

Não há dia da morte

na lembrança do
José Augusto Seabra
Imóvel, incessante,
a morte, árida, impura.

Infiel, infame, injusta,
a dura morte dura.

Impaciente, infecunda,
a inútil morte, muda.

Não duvida, e é sem dúvida,
a morte ávida e pura.



No hay día de la muerte

a la memoria de
José Augusto Seabra


Inmóvil, incesante,
la muerte, árida, impura.

Infiel, infame, injusta,
la dura muerte dura.

Impaciente, infecunda,
la inútil muerte, muda.

Indudable, no duda
la muerte ávida y pura.





 

















 Epifania
Qual luz dentro da luz
soa o inverno, ao sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende e sustenta
sem suspeitar que sabe,
secreto, só em si,
sente sem sentimento,
a simples sede,
a simples ser,
só e sumo no sol
sagrado do silêncio
seco, soberbo, solto
sobre esse frio incendido.





 
Epifanía
Como luz en la luz
suena el invierno, al sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende y sostiene
sin sospechar que sabe,
secreto, sólo en sí,
siente sin sentimiento,
a simple sed,
a simple ser,
solo y sumo en el sol
sagrado del silencio
seco, soberbio, suelto
sobre ese frío encendido.







 

















Antropofagia
Sobre a praia apenas esflorada, quase virgem ainda, não espanta o pé de Sexta-Feira senão a implícita ameaça: outros, o Outro, que acaso nos inclui.


Antropofagia
Sobre la playa apenas mancillada, casi virgen aún, no espanta el pie de Viernes sino la implícita amenaza: otros, el Otro, que acaso nos incluye.







 
















No alto da colina dos pássaros
O mesmo mar, depois de tudo, de cobalto entre ramos, a esta hora. E o surdo retumbar do tsunâmi do outro lado do planeta, rebelião da Terra, tortura que a Terra se inflige, sem projeto nem enigma.
Aqui as andorinhas angustiadas de calor continuam traçando de improviso, aceleradas, na curva do ar, a precisa fugacidade de suas ondas de vôo. E há trocazes, louros, tesourinhas, pombas, tordos, zorzais, gaivotas e até desconhecidos de vistosa plumagem, de belos pardos e também grises, revoluteando indiferentes, embaixo ou no alto, voando desenvoltos, entre nós e o mar.
Entre o acaso e a necessidade.


En lo alto de la colina de los pájaros
El mismo mar, después de todo, de cobalto entre ramas, a esta hora. Y el sordo retumbar del tsunami al otro lado del planeta, rebelión de la Tierra, tortura que la Tierra se inflige, sin proyecto ni enigma.
Aquí las golondrinas abrumadas de calor continúan trazando de improviso, aceleradas, en la comba del aire, la precisa fugacidad de sus ondas de vuelo. Y hay torcacitas, loros, tijeretas, palomas, tordos, chalchaleros, gaviotas y hasta desconocidos de vistoso plumaje, de bellos pardos y aún grises, revoloteando indiferentes, abajo o en lo alto, volando desplegados, entre el mar y nosotros.
Entre el azar y la necesidad.




 

Consequências

Um dia, fitando impremeditadamente o vão entre o polegar e o índice de minha mão direita, eu me vi pulsando. Quer dizer, me surpreendi vivo, vi a vida fazendo o seu trabalho, meu corpo fazendo o seu trabalho, por sua conta, sem que eu tivesse nada que ver com tudo isso.


Consecuencias
Un día, mirando sin haberlo previsto el hueco entre el pulgar y el índice de mi mano derecha, yo me he visto latir. Es decir, me he sorprendido vivo, he visto a la vida haciendo su trabajo, a mi cuerpo haciendo su trabajo, por su cuenta, sin que yo tuviera nada que ver en todo eso.





Coda aos gados e às messes
Atrás ficou o futuro.
Foi ontem o amanhã.
Não entra em nossas horas
porvir nem horizonte.

Houve um tempo em que havia
odores de esperança.
Hoje é haver perdido o
que ontem foi amanhã.

Houve. Não mais. Nem mesmo os
sonhos que nos sonhavam
se deixam já sonhar.

De haver sido futuro
eis-nos tão-só passado.
Passado do futuro.
“Ese no puede ser, sido.”
César Vallejo


Coda a los ganados y a las mieses
Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.

Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.

Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.

De haber sido futuro
henos sólo pasado.
Pasado del futuro.
“Ese no puede ser, sido.”
César Vallejo





Rodolfo Alonso (Buenos Aires, 1934) é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana contemporânea. Publicou mais de 20 livros, incluindo também ensaio e narrativa. Primeiro tradutor de Fernando Pessoa na América Latina. Desde muito jovem, é o mais ativo tradutor de grandes poetas portugueses e brasileiros ao castelhano, começando por seus amigos António Ramos Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, e culminando entre outros com Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Bandeira e Olavo Bilac. A Thesaurus publicou em Brasília sua Antologia pessoal (2003), bilíngüe. A Academia Brasileira de Letras acaba de outorgar-lhe suas Palmas Acadêmicas.


RODOLFO ALONSO, POETA DA NUDEZ ESSENCIAL
por António Ramos Rosa


Logo nos primeiros poemas de Rodolfo Alonso se nos depara a vontade de construir un mundo humano e o desafio à adversidade do destino e opacidade do real. Mas esta vontade de construção não é idealizante e só se efectiva mediante a defrontação contante com o negativo da condiçao humana. Rodolfo Alonso é o poeta da esperança e da clara afirmação dos valores humanos que é necessário defender para a construção do mundo. Todavia, o poeta no possui uma ideologia ou uma mensagem, uma vez que o poema surge como realidade fundadora de um sentido não predeterminado, que vai despertar e consumar a vontade de construção humana. Esta vontade é muito forte e quase redunda numa afirmação ideológica dos valores da construção humana. Mas Rodolfo Alonso é sempre fiel as exigencias radicais da construção poética, evitando a sobreposição ideológica e a retórica dos princípios declarados. Todavia, a vontade construtiva é bastante acentuada e claramente definida, como neste passo: “la que yo amo está cerca de mí / nuestra fuerza es la fuerza de los hombres / está en mis venas y en mis músculos / caliente como el pan como la sangre como el vino”. Estes versos são menos uma declaração de princípios do que a assunção de uma força que engloba os valores elementais e sagrados do homem ligados à comunhão fraterna ou à construção de uma comunidade viva e autêntica. Toda a poesia de Rodolfo Alonso é animada por este fervor ético e elemental e, decorrentemente, por valores humanos que incidem na construção do mundo segundo os vectores de uma sensibilidade e de uma afectividade constantemente elaborada e vivificada pela criação poética. Assim, a liberdade nunca se dissocia da fraternidade, nem o amor da dignidade, nem o domínio pessoal do sentido da comunidade: “he construído mi dominio / tengo el día la ciudad el pecho de la lluvia / la libertad como una mano”. Mas se esta poesia tende sempre para o encontro numa comunidade viva, actual ou projectada no futuro, por isso mesmo está atenta à dor e à solidão, a tudo o que limita o homem na sua possibilidade de uma abertura ao mundo: “Escucha, en la alta noche, los aullidos del solitario. Él ronda las huellas recientes de tus pasos que aún gimen en la arena; él se ajusta a tu recuerdo, bebe el hálito acre que has dejado vibrando en cada sitio, en cada gesto, en cada interminable noche.” Todavia, a poesia de Rodolfo Alonso não está virada apenas para o domínio humano; na sua sobriedade expressiva, ela é também a exploração do obscuro mundo latente que não se pode ignorar sem perda da integridade poética e humana: “Vamos a adelantar un pie sobre el absurdo. / Vamos a conocerte: mundo incierto y animal, agua madura. / Estos ríos cavan la verdad silenciosa. / Necesitamos su virtud, su falta de costumbre, su vida de aventuras. / No se les puede dar la espalda.” A atenção à vida elemental é, neste poeta, não uma assunção exuberante e eufórica ou dionisíaca, mas um delicado veio da sua poesia. Mas esta delicadeza, que caracteriza toda a sua obra poética, não significa pobreza ou falta de intensidade poética, porquanto é uma condensação estética de grande efeito expressivo na sua pureza radical e na sua claridade formulativa. Este despojamento revela a um tempo uma grande força poética e a capacidade de a transmudar em formulações claras e simples de uma evidência nua e de uma essencialidade extrema: “incierta / fácil // tu mirada deslumbra / en el mal // inclinada / segura // yo te he visto volverte / entre los otros / en la luz // yo te he visto / te he amado // limpia // oscura”. Podemos dizer que a poesia de Rodolfo Alonso visa sobretudo criar uma palabra evidente e clara que corresponda a um “olhar nu” que abarque o real numa síntese breve e fulgurante: “no quiero perder / la mirada desnuda // la mirada implacable / la mirada cambiante / que dejas caer a veces / sobre mí // humillados // bajo el peso húmedo de la violencia / no morirán los ojos del amor // sometidos // no cesará la mirada inalterable // grietas / manos blancas // los ojos que sostienen el mundo no deben detenerse". Esta síntese é plenamente conseguida, sem prejuízo da riqueza do que é formulado e sem, de modo algum, trair a força criadora e o mundo selvagem e insubmisso que lhe subjaz. Por isso, a voz que o poeta procura é a “voz errante”, “a voz temível e ágil que ilumina o sangue”. Este é o domínio do informulável, quer dizer, do sagrado: “hay un abismo al borde del silencio / en lo alto de la voz // viviremos a merced de su aliento sagrado”. Assim, esta poesia extremamente condensada e breve, é uma poesia aberta ao mundo e à realidade humana sem interposição ideológica, animada por um permanente sentido ético de comunhão fraterna e pela vibrante intencionalidade de um olhar que se abre à nudez essencial do mundo visível e ao domínio invisível inerente ao ser. 
 

Um comentário:

  1. A ACADEMIA MACHADENSE DE LETRAS (Machado-MG) comunica que estão
    abertas as inscrições para o VIII Concurso Plínio Motta de Poesias, do
    ano 2011. As inscrições vão até o dia 21 de outubro de 2011.
    Entrem em contato para adquirir o Regulamento:
    a/c Carlos Roberto machadocultural@gmail.com
    ESTE CONCURSO ESTÁ ABERTO PARA TODOS!

    OBS: O VALOR DA INSCRIÇÃO ( 2 REAIS) PODE SER COLOCADO DENTRO DO ENVELOPE COM AS 6 CÓPIAS DA SUA POESIA.

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