quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Calderón de la Barca

 

 La vida es sueño 

Monólogo de Segismundo, Jornada segunda, escena XIX de La vida es sueño, de Calderón de la Barca.


Es verdad; pues reprimamos
esta fiera condición,
esta furia, esta ambición,
por si alguna vez soñamos:
y sí haremos, pues estamos
en mundo tan singular,
que el vivir sólo es soñar;
y la experiencia me enseña
que el hombre que vive, sueña
lo que es, hasta dispertar.
Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
y este aplauso, que recibe
prestado, en el viento escribe;
y en cenizas le convierte
la muerte (¡desdicha fuerte!):
¿que hay quien intente reinar,
viendo que ha de dispertar
en el sueño de la muerte?
Sueña el rico en su riqueza
que más cuidados le ofrece;
sueña el pobre que padece
su miseria y su pobreza;
sueña el que a medrar empieza,
sueña el que afana y pretende,
sueña el que agravia y ofende,
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
Yo sueño que estoy aquí
destas prisiones cargado,
y soñé que en otro estado
más lisonjero me vi.
¿Qué es la vida? Un frenesí,
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño:
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son.



De: CALDERÓN DE LA BARCA, Pedro. La vida es sueño. New York: Double Day, 1961, p.75.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

AKHMÁTOVA / SZYMBORSKA



Os dois melhores poemas sobre a bíblica mulher de Lot (aquela que ao virar para trás, ao deixar Sodoma com seu marido e suas filhas, recebeu o castigo anunciado: virou uma estátua de sal) foram escritos por duas mulheres. A russa Anna Akhmátova e a polonesa Wislawa Szymborska. Nenhuma coincidência que sejam de onde são.

Para o poema de Anna Akhmátova: tradução de Lauro Machado Coelho; para o poema de Wislawa: tradução de Regina Przybycien.

Texto e montagem de Carlito Azevedo


A MULHER DE LOT


       Anna Akhmátova




      “A mulher de Lot, que o seguia, olhou
      para trás e transformou-se numa estátua de sal
                           Gênesis




E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.


Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:


"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".


Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.


E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.


Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?


E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.






A MULHER DE LOT

        Wislawa Szymborska




Dizem que olhei para trás de curiosa.
Mas quem sabe eu também tinha outras razões.


Olhei para trás de pena pela tigela de prata.
Por distração - amarrando a tira da sandália.


Para não olhar mais para a nuca virtuosa
do meu marido Lot.


Pela súbita certeza de que se eu morresse
ele nem diminuiria o passo.


Pela desobediência dos mansos.
Alerta à perseguição.


Afetada pelo silêncio,
na esperança de Deus ter mudado de ideia.


Nossas duas filhas já sumiam lá no cimo do morro.
Senti em mim a velhice. O afastamento.
A futilidade da errância. Sonolência.


Olhei para trás enquanto punha a trouxa no chão.
Olhei para trás por receio de onde pisar.


No meu caminho surgiram serpentes,
aranhas, ratos silvestres e filhotes de abutres.


Já não eram bons nem maus - simplesmente tudo que vivia
serpenteava ou pulava em pânico consorte.


Olhei para trás de solidão.
De vergonha de fugir às escondidas.
De vontade de gritar, de voltar.


Ou quem sabe foi só um vento que bateu,
despenteou meu cabelo e levantou me vestido.


Tive a impressão de que me viam dos muros de Sodoma
e caíam na risada, uma e outra vez.


Olhei para trás de raiva.
Para me saciar de sua enorme ruína.


Olhei para trás por todas as razões mencionadas acima.
Olhei para trás sem querer.


Foi somente uma rocha que virou, roncando sob meus pés.
Foi uma fenda que de súbito me podou o passo.


Na beira trotava um hamster apoiado nas duas patas.
E foi então que ambos olhamos para trás.


Não, não. Eu continuava correndo,
me arrastava e levantava,
enquanto a escuridão não caiu do céu
e com ela o cascalho ardente e as aves mortas.


Sem poder respirar, rodopiei várias vezes.


Se alguém me visse, por certo acharia que eu dançava.


É concebível que meus olhos estivessem abertos.
É possível que ao cair meu rosto fitasse a cidade.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

RODOLFO ALONSO



A POESIA DE RODOLFO ALONSO

por António Ramos Rosa

A voz de Rodolfo Alonso tem um acento de autenticidade iniludível. Discreta, lenta, como que distante, ela apoia-se nas palavras mais simples e quotidianas, nas locuções aparentemente mais insignificantes, como que para verificar a valor da linguagem, a resistência dos seus nexos. Esta distância que acentuámos é o sinal de uma intimidade e de um rigor. É que esta voz é sempre de alguém, de um hombre. Mas se o seu timbre não fere porque discreto, se o poema tende a resolver-se circularmente numa leve ondulação que se alarga até à beira do silêncio -- um mar maior donde ele emerge e onde retorna --, se, enfim, esta voz tem o peso grave da solidão, tem-o igualmente da responsabilidade que admiràvelmente nos é proposta neste dístico : los ojos que sostienen el mundo / no deben detenerse. A solitud deste poeta não é um obstáculo à comunhão fraterna, dir-se-ia até ser condição dela. Seja como for, nao há aí comprazimento nem renúncia, mas o gosto acre da consciência em tensão com a existência, a tensão própria de quem procura o justo equilíbrio, o verdadeiro centro da realidade, onde as diferenças acidentais se anulam para deixar lugar à diferença essencial, à verdadeira presença do eu ao mundo e aos outros. Uma poesia que na sua contensão e na sua elegância não escamoteia os dados dolorosos da condição humana e nos convida a uma presença a um tempo mais autêntica e mais vasta é uma poesia que não pode deixar de nos interesar porque capaz de dar toda a medida da dignidade humana e do duro ofício de viver do mundo de hoje.


As traduções são  de Anderson Braga Horta.






 



Dons para dar

O que me deram dou-te.
Dou aquele sagrado
cheiro a terra molhada
e essa voz que é o vento
por entre as ramas altas.

Quanto tive devolvo:
as árvores irmãs,
as flores que modula
a névoa, o grilo, o pássaro
cantando na garoa.

Sem herança ou legado.
Tão-só paixão e tempo.
A intensa vida, o ar,
a manhã radiante
e a celagem nos olhos.

Nada levamos, nada.
É o que merecemos?
A chama do momento,
colorações no sol,
o crepúsculo juntos.

O fogo da fogueira
em que vamos ardendo.

E vejo o que me vê?
No exato instante, o liso,
o claro resplendor
do meio-dia nítido
sobre uma mesa branca

e frutas entoadas
como parentes próximos:
a luz, a gama, o íris,
bananas com limões
e com a maçã verde.

Cabemos bem na chuva,
instantâneos, de súbito,
íntimos e gregários,
próximos e distantes.
A chuva é nosso templo.

A canção evidente,
a palavra encarnada,
o que chegou de fora
porque soava dentro.
Ou não seremos, língua?

E o fogo da espécie,
horizonte e passado.



Dones para donar
Te doy lo que me dieron:
aquel sagrado olor
a la tierra mojada,
y esa voz que es el viento
entre las ramas altas.

Devuelvo lo que tuve:
los árboles hermanos,
las flores que modula
la niebla, el grillo, el pájaro
cantando en la garúa.

Ni herencia, ni legado.
Sólo pasión y tiempo.
La intensa vida, el aire,
la mañana radiante
y cielos en los ojos.

No nos llevamos nada.
¿Es que lo merecimos?
La llama del instante,
colores en el sol,
el crepúsculo juntos.

El fuego de la hoguera
donde vamos ardiendo.

¿Y veo lo que me ve?
En el momento justo,
el liso resplandor
del neto mediodía
sobre una mesa blanca

y frutas entonadas
como parientes próximos:
la luz, la gama, el iris,
limones con bananas
y la manzana verde.

En la lluvia cabemos,
instantáneos, de pronto,
íntimos y gregarios,
cercanos y distantes.
La lluvia es nuestro templo.

La canción evidente,
la palabra encarnada,
lo que llegó de afuera
porque sonaba dentro.
¿O es que no somos, lengua?

Y el fuego de la especie,
horizonte y pasado.




 

Não há dia da morte

na lembrança do
José Augusto Seabra
Imóvel, incessante,
a morte, árida, impura.

Infiel, infame, injusta,
a dura morte dura.

Impaciente, infecunda,
a inútil morte, muda.

Não duvida, e é sem dúvida,
a morte ávida e pura.



No hay día de la muerte

a la memoria de
José Augusto Seabra


Inmóvil, incesante,
la muerte, árida, impura.

Infiel, infame, injusta,
la dura muerte dura.

Impaciente, infecunda,
la inútil muerte, muda.

Indudable, no duda
la muerte ávida y pura.





 

















 Epifania
Qual luz dentro da luz
soa o inverno, ao sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende e sustenta
sem suspeitar que sabe,
secreto, só em si,
sente sem sentimento,
a simples sede,
a simples ser,
só e sumo no sol
sagrado do silêncio
seco, soberbo, solto
sobre esse frio incendido.





 
Epifanía
Como luz en la luz
suena el invierno, al sol.
Serena madurez,
sabor desnudo
que suspende y sostiene
sin sospechar que sabe,
secreto, sólo en sí,
siente sin sentimiento,
a simple sed,
a simple ser,
solo y sumo en el sol
sagrado del silencio
seco, soberbio, suelto
sobre ese frío encendido.







 

















Antropofagia
Sobre a praia apenas esflorada, quase virgem ainda, não espanta o pé de Sexta-Feira senão a implícita ameaça: outros, o Outro, que acaso nos inclui.


Antropofagia
Sobre la playa apenas mancillada, casi virgen aún, no espanta el pie de Viernes sino la implícita amenaza: otros, el Otro, que acaso nos incluye.







 
















No alto da colina dos pássaros
O mesmo mar, depois de tudo, de cobalto entre ramos, a esta hora. E o surdo retumbar do tsunâmi do outro lado do planeta, rebelião da Terra, tortura que a Terra se inflige, sem projeto nem enigma.
Aqui as andorinhas angustiadas de calor continuam traçando de improviso, aceleradas, na curva do ar, a precisa fugacidade de suas ondas de vôo. E há trocazes, louros, tesourinhas, pombas, tordos, zorzais, gaivotas e até desconhecidos de vistosa plumagem, de belos pardos e também grises, revoluteando indiferentes, embaixo ou no alto, voando desenvoltos, entre nós e o mar.
Entre o acaso e a necessidade.


En lo alto de la colina de los pájaros
El mismo mar, después de todo, de cobalto entre ramas, a esta hora. Y el sordo retumbar del tsunami al otro lado del planeta, rebelión de la Tierra, tortura que la Tierra se inflige, sin proyecto ni enigma.
Aquí las golondrinas abrumadas de calor continúan trazando de improviso, aceleradas, en la comba del aire, la precisa fugacidad de sus ondas de vuelo. Y hay torcacitas, loros, tijeretas, palomas, tordos, chalchaleros, gaviotas y hasta desconocidos de vistoso plumaje, de bellos pardos y aún grises, revoloteando indiferentes, abajo o en lo alto, volando desplegados, entre el mar y nosotros.
Entre el azar y la necesidad.




 

Consequências

Um dia, fitando impremeditadamente o vão entre o polegar e o índice de minha mão direita, eu me vi pulsando. Quer dizer, me surpreendi vivo, vi a vida fazendo o seu trabalho, meu corpo fazendo o seu trabalho, por sua conta, sem que eu tivesse nada que ver com tudo isso.


Consecuencias
Un día, mirando sin haberlo previsto el hueco entre el pulgar y el índice de mi mano derecha, yo me he visto latir. Es decir, me he sorprendido vivo, he visto a la vida haciendo su trabajo, a mi cuerpo haciendo su trabajo, por su cuenta, sin que yo tuviera nada que ver en todo eso.





Coda aos gados e às messes
Atrás ficou o futuro.
Foi ontem o amanhã.
Não entra em nossas horas
porvir nem horizonte.

Houve um tempo em que havia
odores de esperança.
Hoje é haver perdido o
que ontem foi amanhã.

Houve. Não mais. Nem mesmo os
sonhos que nos sonhavam
se deixam já sonhar.

De haver sido futuro
eis-nos tão-só passado.
Passado do futuro.
“Ese no puede ser, sido.”
César Vallejo


Coda a los ganados y a las mieses
Atrás quedó el futuro.
El mañana fue ayer.
Nuestras horas no incluyen
porvenir ni horizonte.

Hubo un tiempo en que había
olores de esperanza.
Hoy es haber perdido
lo que ayer fue mañana.

Hubo. Ya no hay. Ni aquellos
sueños que nos soñaban
hoy se dejan soñar.

De haber sido futuro
henos sólo pasado.
Pasado del futuro.
“Ese no puede ser, sido.”
César Vallejo





Rodolfo Alonso (Buenos Aires, 1934) é uma das vozes mais reconhecidas da poesia latino-americana contemporânea. Publicou mais de 20 livros, incluindo também ensaio e narrativa. Primeiro tradutor de Fernando Pessoa na América Latina. Desde muito jovem, é o mais ativo tradutor de grandes poetas portugueses e brasileiros ao castelhano, começando por seus amigos António Ramos Rosa, Carlos Drummond de Andrade e Murilo Mendes, e culminando entre outros com Sophia de Mello Breyner Andresen, Manuel Bandeira e Olavo Bilac. A Thesaurus publicou em Brasília sua Antologia pessoal (2003), bilíngüe. A Academia Brasileira de Letras acaba de outorgar-lhe suas Palmas Acadêmicas.


RODOLFO ALONSO, POETA DA NUDEZ ESSENCIAL
por António Ramos Rosa


Logo nos primeiros poemas de Rodolfo Alonso se nos depara a vontade de construir un mundo humano e o desafio à adversidade do destino e opacidade do real. Mas esta vontade de construção não é idealizante e só se efectiva mediante a defrontação contante com o negativo da condiçao humana. Rodolfo Alonso é o poeta da esperança e da clara afirmação dos valores humanos que é necessário defender para a construção do mundo. Todavia, o poeta no possui uma ideologia ou uma mensagem, uma vez que o poema surge como realidade fundadora de um sentido não predeterminado, que vai despertar e consumar a vontade de construção humana. Esta vontade é muito forte e quase redunda numa afirmação ideológica dos valores da construção humana. Mas Rodolfo Alonso é sempre fiel as exigencias radicais da construção poética, evitando a sobreposição ideológica e a retórica dos princípios declarados. Todavia, a vontade construtiva é bastante acentuada e claramente definida, como neste passo: “la que yo amo está cerca de mí / nuestra fuerza es la fuerza de los hombres / está en mis venas y en mis músculos / caliente como el pan como la sangre como el vino”. Estes versos são menos uma declaração de princípios do que a assunção de uma força que engloba os valores elementais e sagrados do homem ligados à comunhão fraterna ou à construção de uma comunidade viva e autêntica. Toda a poesia de Rodolfo Alonso é animada por este fervor ético e elemental e, decorrentemente, por valores humanos que incidem na construção do mundo segundo os vectores de uma sensibilidade e de uma afectividade constantemente elaborada e vivificada pela criação poética. Assim, a liberdade nunca se dissocia da fraternidade, nem o amor da dignidade, nem o domínio pessoal do sentido da comunidade: “he construído mi dominio / tengo el día la ciudad el pecho de la lluvia / la libertad como una mano”. Mas se esta poesia tende sempre para o encontro numa comunidade viva, actual ou projectada no futuro, por isso mesmo está atenta à dor e à solidão, a tudo o que limita o homem na sua possibilidade de uma abertura ao mundo: “Escucha, en la alta noche, los aullidos del solitario. Él ronda las huellas recientes de tus pasos que aún gimen en la arena; él se ajusta a tu recuerdo, bebe el hálito acre que has dejado vibrando en cada sitio, en cada gesto, en cada interminable noche.” Todavia, a poesia de Rodolfo Alonso não está virada apenas para o domínio humano; na sua sobriedade expressiva, ela é também a exploração do obscuro mundo latente que não se pode ignorar sem perda da integridade poética e humana: “Vamos a adelantar un pie sobre el absurdo. / Vamos a conocerte: mundo incierto y animal, agua madura. / Estos ríos cavan la verdad silenciosa. / Necesitamos su virtud, su falta de costumbre, su vida de aventuras. / No se les puede dar la espalda.” A atenção à vida elemental é, neste poeta, não uma assunção exuberante e eufórica ou dionisíaca, mas um delicado veio da sua poesia. Mas esta delicadeza, que caracteriza toda a sua obra poética, não significa pobreza ou falta de intensidade poética, porquanto é uma condensação estética de grande efeito expressivo na sua pureza radical e na sua claridade formulativa. Este despojamento revela a um tempo uma grande força poética e a capacidade de a transmudar em formulações claras e simples de uma evidência nua e de uma essencialidade extrema: “incierta / fácil // tu mirada deslumbra / en el mal // inclinada / segura // yo te he visto volverte / entre los otros / en la luz // yo te he visto / te he amado // limpia // oscura”. Podemos dizer que a poesia de Rodolfo Alonso visa sobretudo criar uma palabra evidente e clara que corresponda a um “olhar nu” que abarque o real numa síntese breve e fulgurante: “no quiero perder / la mirada desnuda // la mirada implacable / la mirada cambiante / que dejas caer a veces / sobre mí // humillados // bajo el peso húmedo de la violencia / no morirán los ojos del amor // sometidos // no cesará la mirada inalterable // grietas / manos blancas // los ojos que sostienen el mundo no deben detenerse". Esta síntese é plenamente conseguida, sem prejuízo da riqueza do que é formulado e sem, de modo algum, trair a força criadora e o mundo selvagem e insubmisso que lhe subjaz. Por isso, a voz que o poeta procura é a “voz errante”, “a voz temível e ágil que ilumina o sangue”. Este é o domínio do informulável, quer dizer, do sagrado: “hay un abismo al borde del silencio / en lo alto de la voz // viviremos a merced de su aliento sagrado”. Assim, esta poesia extremamente condensada e breve, é uma poesia aberta ao mundo e à realidade humana sem interposição ideológica, animada por um permanente sentido ético de comunhão fraterna e pela vibrante intencionalidade de um olhar que se abre à nudez essencial do mundo visível e ao domínio invisível inerente ao ser. 
 

NICANOR PARRA




Los vicios del mundo moderno
 
Los delincuentes modernos
Están autorizados para concurrir diariamente
a parques y jardines.
Provistos de poderosos anteojos y de relojes de bolsillo
Entran a saco en los kioskos favorecidos por la muerte
E instalan sus laboratorios entre los rosales en flor.
Desde allí controlan a fotógrafos y mendigos que deambulan por los alrededores
Procurando levantar un pequeño templo a la miseria
Y si se presenta la oportunidad llegan a poseer a un lustrabotas melancólico.
La policía atemorizada huye de estos monstruos
En dirección del centro de la ciudad
En donde estallan los grandes incendios de fines de año
Y un valiente encapuchado pone manos arriba a dos madres de la caridad.

Los vicios del mundo moderno:
El automóvil y el cine sonoro,
Las discriminaciones raciales,
El exterminio de los pieles rojas,
Los trucos de la alta banca,
La catástrofe de los ancianos,
El comercio clandestino de blancas realizado por sodomitas internacionales,
El auto-bombo y la gula
Las Pompas Fúnebres
Los amigos personales de su excelencia
La exaltación del folklore a categoría del espíritu,
El abuso de los estupefacientes y de la filosofía,
El reblandecimiento de los hombres favorecidos por la fortuna
El auto-erotismo y la crueldad sexual
La exaltación de lo onírico y del subconsciente en desmedro del sentido común.
La confianza exagerada en sueros y vacunas,
El endiosamiento del falo,
La política internacional de piernas abiertas patrocinada por la prensa reaccionaria,
El afán desmedido de poder y de lucro,
La carrera del oro,
La fatídica danza de los dólares,
La especulación y el aborto,
La destrucción de los ídolos.
El desarrollo excesivo de la dietética y de la psicología pedagógica,
El vicio del baile, del cigarrillo, de los juegos de azar,
Las gotas de sangre que suelen encontrarse entre las sábanas de los recién desposados,
La locura del mar,
La agorafobia y la claustrofobia,
La desintegración del átomo,
El humorismo sangriento de la teoría de la relatividad,
El delirio de retorno al vientre materno,
El culto de lo exótico,
Los accidentes aeronáuticos,
Las incineraciones, las purgas en masa, la retención de los pasaportes,
Todo esto porque sí,
Porque produce vértigo,
La interpretación de los sueños
Y la difusión de la radiomanía.

Como queda demostrado, el mundo moderno se compone de flores artificiales
Que se cultivan en unas campanas de vidrio parecidas a la muerte,
Está formado por estrellas de cine,
Y de sangrientos boxeadores que pelean a la luz de la luna,
Se compone de hombres ruiseñores que controlan la vida económica de los países
Mediante algunos mecanismos fáciles de explicar;
Ellos visten generalmente de negro como los precursores del otoño
Y se alimentan de raíces y de hierbas silvestres.
Entretanto los sabios, comidos por las ratas,
Se pudren en los sótanos de las catedrales,
Y las almas nobles son perseguidas implacablemente por la policía.

El mundo moderno es una gran cloaca:
Los restoranes de lujo están atestados de cadáveres digestivos
Y de pájaros que vuelan peligrosamente a escasa altura.
Esto no es todo: Los hospitales están llenos de impostores,
Sin mencionar a los herederos del espíritu que establecen sus colonias en el ano de los
recién operados.

Los industriales modernos sufren a veces el efecto de la atmósfera envenenada,
Junto a las máquinas de tejer suelen caer enfermos del espantoso mal del sueño
Que los transforma a la larga en unas especies de ángeles.
Niegan la existencia del mundo físico
Y se vanaglorian de ser unos pobres hijos del sepulcro.
Sin embargo, el mundo ha sido siempre así.
La verdad, como la belleza, no se crea ni se pierde
Y la poesía reside en las cosas o es simplemente un espejismo del espíritu.
Reconozco que un terremoto bien concebido
Puede acabar en algunos segundos con una ciudad rica en tradiciones
Y que un minucioso bombardeo aéreo
Derribe árboles, caballos, tronos, música.
Pero qué importa todo esto
Si mientras la bailarina más grande del mundo
Muere pobre y abandonada en una pequeña aldea del sur de Francia
La primavera devuelve al hombre una parte de las flores desaparecidas.

Tratemos de ser felices, recomiendo yo, chupando la miserable costilla humana.
Extraigamos de ella el líquido renovador,
Cada cual de acuerdo con sus inclinaciones personales.
¡Aferrémonos a esta piltrafa divina!
Jadeantes y tremebundos
Chupemos estos labios que nos enloquecen;
La suerte está echada.
Aspiremos este perfume enervador y destructor
Y vivamos un día más la vida de los elegidos:
De sus axilas extrae el hombre la cera necesaria para forjar el rostro de sus ídolos.
Y del sexo de la mujer la paja y el barro de sus templos.
Por todo lo cual
Cultivo un piojo en mi corbata
Y sonrío a los imbéciles que bajan de los árboles.

NICANOR PARRA De: Poemas y antipoemas
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La víbora

Durante largos años estuve condenado a adorar a una mujer despreciable
Sacrificarme por ella, sufrir humillaciones y burlas sin cuento,
Trabajar día y noche para alimentarla y vestirla,
Llevar a cabo algunos delitos, cometer algunas faltas,
A la luz de la luna realizar pequeños robos,
Falsificaciones de documentos comprometedores,
So pena de caer en descrédito ante sus ojos fascinantes.
En horas de comprensión solíamos concurrir a los parques
Y retratarnos juntos manejando una lancha a motor,
O nos íbamos a un café danzante
Donde nos entregábamos a un baile desenfrenado
Que se prolongaba hasta altas horas de la madrugada.
Largos años viví prisionero del encanto de aquella mujer
Que solía presentarse a mi oficina completamente desnuda
Ejecutando las contorsiones más difíciles de imaginar
Con el propósito de incorporar mi pobre alma a su órbita
Y, sobre todo, para extorsionarme hasta el último centavo.
Me prohibía estrictamente que me relacionase con mi familia.
Mis amigos eran separados de mí mediante libelos infamantes
Que la víbora hacía publicar en un diario de su propiedad.
Apasionada hasta el delirio no me daba un instante de tregua,
Exigiéndome perentoriamente que besara su boca
Y que contestase sin dilación sus necias preguntas,
Varias de ellas referentes a la eternidad y a la vida futura
Temas que producían en mí un lamentable estado de ánimo,
Zumbidos de oídos, entrecortadas náuseas, desvanecimientosprematuros
Que ella sabía aprovechar con ese espíritu práctico que la caracterizaba
Para vestirse rápidamente sin pérdida de tiempo
Y abandonar mi departamento dejándome con un palmo de narices.
Esta situación se prolongó por más de cinco años.
Por temporadas vivíamos juntos en una pieza redonda
Que pagábamos a medias en un barrio de lujo cerca del cementerio.
(Algunas noches hubimos de interrumpir nuestra luna de miel
Para hacer frente a las ratas que se colaban por la ventana).
Llevaba la víbora un minucioso libro de cuentas
En el que anotaba hasta el más mínimo centavo que yo le pedía en préstamo;
No me permitía usar el cepillo de dientes que yo mismo le había regalado
Y me acusaba de haber arruinado su juventud:
Lanzando llamas por los ojos me emplazaba a comparecer ante el juez
Y pagarle dentro de un plazo prudente parte de la deuda,
Pues ella necesitaba ese dinero para continuar sus estudios
Entonces hube de salir a la calle a vivir de la caridad pública,
Dormir en los bancos de las plazas,
Donde fui encontrado muchas veces moribundo por la policía
Entre las primeras hojas del otoño.
Felizmente aquel estado de cosas no pasó más adelante,
Porque cierta vez en que yo me encontraba en una plaza también
Posando frente a una cámara fotográfica
Unas deliciosas manos femeninas me vendaron de pronto la vista
Mientras una voz amada para mí me preguntaba quién soy yo.
Tú eres mi amor, respondí con serenidad.
¡Ángel mío, dijo ella nerviosamente,
Permite que me siente en tus rodillas una vez más!
Entonces pude percatarme de que ella se presentaba ahora provista de un pequeño taparrabos.
Fue un encuentro memorable, aunque lleno de notas discordantes:
Me he comprado una parcela, no lejos del matadero, exclamó,
Allí pienso construir una especie de pirámide.
En la que podamos pasar los últimos días de nuestra vida.
Ya he terminado mis estudios, me he recibido de abogado,
Dispongo de buen capital;
Dediquémonos a un negocio productivo, los dos, amor mío, agregó
Lejos del mundo construyamos nuestro nido.
Basta de sandeces, repliqué, tus planes me inspiran desconfianza,
Piensa que de un momento a otro mi verdadera mujer
Puede dejarnos a todos en la miseria más espantosa.
Mis hijos han crecido ya, el tiempo ha transcurrido,
Me siento profundamente agotado, déjame reposar un instante,
Tráeme un poco de agua, mujer,
Consígueme algo de comer en alguna parte,
Estoy muerto de hambre,
No puedo trabajar más para ti,
Todo ha terminado entre nosotros.

(dedicado a Stella Diaz Varin)

Roberto Bolaño




Bienvenida


Bienvenida a mi dormitorio de témpanos a la deriva
Bienvenida a mis escaleras a mis trucos a mi ternura
Bienvenida bajo este arco –Bienvenida a estos mapas confusos
iguales a los sueños de un proletario borracho
bicicleta cubierta de crisálidas que tu ojo
registró en la infancia --Tú te has divertido, yo te he mirado
desde las rodillas del asombro, sin aullidos, sin risas
mudo como un niño rojo, o como una fotografía
llena de historias (olores) que una mosca
atraviesa de punta a punta
Bienvenida a la noche de los pulsos interminables
Bienvenida a las fiestas de los artesanos
Bienvenida a las horas vacías donde sólo se mueven los callejones
Bienvenida, sin embargo, al amor –Al amor terrible
que entendía Quiroga, el amor niño inmune a todo juego
de palabras
Bienvenida a mi dormitorio abierto como un rostro después
del temporal, a mi larga y difícil manera
de entenderte –Que todo nos cubra, que todo sea manto
para nosotros. Bienvenida a las capas carnívoras
como flores carnívoras, a lo irremediable, y a los cuerpos
que pese a todo, que pese a todo, sobreviven
a los largos años de Contrarrevolución
Bienvenida, oh amada, a los largos años del desempleo y los
motines
Bienvenida al hambre y a los poemas de amor
Bienvenida a los poemas miserables a los poemas parpadeantes
a los poemas extáticos de la intranquilidad
Que todo sea intemperie para nosotros, que no tengamos
ningún tipo de coartada
Oh amada, de esas agujas extraeremos algo de luz
de esas cabelleras extraeremos algo de paciencia
Somos, después de todo, hermanos de nuestros cataclismos,
de esos ojos extraeremos algo de mito
Bienvenida a los amantes que se abrazan en medio
de una multitud, y sólo son vistos
por niños soñolientos –Bellos niños soñolientos
que parecen lagartos inmortales detrás de las ventanas
Bienvenida, y adiós, ¿de que manera te recordaré
cuando tenga 30 años?
¿Cómo serán los sueños de los condenados a la horca
sino constelaciones, sino el asombro
de una música infantil de animales sueltos
en un barco que poco a poco se va coagulando?
Oh amada, en distintos países, sin noticias uno del otro,
hemos de cruzar lo mejor que podamos
los años de la Contrarrevolución
Bienvenida entonces, bienvenida, bienvenida,
al jade y a las tiendas levantadas de noche,
a los quinqués y a las miradas dulces,
a las imágenes de nosotros mismos que vuelven a encontrarse,
y a los cuatro puntos cardinales


Barcelona, julio 1977
Publicado en “Algunos poetas en Barcelona”Ediciones La cloaca nov. 1978

Cesar Vallejo



Considerando en frío, imparcialmente...


Considerando en frío, imparcialmente,

que el hombre es triste, tose y, sin embargo,
se complace en su pecho colorado;
que lo único que hace es componerse
de días;
que es lóbrego mamífero y se peina...

Considerando

que el hombre procede suavemente del trabajo
y repercute jefe, suena subordinado;
que el diagrama del tiempo
es constante diorama en sus medallas
y, a medio abrir, sus ojos estudiaron,
desde lejanos tiempos,
su fórmula famélica de masa...

Comprendiendo sin esfuerzo

que el hombre se queda, a veces, pensando,
como queriendo llorar,
y, sujeto a tenderse como objeto,
se hace buen carpintero, suda, mata
y luego canta, almuerza, se abotona...

Considerando también

que el hombre es en verdad un animal
y, no obstante, al voltear, me da con su tristeza en la cabeza...

Examinando, en fin,

sus encontradas piezas, su retrete,
su desesperación, al terminar su día atroz, borrándolo...

Comprendiendo

que él sabe que le quiero,
que le odio con afecto y me es, en suma, indiferente...

Considerando sus documentos generales

y mirando con lentes aquel certificado
que prueba que nació muy pequeñito...

le hago una seña,

viene,
y le doy un abrazo, emocionado.
¡Qué mas da! Emocionado... Emocionado...


sexta-feira, 16 de setembro de 2011


Frank O´Hara (1926-1966)




Frank O´Hara (1926 - 1966) nasceu em Baltimore, mas é conhecido como poeta de Nova Iorque. Com os amigos John Ashbery, James Schuyler, Barbara Guest e Kenneth Koch, foi parte de um grupo de poetas que ficou conhecido como Escola de Nova Iorque (New York School of Poets), uma referência ao grupo de pintores conhecido como New York School of Painters, hoje em dia chamado com mais freqüência de Abstract Expressionists, entre os quais surgiu Jackson Pollock, cuja pintura teria grande influência sobre a poesia de O`Hara. Outras influências consideradas importantes por críticos que dedicaram estudos a seus trabalhos seriam uma antologia de poesia dadaísta publicada nos Estados Unidos no início da década de 50, Arthur Rimbaud e Vladimir Maiakóvski. O poeta trabalhou por anos como curador no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque e chegou a escrever em um poema que às vezes acreditava estar "apaixonado pela pintura". Frank O´Hara morreu aos 40 anos, em decorrência dos ferimentos causados por um atropelamento na Fire Island.


Having a coke with you


is even more fun than going to San Sebastian, Irún, Hendaye, Biarritz, Bayonne
or being sick to my stomach on the Travesera de Gracia in Barcelona
partly because in your orange shirt you look like a better happier St. Sebastian
partly because of my love for you, partly because of your love for yoghurt
partly because of the fluorescent orange tulips around the birches
partly because of the secrecy our smiles take on before people and statuary
it is hard to believe when I’m with you that there can be anything as still
as solemn as unpleasantly definitive as statuary when right in front of it
in the warm New York 4 o’clock light we are drifting back and forth
between each other like a tree breathing through its spectacles

and the portrait show seems to have no faces in it at all, just paint
you suddenly wonder why in the world anyone ever did them
.................................................................................I look
at you and I would rather look at you than all the portraits in the world
except possibly for the Polish Rider occasionally and anyway it’s in the Frick
which thank heavens you haven’t gone to yet so we can go together the first time
and the fact that you move so beautifully more or less takes care of Futurism
just as at home I never think of the Nude Descending a Staircase or
at a rehearsal a single drawing of Leonardo or Michelangelo that used to wow me
and what good does all the research of the Impressionists do them
when they never got the right person to stand near the tree when the sun sank
or for that matter Marino Marini when he didn’t pick the rider as carefully
.................................................................................as the horse
it seems they were all cheated of some marvellous experience
which is not going to go wasted on me which is why I’m telling you about it



Tomar coca-cola com você

(contextualização de Ricardo Domeneck)

é ainda mais divertido que ir a São Francisco, La Jolla, Tijuana, Tecate, Ensenada
ou ter o estômago revirado de enjoo na Madison Avenue em Nova Iorque
em parte porque nesta camisa laranja você me parece um São Francisco melhor mais feliz
em parte por causa do meu amor por você, em parte por causa do seu amor por vodca
em parte por causa das margaridas laranja fluorescente cercando os ipês
em parte por causa do mistério que nossos sorrisos vestem diante de gente e estatuária
é difícil de acreditar quando estou com você que pode haver algo tão imóvel
tão solene tão desagradavelmente definitivo quanto estatuária quando bem em frente
no ar quente das quatro da tarde em São Paulo nós vagamos em círculos num vai e vem como uma árvore respirando por suas oftálmicas

e a exposição de retratos parece não ter qualquer rosto, só tinta
você de repente pergunta-se por que diabos alguém deu-se ao trabalho de pintá-los
.................................................................................eu olho
você e preferiria olhar você a todos os retratos do planeta com exceção
talvez do Auto-Retrato com corrente de ouro de vez em quando que está no MASP
aonde graças aos céus você nunca foi então podemos ir juntos pela primeira vez
e o fato de que você se move tão lindo resolve mais ou menos o Futurismo
assim como em casa eu nunca penso no Nu Descendo uma Escada ou
num ensaio nalgum desenho do Michelangelo ou Da Vinci que antes me deixava boquiaberto
e de que adianta aos Impressionistas toda a sua pesquisa
quando eles nunca conseguiam a pessoa certa para encostar-se à árvore ao pôr-do-sol
ou a propósito Marino Marini se ele não escolheu o cavaleiro com o mesmo cuidado
.................................................................................que o cavalo
é como se tivessem roubado deles uma experiência maravilhosa que eu não pretendo desperdiçar e é por isso que estou aqui falando tudo isso pra você

FONTE: Revista Modo de Usar