quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Paul Celan

 






















PAUL PESSACH ANTSCHEL nasceu em 23 de Novembro de 1920, numa sociedade multilinguística, de variedade cultural acentuada. Este contacto pluralista do ponto de vista cultural será relevante para o desenvolvimento da sua carreira literária. Os pais eram judeus-alemães, pelo que a língua materna do Poeta era o alemão.
Deportados os progenitores para o campo de Michailovka, na Ucrânia, em Junho de 1942, o pai morre de tifo; a mãe morre meses mais tarde, presumivelmente executada. PAUL PESSACH ANTSCHEL passa algum tempo num campo de trabalho forçado em Tabaresti, na Valáquia, na Roménia; regressa posteriormente à sua terra natal, Czernowitz (Bucovina, na Roménia).
Em Abril de 1945, o escritor regressa definitivamente de Czernowitz para Bucareste; adoptando, após o termo da II Guerra Mundial, o nome de PAUL CELAN; desde 1948, ele passa, então, grande parte da vida, num exílio voluntário, na cidade de Paris.
A personalidade de PAUL CELAN é afectada profundamente pelos acontecimentos familiares e pessoais descritos. Passando a sofrer de depressão e de ataques recorrentes de paranoia, este facto terá contribuído para o suicídio de PAUL CELAN, em Abril de 1970, tendo-se atirado da ponte Mirabeau ao rio Sena. 

TODESFUGE

Schwarze Milch der Frühe wir trinken sie abends
wir trinken sie mittags und morgens wir trinken sie nachts
wir trinken und trinken
wir schaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldness Haar Margarete
er schreibt es und tritt vor das Haus und es blitzen die Sterne er pfeit seine Rüden herbei
er pfeift seine Juden hervor läßt schaufeln ein Grab in der Erde
er befiehlt uns spielt auf nun zum Tanz
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich morgens und mittags wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
Ein Mann wohnt im Haus der spielt mit den Schlangen der schreibt
der schreibt wenn es dunkelt nach Deutschland dein goldenes Haar Margarete
Dein aschenes Haar Sulamith wir schlaufeln ein Grab in den Lüften da liegt man nicht eng
 
Er ruft stecht tiefer ins Erdreich ihr einen ihr andern singet und spielt
er greift nach dem Eisen im Gurt er schwingts seine Augen sind blau
stecht tiefer die Spaten ihr einen ihr andern spielt weiter zum Tanz auf
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags und morgens wir trinken dich abends
wir trinken und trinken
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith er spielt mit den Schlangen
 
Er ruft spielt süßer den Tod der Tod ist ein Meister aus Deutschland
er ruft streicht dunkler die Geigen dann steigt ihr als Rauch in die Luft
dann habt ihr ein Grab in den Wolken da liegt man nicht eng
 
Schwarze Milch der Frühe wir trinken dich nachts
wir trinken dich mittags der Tod ist ein Meister aus Deutschland
wir trinken dich abends und morgens wir trinken und trinken
der Tod ist ein Meister aus Deutschland sein Auge ist blau
er trifft dich mit bleierner Kugel er trifft dich genau
ein Mann wohnt im Haus dein goldenes Haar Margarete
er hetzt seine Rüden auf uns er schenkt uns ein Grab in der Luft
er spielt mit den Schlangen und träumet der Tod ist ein Meister aus Deutschland
dein goldenes Haar Margarete
dein aschenes Haar Sulamith


FUGA DA MORTE (1)

Tradução de Maria do Sameiro Barroso e Ivo Miguel Barroso



Leite negro da madrugada bebemo-lo ao entardecer
bebemo-lo ao meio-dia e de manhã bebemo-lo à noite
bebemos e bebemos
cavamos um túmulo nos ares aí ninguém fica apertado (2)
Na casa vive um homem (3) que brinca com serpentes (4) e escreve
escreve quando anoitece para a Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarida (5)
escreve e vem para a fora de casa e relampejam (6) as estrelas
assobia pelos seus cães de fila (7)
assobia pelos seus judeus (8) manda cavar um túmulo na terra
ordena-nos tocai agora para a dança (9)

Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te de manhã e ao meio-dia bebemos-te ao entardecer
bebemos e bebemos
Na casa vive um homem que brinca com serpentes e escreve
escreve quando anoitece para a Alemanha os teus cabelos de oiro Margarida
Os teus cabelos de cinza Sulamita cavamos um túmulo nos ares aí ninguém fica apertado
 
Ele grita penetrai mais fundo na terra cantai e tocai
agarra no ferro que traz à cintura balança-o os seus olhos são azuis
enterrai mais fundo as pás continuai a tocar e a dançar (10)
 
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia e de manhã bebemos-te ao anoitecer
bebemos e bebemos
na casa vive um homem os teus cabelos de oiro Margarida
os teus cabelos de cinza Sulamita ele brinca com serpentes
 
Ele grita tocai mais docemente a morte a morte é um mestre da Alemanha
Grita arrancai sons mais graves aos violinos depois subireis
em fumo no ar (11)
Tereis então um túmulo nas nuvens aí ninguém fica apertado
 
Leite negro da madrugada bebemos-te de noite
bebemos-te ao meio-dia a morte é um mestre da Alemanha
bebemos-te ao anoitecer e de manhã bebemos e bebemos
a morte é um mestre da Alemanha o seu olhar é azul
atinge-te com uma bala de chumbo acerta-te em cheio
na casa vive um homem vive os teus cabelos de oiro Margarida
açula contra nós os seus cães de fila oferece-nos um túmulo no ar
brinca com serpentes e sonha – (12) a morte é um mestre da Alemanha
os teus cabelos de oiro Margarida
os teus cabelos de cinza Sulamita.


NOTAS

1) O genitivo de Todesfuge é enganador, como nota JOHN FELSTINER (Paul Celan. Eine Biographie (trad. alemã de Holger Fliessbach da obra Paul Celan: Poet, Survivor, Jew, New Haven, 1996), Verlag C.H. Beck, Munique, 1997. O título poder-se-ia traduzir como “Fuga sobre o tema da morte” (www.copernico.bo.it/subwww/webtodes/filehtml/tradtod.html).
(2) O passo “da liegt man nicht eng” poder-se-ia traduzir também por “aí não se está apertado” ou por “aí não estamos apertados”.
A expressão alude à teoria do “Lebensraum” (“espaço vital”), conceito da autoria de KARL HAUSHOFER (1869-1946), desenvolvendo as teses da geopolítica de FRIEDRICH RATZEL (1844-1904). Professor da Universidade de Munique entre 1921 e 1939, mestre da geopolítica, HAUSHOFER proclama a necessidade de um espaço vital, considerando a existência de uma injustiça na distribuição do mesmo, especialmente em benefício dos pequenos Estado (JOSÉ ADELINO MALTEZ, Curso..., pgs. 279-280). Um dos discípulos foi RUDOLF HESS, que viria a introduzir no nazismo a tese do “espaço vital” (ID., ib.).
A expressão “da liegt man nicht eng”, por oposição a “ein Grab in die Luft”, indica, primeiramente, a exiguidade do espaço, própria dos campos de concentração. É uma referência ao regime nacional-socialista, que precisa do espaço todo; o oiro dos cabelos de MARGARIDA afirmava-se negando o outro, destruindo até à cinza. Os judeus não têm espaço na terra.
(3) O homem vive na casa, protegido e cuidado, em oposição à vida brutal e desumana dos prisioneiros, no campo de concentração.
(4) A serpente é utilizada como símbolo do Mal nas culturais ocidentais; é uma alusão às runas dos SS.
(5) MARGARIDA é o símbolo da mulher alemã (infra).
(6) Referência à Blitzkrieg (guerra-relâmpago). HITLER e os seus colaboradores pretenderam seguir a teoria da estratégia indirecta do britânico BASIL LIDDEL HART: em vez de considerarem que a guerra só terminaria com a destruição das principais forças inimigas no campo de batalha (proposto nos modelos de KARL VON CLAUSEWITZ), trataram de propor a utilização conjunta da aviação e da cavalaria mecânica, visando a desmoralização do inimigo, mas sem o lançamento, no terreno de combate, das principais forças militares (JOSÉ ADELINO MALTEZ, Curso..., pg. 152). PAUL CELAN refere-se às “estrelas humanas”.
(7) Rüden são grandes cães, machos, de guerra ou de caça; refere-se à raça de grandes cães alemães (Bluthünde) das SS (outra possibilidade de tradução seria “grandes cães de fila” ou “molossos”). Segundo relatos de testemunhas, no caminho para a câmara de gás, quando certos prisioneiros tinham crises de pânico, os SS soltavam os seus cães para as despedaçar.
A ideia é a de o homem chamar para junto de si os cães.
(8) Existe uma rima imperfeita entre Rüden e Juden, bem como um um paralelismo entre seine Rüden e seine Juden, indicando um contraste entre os cães, chamados para junto do homem, e os judeus. Os Judeus são sua pertença, sua propriedade (“seine”), tal como os cães; contudo, têm estatutos diferentes: os cães são chamados ajudar homem, ao passo que os Judeus são chamados para serem destruídos.
(9) A leitura de PAUL CELAN é célere quando fala das atrocidades do homem, sugerindo a rapidez da execução (Paul Celan. Ich hörte sagen. Gedicthe und Prose. Gelesen von Paul Celan , Audio Books, Derhorvelag, 1997).
(10) Novamente a leitura de CELAN é mais rápida quando se refere às atrocidades do homem, sugerindo a rapidez da execução.
(11) O acusativo “in die Luft” indica uma progressão no ar.
(12) A leitura do poema pelo Autor indica uma pausa grande neste momento, daí o acrescento do travessão.
(13) PAUL CELAN, Paul Celan. Gedichte. In zwei Bänden, Erster Band, Suhrkamp Verlag, Francoforte sobre o Meno, 1975, pgs. 41-42; Sete Rosas Mais Tarde. Antologia Poética, Selecção, tradução e introdução de João Barrento e Y. K. Centeno, edição bilingue, 2.ª ed., Cotovia, Lisboa, pgs. 52-57; Choix de poèmes. Réunis par l’auteur, trad. de Jean-Pierre Lefebre, ed. bilingue, Gallimard, Paris, 1998, pgs. 53-57; “Todesfuge”, de PAUL CELAN, in 1000 Deutsche Gedichte und ihre Interpretationen, Marcel Reich-Ranicki, Insel Verlag, Achter Band, pgs. 375-377.
(14) Paul Celan. Ich hörte sagen. Gedicthe und Prose. Gelesen von Paul Celan , Audio Books, Derhorvelag, 1997.

 
FONTE: REVISTA TRIPLOV

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