quinta-feira, 13 de junho de 2013

Mar Becker



Mar Becker (Marceli Andresa Becker - 1986) é formada em Filosofia pela UPF (Universidade de Passo Fundo), trabalha como professora. Faz especialização em Metafísica e Epistemologia na Universidade Federal da Fronteira-Sul. Edita a revista eletrônica Mallarmargens, espaço de referência obrigatória ao que se faz de melhor na poesia contemporânea, e publica os seus textos no blog De ter de onde se ir (http://deterdeondeseir.blogspot.com.br/), grande parte deles numa espécie de galeria subterrânea sob constante escavação denominada Cadernos de experimentação. A poesia neles se instala como impuro veneno, constante mover-se de uma criadora tentacular, espalhando corpos e sintaxe, sempre em fuga constante à previsibilidade. Uma poesia que não conduz, mas joga, que não fornece conforto, antes propicia um grau de indeterminação sobre domínios, autodomínios, a pólvora que se espalha pelo corpo, pela biografia, por Eros e tânatos. Recentemente foi reconhecida pelo Suplemento Literário de Minas Gerais como uma das principais vozes da poesia brasileira contemporânea. Já há algum tempo, aliás, o poeta e crítico Claudio Daniel vem chamando a atenção para a excelência dos textos dessa gaúcha capaz de abraçar Wittengenstein e Akhmatova numa mesma respiração. 






POEMAS

[um halo]


1

um halo de braços giratórios: roda negra da fortuna
kali e seu colar de crânios

*

se uma mulher se vê no espelho enquanto ama, o terror mandibular, as caldeiras da engenharia onírica do sangue

se ela encharca a voz
no sangue do homem

e o mistério de repente atravessa sua garganta

*

nove línguas vêm e voltam, vêm e voltam, forma-serpentina da loucura. limbo. filamentos, centenas de tentáculos para se enrolar ao homem

kali, noturnamente
namaha

diríamos: é uma mulher que sonha com as lâminas-luas
das palavras do homem

como se elas fossem
minicrânios

*

fratura, esfarela
aniquila




Sou uma coluna crematória.
queimo teu nome,
aquática.

hidra.

sou o desaguadouro desta espiral de mortos que te antecede. redemoinho. digo que no alto de meu pensamento há uma hóstia: a lâmina de teu minicrânio lunar, liso,

de teus antivocalises de mármore.

*

sou uma hidra de nove línguas, e embaixo de cada uma dessas línguas estão as miniluas-palavras que tu não sabes dizer. os nomes de teus mortos,

intactos.

teus antepassados.

*

é um fluir de espelhos que se ilumina e se turva
na minha saliva.

nas bocas das centenas de mortos
que beijo

através da tua boca.



Deambulações - I


1

o poema desce.

nas coxas da mulher que recém amou, o poema desce
com um terror diabólico.

os vergões em sua pele, branco em branco: as marcas da gadanha que o ferreiro
lapidou por anos nas cavernas,

no silêncio de seus corpos
cavernosos.

porque toda palavra começa pelo sêmen:
o poema desce

como se quisesse psicografar
sua própria origem.


2

os pés da mulher que recém amou se afundam no exercício
de putrefação do poema.

em busca do tacho.

o poema desce como se fosse enterrado
pela boca de quem o escreve,

e como se essa boca fosse uma espécie de fogo.

as palavras, seus séculos
de cozimento.


3

depois o curso das amamentações ocupa esta ideia.

a luz batendo em cheio nas tetas,
vocábulos: variações

da luz.

a lactose deflagra seus aneurismas, pesa.

e o poeta já não sabe
abrir a boca.




S. T., - I



imagine um útero que tem a forma fantasmática de um desentupidor de pia. o cabo acompanha a coluna. a embocadura se gruda aos grandes lábios, internamente. sempre que necessário.



à noite, o diabo pressiona e puxa, pressiona e puxa, com o poder de seu pensamento. pelo cabo-coluna. desde pequena sei que esses são seus jogos de vaivém, antikundalini.

no movimento, me sugo toda para dentro
de mim.



[atribua também a esse desentupidor-fantasma intrauterino
a seguinte característica:

infinitude.]



como se ele me sugasse infinitamente para dentro de mim. como se a buceta que carrego entre as pernas fosse um fruto — o maldito fruto — de minha autofagia




MEMENTO MORI - II

deve ter sido a experiência de fazer o exame periódico. detesto médicos:
a obscenidade precisa de seus bisturis.

*

[um poema apodrecia no interior da música.

caixas acústicas de teto,
antena 1,

"like a bridge over a troubled water..."

*

ligar a cabeça com eletrodos ao apodrecimento do poema.

ligar a cabeça com eletrodos
ao que fede no poema:

ao peso.

o que apelidei carinhosamente
de "carniça lírica".]

*

as enfermeiras conversavam em códigos umas com as outras. eram nove ao todo, se recordo bem: suas cabeças surgiam aqui e ali, pelos corredores — como se pertencessem a um só corpo. uma espécie rara de hidra de lerna.

poderia decepá-las nos meus sonhos.

mulheres mortas, seus olhos cor de pinho sol.
mulheres que se põem.

*

detesto médicos. o fracasso dissecatório da razão. como poderia se abrir? perceba que em nenhum caso teríamos como ver mais de perto.

*

[o sangue produzia ecos dentro das seringas.
no bolso do jaleco, a identificação

em bordado industrial:
"ninguém".]





















DAS IRMÃS - I

1

o fogo.
erguer-se dos desfiladeiros,
o corpo —
como se as partituras regressassem ao mistério das mãos.
à quiromancia dos chamados.

2

boca, comei este pão e tomai este vinho anti-horário;
girai as fabulosas torneiras da vascularidade,
a cabeça exorcista da pequena regan,
180 graus
de febre: este é o meu corpo e este é o meu sangue.

3

na cidade,
todos sussurram nomes de obituários
à noite,

4

o que se consome,
vazio:
ouço.

5

o poema criando raízes nas virilhas
da minha solidão.
as trombetas em que meu sexo se transfigura,
(soprá-las),
o que se anuncia, as boas-novas:
a vingança.

DAS IRMÃS - II

por vezes minhas unhas crescem
mais que o habitual.
lembram as unhas dos mortos:
inoxidáveis —
ganchos onde eu poderia pendurar
tuas vísceras,
(o peso),
levá-las de lá para cá,
(o amor),
como uma espécie de açougue
ambulante.
sabes, sou assim.
tenho sonhos em que me transformo
em lady zumbi.
para cada homem deus ofertou um pedaço fálico
de sua ausência.
tu és um deles:
não perdoo.

DAS IRMÃS - III

regressam à mansão com lamparinas gravitando
em torno da cabeça.
eixo dos satélites do fogo, da suprema
incandescência,
elas: minhas irmãs mortas, gravitando em torno de seus nomes vazios.
como se fossem dizê-los.

*

a luz se despede do sangue.
as minhocas descem para aquele continente
onde o silêncio se avoluma
e produz ecos.

*

"perdoa-nos", suplicam.


DAS IRMÃS - IV

queimam-se as pontas
dos cabelos.
o dossel se abre como as manhãs ou um pássaro enorme.

*

é ela, a irmã que ama.
a irmã louca.
em algum lugar da última palavra que dirá
o vento devasta omoplatas
e fêmures.
um par de rosas brota nas órbitas
de sua caveira.

*

conheço homens que podem suspendê-la da vida e da morte
com seus guindastes, o canto.
os lábios oníricos.

*

prendem-na às cordas furiosas.
giram as roldanas de seu corpo.
puxam-na para o alto, para o alto — eternamente.

DAS IRMÃS - V

fala-se no espírito de uma mendiga.
somente os sexos conseguem
psicografá-lo.

*

fala-se num vale onde os mortos sobem em pernas de pau
e atingem alturas inconcebíveis.
a mediunidade paira sobre suas cabeças:
o enxame de moscas.

*

é tão triste apodrecer.

*

o pão se entrega à sarna noturna.
a fome se entrega à fome.

*

minhas irmãs não suportam se ver nuas.


DAS IRMÃS - VI

gestos da criança que ela não teve se espalham pelo jardim
como uma missa de cinzas.
juntam-se à neblina.

*

às cinco e meia, precisamente, os sinos da melancolia
fulminam a torre.
(nas cordas, as mãos frias
da irmã.)

*

ouvem-se suas badaladas
por toda a terra.








DAS IRMÃS - VII

ninguém pelos corredores a partir das nove
(regras de funcionamento):
o piso em madeira não absorve o impacto do caminhar.
seria impossível dormir com as noviças indo
e voltando do banheiro,
seus chinelinhos tristes,
suas camisolas de chorar pétalas.

*

a ventania abre uma segunda noite entre as folhas do hinário, na mesa da sala.
já nos respectivos quartos, elas abrem as pernas
e se tocam longamente.




DAS IRMÃS - VIII

lounge, lira. fertilização ao modo psytrance. minhas irmãs se dopam com as três partes do segredo de fátima e gargalham.

um abutre vesgo enrodilha as pick-ups. aqui estão mãe, filha e neta. a primeira escorre na segunda, que escorre na terceira. suas palavras datam de milhares de gerações.
*

não se sabe exatamente quantas há. você vê larvas de procedência rara saindo do umbigo do poema. lounge, lira, três vezes autópsia,

psy, psy, psycadáver
de fátima.

litros de loção e cera depilatória descem pelas ruas de ibiza.
elas se ajoelham e oram.

DAS IRMÃS - IX

não levantarás
não estarás vivo
para ver
meu sexo descende da hélice anti-horária, a palavra de judas
o meu e o das irmãs
sei que um dia esses sexos girarão infinitamente
e nós subiremos com o peso
todo o peso do mundo
inclusive o teu
inclusive o teu
tuas pernas de coliseu elétrico
tua outra artilharia
de senhas

as 33 vozes que nasceram e se puseram como um sol

nos teus cabelos
este será o dia, amor
o único dia que terá havido sobre a terra
não levantarás
estarás morto



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