Anna Akhmátova




Anna Akhmátova (1989-1966)   Quatro poemas da poeta russa que atravessou os tempos das grandes transformações históricas na antiga União Soviética, sobreviveu ao stalinismo e deixou-nos algums poemas extraordinários. Poucos flagraram a vida como um processo de perda irremediável como essa grande voz lírica impedida por tantos anos de publicar livros

Livros de/sobre a autora no Brasil: 
Anna , a Voz da Rússia - Vida e Obra de Anna Akhmatova, de Lauro Machado Coelho.. São Paulo: Editora Algol, 2008.
Antologia póetica. tradução de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM, 2009.
Poesia russa moderna. Tradução de Augusto de Campos, Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos  6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2012.


Trabalhos dos pintores russos: Igor Kozlovsky e Marina Sharapova.


 POEMAS


Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo ruturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes recairá o silêncio…
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

1917

(Tradução de Lauro Coelho Machado)


Último brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934

(Tradução de Rubens Figueiredo)


A mulher de Lot

     
“A mulher de Lot, que o seguia, olhou
        para trás e transformou-se numa estátua de sal “
                           Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.

Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:

"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".

Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.

E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.

Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?

E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.



(Tradução de Lauro Machado Coelho)


Do Ciclo "Os Mistérios do Ofício"

Não me importa o exército das odes,
Nem o jogo torneado da elegia.
Nos versos, tudo é fora de propósito,
Não como entre as pessoas,  me dizia.

Saibam vocês, o verso, é do monturo
Que ele se alenta, sem vexame disso,
Como um dente-de-leão pegado ao muro,
Anserina, bardana, erva-de-lixo.

Grito de zangta, um travo de alcatrão,
Um bolor misterioso que esverdinha...
E eis o verso, furor e mansidão,
Para alegria de vocês e minha.

1940

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


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