terça-feira, 14 de abril de 2015

Gastão Cruz















Ao que eu saiba, do poeta português Gastão Cruz (1941) só um único livro foi publicado no Brasil: A moeda do tempo e outros poemas, antologia organizada por Jorge Fernandes da Silveira, professor de literatura portuguesa da UFRJ, para a Editora Língua Geral, em 2009, da qual colhi os poemas utilizados na pequena mostra. Pouco, muito pouco para um poeta com tantos leitores por aqui.


Lucio Fontana


















Paráfrase

Deito um peixe no eixo do meu peito
aí o deixo devorar primeiro a vida
os coágulos depois o osso enfim
os arcos das costelas
o esterno
já ferido pelos dias

É ele o meu pulmão o músculo do meu
sangue perdido
barbatanas escamas guelras eixo
peixe
deitado no meu peito e vivo
entre ruínas

(In Teoria da fala, 1972)


Transe

Num tempo neutro acordo
entre a noite e o dia
sob um céu ilegítimo condensa-se
a mudança
Nuvens totais exprimem
a presente longínqua
madrugada
as aves sobrevivem na queda
ao
tempo branco

Acordo sob um céu sob o tecto
dum quarto
É uma imagem pobre uma velha
metáfora No exterior porém
das paredes toalhas além
dos vidros turvos de nuvens
apagadas
agride-me a imagem invisível
opaca
da madrugada externa
que
no dia se espalha
como uma norma espessa
uma neutra linguagem

O céu é como um poço como um mar
como um lago
comparações banais mas as mais
eficazes onde aves
como peixes
transitam lentamente errando
nas palavras

Procuro adormecer
O silêncio do
dia inutiliza a vida
Provavelmente nada
mudará ou talvez
tudo tenha mudado há muito
ou vá mudando
sob o lago do céu onde os
peixes descrevem
ilegítimos voos como velhas
metáforas

(In Órgão de luzes, 1981)


Rios

Se te enganam as ruas de Lisboa
como tropos dum estilo conhecido
hipérboles desfeitas
áridas metonímias

nos rios do verão metáforas ainda
procura do metal do corpo o velho mito
Talvez olhando em torno
não vejas os indícios

da água que desfaz devagar estas vias
talvez ela não corra
nos seus leitos fictícios

Desse espelho molhado colhe o brilho
como as folhas de julho alheio à
velocidade da vida

(In Referentes, 1983)


Lucio Fontana






















O pianista

Senta-se imita
o autor Os
holofotes douram-no
é a vítima
dos expansivos círculos do som

Em torno dele o som é como
um laço
Está sentado na margem do
teclado detendo com os braços
a força ameaçadora das águas

(In O pianista, 1984)


Os sonhos são a minha biografia

                Cf. Mallarmé e Rilke

Na luz tépida passa, bibelot abolido,
das inanes palavras o sentido
A confusão dos sonhos, só,
é o destino
crepuscular desses perfis, o seu exílio

O som dos sonhos, inaudível, guia
no seu destino as palavras que fogem
A poesia aproxima-as
do coração da vida
que as destrói com a sua existência mais forte

(In As pedras negras, 1995)


Erros

Não sei se má fortuna erros decerto
erros somente? Pode o amor ardente,
algum tempo omitido, descoberto
cobrir de novo a pele neste presente,

que de pouco já serve a sua chama
lugar comum tão pobre e tão verídico
que sopras e apagas como a cama
negas ao corpo Foge o tempo mítico

em que tudo era eterno e só durou
o espaço da manhã do teu sorriso
como a rosa que tarde já chegou
e pousou devagar no corpo liso

e frio não de morte ou de indiferença
frio só porque tudo tem um tempo
até as rosas e não há presença
nem chama do amor que o torne eterno

(In Crateras, 2000)


Lucio Fontana

















Metal fundente

Gostava de explicar-te e de poder
eu próprio compreender
por que momentos houve em que perder-te
era metal fundente como o que disse um poeta
Entre nós e as palavras existir

Eu seria as palavras tu os corpos
fundentes de nós dois, pela separação
futura liquefeitos
Era de cada vez como se a vida
também fundisse e o seu metal escorresse
sobre a pele da perda talvez isso
explicasse como o chumbo
da ilusão derrete e nos libert
até desse momento em que tememos
nada mais ter

Mas como poderia
eu amar-te e achar-te já de mais
sentir estando tu tão perto ainda
a onda
da ausência contornar-me

O céu em certos dias produzia
o efeito dum espelho em que voltávamos
invernos
ao verão que tu julgaras
então igual à vida e era apenas
a infância perdida sobre o mar

(In Rua de Portugal, 2002)


A colher

Reabro uma
gaveta da infância
e encontro a colher em desuso caída
a sopa lentamente se escoando
no prato fundo:

a vida
em certos dias tinha a forma
daquele objecto antigo
tocando-me nos
lábios com um calor excessivo.

(In Repercussão, 2004)



sexta-feira, 10 de abril de 2015

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Anna Akhmátova




Anna Akhmátova (1989-1966)   Quatro poemas da poeta russa que atravessou os tempos das grandes transformações históricas na antiga União Soviética, sobreviveu ao stalinismo e deixou-nos algums poemas extraordinários. Poucos flagraram a vida como um processo de perda irremediável como essa grande voz lírica impedida por tantos anos de publicar livros

Livros de/sobre a autora no Brasil: 
Anna , a Voz da Rússia - Vida e Obra de Anna Akhmatova, de Lauro Machado Coelho.. São Paulo: Editora Algol, 2008.
Antologia póetica. tradução de Lauro Machado Coelho. Porto Alegre: L&PM, 2009.
Poesia russa moderna. Tradução de Augusto de Campos, Boris Schnaiderman e Haroldo de Campos  6ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2012.


Trabalhos dos pintores russos: Igor Kozlovsky e Marina Sharapova.


 POEMAS


Vinte e um. Noite. Segunda-feira.
A silhueta da cidade na neblina.
Algum desocupado inventou
essa história de que há amor no mundo.
E por preguiça ou por tédio,
todos acreditaram nele e assim viveram:
esperando encontros, temendo ruturas
e cantando canções de amor.
Mas a outros será revelado o segredo
e sobre estes recairá o silêncio…
Eu tropecei nele casualmente e, desde então,
sinto-me como se estivesse doente.

1917

(Tradução de Lauro Coelho Machado)


Último brinde

Bebo ao lar em pedaços,
À minha vida feroz,
À solidão dos abraços
E a ti, num brinde, ergo a voz...

Ao lábio que me traiu,
Aos mortos que nada veem,
Ao mundo, estúpido e vil,
A Deus, por não salvar ninguém.

1934

(Tradução de Rubens Figueiredo)


A mulher de Lot

     
“A mulher de Lot, que o seguia, olhou
        para trás e transformou-se numa estátua de sal “
                           Gênesis

E o homem justo seguiu o enviado de Deus,
alto e brilhante, pelas negras montanhas.

Mas a angústia falava bem alto à sua mulher:

"Ainda não é tarde demais; ainda dá tempo de olhar
as rubras torres da tua Sodoma natal,
a praça onde cantavas, o pátio onde fiavas,
as janelas vazias da casa elevada
onde destes filhos ao homem amado".

Ela olhou e - paralisada pela dor mortal -,
seus olhos nada mais puderam ver.

E converte-se o corpo em transparente sal
e os ágeis pés no chão enraizaram-se.

Quem há de chorar por essa mulher?
Não é insignificante demais para que a lamentem?

E, no entanto, meu coração nunca esquecerá
quem deu a própria vida por um único olhar.



(Tradução de Lauro Machado Coelho)


Do Ciclo "Os Mistérios do Ofício"

Não me importa o exército das odes,
Nem o jogo torneado da elegia.
Nos versos, tudo é fora de propósito,
Não como entre as pessoas,  me dizia.

Saibam vocês, o verso, é do monturo
Que ele se alenta, sem vexame disso,
Como um dente-de-leão pegado ao muro,
Anserina, bardana, erva-de-lixo.

Grito de zangta, um travo de alcatrão,
Um bolor misterioso que esverdinha...
E eis o verso, furor e mansidão,
Para alegria de vocês e minha.

1940

(Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)


quinta-feira, 2 de abril de 2015

Cinco pontas de César Vallejo




















Espergesia

Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Todos saben que vivo,
que soy malo; y no saben
del diciembre de este enero.
Pues yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Hay un vacío
en mi aire metafísico
que nadie ha de palpar:
el claustro de un silencio
que habló a flor de fuego.
Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Hermano, escucha, escucha…
Bueno. Y que no me vaya
sin llevar diciembres,
sin dejar eneros.
Pues yo nací un día
que Dios estuvo enfermo.

Todos saben que vivo,
que mastico… Y no saben
por qué en mi verso chirrían,
oscuro sinsabor de féretro,
luyidos vientos
desenroscados de la Esfinge
preguntona del Desierto.

Todos saben… Y no saben
que la Luz es tísica,
y la Sombra gorda…
Y no saben que el Misterio sintetiza…
que él es la joroba
musical y triste que a distancia denuncia
el paso meridiano de las lindes a las Lindes.

Yo nací un día
que Dios estuvo enfermo,
grave.


Piedra negra sobre una piedra blanca

Me moriré en París con aguacero,
un día del cual tengo ya el recuerdo.
Me moriré en París -y no me corro-
tal vez un jueves, como es hoy, de otoño.

Jueves será, porque hoy, jueves, que proso
estos versos, los húmeros me he puesto
a la mala y, jamás como hoy, me he vuelto,
con todo mi camino, a verme solo.

César Vallejo ha muerto, le pegaban
todos sin que él les haga nada;
le daban duro con un palo y duro

también con una soga; son testigos
los días jueves y los huesos húmeros,
la soledad, la lluvia, los caminos...


Y si después de tantas palabras...

Y si después de tantas palabras, 
no sobrevive la palabra!
¡Si después de las alas de los pájaros,
no sobrevive el pájaro parado!
¡Más valdría, en verdad,
que se lo coman todo y acabemos!

¡Haber nacido para vivir de nuestra muerte!
¡Levantarse del cielo hacia la tierra
por sus propios desastres
y espiar el momento de apagar con su sombra su tiniebla!
¡Más valdría, francamente,
que se lo coman todo y qué más da...!

¡Y si después de tanta historia, sucumbimos,
no ya de eternidad,
sino de esas cosas sencillas, como estar
en la casa o ponerse a cavilar!
¡Y si luego encontramos,
de buenas a primeras, que vivimos,
a juzgar por la altura de los astros,
por el peine y las manchas del pañuelo!
¡Más valdría, en verdad,
que se lo coman todo, desde luego!

Se dirá que tenemos
en uno de los ojos mucha pena
y también en el otro, mucha pena
y en los dos, cuando miran, mucha pena...
Entonces... ¡Claro!... Entonces... ¡ni palabra!


Intensidad y altura

Quiero escribir, pero me sale espuma,
Quiero decir muchísimo y me atollo;
No hay cifra hablada que no sea suma,
No hay pirámide escrita, sin cogollo.
Quiero escribir, pero me siento puma;
Quiero laurearme, pero me encebollo.
No hay toz hablada, que no llegue a bruma,
No hay dios ni hijo de dios, sin desarrollo.
Vámonos, pues, por eso, a comer yerba,
Carne de llanto, fruta de gemido,
Nuestra alma melancólica en conserva.
Vámonos! Vámonos! Estoy herido;
Vámonos a beber lo ya bebido,
Vámonos, cuervo, a fecundar tu cuerva.



Hoy me gusta la vida mucho menos...

Hoy me gusta la vida mucho menos,
pero siempre me gusta vivir: ya lo decía.
Casi toqué la parte de mi todo y me contuve
con un tiro en la lengua detrás de mi palabra.

Hoy me palpo el mentón en retirada
y en estos momentáneos pantalones yo me digo:
¡Tanta vida y jamás!
¡Tantos años y siempre mis semanas!...
Mis padres enterrados con su piedra
y su triste estirón que no ha acabado;
de cuerpo entero hermanos, mis hermanos,
y, en fin, mi ser parado y en chaleco.

Me gusta la vida enormemente
pero, desde luego,
con mi muerte querida y mi café
y viendo los castaños frondosos de París
y diciendo:
Es un ojo éste, aquél; una frente ésta, aquélla...    
Y repitiendo:
¡Tanta vida y jamás me falla la tonada!
¡Tantos años y siempre, siempre, siempre!

Dije chaleco, dije
todo, parte, ansia, dije casi,  por  no  llorar.
Que es verdad que sufrí en aquel hospital que queda al lado
y está bien y está mal haber mirado
de abajo para arriba mi organismo.

Me gustará vivir siempre, así fuese de barriga,
porque, como iba diciendo y lo repito,
¡tanta vida y jamás! ¡Y tantos años,
y siempre, mucho tiempo, siempre, siempre!