Antonio Gamoneda





Incandescencia y ruinas

I

Yo invoco la cabeza
más sagrada que exista
debajo de la nieve.

Mi corazón azul
canta purificado por el silencio.

II

Vándalo de pureza,
hostígame. Si hablas,
yo bajaré mis labios
hasta el agua salvaje.

De aquella gruta donde
abrasa la frescura,
ha de surgir un rey
sucio de profecías.

Oh corazón que ves
en toda oscuridad,
cuándo estaremos ciegos
en luz, cuándo hablarás,
habitante del fuego.

III

Un perro milagroso
come en mi corazón.

Ceremonia salvaje:
mi dolor se incorpora
al perro enamorado.

IV

En la cavidad que sabes,
suena una voz. Lengua fría,
tú, que silbas en la noche,
metal vivo de palabras,
dime, loco ruiseñor
del invierno, dime, tú,
que quizá participas
de una materia luminosa,
a quién anuncias ya
además de a la muerte.

Na cavidade que sabes,
ecoa uma voz. Língua fria,
tu, que silvas na noite,
metal vivo de palavras,
dizei-me, louco rouxinol
do inverno, dizei-me, tu,
que talvez participes
de matéria luminosa,
a quem anuncias agora
a não ser a morte.

V

Anticanto de amor,
quién te beberá, quién
pondrá la boca en esta
espuma prohibida.
Quién, qué dios, qué
enloquecidas alas
podrán venir, amar
aquí.

Donde no hay nada.



In Sublevación inmóvil (1960)
























     Tradução de José Antônio Cavalcanti


Incandescência e ruínas (tradução minha)

I

Invoco a cabeça
mais sagrada que exista
sob a neve.

Meu coração azul
canta purificado pelo silêncio.

II

Vândalo de pureza,
fustiga-me. Se falas,
baixarei meus lábios
até a água selvagem.

Da gruta onde
queima o frescor,
há de surgir um rei
sujo de profecias.

Oh coração que vês
em toda a escuridão,
quando estaremos cegos
na luz, quando falarás,
habitante do fogo.

III

Um cão milagroso
come em meu coração.

Cerimônia selvagem:
minha dor se incorpora
ao cão apaixonado.

IV

Na cavidade que conheces,
ecoa uma voz. Língua fria,
tu, que silvas na noite,
metal vivo de palavras,
dizei-me, louco rouxinol
do inverno, dizei-me, tu,
que talvez participes
de matéria luminosa,
a quem anuncias agora
a não ser a morte.

V

Anticanto de amor,
quem te beberá, quem
colocará a boca nesta
espuma proibida.
Quem, que deus, que
asas alucinadas
poderão vir, amar
aqui.



Onde não há nada.






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