sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

Luis Cernuda
















No decía palabras 

No decía palabras,
acercaba tan sólo un cuerpo interrogante,
porque ignoraba que el deseo es una pregunta
cuya respuesta no existe,
una hoja cuya rama no existe,
un mundo cuyo cielo no existe.

La angustia se abre paso entre los huesos,
remonta por las venas
hasta abrirse en la piel,
surtidores de sueño
hechos carne en interrogación vuelta a las nubes.

Un roce al paso,
una mirada fugaz entre las sombras,
bastan para que el cuerpo se abra en dos,
ávido de recibir en sí mismo
otro cuerpo que sueñe;
mitad y mitad, sueño y sueño, carne y carne,
iguales en figura, iguales en amor, iguales en deseo.
Auque sólo sea una esperanza
porque el deseo es pregunta cuya respuesta nadie sabe.

In Los placeres prohibidos, 1931. 


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Alexandre O´Neill






















Poema de Alexandre O´Neill, publicado em "Abandono Vigiado" (1960).

O poema pouco original do medo

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregados
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis)
custureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo

(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim

a ratos



sábado, 6 de fevereiro de 2016

Catulo





















O pornolirismo de Catulo transcriado por Décio Pignatari

Eu lhe peço, doce Ipsitila,
Delícia e graça da minha vida,
Que você marque um encontro à tarde,
Em sua casa. Se sim, não tranque
A porta, por favor, e não pense
Em sair, em hipótese alguma:
Permaneça em casa e se prepare
Para nove trepadas seguidas.
 Mas, se achar melhor, vou neste instante:
Almoçado e deitado, já estou
perfurandoatúnicaeomanto!*

(*) Imagine-se o poeta a falar a Ipsitila ao telefone, com entonações de la voix humaine: a gradação de efeitos fica mais clara.


In PIGNATARI, Décio..31 poetas 214 poemas: do Gigveda e Safo a Apollinaire. 2a. ed. Campinas-SP: Unicamp, 2007, p. 67.

O poema de Catulo

Carmina 32

Amabo, mea dulcis Ipsitilla,
meae deliciae, mei lepores,
iube ad te veniam meridiatum.
Et si iusseris, illud adivuato,
ne quis liminis obseret tabellam,
neu tibi lubeat foras abire,
sed domi maneas paresque nobis
novem continuas fututiones.
Verum si quid ages, statim iubeto:
nam pransus iaceo et satur supinus
pertundo tunicamque palliumque.


Sylvia Plath
















Poema de Silvia Plath traduzido por Rodrigo Garcia Lopes e Maurício Arruda Mendonça.

Os mensageiros

Palavra de lesma numa lâmina de grama?
Não é minha. Não aceite.

Ácido acético numa lata selada?
Não aceite. Não é genuíno.

Anel de ouro com reflexo de sol?
Loas. Loas e mágoa.

Geada na folha, o caldeirão
Imaculado, estalando e falando

Sozinho no alto de cada um
Dos nove Alpes negros.

Distúrbio nos espelhos,
O mar estilhaçando seu cinza ˗˗

Amor, amor, minha estação.

The courriers

The word of a snail on the plate of a leaf?
It is not mine. Do no accept it.

Acetic acid in a sealed tin?
Do not accept it. It is not genuine.

A ring of gold with the sun in it?
Lies. Lies and a grief.

Frost on a leaf, the immaculate
Cauldron, talking and cracking

All to itself on the top of each
Of nine black Alps.

A disturbance in mirrors,
The sea shattering its gray one -

Love, love, my season.


In PLATH, Sylvia. Poemas. 2a. ed. São Paulo: Iluminuras, 2007, p. 67.