sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Gary Snyder

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Um dos fundadores e um dos últimos representantes vivos do movimento beat – o mais importante movimento literário e comportamental do pós-guerra nos Estados, o poeta, antropólogo, tradutor e ensaísta Gary Snyder pertence a uma estirpe de intelectual cada vez mais rara em nossos dias: a do poeta público, imerso nas questões de seu tempo, servindo de intérprete ou xamã de nossa complexa paisagem cultural. No seu caso, defende seu papel tem sido o de ser uma testemunha da natureza, do mundo não humano.
Ele já foi chamado de “o Thoreau da geração beat”. Faz sentido. Incansável ativista ecológico, Snyder vem repetindo pelo menos desde os anos 50 e 60 um mantra que se tornou comum nos dias de hoje: devido à nossa obsessão com o consumo e materialismo e nossa violência sistemática contra a natureza (ou o que ele chama de “guerra contra a natureza”) o ser humano está com os dias contados.
Incluindo gêneros como poesia, ensaio, diário, tradução e prosa, sua obra corresponde aos principais movimentos contraculturais americanos: dos beats, nos anos 50 e hippies, nos anos 60, até os movimentos ecológicos dos anos 80 (como o Ecologia Profunda) e os movimentos antiglobalização dos anos 90. Sua literatura está marcada por uma assimilação e um diálogo profundo com as religiões e as culturas do Extremo Oriente e dos índios norte-americanos, além de uma ênfase na ligação entre ética e estética num grau máximo. Poesia, na sua definição, é “um instrumento de sobrevivência ecológica”, “o uso inspirado e hábil da voz e da linguagem para incorporar estados mentais raros e poderosos”. Sua poesia meditativa soube fundir o legado de Whitman, Thoreau, Ezra Pound, William Carlos Williams com os preceitos básicos do budismo, da filosofia e da poesia oriental, além da mitologia dos índios norte-americanos. Poucos fizeram tal fusão com tamanha competência.
Desde que foi celebrado como herói contracultural no romance The Dharma Bums (Os Vagabundos Iluminados), de Jack Kerouac (1958), na figura do personagem Japhy Ryder, muita água rolou: depois de ser marinheiro, lenhador, guarda florestal e passar mais de dez anos vivendo no Japão como um monge zen-budista, traduziu poesia japonesa e chinesa (Han Shan, entre outros), viajou pela Índia e retornou para os Estados Unidos. Depois, construiu seu rancho nas montanhas de Sierra Nevada, na Califórnia, onde vive até hoje, teve filhos, ganhou o Prêmio Pulitzer em 1975 (por seu livro Turtle Island), e foi membro do conselho de artes da Califórnia. Atualmente, Snyder faz leituras e conferências por todo o país.


Texto retirado de Protopia.


LMFBR

Death himself,
                (Liquid Metal Fast Breeder Reactor)
                stans grinning, beckoning.
Plutonium tooth-glow.
Eyebrows buzzing.
Strip-mining scythe.
Kālī dances on the dead stiff cock.
                Aluminium beer cans, plastic spoons,
plywood veneer, PVC pipe, vinyl seat covers,
                               don’t exactly burn, don’t quite rot,
                               flood over us,
                               robes and garbs
                               of the Kālī-yūga
                                     end of days.

* * *

Tradução: Fabio Malavoglia

RRRML

A morte em si,
                (Reator de Resfriamento Rápido por Metal Líquido)
                gargalha, de pé, chamando.
Dente de esmalte-plutônio.
Supercílios zumbindo.
Cimitarra de talho fino.
Kālī dança sobre a rola dura e morta.
                Alumínio de latas, plástico de colheres,
compensado em folhas, PVC de canos, vinil de capas de assentos,
                não queimam bem, e nem sequer apodrecem,
                vertem-se sobre nós.
                roupas e mantos
                do Kālī-yūga

                    fim dos dias.


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