CESÁRIO VERDE















Cesário Verde foi um autor que descobri muito tarde, mas encantou-me pela simplicidade e pelo objetivismo com o qual aliou uma espécie de realismo descritivo a um profundo apuro de linguagem. Fora isso, em certo momento, uma das tendências de Verde - a adoração de figuras femininas nórdicas - caiu como uma bomba na minha vida. Quando li o poema abaixo, todos os elementos plásticos, imagísticos e descritivos pareciam ter sido criados há mais de um século atrás somente para traduzir uma experiência que irromperia na minha vida no finalzinho do século XX. Que bom ter na poesia uma experiência de vida, algo que não se restringe ao estreito e, por vezes, árido universo acadêmico! A poesia não é somente a arte da palavra, ultrapassa e rasga essa definição sintética - é, na verdade, a arte da mais-palavra ou da além-palavra.

É muito provável que o poema reproduzido não seja o mais representativo de Cesário Verde, para mim, contudo, o contraste entre o desfile de indiferença da musa-modelo e a baba envenenada e rancorosa do pretendente rejeitado é uma delícia.


DESLUMBRAMENTOS


Milady, é perigoso contemplá-la,

Quando passa aromática e normal,

Com seu tipo tão nobre e tão de sala,

Com seus gestos de neve e de metal.


Sem que nisso a desgoste ou desenfade,

Quantas vezes, seguindo-lhe as passadas,

Eu vejo-a, com real solenidade,

Ir impondo toilettes complicadas!...


Em si tudo me atrai como um tesoiro:

O seu ar pensativo e senhoril,

A sua voz que tem um timbre de oiro

E o seu nevado e lúcido perfil!














Ah! Como me estonteia e me fascina...

E é, na graça distinta do seu porte,

Como a Moda supérflua e feminina,

E tão alta e serena como a Morte!...



Eu ontem encontrei-a, quando vinha,

Britânica, e fazendo-me assombrar;

Grande dama fatal, sempre sozinha,

E com firmeza e música no andar!


O seu olhar possui, num jogo ardente,

Um arcanjo e um demônio a iluminá-lo;

Como um florete, fere agudamente,

E afaga como o pêlo dum regalo!


Pois bem. Conserve o gelo por esposo,

E mostre, se eu beijar-lhe as brancas mãos,

O modo diplomático e orgulhoso

Que Ana de Áustria mostrava aos cortesãos.


E enfim prossiga altiva como a Fama,

Sem sorrisos, dramática, cortante;

Que eu procuro fundir na minha chama

Seu ermo coração, como um brilhante.


Mas cuidado, milady, não se afoite,

Que hão-de acabar os bárbaros reais,

E os povos humilhados, pela noite,

Para a vingança aguçam os punhais.


E um dia, ó flor do Luxo, nas estradas,

Sob o cetim do Azul e as andorinhas,

Eu hei-de ver errar, alucinadas,

E arrastando farrapos — as rainhas!


In: O livro de Cesário Verde. Rio de Janeiro, Nova Aguilar; Brasília, INL, 1976, p. 25-26.


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