BOCAGE



























Manuel Maria Barbosa du Bocage (1765-1805)

Bocage é daqueles poetas cuja biografia fascinante chega a prejudicar a apreciação aprofundada de seus versos, uma vez que concentra a atenção do leitor nos aspectos mais picantes e rocambolescos da tumultuada existência do bardo lusitano e, consequentemente, induz a uma leitura dos textos filtrada(infiltrada) pelo anedótico, pelo pitoresco, pelo registro puramente biográfico.
O árcade Elmano Sadino criou grandes inimizades no meio literário, principalmente com os padres Domingos Caldas e José Agostinho de Macedo, esta a mais intensa. Denunciado por seus inúmeros adversários ao Tribunal do Santo Ofício, Bocage foi considerado “HERÉTICO PERIGOSO E DISSOLUTO”. Tentou fugir das garras da Inquisição, contudo foi encarcerado em 1797. Graças à intervenção de amigos relacionados à nobreza., obteve a clemência da Inquisição
Com a saúde abalada pela entrega ao álcool e ao tabagismo, um aneurisma levou-o à morte em 1805.
O nome do poeta sempre foi associado, entre nós, a composições chulas, à devassidão e à licenciosidade. Essa ainda é a imagem de Bocage no imaginário popular brasileiro. Isso é uma imensa injustiça, pois Bocage é considerado um dos maiores sonetistas da língua portuguesa (ou de qualquer outra língua). Basta ler os três sonetos selecionados para comprovar o alto voo dessa poesia magnífica.


TRÊS SONETOS

I

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno:

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura;
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno:

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento
E somente no altar amando os frades;

Eis Bocage, em que luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou mais pachorrento.

II

Já Bocage não sou!... À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento...
Eu aos céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.

Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa... Tivera algum merecimento
Se um raio da razão seguisse pura!

Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:

Outro Aretino fui... A santidade
Manchei!... Oh! Se me creste, gente ímpia,
Rasga meus versos, crê na eternidade.

III

Meu ser evaporei na vida insana
Do tropel de paixões, que me arrrastava.
Ah! Cego eu cria, ah! mísero eu sonhava
Em mim quase imortal a essência humana.

De que inúmeros sóis a mente ufana
Existência falaz me não dourava!
Mas eis sucumbe Natureza escrava
Ao mal, que a vida em sua origem dana.

Prazeres, sócios meus e meus tiranos!
Esta alma, que sedenta em si não coube,
No abismo vos sumiu dos desenganos.

Deus, ó Deus!... Quando a morte à luz me roube
Ganhe um momento o que perderam anos,
Saiba morrer o que viver não soube.



FONTE: Os três sonetos foram retirados do livro: Sonetos de Bocage. Apresentação, seleção e notas de Fernando Mendes de Almeida. Ilustrações de Aldemir Martins. Rio de Janeiro: Ediouro, s/d.


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