CACASO













Figura exponencial da "poesia marginal", Cacaso deixou em seus poemas as marcas de uma questão que merece ser investigada: a da construção da poesia (e das demais artes) como signo da cidade, como caligrafia do indivíduo perdido na ordem urbana que ele mesmo criou. A poesia seria uma mapa para evitar a perda num mundo perdido. Esse problema aponta para outros: o da visibilidade de poeta e poesia no espaço urbano; o da poesia como arte de resistência; o da construção da memória como reinvenção da cidade; o da ideologia incrustada nos gestos e discursos.
De Cacaso, poeta que tão cedo nos deixou, Poemargem publica esse belíssimo poema, retirado de seu melhor livro, a meu juízo: Grupo escolar.


















Night Couple, Rubens Gerchman



CINEMA MUDO



I



Um telegrama urgente
anuncia a bem amada
para o século vindouro.
Arfando diante do espelho
principio
a pentear os cabelos.
O oceano se banha nas próprias águas.




II



Acordei grávido e uma dúvida
dilacera minhas partes: quem seria a mãe
de meu filho?
Demônios graduados me visitam
enquanto retoco para a posteridade
a maquiagem do arco-íris.




III



Vejo seu retrato como seu eu
já tivesse morrido.
Grinaldas batem continência.
Livre na sua memória escolho a forma
que mais me convém: querubim
gaivotas blindadas
suave o tempo suspende a engrenagem.
Do outro lado do jardim já degusto
os inocentes grãos da demência.




IV



Neste retrato de noivado divulgamos
os nossos corpos solteiros.
Na hierarquia dos sexos, transparente,
escorrego
para o passado.
Na falta de quem nos olhe
vamos ficando perfeitos e belos
Tão belos e tão perfeitos
como a tarde quando pressente
as glândulas aéreas da noite.
Trago comigo um retrato
que me carrega com ele bem antes
de o possuir bem depois de o ter perdido.
Toda felicidade é memória e projeto.

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