DANTE MILANO



























Dante Milano (1899-1991), descendente de família de músicos, vivia no Leme. Traduziu Dante e Baudelaire.
Conviveu com Manuel Bandeira, Aníbal Machado, Villa-Lobos, Portinari, Jaime Ovalle, Drummond, entre outros.
Infelizmente a sua poesia nunca teve (e ainda não tem} a circulação que merece, talvez porque tenha se constituído à margem de inovações literárias modernistas, apesar de dotada em grau intenso das marcas de modernidade poética, dona de um caráter “antilírico, nua e desértica” (segundo o crítico Franklin de Oliveira).
Sobre ele Manuel Bandeira afirmou: “Dante Milano é, seguramente, o mais retraído dos nossos poetas; e por tão retraído, tão pouco conhecido do grande público, ainda que altamente prezado pela nata de seus confrades”. Talvez por conta desse retraimento só tenha publicado livro aos cinqüenta anos e sua obra seja um caso típico de texto só freqüentado por poetas (ainda assim, bem poucos).
Segundo Mário de Andrade, a sua poesia era “pensamenteada”; manifesta referência ao caráter reflexivo de que era dotada, qualidade também observada por Manuel Bandeira ao afirmar que o poeta parecia “escrever seus versos naquele indefinível momento em que o pensamento se faz emoção”.
Para Vinícius de Morais, que o considerava poeta bissexto, Dante Milano era “notável pela unidade de sua forma poética de grande pureza”.
Augusto Frederico Schmidt, Sérgio Buarque de Holanda e Paulo Mendes Campos souberam valorizar este poeta. A mim também agrada bastante o ritmo por vezes áspero, herdado das grandes leituras de Dante, e a densa reflexividade do poeta.
Todos os poemas aqui publicados foram retirados de uma excelente edição, organizada por Virgílio Costa, sob o título de Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: UERJ, 1979. Acredito que não esteja mais no mercado. A Academia Brasileira de Letras publicou, em 2004, a Obra Reunida do poeta.


Folhagem, Cícero Dias


























SONETO

Horizonte cerrado, baixo muro,
A névoa como uma montanha andando,
O céu molhado como mar escuro.
Por muito tempo fiquei olhando

A terra transformada num monturo.
Por muito tempo ainda ficou ventando.
Cravei no espaço lívido o olhar duro
E vi a folha no ar gesticulando,

Ainda agarrada ao galho, antes do salto
No abismo, a debater-se contra o assalto
Do vento que estremece o mundo, e então

Sumir-se em meio àquele sobressalto,
Depois de muito sacudido no alto
E de muito arrastada pelo chão...

(p. 31)



VOCABULÁRIO

Áridas palavras,
Refratárias, secas
Arestas de fragas
Secretando uma água
Morosa, suada,
Que não mata a sede.

São pedras na boca.
Rolam balbuciantes
Buscando um sentido.
Uma quer ser beijo.
Outra quer ser lágrima.

Não basta dizê-las.
Elas querem ser
Mais do que palavras.

Como captarei
A idéia sem fim
(Não sei de onde vem)
Que tenta exprimir-se...

Áridas palavras
Para as bocas ávidas,

E quando elas brotam
Não são mais que as notas
De uma extinta música...

( p. 151)



REFLEXO

Esta tarde parece a última tarde.

Dentro de mim como um lago vejo
Um apagado ser, feito de nada.

Não sei o que a água escreve sem palavras.

A idéia que eu persigo imita o vôo
Lento de uma asa refletida na água
Mais nua e fria do que o céu cinzento.

A vida não tem fundo, ó vãs alturas!

A vida quase não é vivida.
E tudo fica mais distante.

Cai a tinta da treva sobre o mundo.
Também dentro de mim tudo se apaga.
Some-se na água a sombra que eu cavava.

Esta noite parece a última noite.

(p. 134)


"Cidade", Cícero Dias




























A CIDADE


Ao ver os altos castelos
Do Alhambra, dos Alijares
Lavrados à maravilha,
El-rei Don Juan dizia:
“Se tu quiseres, Granada,
Contigo me casaria
E te daria como arras
Córdova e Sevilha!”

“Não sou solteira nem viúva,
Sou casada, rei Don Juan,
Com Abenámar o Mouro,
Senhor que muito me quer.”

Maior felicidade
Que amar uma mulher,
Amor de longo olhar
E presente saudade,
Amor muito maior
É amar uma cidade!

(p. 175)

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