DRUMMOND E MONTALE














Dois poetas



Hoje resolvi publicar textos de Drummond e Montale. Do primeiro, incluí um texto retirado do livro A paixão medida, edição publicada em 1980, pela Record, com excelentes ilustrações de Luis Trimano. O poema é um dos pontos altos dessa obra meio desigual, marcada por ser uma reunião de poemas com propostas e temas díspares, o que, no entanto, não a transforma em obra menor, já que o selo de Drummond ilumina algumas composições
.

A palavra

Já não quero dicionários
consultados em vão.
Quero só a palavra
que nunca estará neles
nem se pode inventar.

Que resumiria o mundo
e o substituiria.
Mais sol do que o sol,
dentro da qual vivêssemos
todos em comunhão,
mudos,
saboreando-a.


De Montale, pesquei dois poemas extraídos da edição bilíngüe publicada pela Record, em 1997, intitulada Poesias, com seleção, tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti e prefácio de Luciana Stegagno Picchio. Não se trata do Montale associado à paisagem da Ligúria, cujo colorido de natureza pálida e essencializada acaba por refletir uma visão desencantada do poeta sobre a condição humana. Também não revelam o poeta sensível à teoria eliotiana do correlativo-objetivo e autor de poesias abstratas e metafísicas, a ponto de ser considerado a expressão máxima do hermetismo na poesia italiana do século passado. Os trabalhos selecionados apresentam um Montale capaz de produzir uma reflexão antipoética e anti-retórica com o recurso da metalinguagem e do humor cético, traços que o aproximam de alguns momentos de João Cabral. No entanto, os dois poemas podem dialogar com o de Drummond tanto na semelhança, a busca de entendimento do universo poético, quanto na diferença entre a perspectiva de fruição solidária drummondiana e a visão seca e descarnada da poética de Montale.


La poesia

I

L'angosciante questione
se sia a freddo o a caldo l'ispirazione
non appartiene alla scienza termica.
Il raptus non produce, il vuoto non conduce,
non c'è poesia al sorbetto o al girarrosto.
Si tratterà piuttosto di parole
molto importune
che hano fretta di uscire
dal forno o dal surgelante.
Il fatto non è importante. Appena fuori
si guardano d'attorno e hanno l'aria di dirsi:
che sto a farci?

II

Con orrore
la poesia rifiuta
le glosse degli scoliasti.
Ma non è certo che la troppo muta
basti a se stessa
o al trovarobe che in lei è inciampato
senza sapere di esserne
l'autore.


A poesia

I

A angustiante questão
sobre se a inspiração vem a frio ou a quente
não pertence à ciência térmica.
O enlevo não produz, o vazio não conduz,
não existe poesia ao sorvete ou no braseiro.
Na verdade é mais uma questão de palavras
bastante importunas
que têm pressa de sair
do forno ou do congelador.
O fato não é importante. Mal do lado de fora
elas olham em redor e têm o ar de se dizerem:
que estou fazendo aqui?

II

Horrorizada
a poesia repele
a glosa dos escoliastas*.
Mas não é verdade que a grande muda
se baste a si mesma
ou ao camareiro que com ela tope
sem se dar conta de que é
seu autor.

* Escoliasta é o autor de escólios, comentários destinados a tornar inteligível um autor clássico. Sobre o uso de palavras de preciso significado mas de pouco uso popular por Montale (e esta seleção está plena delas: oxímoro, focomélia, quiliastas, episteme, escatólogo, mistagogo etc., diz Glauco Cambon: "And yet, the total effect in Montale's case is not one of preciosity, but of sharp delineation.
One always senses that the rare word is there for the sake of functional focus, not of showiness, for it is effortlessly absorbed in the stylistic organism, thanks to a clever balance of phrasing" (Eugenio Montale. Selected Poems. New York: New Directions, 1965, p. XXI).


Le rime

Le rime sono più noiose delle
dame di San Vicenzo: battono alla porta
e insistono.
Respingerle è impossibile
e purché stiano fuori si sopportano.
Il poeta decente le allontana
(le rime), le nasconde, bara, tenta
il contrabbando. Ma le pinzochere ardono
di zelo e prima o poi (rime e vecchiarde)
bussano ancora e sono sempre quelle.

As rimas

As rimas são mais chatas do que
as damas de São Vicente: batem à porta
e insistem. Enxotá-las é impossível
mas desde que fiquem do lado de fora são suportáveis.
O poeta decente as afasta
(as rimas), as esconde, trapaceia, tenta
passá-las de contrabando. Mas essas beatas ardem
de zelo e cedo ou tarde (rimas e velhotas)
soam novamente e são sempre as mesmas.

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