POEMA


Escrever é retirar-se. Não para a sua tenda para escrever, mas da sua própria escritura. Cair longe da sua linguagem, emancipá-la ou desampará-la, deixá-la caminhar sozinha e desmunida. Abandonar a palavra. Ser poeta é saber abandonar a palavra. Deixá-la falar sozinha, o que ela só pode fazer escrevendo. (Como diz Fedro, o escrito, privado da assistência do seu pai “vai sozinho”, cego, “rolar para a direita e para a esquerda” “indiferentemente junto daqueles que o entendem e junto daqueles que não se interessem por ele”; errante, perdido porque está escrito não na areia desta vez, mas, o que vem a dar no mesmo, “na água”, diz Platão que também não acredita nos “jardins de escritura” nem naqueles que querem semear servindo-se de um caniço). Abandonar a escritura é só lá estar para lhe dar passagem, para ser o elemento diáfano da sua procissão: tudo e nada. Em relação à obra, o escritor é ao mesmo tempo tudo e nada.

Jacques Derrida. A escritura e a diferença. São Paulo: Perspectiva, 1971, p. 61.

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