ANTONIO CÍCERO




Antonio Cicero nasceu no Rio de Janeiro, em 1945. Sua atividade divide-se entre a filosofia e a poesia. Desde adolescente escreve poesia, mas os seus poemas apareceram na forma de letras de canções, musicados por sua irmã, Marina Lima, que, assim, iniciava a sua própria carreira de compositora e cantora. Mais tarde, os seus poemas foram, também, musicados por Lulu Santos, Adriana Calcanhoto, Orlando Moraes e João Bosco, entre outros. De 1993 a 1995, organizou em São Paulo, com o poeta Waly Salomão, uma série ciclos de conferências de grandes pensadores e artistas entre os quais os poetas John Ashbery, Derek Walcot, Joan Brossa e João Cabral de Melo Neto, e os filósofos Richard Rorty e Peter Sloterdijk em torno de alguns temas decisivos de nossa época. As conferências do ciclo de 1994 foram publicadas no livro O relativismo enquanto visão do mundo (ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro). Em 1995 publicou o ensaio filosófico O mundo desde o fim (ed. Francisco Alves, Rio de Janeiro). Em 1996, Antonio Cicero reuniu os seus poemas prediletos numa obra, Guardar, que venceria o prêmio Nestlé, na categoria Estreante. Em 1998 publicou, numa coletânea organizada por Alberto Pucheu intitulada Poesia e filosofia (ed. Sete Letras, Rio de Janeiro), o ensaio "Epos e muthos em Homero", como parte integrante de uma obra mais extensa, ainda inédita, dedicada à poesia grega arcaica. Em 1999 foi publicado o seu ensaio "A época da crítica: Kant, Greenberg e o modernismo", numa coletânea organizada por Pradilla Cerón e Reis intitulada Kant: Crítica e estética na modernidade (editora Senac, São Paulo). No ano de 2000 foi publicado o seu ensaio "Poesia e paisagens urbanas", na coletânea Mais poesia hoje, organizada por Celia Pedrosa (ed. 7 Letras, Rio de Janeiro.





Em uma entrevista, indagado se era pacífico o convívio entre filosofia e poesia, Antônio Cícero deu a seguinte resposta, transcrita abaixo para que se perceba a poética do autor segundo os seus próprios termos:

“Pacífico não é. São extremidades opostas do meu espírito. Lutam para se apossar do tempo que me é dado. Não me é fácil administrar esse tempo. Sou um palco microcósmico em que se representa a velha rixa entre a poesia e a filosofia. Quando me dedico a escrever sobre filosofia, não consigo escrever poemas, pois, para escrevê-los, é necessário pôr à disposição da poesia la crême de la crême do meu tempo livre: Ovídio o diz muito bem: vacuae carmina mentis opus, isto é, os poemas são obra de uma mente desocupada; e para que o creme do creme do meu tempo livre esteja disponível à poesia, não posso estar preocupado com questões filosóficas.

Embora brevíssimas, as observações que em seguida farei sobre a filosofia serão sem dúvida tachadas de "logocêntricas" por alguns. Pouco me importa: contra as pseudofilosofias logofóbicas, considero o logocentrismo como a condição necessária para que a filosofia possa escapar de contradições e paradoxos auto-paralisantes.

Ao escrever textos filosóficos, a minha ambição é afirmar determinadas verdades sobre referentes que se encontram fora desses textos. Em última análise, o que quero é que a minha escrita seja totalmente translúcida, isto é, que desapareça em prol do aparecimento das verdades que pretende estar a revelar. Meus enunciados não passam, portanto, de meios para dizer essas verdades, que são seus fins e que, em princípio, poderiam ser ditas com o emprego de outras palavras.

Já a pretensão da poesia é, ao contrário, a de não poder ser traduzida nem parafraseada. É o poeta enquanto poeta que não pode ser "logocêntrico", no sentido em que Derrida entende essa palavra. O que um poema diz não deve poder ser dito - ou não deve poder ser dito igualmente bem - em palavras diferentes daquelas em que se encontra escrito. Além disso, o seu valor não está em pretender dizer verdades a respeito de referentes externos. O valor de Antony and Cleopatra, de Shakespeare, por exemplo, não depende em nada do seu grau de fidelidade à história real de Marco Antônio e Cleópatra. A verdadeira ambição de um poema é pertencer àquele conjunto de obras que merecem intrinsecamente permanecer para sempre imutáveis (pois não é possível aperfeiçoá-las), imperecíveis (pois não é possível substitui-las por outras) e atuais (pois não é possível esquecê-las). Quando realiza essa ambição, o poema consiste numa espécie de escritura da escritura, isto é, numa escritura não só de fato, mas de direito, pois a escritura se distingue da oralidade justamente por ser fixa, permanente e existente no modo da objetividade.

Finalmente, o elemento da poesia é o concreto, o particular, o relativo, o temporal, o finito etc., enquanto o elemento da filosofia é o abstrato, o universal, o absoluto, o atemporal, o infinito etc. Contudo, confesso que tenho uma concepção muito restrita de filosofia, de modo que meus poemas contêm muitas coisas que outras pessoas consideram filosóficas.”

Os dados biográficos e a resposta do poeta foram retirados do blog mantido pelo autor. O endereço é http://www2.uol.com.br/antoniocicero/


Antonio Bispo do Rosário



GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.
Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.
Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.
Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.
por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
Por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.

(In Guardar: poemas escolhidos. 4ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 2008, p. 11)


Antonio Bispo do Rosário



DITA

a Dedé Veloso

Qualquer poema bom provém do amor
narcíseo. Sei bem do que estou falando
e os faço eu mesmo pondo à orelha a flor
da pele das palavras, mesmo quando

Assino os heterônimos famosos:
Catulo, Caetano, Safo ou Fernando.
Falo por todos. Somos fabulosos
por sermos enquanto nos desejando.

Beijando o espelho d’água da linguagem,
jamais tivemos mesmo outra mensagem,
jamais adivinhando se a arte imita

a vida ou se a incita ou se é bobabem:
desejarmo-nos é a nossa desdita,
pedindo-nos demais que seja dita.´

(In Guardar: poemas escolhidos, p 29)



Nelson Leirner



ÁGUA PERRIER

Não quero mudar você
nem mostrar novos mundos
pois eu, meu amor, acho graça até mesmo em clichês.

Adoro esse olhar blasé
que não só já viu quase tudo
mas acha tudo tão déjà vu mesmo antes de ver.

Só proponho
alimentar seu tédio.
Parra tanto, exponho
a minha admiração.
Você em toca cede o
seu olhar sem sonhos
à minha contemplação:

Adoro, sei lá por que,
esse olhar
meio escudo
que em vez de meu álcool forte pede água Perrier.

(In: Guardar: melhores poemas, p 63)


Antonio Bispo do Rosário



A CIDADE E OS LIVROS

para D. Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia – e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim –, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
Da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

(In: A cidade e os livros. Rio de Janeiro: Record, p.19-20.)


René Magritte



SAIR

Largar o cobertor, a cama, o
medo, o terço, o quarto, largar
toda simbologia e religião; largar o
espírito, largar a alma, abrir a
porta principal e sair. Esta é
a única vida e contém inimaginável
beleza e dor. Já o sol,
as cores da terra e o
ar azul – o céu do dia –
mergulharam até a próxima aurora; a
noite está radiante e Deus não
existe nem faz falta. Tudo é
gratuito: as luzes cinéticas das avenidas,
o vulto ao vento das palmeiras
e a ânsia insaciável do jasmim;
e, sobre todas as coisas, o
eterno silêncio dos espaços infinito que
nada dizem, nada querem dizer e
nada jamais precisaram ou precisarão esclarecer.

(In: A cidade e os livros, p. 77)


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